{"id":8536,"date":"2015-06-07T00:28:53","date_gmt":"2015-06-07T03:28:53","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=8536"},"modified":"2015-06-28T15:47:27","modified_gmt":"2015-06-28T18:47:27","slug":"a-duplicidade-como-politica-de-washington-para-a-america-latina-marines-para-a-america-central-e-diplomatas-para-cuba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8536","title":{"rendered":"A duplicidade como pol\u00edtica de Washington para a Am\u00e9rica Latina \u2013 Marines para a Am\u00e9rica Central e diplomatas para Cuba"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.contrainjerencia.com\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/007.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><b>por James Petras <\/b><\/p>\n<p>Toda a gente, desde sabich\u00f5es pol\u00edticos em Washington at\u00e9 o Papa em Roma, incluindo a maior parte dos jornalistas nos mass media e na imprensa alternativa, centrou a aten\u00e7\u00e3o nos movimentos dos EUA rumo \u00e0 finaliza\u00e7\u00e3o do bloqueio econ\u00f3mico de Cuba e \u00e0 abertura gradual de rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas.<!--more--><\/p>\n<p>Fala-se muito de uma &#8220;grande mudan\u00e7a&#8221; na pol\u00edtica estado-unidense em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica Latina com \u00eanfase na diplomacia e na reconcilia\u00e7\u00e3o. Mesmo autores e jornais progressistas deixaram de escrever acerca do imperialismo dos EUA.<\/p>\n<p>Contudo, h\u00e1 evid\u00eancias crescentes de que as negocia\u00e7\u00f5es de Washington com Cuba simplesmente fazem parte de uma pol\u00edtica d\u00faplice, de duas vias <i>(two-track policy). <\/i>H\u00e1 claramente uma grande acumula\u00e7\u00e3o [de for\u00e7as] dos EUA na Am\u00e9rica Latina, com depend\u00eancia crescente em &#8220;plataformas militares&#8221; destinadas a lan\u00e7ar interven\u00e7\u00f5es militares directas em pa\u00edses estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, decisores pol\u00edticos dos EUA envolvem-se activamente na promo\u00e7\u00e3o de partidos de oposi\u00e7\u00e3o, movimentos e personalidades &#8220;clientes&#8221; a fim de desestabilizar governos independentes e est\u00e3o decididos a re-impor a domina\u00e7\u00e3o estado-unidense.<\/p>\n<p>Neste ensaio come\u00e7aremos por discutir as origens e o desdobrar desta pol\u00edtica de duas vias, suas manifesta\u00e7\u00f5es actuais e projec\u00e7\u00f5es no futuro. Concluiremos avaliando as possibilidades de restabelecer a domina\u00e7\u00e3o imperial dos EUA na regi\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Origens da pol\u00edtica de duas vias <\/b><\/p>\n<p>A &#8220;pol\u00edtica de duas vias&#8221; de Washington, baseada na combina\u00e7\u00e3o de &#8220;pol\u00edticas reformistas&#8221; em rela\u00e7\u00e3o a algumas forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, enquanto trabalhava para derrubar outros regimes e movimentos pela for\u00e7a e interven\u00e7\u00e3o militar, foi praticada pela antiga administra\u00e7\u00e3o Kennedy a seguir \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o cubana. Kennedy anunciou um vasto programa econ\u00f3mico de ajuda, empr\u00e9stimos e investimentos \u2013 chamado &#8220;Alian\u00e7a para o Progresso&#8221; \u2013 para promover o desenvolvimento e a reforma social em pa\u00edses latino-americanos desejosos de se alinharem com os EUA. Ao mesmo tempo o regime Kennedy escalou a ajuda militar estado-unidense e exerc\u00edcios conjuntos na regi\u00e3o. Kennedy patrocinou um grande contingente de For\u00e7as Especiais \u2013 os &#8220;Boinas Verdes&#8221; \u2013 