{"id":8490,"date":"2015-06-02T12:28:28","date_gmt":"2015-06-02T15:28:28","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=8490"},"modified":"2015-06-28T15:44:33","modified_gmt":"2015-06-28T18:44:33","slug":"colombia-onde-o-sonho-e-a-utopia-se-transformam-em-projeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8490","title":{"rendered":"Col\u00f4mbia: onde o sonho e a utopia se transformam em projeto"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci6.googleusercontent.com\/proxy\/6YR8LBN-VcsHMy8gWqUGrVUrYD9UMBXEdFUbq9PkAaTQ5sER2gwtFVu6-97lhKQlLqdCGSsKYi37uxQqQrY=s0-d-e1-ft#http:\/\/www.odiario.info\/b2-img\/Farc1.jpg\" alt=\"imagem\" \/>Magdalena Enjolras<\/p>\n<p>Publicamos em simult\u00e2neo este emocionado testemunho de Magdalena Enjolras e o Comunicado das FARC-EP informando a suspens\u00e3o do cessar-fogo unilateral declarado em Dezembro de 2014. <!--more-->O imperialismo e a burguesia colombiana vinculada aos seus interesses n\u00e3o est\u00e3o interessados na paz em Col\u00f4mbia. Obrigaram o povo colombiano a uma her\u00f3ica resist\u00eancia armada de mais de tr\u00eas d\u00e9cadas. Julgam poder vencer essa guerra. Este testemunho mostra algumas das raz\u00f5es porque n\u00e3o o conseguir\u00e3o. A luta das FARC-EP \u00e9 a luta dos camponeses pela terra, a luta dos trabalhadores contra a explora\u00e7\u00e3o, a luta do povo colombiano pela liberdade, pela emancipa\u00e7\u00e3o social e pela independ\u00eancia nacional.<br \/>\nDespediu-se de mim com um sorriso.<\/p>\n<p>O rev\u00f3lver colocado entre a cintura e as cal\u00e7as, saliente, onde formas brancas embelezavam o cabo. Deve ser pesada, pensei. O aperto de m\u00e3o afetuoso, a vontade de ambos de abra\u00e7ar o outro, as m\u00e3os um pouco desajeitadas, acab\u00e1mos ambos sorrindo abertamente ao desejo de um adeus sentido, e um desajeitado abra\u00e7o acabou por surgir, as m\u00e3os apertando os dedos, na face um beijo de despedida, ao meu ouvido as palavras sussurradas, Cu\u00eddate.<\/p>\n<p>Um jovem guerrilheiro das FARC-EP. N\u00e3o teria mais de 20 anos. Fora ele que me havia ido buscar ao pueblo X e tivera a tarefa de me conduzir at\u00e9 ao Comandante M. Fora ele tamb\u00e9m que havia tido a tarefa inversa, a de me trazer de volta at\u00e9 ao pueblo X, Ustedes hablaran mucho.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o do encontro com o Comandante M exigira seguidas e cansativas etapas at\u00e9 ao final destino onde o conhecimento se haveria de travar. Onde esse extraordin\u00e1rio, caloroso e expectante conhecimento se haveria de encontrar ao sabor de umas \u00c1guila light.<\/p>\n<p>A chegada ao primeiro ponto havia sido uns dias antes. Chegara \u00e0 cidade de V onde companheiros me haveriam de receber numa espera que quase desespera. Normal, diziam-me. Assim \u00e9, assim tem de ser. Tudo \u00e9 clandestino. Tudo se combina entre meias palavras. Deveria partir no dia seguinte ao da minha chegada, mas assim n\u00e3o foi. Deveria partir nos dois dias seguintes ao da minha chegada, mas tamb\u00e9m assim n\u00e3o foi. Deveria partir nos tr\u00eas dias, quatro dias, cinco dias seguintes ao da minha chegada. E quando achei que j\u00e1 n\u00e3o seria poss\u00edvel, que as condi\u00e7\u00f5es para o encontro n\u00e3o estavam satisfeitas pelas pr\u00f3prias circunst\u00e2ncias t\u00e3o particulares daquela exigente e heroica luta, onde o cuidado exige ser extremo, parti.<\/p>\n<p>Durante o desenrolar da conversa com o Comandante M, ele dissera-me, La primera vez que uno viene aqu\u00ed, viene acompa\u00f1ado; pues a ti te toco venir sola. N\u00e3o vi, mas senti, o terno sorriso, Pues aqu\u00ed estas, y eso es lo importante.