{"id":8540,"date":"2015-06-07T15:27:42","date_gmt":"2015-06-07T18:27:42","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=8540"},"modified":"2015-06-28T15:47:41","modified_gmt":"2015-06-28T18:47:41","slug":"friboi-a-campea-nacional-em-acidentes-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8540","title":{"rendered":"Friboi, a campe\u00e3 nacional em acidentes de trabalho"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/IMG_0274-600x400.jpg?resize=600%2C400\" alt=\"imagem\" \/>Nos comerciais da Friboi na TV, o roteiro se repete. O ator Tony Ramos faz uma visita-surpresa \u00e0 casa de um consumidor, para perguntar qual carne costuma comprar, e encontra um produto da marca na geladeira. \u201cCarne confi\u00e1vel tem nome\u201d, diz o artista.<!--more--><\/p>\n<p><strong>Por Maur\u00edcio Moraes*, Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong><\/p>\n<p>Friboi, campe\u00e3 em acidente de trabalho.Friboi, campe\u00e3 em acidente de trabalho. Quando fiscais aparecem repentinamente nas unidades da JBS, dona da Friboi, o resultado tende a ser previs\u00edvel como a propaganda. Irregularidades e viola\u00e7\u00f5es de direitos trabalhistas s\u00e3o t\u00e3o frequentes que deixaram 7.822 funcion\u00e1rios da empresa doentes ou incapacitados para o trabalho nos \u00faltimos quatro anos. Isso equivale a cinco acidentes por dia durante todo o per\u00edodo.<\/p>\n<p>Dados in\u00e9ditos obtidos pela P\u00fablica com o Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia Social, por meio da Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o, mostram que a JBS foi a campe\u00e3 em comunicados de acidentes de trabalho, de 2011 a 2014, somando-se os setores de abate de gado e de fabrica\u00e7\u00e3o de produtos de carne. No setor de abate de aves \u2013 em que come\u00e7ou a se expandir nos \u00faltimos dois anos, com a compra da Seara e de outros frigor\u00edficos \u2013, a empresa j\u00e1 subiu para o segundo lugar em 2014 e ficou quase empatada com a BRF (antiga Brasil Foods).<\/p>\n<p>Com lucro l\u00edquido de US$ 2,04 bilh\u00f5es em 2014, a JBS \u00e9 hoje o maior grupo privado do pa\u00eds em faturamento e a maior processadora de carnes do mundo. No ano passado, as vendas somaram R$ 120 bilh\u00f5es. Esse gigantismo foi conseguido com a ajuda de dinheiro p\u00fablico. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES), por meio da BNDES Participa\u00e7\u00f5es (BNDESPar), fez aportes de R$ 8,1 bilh\u00f5es para favorecer aquisi\u00e7\u00f5es, tornando-se seu maior s\u00f3cio. A BNDESPar chegou a deter um ter\u00e7o do grupo. Em 2012, repassou uma cota equivalente a 10% de participa\u00e7\u00e3o para a Caixa Econ\u00f4mica Federal e manteve-se com 24,5%. O grupo foi, tamb\u00e9m, o maior doador na campanha eleitoral do ano passado e destinou R$ 366,8 milh\u00f5es a candidatos e partidos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>A maioria dos acidentes da JBS no pa\u00eds ocorreu no setor de abate de bovinos, uma \u00e1rea historicamente perigosa para os trabalhadores. Foram registrados 4.867 comunicados no total: 1.294 em 2011, 1.225 em 2012, 1.261 em 2013 e 1.087 em 2014. Nesse setor, a empresa foi respons\u00e1vel por um em cada quatro acidentes informados ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) entre 2011 e 2013 \u2013 cerca de 25% ao ano. Houve redu\u00e7\u00e3o de 14% nos comunicados da JBS de 2013 para 2014, mas a empresa ainda concentrou um em cada cinco acidentes reportados no \u00faltimo ano (21%) e ficou atr\u00e1s apenas da Marfrig.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea de fabrica\u00e7\u00e3o de produtos de carne, foram 506 acidentes reportados em 2011, 262 em 2012, 327 em 2013 e 369 em 2014 (incluindo a Seara, comprada em 2013). Nos quatro anos, a JBS foi a empresa com maior quantidade de casos. J\u00e1 no setor de abate de aves, os incidentes come\u00e7aram a aparecer em 2012, com a cria\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o JBS Aves a partir do arrendamento da Doux Frangosul. Foram 49 comunicados naquele ano. Em 2013, a quantidade subiu para 289. Em 2014, depois da aquisi\u00e7\u00e3o da Seara, houve um salto para 1.153 casos.