destinados \u00e0 guerra de contra-insurg\u00eancia. A <i>Alian\u00e7a para o Progresso <\/i>destinava-se a conter a atrac\u00e7\u00e3o maci\u00e7a das mudan\u00e7as sociais revolucion\u00e1rias em curso em Cuba com o seu pr\u00f3prio programa de &#8220;reforma social&#8221;. Se bem que Kennedy promovesse reformas dilu\u00eddas na Am\u00e9rica Latina, ele lan\u00e7ou a invas\u00e3o &#8220;secreta&#8221; de Cuba (Baia dos Porcos) em 1961 e um bloqueio naval em 1962 (a chamada &#8220;crise dos m\u00edsseis&#8221;). A pol\u00edtica de duas vias acabou por sacrificar reformas sociais e fortalecer a repress\u00e3o militar. Em meados da d\u00e9cada de 1970, as &#8220;duas vias&#8221; tornaram-se uma s\u00f3 \u2013 a for\u00e7a. Os EUA invadiram a Rep\u00fablica Dominicana em 1965. Apoiaram uma s\u00e9rie de golpes militares em toda regi\u00e3o, isolando Cuba efectivamente. Em consequ\u00eancia, a for\u00e7a de trabalho latino-americana experimentou cerca de um quarto de s\u00e9culo de decl\u00ednio dos padr\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1980 os ditadores-clientes dos EUA haviam perdido sua utilidade e Washington mais uma vez adoptou uma estrat\u00e9gia de duas vias. Numa, a Casa Branca apoiou incondicionalmente a agenda neoliberal dos seus militares-clientes governantes e patrocinou-os como parceiros j\u00faniors na hegemonia regional de Washington. Na outra via, promoveu mudan\u00e7as para uma pol\u00edtica eleitoral altamente controlada, a qual foi descrita como <i>&#8220;transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica&#8221;, <\/i>a fim de &#8220;descomprimir&#8221; press\u00f5es sociais de massa contra seus clientes militares. Washington assegurou a introdu\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es e promoveu pol\u00edticos clientes desejosos de continuar a estrutura s\u00f3cio-econ\u00f3mica neoliberal estabelecida pelos regimes militares.<\/p>\n<p>Na viragem do novo s\u00e9culo, os descontentamentos acumulados em trinta anos de dom\u00ednio repressivo, de pol\u00edticas s\u00f3cio-econ\u00f3micas regressivas e de desnacionaliza\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o do patrim\u00f3nio nacional provocaram uma explos\u00e3o de descontentamento social em massa. Isto levou ao derrube e derrota eleitoral dos regimes clientes neoliberais de Washington.<\/p>\n<p>Na maior parte da Am\u00e9rica Latina movimentos de massas estavam a exigir uma ruptura com os programas de &#8220;integra\u00e7\u00e3o&#8221; centrados nos EUA. O anti-imperialismo aberto crescia e intensificava-se. Este per\u00edodo assistiu \u00e0 emerg\u00eancia de numerosos governos de centro-esquerda na Venezuela, Argentina, Equador, Bol\u00edvia, Brasil, Uruguai, Paraguai, Honduras e Nicar\u00e1gua. Al\u00e9m das mudan\u00e7as de regime, for\u00e7as econ\u00f3micas mundiais fizeram crescer mercados asi\u00e1ticos, seus pedidos de mat\u00e9rias-primas latino-americanas e a ascens\u00e3o dos pre\u00e7os das <i>commodities <\/i>ajudou a estimular o desenvolvimento de organiza\u00e7\u00f5es regionais centradas na Am\u00e9rica Latina \u2013 fora do controle de Washington.<\/p>\n<p>Ainda estavam entranhados em Washington os seus 25 anos de pol\u00edtica &#8220;via \u00fanica&#8221; de apoio a pol\u00edticas autorit\u00e1rias civis-militares e de imposi\u00e7\u00e3o neoliberal e era <i>incapaz <\/i>de responder e apresentar uma alternativa de reforma ao desafio anti-imperialista e de centro-esquerda \u00e0 sua domina\u00e7\u00e3o. Washington trabalhou para reverter a nova configura\u00e7\u00e3o de poder. Suas ag\u00eancias para o exterior, a Agency for International Development (AID), a Drug Enforcement Agency (DEA) e embaixadas trabalhavam para desestabilizar os novos governos na Bol\u00edvia, Equador, Venezuela, Paraguai e Honduras. A &#8220;via \u00fanica&#8221; de interven\u00e7\u00e3o e desestabiliza\u00e7\u00e3o estado-unidense fracassou durante a primeira d\u00e9cada do novo s\u00e9culo (com a excep\u00e7\u00e3o de Honduras e Paraguai).