<\/p>\n<p>Dia 1<\/p>\n<p>A partida da cidade de V. A apreens\u00e3o do que seria aquele t\u00e3o esperado encontro criava uma sensa\u00e7\u00e3o onde expectativa e intranquilidade impunham um miudinho nervoso. Comi o pequeno-almo\u00e7o que me haveria de manter durante uma dezena de horas.<\/p>\n<p>\u00c0s 5h15 estava no t\u00e1xi que, 10 minutos depois, me deixaria no terminal. \u00c0s 5h30 parti para a cidade de QR. Aqui, uma passagem j\u00e1 se encontrava reservada em meu nome para a cidade de Y. A viagem seria num jipe, e talvez pela reserva, talvez por mera simpatia, viajaria no lugar ao lado do condutor, enquanto atr\u00e1s os restantes passageiros se comprimiam entre suores. A estrada era de macadame. E a minha aten\u00e7\u00e3o focava-se na paisagem. E no que n\u00e3o poderia esquecer de dizer caso o Ex\u00e9rcito ou a Pol\u00edcia Militar me mandassem parar.<\/p>\n<p>Num ponto do caminho, o jipe \u00e9 obrigado a estancar. \u00c0 janela, brutais, frios e desconfiados olhos, acompanham as violentas palavras, De que pa\u00eds eres tu? A minha tranquilidade e olhar fixo devem t\u00ea-lo desordenado. Tranquilamente respondi, De Canad\u00e1, Pasaporte! Dei-lho. Revirou-o, olhou-o, olhou-me, Qu\u00e9 haces aqui? Soy profesora y investigadora y trabajo sobre el tema de la agro-miner\u00eda; vengo aqu\u00ed a colaborar con una asociaci\u00f3n campesina. Devolveu-me o passaporte, Qu\u00e9 le vaya bien. E o jipe seguiu viagem.<\/p>\n<p>Chegada a Y.<\/p>\n<p>Teria de efetuar uma liga\u00e7\u00e3o telef\u00f3nica de forma a informar da minha chegada. A\u00ed deixaria a maioria dos meus (sempre excessivos e in\u00fateis) pertences pessoais numa casa. Recuper\u00e1-los-ia na volta, quando, dois dias antes da partida definitiva, ainda haveria de ter tempo para visitar um amigo com quem havia compartido o p\u00e2nico e o medo durante o Paro Agrario de 2013, quando, no ref\u00fagio humanit\u00e1rio de C, a ESMAD investira contra o acampamento onde se encontrava um milhar de campesinos e mineiros. Tiros a bala real, um companheiro que quase morrera dos golpes e facadas sofridos, jazendo, em estado grave, numa enfermaria improvisada, coberta de lona, onde a luz el\u00e9ctrica se mantinha gra\u00e7as a um gerador, o helic\u00f3ptero amea\u00e7ante, tiros, lasers percorrendo os arbustos \u00e0 nossa volta, tiros, uma poderosa luz enviada constantemente para o centro do acampamento por dezenas de militares que nos rodeavam, tiros, o medo. A percep\u00e7\u00e3o minha, pela primeira vez, da viol\u00eancia militar extrema utilizada por um Estado terrorista. Ainda tive tempo de com aquele amigo uma conversa compartir e de rememorar aquele Paro de 2013.<\/p>\n<p>Em Y, o calor e o suor escorriam-me pelo corpo. Depois de mais de 6 horas de viagem desde a cidade de V, teria de prosseguir. Os meus pertences a\u00ed ficariam e seguir-se-ia uma viagem de moto de mais umas horas tantas.<\/p>\n<p>Antes, diziam-me, Hab\u00eda que hacer ese mismo viaje en mula. Ent\u00e3o, a viagem poderia exigir praticamente um dia at\u00e9 \u00e0 vereda K. A estrada que conecta Y \u00e0 vereda da minha chegada havia sido constru\u00edda pelos pr\u00f3prios habitantes das veredas pr\u00f3ximas, onde as comunidades campesinas e mineiras se encontram votadas \u00e0 sua pr\u00f3pria sorte. Sem meios de comunica\u00e7\u00e3o, sem sinal telef\u00f3nico, sem acesso a servi\u00e7os de sa\u00fade e de educa\u00e7\u00e3o. De forma a encurtar as dist\u00e2ncias, a poder, ainda que com extrema dificuldade, chegar \u00e0 cidade mais pr\u00f3xima, constroem com o seu pr\u00f3prio suor as vias de comunica\u00e7\u00e3o que o Estado lhes nega.<\/p>\n<p>Com efeito, a sa\u00edda da cidade de Y logo nos anuncia que estamos em outro territ\u00f3rio. Num territ\u00f3rio abandonado pelo Estado, do qual este apenas se lembra quando com fortes e violentas investidas militares a\u00ed ataca campesinos, mineiros e insurg\u00eancia. Onde paramilitares semearam barb\u00e1rie e medo.<\/p>\n<p>Portagens constru\u00eddas com cordas no meio da estrada: o dinheiro serve para a manuten\u00e7\u00e3o das vias. As comunidades organizam-se. Com a ajuda e prote\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito do Povo.<br \/>\nA pequena mochila, com o m\u00ednimo indispens\u00e1vel, pesar-me-ia nas costas. A estrada \u00e9 de terra, de pedras, rodeando montanhas que ora sobem, ora descem. A mota tem dificuldades nas subidas. Sentimos o corpo triturado e o que nos mant\u00e9m respeitosamente sentados na moto \u00e9, apenas, a esperan\u00e7a de chegar. Horas depois, naquela longa e tortuosa estrada fruto do labor campesino, chego \u00e0 vereda K.<\/p>\n<p>A vereda K<\/p>\n<p>O motorista deixa-me na casa indicada. Aqui, apreendo, pela primeira vez, esta vereda que, hoje, caminha mem\u00f3ria (a)dentro.<\/p>\n<p>A comunidade auto-organiza-se, a insurg\u00eancia atenta, sempre presente, motor da hist\u00f3ria de resist\u00eancia, defendendo pequenos campesinos, pequenos mineiros e oper\u00e1rios mineiros. A eletricidade n\u00e3o chega at\u00e9 aqui. Quando necess\u00e1rio, alguns geradores v\u00e3o fornecendo a energia indispens\u00e1vel, a \u00e1gua busca-se atrav\u00e9s de canos de pl\u00e1stico que se prolongam entre po\u00e7os, algumas casas n\u00e3o t\u00eam \u00e1gua corrente.<\/p>\n<p>O casario de madeira abarca mais de uma centena de fam\u00edlias, a maioria trabalhadora das artesanais minas de ouro. O trabalho, aqui, extenua at\u00e9 quem apenas mire estes homens carregando alqueires de terra, mesclada com ouro, \u00e0s costas, enquanto sobem \u00edngremes escadas, constru\u00eddas at\u00e9 600 metros abaixo da superf\u00edcie.<\/p>\n<p>\u00c9 aterrador descer numa destas minas. No te preocupes, si algo pasa yo estoy aqu\u00ed, te pego y te llevo para fuera, cierto? Ag\u00e1rrate a m\u00ed, a mis manos, no te preocupes, yo estoy aqu\u00ed, Cu\u00e1ntas veces por d\u00eda subes y bajas estas escaleras?, No s\u00e9, por veces siete u ocho, Tengo miedo, No tengas, aqu\u00ed estoy. Estanco a meio. N\u00e3o consigo descer mais. A mina, torta, \u00e9 um buraco escavado terra abaixo, na vertical, sustentada por blocos de madeira, as escadas presas por cordas, com a \u00e1gua, a partir de um determinado momento, encharcando-nos, fazendo-nos escorregar, assustando-nos, Vengase, est\u00e1s conmigo, no tengas miedo, estoy aqu\u00ed, contigo. Desci. At\u00e9 ao fim. \u00c9 aterrador.<\/p>\n<p>Mi trabajo es bombear el agua, varias veces al d\u00eda, Y si no la bombeas?, La mina se inunda.<\/p>\n<p>Aqui, no entanto, dezenas de trabalhadores, diariamente, sacam o sustento para as suas fam\u00edlias. Nunca hay accidentes? Algunos, No tienes miedo?, Uno sabe que todos los d\u00edas arriesga su vida aqu\u00ed. Senti um aperto. E uma admira\u00e7\u00e3o e respeito imensos.<\/p>\n<p>Terra de resist\u00eancia. Resist\u00eancia n\u00e3o armada e resist\u00eancia armada. Pelas montanhas, o Ex\u00e9rcito do Povo resiste heroicamente, numa luta que, se desde sempre fez parte da constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds cujos homens e mulheres n\u00e3o cedem, n\u00e3o querem ceder, \u00e0s investidas do grande capital, remonta a 1964 a sua oficial forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi aqui que, emocionada, veria, tocaria, cumprimentaria, trocaria palavras, ouviria o Comandante M.