<\/p>\n<p>No fim, Washington acabou politicamente isolada. Seus esquemas de integra\u00e7\u00e3o foram rejeitados. Suas fatias de mercado na Am\u00e9rica Latina declinaram. Washington n\u00e3o s\u00f3 perdeu sua maioria autom\u00e1tica na Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) como se tornou uma minoria n\u00edtida.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica &#8220;via \u00fanica&#8221; de Washington de confiar no &#8220;porrete&#8221; e evitar a &#8220;cenoura&#8221; era baseada em v\u00e1rias considera\u00e7\u00f5es. Os regimes Bush e Obama estavam profundamente influenciados pelos vinte e cinco anos de domina\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o (1975-2000) e a no\u00e7\u00e3o de que os levantamento e mudan\u00e7as pol\u00edticas na Am\u00e9rica Latina na d\u00e9cada seguinte eram ef\u00e9meros, vulner\u00e1veis e facilmente revers\u00edveis. Al\u00e9m disso, Washington, acostumada durante mais de um s\u00e9culo de domina\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica de mercados, recursos e trabalho, considerou como garantido que a sua hegemonia era inalter\u00e1vel . A Casa Branca falhou em reconhecer a for\u00e7a da participa\u00e7\u00e3o crescente da China no mercado latino-americano. O Departamento de Estado ignorou a capacidade de governos latino-americanos para integrarem seus mercados e exclu\u00edrem os EUA.<\/p>\n<p>Respons\u00e1veis do Departamento de Estado dos EUA nunca se afastaram da desacreditada doutrina neoliberal que haviam promovido com \u00eaxito na d\u00e9cada de 1990. A Casa Branca fracassou na adop\u00e7\u00e3o de uma viragem <i>&#8220;reformista&#8221; <\/i>para conter o apelo de reformadores radicais como Hugo Ch\u00e1vez, o presidente venezuelano. Isto foi mais evidente nos pa\u00edses caribenhos e andinos onde o Presidente Ch\u00e1vez lan\u00e7ou suas duas &#8220;alian\u00e7as para o progresso&#8221;: a <i>&#8220;Petro-Caribe&#8221; <\/i>(programa da Venezuela de fornecimento de combust\u00edvel barato, fortemente subsidiado, a pa\u00edses pobres da Am\u00e9rica Central e do Caribe e de \u00f3leo de calefac\u00e7\u00e3o para bairros pobres nos EUA) e o <i>&#8220;ALBA&#8221; <\/i>(uni\u00e3o pol\u00edtico-econ\u00f3mica de estados andinos, mais Cuba e Nicar\u00e1gua, concebida para promover solidariedade pol\u00edtica e la\u00e7os econ\u00f3micos regionais). Ambos os programas foram fortemente financiados por Caracas. Washington fracassou em propor um plano alternativo com \u00eaxito.<\/p>\n<p>Incapaz de vencer diplomaticamente ou na &#8220;batalha de ideias&#8221;, Washington recorreu ao &#8220;grande porrete&#8221; e procurou perturbar o programa econ\u00f3mico regional da Venezuela ao inv\u00e9s de competir com os generosos e ben\u00e9ficos pacotes de ajuda de Ch\u00e1vez. As &#8220;t\u00e1cticas destruidoras&#8221; dos EUA sa\u00edram pela culatra. Em 2009, o regime Obama apoiou um golpe militar em Honduras, removendo o liberal e reformista Presidente eleito, Zelaya, e instalou uma tirania sangrenta, uma revers\u00e3o \u00e0 d\u00e9cada de 1970 quando os EUA apoiaram o golpe chileno que levou o general Pinochet ao poder. A secret\u00e1ria de Estado Hilary Clinton, num acto de pura palha\u00e7ada pol\u00edtica, recusou-se a chamar de golpe o derrube violento de Zelaya e rapidamente reconheceu a ditadura. Nenhum outro governo apoiou os EUA na sua pol\u00edtica de Honduras. Houve uma condena\u00e7\u00e3o universal do golpe , destacando o isolamento de Washington.