<\/p>\n<p>Nesta vereda, Te toca esperar, dizem-me v\u00e1rias vezes, No te preocupes, aqu\u00ed vendr\u00e1n a recogerte, pero te toca esperar, Uno nunca sabe si hay condiciones o non para que te puedas ir.<\/p>\n<p>Dia 3<\/p>\n<p>F aproxima-se da casa que me albergava. Chama-me \u00e0 parte. Hoy vendr\u00e1n a recogerte. N\u00e3o pude evitar um largo sorriso. F, s\u00e9ria, solene, sussurrando quase, tampouco p\u00f4de evitar responder ao meu sorriso com um sorriso seu.<\/p>\n<p>Prep\u00e1rate para quedarte all\u00e1, uno no sabe se tiene o no que quedarse con ellos. Preparei, apressada, a mochila com o quase nada de que eventualmente necessitaria. No te apreses, en general vuelven como en una media hora o m\u00e1s.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quanto tempo decorreu entre a informa\u00e7\u00e3o de F e a primeira moto que me levaria at\u00e9 PR. Uma moto surge. Vengo de la parte de F. Don H, ex-guerrilheiro, campesino, com uma cultura hist\u00f3rica e pol\u00edtica que me prendia ao banco, ouvindo, aprendendo, com cicatrizes da guerra onde combatera durante 8 anos, sorriu, pela primeira vez, t\u00e3o aberta e afavelmente, que senti um tremor de emo\u00e7\u00e3o, Ahora vas a conocerlos, suerte camarada!, e, emocionado, despede-se. Porra, pensei, \u00e9 um privil\u00e9gio trocar vidas e hist\u00f3rias com aqueles que nunca desistiram de combater pela vida.<\/p>\n<p>Tranquilamente, montei na moto. E a\u00ed fomos. Chegara o momento. Esperado, imaginado, agora em vias de concretiza\u00e7\u00e3o. O longo caminho, uma vez mais, entre pedras, riachos e pontes improvisadas. Apenas num momento tive de sair da moto e passar a p\u00e9 sobre um tronco. Que servia de ponte. Que ali estava permitindo conectar duas margens.<\/p>\n<p>No caminho, outros casarios. E grandes telas, em diferentes casas, homenageavam a insurg\u00eancia. Nalguns casos, ambas as insurg\u00eancias: FARC-EP e ELN. Em letras chorudas, sem medo, ali entraria num terceiro territ\u00f3rio. Abandonado pelo Estado, sim, apenas lembrado para assassinatos e persegui\u00e7\u00f5es pelo aparelho (para)militar estatal, mas onde a Palavra-maior de liberdade, resist\u00eancia, luta e compromisso se balan\u00e7ava nas ruas. Emo\u00e7\u00e3o. Emo\u00e7\u00e3o seria, ali\u00e1s, a partir daqui, o sentimento que melhor descreveria os momentos que a partir de ent\u00e3o se desenhariam. Emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cheg\u00e1mos a PR, um pequeno casario com umas poucas dezenas de constru\u00e7\u00f5es, num p\u00e1tio de uma casa de madeira onde homens comiam. Es con \u00e9l con quien tiene que hablar, dissera-me o motorista. Sentados, os homens n\u00e3o me prestaram aten\u00e7\u00e3o. Cumprimentei-os, cumprimentei Don G. Usted ya desayun\u00f3?, No, Come. Comi. Troquei palavras com as mulheres. Pouco tempo depois, os homens dispersaram-se. Don G oferece-me uma cama, num pequeno quarto despido, para descansar, Ya te vendr\u00e1n a recoger. Sorrimos ambos.<\/p>\n<p>Tiro as botas de borracha, imperme\u00e1veis, e estiro-me na cama. Sem dar por isso, adormeci. Um sono tranquilo.<\/p>\n<p>Todos estes homens, todas estas mulheres, imprimiam-me uma sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a e de tranquilidade. Sem nunca antes os ter visto, em terra estranha, encontrava-me estranhamente tranquila.<\/p>\n<p>Encontro<\/p>\n<p>Acordo com um lindo jovem, botas de couro negras usadas, cal\u00e7as caqui de tipo tropa, t-shirt vermelha, o rosto quieto, \u00e0 porta, Usted como se llama?, M, Listo, v\u00e1monos?