<\/p>\n<p>Repetidamente, Washington tentou utilizar sua &#8220;carta hegem\u00f3nica&#8221; mas foi vencida sem rodeios em reuni\u00f5es regionais. Na C\u00fapula das Am\u00e9ricas em 2010, pa\u00edses latino-americanos afastaram objec\u00e7\u00f5es dos EUA e votaram por convidar Cuba \u00e0 sua reuni\u00e3o seguinte, desafiando um veto estado-unidense de 50 anos. Os EUA foram deixados s\u00f3s na sua oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o de Washington foi mais uma vez enfraquecida pelo boom de commodities ao longo de uma d\u00e9cada (estimulado pela procura voraz da China por produtos agro-minerais). O &#8220;mega-ciclo&#8221; p\u00f4s em causa a antecipa\u00e7\u00e3o dos Departamentos do Tesouro e do Estado dos EUA de um colapso de pre\u00e7os . Nos ciclos anteriores, &#8220;baixas&#8221; de pre\u00e7os de commodities haviam for\u00e7ado governos de centro-esquerda a correrem ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) controlado por Washington \u00e0 procura de empr\u00e9stimos altamente condicionados para sanar balan\u00e7as de pagamentos, nos quais a Casa Branca costumava impor suas pol\u00edticas neoliberais e domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O &#8220;mega-ciclo&#8221; gerou receitas e rendimentos ascendentes. Isto deu enorme alavancagem a governos de centro-esquerda para evitar as &#8220;armadilhas da d\u00edvida&#8221; <i>(&#8220;debt traps&#8221;) <\/i>e marginalizar o FMI. Isto virtualmente eliminou a condicionalidade imposta pelos EUA e permitiu a governos latino-americanos prosseguirem pol\u00edticas populistas-nacionalistas. Estas pol\u00edticas diminu\u00edram a pobreza e o desemprego. Washington jogou a &#8220;carta da crise&#8221; e perdeu. No entanto, Washington continuou a trabalhar com grupos de oposi\u00e7\u00e3o de extrema direita para desestabilizar os governos progressistas, na esperan\u00e7a de que &#8220;chegassem ao desastre&#8221;, caso em que os apaniguados de Washington &#8220;valsariam&#8221; e tomariam o poder.<\/p>\n<p><b>A reintrodu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de &#8220;duas vias&#8221; <\/b><\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma d\u00e9cada e meia de golpes duros, de fracassos repetidos das suas pol\u00edticas do &#8220;grande porrete&#8221;, de rejei\u00e7\u00e3o de esquema de integra\u00e7\u00e3o centrados nos EUA e de m\u00faltiplas derrotas inequ\u00edvocas de pol\u00edticos seus clientes nas urnas eleitorais, Washington finalmente come\u00e7ou a &#8220;repensar&#8221; sua pol\u00edtica de &#8220;via \u00fanica&#8221; e hesitantemente explora uma limitada abordagem pelas &#8220;duas vias&#8221;.<\/p>\n<p>Contudo, as &#8220;duas vias&#8221; incluem polaridades claramente marcadas pelo passado recente. Enquanto o regime Obama abriu negocia\u00e7\u00f5es e avan\u00e7ou para o estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es com Cuba, ele escalou as amea\u00e7as militares em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Venezuela ao absurdamente etiquetar Caracas como uma <i>&#8220;amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a nacional dos EUA&#8221;. <\/i><\/p>\n<p>Washington acordou para o facto de que a sua pol\u00edtica belicosa em rela\u00e7\u00e3o a Cuba foi rejeitada universalmente e deixou os EUA isolados da Am\u00e9rica Latina. O regime Obama decidiu afirmar algumas <i>&#8220;credenciais reformistas&#8221; <\/i>com a exibi\u00e7\u00e3o da sua abertura a Cuba . A <i>&#8220;abertura a Cuba&#8221; <\/i>realmente faz parte de uma mais vasta interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mais activa na Am\u00e9rica Latina . Washington tomar\u00e1 pleno proveito da vulnerabilidade agravada dos governos de centro-esquerda quando o mega-ciclo das commodities chega ao fim e os pre\u00e7os entram em colapso. Washington aplaude o programa de austeridade or\u00e7amental perseguido pelo regime de Dilma Rousseff no Brasil. Apoia calorosamente o rec\u00e9m eleito regime &#8220;Frente Ampla&#8221; de Tabar\u00e9 V\u00e1zquez no Uruguai com suas pol\u00edticas de mercado livre e ajustamento estrutural. Apoia publicamente a recente nomea\u00e7\u00e3o pela presidente chilena Bachelet de democratas-crist\u00e3os de centro-direita para postos ministeriais a fim de obsequiar o <i>big business. <\/i><\/p>\n<p>Estas mudan\u00e7as dentro da Am\u00e9rica Latina proporcionam uma &#8220;abertura&#8221; para Washington prosseguir uma pol\u00edtica de &#8220;duas vias&#8221;. Por um lado Washington est\u00e1 a aumentar a press\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f3mica e a intensificar sua campanha de propaganda contra pol\u00edticas e regimes de &#8220;interven\u00e7\u00e3o estatal&#8221; no per\u00edodo imediato . Por outro lado, o Pent\u00e1gono est\u00e1 a intensificar e escalar sua presen\u00e7a na Am\u00e9rica Central e sua vizinhan\u00e7a imediata. O objectivo \u00e9 finalmente recuperar alavancagem sobre o comando militar no resto do continente sul-americano.<\/p>\n<p>O <i>Miami Herald <\/i>(10\/05\/15) informou que a administra\u00e7\u00e3o Obama enviou 280 <i>marines <\/i>para a Am\u00e9rica Central sem qualquer miss\u00e3o espec\u00edfica ou pretexto. Verificando-se logo ap\u00f3s a C\u00fapula das Am\u00e9ricas no Panam\u00e1 (10-11\/Abril\/2015), esta ac\u00e7\u00e3o tem grande import\u00e2ncia simb\u00f3lica . Se bem que a presen\u00e7a de Cuba na C\u00fapula possa ter sido louvada como uma vit\u00f3ria diplom\u00e1tica da reconcilia\u00e7\u00e3o dentro das Am\u00e9ricas, o despacho de centenas de fuzileiros navais estado-unidenses para a Am\u00e9rica Central sugere que outro cen\u00e1rio est\u00e1 em prepara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ironicamente, na reuni\u00e3o da C\u00fapula, o secret\u00e1rio-geral da Uni\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Sul Americanas (UNASUL), o antigo presidente colombiano (1994-98) Ernesto Samper, conclamou os EUA a removerem todas as suas bases militares da Am\u00e9rica Latina, incluindo Guantanamo: <i>&#8220;Um bom ponto na nova agenda de rela\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica Latina seria a elimina\u00e7\u00e3o das bases militares estado-unidenses&#8221;.<br \/>\n<\/i><br \/>\nA ideia da &#8220;abertura&#8221; dos EUA a Cuba \u00e9 precisamente assinalar seu maior envolvimento na Am\u00e9rica Latina, o qual inclui um retorno a uma mais robusta interven\u00e7\u00e3o militar estado-unidense. A inten\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica \u00e9 restaurar regimes clientes neoliberais, pelos votos ou pelas balas.<\/p>\n<p><b>Conclus\u00e3o <\/b><\/p>\n<p>A actual adop\u00e7\u00e3o de Washington de uma pol\u00edtica de duas vias \u00e9 uma &#8220;vers\u00e3o barata&#8221; da pol\u00edtica de John F. Kennedy de combinar a <i>&#8220;Alian\u00e7a para o Progresso&#8221; <\/i>com as <i>&#8220;Boinas Verdes&#8221;. <\/i>Contudo, Obama oferece pouco quanto a apoio financeiro para moderniza\u00e7\u00e3o e reforma a fim de complementar seu desejo de restaurar a domin\u00e2ncia neoliberal.