<\/p>\n<p>Voltei a cal\u00e7ar as pesadas botas, peguei na mochila, acompanhei-o at\u00e9 \u00e0 moto e instalei-me. Fomos at\u00e9 um outro casario, as mesmas telas anunciando que, naquele territ\u00f3rio, \u00e9 o Ex\u00e9rcito do Povo o Estado. Compr\u00e1mos cigarros, seguiram-se sorriso e empatia m\u00fatuas, Vejo que a usted no le incomodan los cigarrillos, diz-me, Quiere uno? Um sorriso quase infantil, grande, brilhante, incutia-me uma seguran\u00e7a crescente.<\/p>\n<p>Seguimos pela mesma via tortuosa at\u00e9 um ponto onde um outro guerrilheiro nos esperava. \u00c0 borda da estrada, ali estava, olhando-nos. Enquanto aqueloutro seguia em mula, continuei na moto, selva dentro, at\u00e9 uma pequena finca. A moto desligada, enquanto uma fam\u00edlia, sem nunca dirigir palavra, sem tampouco dar uma aten\u00e7\u00e3o particular \u00e0 nossa chegada, descansava. Qu\u00e9 tal eres en las subidas? Depende, respondi. E, aqui, maldisse os cigarros todos que ao longo de mais de 20 anos t\u00eam consumido os meus pulm\u00f5es. Adiante, ele subia, passo ligeiro e r\u00e1pido, e eu sofria, Disc\u00falpame, pero tengo que parar, no logro subir, D\u00e9jame llevar tu mochila, yo la llevo, Pero as\u00ed te dificulto a ti la subida, No te preocupes, sorriu-me, Estoy acostumbrado a tener mucho m\u00e1s peso y a subir mucho m\u00e1s. Claro, pensei. Que parva que sou, pensei.<\/p>\n<p>No cimo do monte, um grupo de guerrilheiros fazia guarda. Estava com o Ex\u00e9rcito do Povo. O imaginado, finalmente, tornado numa realidade.<\/p>\n<p>Indescrit\u00edvel foi o turbilh\u00e3o de pensares e sentires que me assaltaram. Ali estava. Com o Ex\u00e9rcito do povo.<\/p>\n<p>Comandante M<\/p>\n<p>Quando o sonho se transforma em projeto e o projeto em realidade, \u00e9 dif\u00edcil manusear as sensa\u00e7\u00f5es. E ainda mais descrev\u00ea-las. O primeiro contato foi com um aperto de m\u00e3o. Estava desajeitada, ofegante, a l\u00edngua de Castela entaramelada, emocionada, contente, feliz, Tranquila, no entanto.<\/p>\n<p>A despedida, ao contr\u00e1rio, foi com um abra\u00e7o. Forte. Sentido. Guardo-o. Comigo. Aquele abra\u00e7o. Aquela emo\u00e7\u00e3o. Guardo-o. Na mem\u00f3ria. Aquele feliz abra\u00e7o. Pouco tempo antes, o Comandante comentara, La luna hoy est\u00e1 bella.<\/p>\n<p>A guerra de guerrilhas m\u00f3bil que caracterizara os primeiros anos das FARC-EP transformara-se, num determinado momento, em guerra de posi\u00e7\u00f5es. Dois Ex\u00e9rcitos afrontavam-se, com centenas, ou milhares, de homens combatendo, frente a frente. As perdas de vidas de guerrilheiros, no entanto, eram muitas. O avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e apoio exponencial do imp\u00e9rio estadunidense apetrechavam o Ex\u00e9rcito do Estado terrorista de meios inalcan\u00e7\u00e1veis para a guerrilha. Hoje, a insurg\u00eancia voltou \u00e0 guerra de guerrilhas. Hoje aqui, amanh\u00e3 n\u00e3o.<\/p>\n<p>Em constante movimento, montanhas calcorreadas, a guerrilha tem, hoje, um novo inimigo. A avia\u00e7\u00e3o. Siempre hubo ataques a\u00e9reos en esta guerra, pero antes uno se re\u00eda. Por ejemplo, donde estamos ahora, lo que pasaba es que el avi\u00f3n pasaba y no sab\u00eda d\u00f3nde est\u00e1bamos; entonces, la bomba ca\u00eda aqu\u00ed al lado, pero raras veces sobre nosotros. Ahora non. Tienen aviones que detectan el humo, que detectan el campo magn\u00e9tico de bater\u00edas, que detectan el calor humano, que son precisos. Ahora es mucho m\u00e1s dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Era dif\u00edcil imaginar ali, naquela Floresta, um clima quente e h\u00famido, mas calmo, ao som das aves nativas e com um magn\u00edfico entardecer, avi\u00f5es bombardeando. As\u00ed es. Uno est\u00e1 aqu\u00ed, tranquilo, pero de un momento al otro todo puede cambiar.