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma d\u00e9cada e meia de recuo pol\u00edtico, isolamento diplom\u00e1tico e perda relativa de alavancagem militar, o regime Obama levou seis anos para reconhecer a profundidade do seu isolamento. No momento em que a secret\u00e1ria assistente para Assuntos do Hemisf\u00e9rio Ocidental, Roberta Jacobson, afirmou que estava <i>&#8220;surpreendida e desapontada&#8221; <\/i>quando todos os pa\u00edses latino-americanos se opuseram \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de Obama de que a Venezuela representava uma &#8220;amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a nacional dos Estados Unidos&#8221;, ela mostrou qu\u00e3o ignorante e fora de sintonia se tornou o Departamento de Estado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade de Washington para influenciar a Am\u00e9rica Latina no apoio \u00e0 sua agenda de interven\u00e7\u00e3o imperial.<\/p>\n<p>Com o decl\u00ednio e recuo da centro-esquerda, o regime Obama tem estado ansioso por explorar a estrat\u00e9gia das duas vias. Na medida em que as conversa\u00e7\u00f5es de paz na Col\u00f4mbia entre as FARC e o Presidente Santos avancem, \u00e9 prov\u00e1vel que Washington reajuste sua presen\u00e7a militar na Col\u00f4mbia para enfatizar sua campanha de desestabiliza\u00e7\u00e3o contra a Venezuela. O Departamento de Estado aumentar\u00e1 aberturas diplom\u00e1ticas \u00e0 Bol\u00edvia. A <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/National_Endowment_for_Democracy\" target=\"_new\"><i>&#8220;acordo de paz&#8221; <\/i>estaria condicionado \u00e0 retirada de tropas estado-unidenses ou ao encerramento das suas bases. Por outras palavras, o US Southern Command reteria uma plataforma militar vital e uma infraestrutura capaz de lan\u00e7ar ataques contra a Venezuela, Equador, Am\u00e9rica Central e o Caribe. Com bases militares por toda a regi\u00e3o, na Col\u00f4mbia, em Cuba (Guantanamo), Honduras (Soto Cano e Palmerola), Cura\u00e7ao, Aruba e Peru, Washington pode rapidamente mobilizar for\u00e7as de interven\u00e7\u00e3o. La\u00e7os militares com as for\u00e7as armadas do Uruguai, Paraguai e Chile asseguram cont\u00ednuos exerc\u00edcios conjuntos e estreita coordena\u00e7\u00e3o das chamadas pol\u00edticas de &#8220;seguran\u00e7a&#8221; no <i>&#8220;Cone Sul&#8221; <\/i>da Am\u00e9rica Latina. Esta estrat\u00e9gia est\u00e1 concebida especificamente para preparar a repress\u00e3o interna contra movimentos populares , sempre e em todo momento em que a luta de classe se intensifique na Am\u00e9rica Latina. A pol\u00edtica de duas vias, hoje em vigor, \u00e9 executada atrav\u00e9s de estrat\u00e9gias pol\u00edtico-diplom\u00e1ticas e militares.<\/a><\/p>\n<p>No per\u00edodo imediato , na maior parte da regi\u00e3o, Washington busca uma pol\u00edtica de interven\u00e7\u00e3o e press\u00e3o pol\u00edtica, diplom\u00e1tica e econ\u00f3mica. A Casa Branca est\u00e1 a contar com o &#8220;giro para direita&#8221; de antigos governos de centro-esquerda a fim de facilitar o retorno ao poder de regimes clientes descaradamente neoliberais em futuras elei\u00e7\u00f5es. Isto \u00e9 especialmente verdadeiro em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil e \u00e0 Argentina.<\/p>\n<p>A &#8220;via pol\u00edtico-diplom\u00e1tica&#8221; \u00e9 evidente nos movimentos de Washington para restabelecer rela\u00e7\u00f5es com a Bol\u00edvia e fortalecer aliados alhures a fim de alavancar pol\u00edticas favor\u00e1veis no Equador, Nicar\u00e1gua e Cuba. Washington prop\u00f5e oferecer acordos diplom\u00e1ticos e comerciais em troca de um &#8220;amaciamento&#8221; da cr\u00edtica anti-imperialista e do enfraquecimento dos programas da &#8220;era Ch\u00e1vez&#8221; de integra\u00e7\u00e3o regional.<\/p>\n<p>A <i>&#8220;abordagem em duas vias&#8221;, <\/i>tal como aplicada \u00e0 Venezuela, tem uma componente militar mais aberta do que alhures. Washington continuar\u00e1 a subsidiar violentos cruzamentos paramilitares da fronteira com a Col\u00f4mbia. Continuar\u00e1 a encorajar a sabotagem terrorista interna da rede el\u00e9ctrica e do sistema de distribui\u00e7\u00e3o alimentar. O objectivo estrat\u00e9gico \u00e9 desgastar a base eleitoral do governo Maduro, como prepara\u00e7\u00e3o para as elei\u00e7\u00f5es legislativas no fim de 2015. Quando se trata da Venezuela, Washington est\u00e1 a seguir uma estrat\u00e9gia em <i>&#8220;quatro passos&#8221;: <\/i><\/p>\n<p>(1) Interven\u00e7\u00e3o violenta indirecta para desgastar o apoio eleitoral do governo<\/p>\n<p>(2) Financiamento em grande escala da campanha eleitoral da oposi\u00e7\u00e3o parlamentar para assegurar uma maioria no Congresso<\/p>\n<p>(3) Uma campanha maci\u00e7a nos media em favor de um voto do Congresso para um referendo impedindo <i>(impeaching) <\/i>o Presidente<\/p>\n<p>(4) Uma campanha em grande escala financeira, pol\u00edtica e nos media para assegurar uma maioria de votos para o <i>impeachment <\/i>por referendo.<\/p>\n<p>Na possibilidade de uma vota\u00e7\u00e3o por margem estreita, o Pent\u00e1gono prepararia uma interven\u00e7\u00e3o militar r\u00e1pida com seus colaboradores internos \u2013 procurando um derrube de Maduro &#8220;estilo Honduras&#8221;.<\/p>\n<p>A fraqueza estrat\u00e9gica e t\u00e1ctica da pol\u00edtica de duas vias \u00e9 a aus\u00eancia de qualquer ajuda econ\u00f3mica prolongada e abrangente, com programas de com\u00e9rcio e investimento que atra\u00edssem e mantivessem eleitores da classe m\u00e9dia. Washington est\u00e1 a contar mais com os efeitos negativos da crise para restaurar seus clientes neoliberais. O problema com esta abordagem \u00e9 que as for\u00e7as pr\u00f3 EUA s\u00f3 podem prometer um retorno a programas de austeridade ortodoxos, com revers\u00e3o de programas sociais e de bem-estar p\u00fablico, fazendo ao mesmo tempo concess\u00f5es econ\u00f3micas em grande escala aos maiores investidores e banqueiros estrangeiros. A implementa\u00e7\u00e3o de tais programas regressivos iriam atear e intensificar conflitos de classe, de comunidades e \u00e9tnicos.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia de <i>&#8220;transi\u00e7\u00e3o eleitoral&#8221; <\/i>dos EUA \u00e9 um expediente tempor\u00e1rio , \u00e0 luz das pol\u00edticas econ\u00f3micas altamente impopulares que certamente implementariam. A aus\u00eancia completa de qualquer ajuda s\u00f3cio-econ\u00f3mica substancial dos EUA para amortecer os efeitos adversos sobre fam\u00edlias trabalhadoras significa que as vit\u00f3rias eleitorais dos clientes dos EUA n\u00e3o perdurar\u00e3o. Eis porque e quando a acumula\u00e7\u00e3o militar estrat\u00e9gica entra em cena. O \u00eaxito da via \u00fanica, a busca de t\u00e1cticas pol\u00edtico-diplom\u00e1ticas, inevitavelmente polarizar\u00e1 a sociedade latino-americana e aumentar\u00e1 as perspectivas para a luta de classe. Washington espera ter seus aliados-clientes pol\u00edtico-militares prontos para responder com repress\u00e3o violenta. A interven\u00e7\u00e3o directa e o aumento da repress\u00e3o interna entrar\u00e3o em cena para assegurar a domin\u00e2ncia estado-unidense.