<\/p>\n<p>Um dos aspectos j\u00e1 acordados em Havana diz respeito \u00e0 n\u00e3o incorpora\u00e7\u00e3o de menores de 15 anos em combate. Quando falamos da incorpora\u00e7\u00e3o de menores, a resposta surge r\u00e1pido. Usted est\u00e1 vendo ese guerrillero all\u00e1? Tiene 14 a\u00f1os. Est\u00e1 con nosotros desde los 4 a\u00f1os. Nosotros somos su \u00fanica familia. Lo que pasa es que con los asesinatos y desplazamientos constantes, muchos ni\u00f1os se quedaban solos, sin familia, o hu\u00e9rfanos. Nosotros non pod\u00edamos abandonarlos y as\u00ed los tra\u00edamos con nosotros.<\/p>\n<p>Assim a guerra obrigou. Assim o obrigou a repress\u00e3o, viol\u00eancia e barb\u00e1rie do Estado colombiano.<\/p>\n<p>As comunidades campesinas onde atuam as FARC-EP t\u00eam um n\u00edvel organizativo e participativo inigual\u00e1vel. Os pre\u00e7os s\u00e3o estabelecidos coletivamente, a organiza\u00e7\u00e3o da vida quotidiana \u00e9 discutida coletivamente, as estradas s\u00e3o constru\u00eddas coletivamente, os conflitos s\u00e3o discutidos coletivamente. Somos un Estado dentro del Estado. Por veces tenemos at\u00e9 que resolver conflictos entre parejas. E sorri.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de 30 anos na luta armada, o Comandante M n\u00e3o tem d\u00favidas sobre a Col\u00f4mbia que quer ver renascer. Se o objetivo \u00faltimo, estrat\u00e9gico, das FARC-EP, organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica armada, \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista, hoje, por demanda das bases campesinas e mineiras, de trabalhadores de Norte a Sul do pa\u00eds, dos povos ind\u00edgenas, das comunidades de origem africana, da popula\u00e7\u00e3o urbana, tamb\u00e9m pela certeza de que, hoje, a resolu\u00e7\u00e3o do conflito armado tem de ser pol\u00edtico, a Paz \u00e9 o objetivo imediato. Mas n\u00e3o uma paz qualquer. Uma paz que assegure uma base democr\u00e1tica m\u00ednima que permita assegurar conquistas alcan\u00e7adas pelos trabalhadores e pela guerrilha nas zonas por si controladas. Uma paz que reconhe\u00e7a as Zonas de Reserva Campesina, consagradas em lei, mas cuja implementa\u00e7\u00e3o o Estado colombiano constantemente repele. Uma paz que assegure condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de vida digna, n\u00e3o apenas para as popula\u00e7\u00f5es campesinas e ind\u00edgenas, desde sempre abandonadas pelo Estado, mas para todos os colombianos. Uma paz que permita desenrolar a luta, no plano pol\u00edtico-institucional, daqueles que desde sempre pugnaram, desde as montanhas, por uma Col\u00f4mbia livre da explora\u00e7\u00e3o do Homem pelo Homem. Uma paz que permita que as comunidades campesinas e ind\u00edgenas possam continuar a organizar-se e a organizar, sob a \u00e9gide de organiza\u00e7\u00f5es representativas da sua classe, o espa\u00e7o onde vivem e trabalham. Uma paz que n\u00e3o entregue o solo, subsolo e recursos naturais \u00e0 agroind\u00fastria e \u00e0 agromineria. Uma paz que n\u00e3o criminalize quem sempre trabalhou o solo e subsolo colombianos e de cuja explora\u00e7\u00e3o depende, que permita o desenvolvimento destas \u00e1reas, com um enfoque territorial. Uma paz que permita aos campesinos que s\u00e3o obrigados a recorrer ao plantio de cultivos il\u00edcitos, as condi\u00e7\u00f5es para que possam gradualmente diversificar os seus cultivos. Uma paz que permita ao povo colombiano aceder \u00e0 sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, trabalho e casa. Uma paz sem paramilitares, sem assassinatos, sem persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Uma paz que reconhe\u00e7a o direito \u00e0 rebeli\u00e3o. Uma paz que n\u00e3o entregue a Col\u00f4mbia nas m\u00e3os do capital financeiro.<\/p>\n<p>No Acordo Geral que hoje se negoceia em Havana, est\u00e1 inclu\u00eddo um pre\u00e2mbulo no qual se expuseram os crit\u00e9rios principais que deram origem \u00e0s atuais negocia\u00e7\u00f5es de paz. Nele, explicita-se a necessidade de participa\u00e7\u00e3o de toda a sociedade na constru\u00e7\u00e3o de uma paz duradoura e est\u00e1vel, assim como o necess\u00e1rio desenvolvimento econ\u00f3mico com justi\u00e7a social e em harmonia com o meio ambiente. Donde estamos ahora, el suelo que estamos pisando, el subsuelo, este sitio mismo donde estamos hablando, fue comprado por una multinacional, para extracci\u00f3n del oro. Y cuando lo compraron sab\u00edan que este es un \u00e1rea controlada por nosotros. A paz ter\u00e1, assim, de assegurar as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para que n\u00e3o apenas povos campesinos e origin\u00e1rios possam organizar-se e organizar as suas comunidades, mas igualmente para que possam resistir sem medo ao avan\u00e7o do capital estrangeiro. E exigir as terras que desde sempre lhes permitiram sobreviver.<\/p>\n<p>As FARC-EP sabem que a mudan\u00e7a de um modo de organiza\u00e7\u00e3o socioecon\u00f3mico para outro n\u00e3o passa por uma assinatura. A Col\u00f4mbia p\u00f3s-acordo n\u00e3o ser\u00e1 uma Col\u00f4mbia p\u00f3s-conflito. O conflito armado poder\u00e1 terminar, mas o conflito social, a luta de classes que lhe subjaz, prossegue. E os guerrilheiros que, hoje, nas montanhas heroicamente lutam e resistem, prosseguir\u00e3o a luta e resist\u00eancia pol\u00edtica numa Col\u00f4mbia p\u00f3s-acordo.<br \/>\nA burguesia colombiana, historicamente, sempre traiu os compromissos que havia assumido com o povo colombiano e com as insurg\u00eancias, Por eso, nosotros, las FARC-EP, hablamos de dejaci\u00f3n de armas, y no de entrega de armas.<\/p>\n<p>Uma paz que, certo, interessa a uma parte da burguesia colombiana e estrangeira, \u00e1vida de explorar solo, subsolo e m\u00e3o-de-obra colombiana, mas que ter\u00e1 de enfrentar um povo com uma experi\u00eancia organizativa e de resist\u00eancia de mais de 50 anos.<\/p>\n<p>Dile a los compa\u00f1eros que aqu\u00ed estamos, aqu\u00ed seguimos, resistiendo y luchando por un mundo mejor.<\/p>\n<p>Aqui o digo, Comandante, aqui o escrevo, As For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia-Ex\u00e9rcito do Povo a\u00ed est\u00e3o, resistindo e lutando por um mundo melhor, por uma paz com justi\u00e7a social!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Magdalena Enjolras Publicamos em simult\u00e2neo este emocionado testemunho de Magdalena Enjolras e o Comunicado das FARC-EP informando a suspens\u00e3o do cessar-fogo unilateral declarado \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8490\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-8490","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2cW","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8490","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8490"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8490\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8490"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8490"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8490"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}