<\/p>\n<p>A <i>&#8220;estrat\u00e9gia de duas vias&#8221;, <\/i>mais uma vez, evoluir\u00e1 para uma <i>&#8220;estrat\u00e9gia de via \u00fanica&#8221; <\/i>destinada a devolver a Am\u00e9rica Latina \u00e0 [condi\u00e7\u00e3o de] regi\u00e3o sat\u00e9lite, pronta para a pilhagem por multinacionais extractivas e especuladores financeiros.<\/p>\n<p>Como temos visto ao longo da \u00faltima d\u00e9cada e meia, &#8220;pol\u00edticas de duas vias&#8221; levam a levantamentos sociais. E na pr\u00f3xima ocasi\u00e3o os resultados podem ir muito al\u00e9m de regimes progressistas de centro-esquerda , rumo a governos verdadeiramente sociais-revolucion\u00e1rios!<\/p>\n<p><b>Ep\u00edlogo <\/b><\/p>\n<p>Os construtores do imp\u00e9rio estado-unidense demonstraram claramente por todo o mundo a sua incapacidade para intervir e produzir estados clientes est\u00e1veis, pr\u00f3speros e produtivos (Iraque e L\u00edbia s\u00e3o casos exemplares). N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para acreditar, mesmo que a &#8220;pol\u00edtica das duas vias&#8221; leve a vit\u00f3rias eleitorais tempor\u00e1rias, que os esfor\u00e7os de Washington para restaurar a sua domin\u00e2ncia ter\u00e3o \u00eaxito na Am\u00e9rica Latina, ainda menos porque \u00e0 sua estrat\u00e9gia falta qualquer mecanismo para a ajuda econ\u00f3mica e reformas sociais que mantivesse uma elite pr\u00f3 EUA no poder. Exemplo: como poderiam os EUA compensar de algum modo o pacote de ajuda da China ao Brasil de US$50 bilh\u00f5es sen\u00e3o atrav\u00e9s da viol\u00eancia e da repress\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9 importante analisar como a ascens\u00e3o da China, R\u00fassia, de fortes mercados regionais e de novos centros financeiros enfraqueceram gravemente os esfor\u00e7os de regimes clientes para realinharem com os EUA. Golpes militares e mercados livres j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais f\u00f3rmulas garantidas de \u00eaxito na Am\u00e9rica Latina. Seus fracassos passados s\u00e3o demasiado recentes para serem esquecidos.<\/p>\n<p>Finalmente, a <i>&#8220;financiariza\u00e7\u00e3o&#8221; <\/i>da economia estado-unidense, que at\u00e9 o Fundo Monet\u00e1rio Internacional descreve como impacto negativo de <i>&#8220;demasiada finan\u00e7a&#8221; (Financial Times, <\/i>13\/Maio\/15, p. 4), significa que os EUA n\u00e3o podem conceder recursos capitais para desenvolver a actividade produtiva na Am\u00e9rica Latina. O estado imperial s\u00f3 pode servir de violento cobrador de d\u00edvidas para os seus bancos no contexto do desemprego em grande escala . O imperialismo financeiro e extractivo \u00e9 um cocktail pol\u00edtico-econ\u00f3mico para detonar a revolu\u00e7\u00e3o social num continente inteiro , muito para al\u00e9m da capacidade dos fuzileiros navais estado-unidenses o impedirem ou suprimirem.<\/p>\n<p align=\"right\">28\/Maio\/2015<\/p>\n<p><b>O original encontra-se em <\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por James Petras Toda a gente, desde sabich\u00f5es pol\u00edticos em Washington at\u00e9 o Papa em Roma, incluindo a maior parte dos jornalistas nos \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8536\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-8536","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2dG","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8536","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8536"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8536\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8536"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8536"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8536"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}