<\/p>\n<p>Ao todo, 3.110 acidentes da JBS de 2011 a 2014 (39%) ocorreram na Amaz\u00f4nia Legal, principalmente no Mato Grosso. O estado tem o maior rebanho bovino do pa\u00eds, com 28,3 milh\u00f5es de cabe\u00e7as, segundo a pesquisa Produ\u00e7\u00e3o da Pecu\u00e1ria Municipal de 2013, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). O grupo mant\u00e9m unidades tamb\u00e9m no Acre, no Maranh\u00e3o, no Par\u00e1 e em Rond\u00f4nia. Foram registrados 713 incidentes na Amaz\u00f4nia Legal em 2011. O n\u00famero passou para 821 em 2012, 840 em 2013 e 736 em 2014. Apesar das flutua\u00e7\u00f5es, foram dois por dia, em m\u00e9dia, a cada ano.<\/p>\n<p><strong>Infra\u00e7\u00f5es deliberadas<\/strong><\/p>\n<p>Os dados fornecidos pelo Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia Social confirmam a percep\u00e7\u00e3o dos procuradores do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho que fiscalizam de perto esses setores. \u201cA JBS tem uma pol\u00edtica deliberada de precariza\u00e7\u00e3o dos direitos fundamentais dos trabalhadores\u201d, afirma o procurador Sandro Eduardo Sard\u00e1, gerente nacional do Programa de Adequa\u00e7\u00e3o das Condi\u00e7\u00f5es de Trabalho nos Frigor\u00edficos. \u201cIsso vem gerando uma legi\u00e3o de trabalhadores amputados e mortos em raz\u00e3o de acidentes de trabalho.\u201d O grupo foi criado em 2010 por causa do elevado n\u00famero de problemas registrados nesse tipo de empresa.<\/p>\n<p>De acordo com Sard\u00e1, a JBS mant\u00e9m condi\u00e7\u00f5es ruins de trabalho para obter o m\u00e1ximo de lucro. Isso \u00e9 feito de v\u00e1rias maneiras. Em uma das mais comuns, adota-se um ritmo excessivo \u2013 e, portanto, ilegal \u2013 na jornada dos funcion\u00e1rios. \u201c\u00c9 um ritmo de trabalho incompat\u00edvel com a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade dos trabalhadores\u201d, diz o procurador. Nos frigor\u00edficos de aves, isso leva muitos dos funcion\u00e1rios a adquirir doen\u00e7as ocupacionais. Nos frigor\u00edficos de bovinos, tem como resultado uma grande quantidade de amputa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Uma amostra da extens\u00e3o do problema p\u00f4de ser vista recentemente. No dia 13 de maio, uma for\u00e7a-tarefa formada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho, pelo Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego, pelo INSS, pela Receita Federal e pela Advocacia-Geral da Uni\u00e3o interditou 45 m\u00e1quinas que apresentavam riscos \u00e0 sa\u00fade dos trabalhadores em uma unidade de abate de frangos da empresa em Rol\u00e2ndia, no Paran\u00e1. Com 4 mil funcion\u00e1rios, a f\u00e1brica pertence \u00e0 Big Frango, adquirida pela JBS no ano passado, e abate 400 mil frangos por dia.<\/p>\n<p>Entrevistas feitas com 400 trabalhadores durante a opera\u00e7\u00e3o mostram as consequ\u00eancias de uma jornada excessiva. Uma parcela de 52,9% dos funcion\u00e1rios ouvidos \u2013 ou seja, mais da metade \u2013 admitiu ter tomado algum tipo de rem\u00e9dio, aplicado emplastros ou feito compressas para poder trabalhar nos 12 meses anteriores. Al\u00e9m disso, 38% deles disseram sentir uma dor forte durante a realiza\u00e7\u00e3o de suas atividades. Terminado o dia de trabalho, 75,4% afirmaram ficar \u201ccansados\u201d (35,1%), \u201cmuito cansados\u201d (23%) ou \u201cexaustos\u201d (17,3%).<\/p>\n<p>A for\u00e7a-tarefa escolheu essa unidade, entre tantas outras, por meio de cruzamentos de dados p\u00fablicos e privados. Os procuradores identificaram uma enorme quantidade de consultas m\u00e9dicas relacionadas ao trabalho no ano passado. Foram 2.033, al\u00e9m de 70.279 atendimentos de enfermagem, equivalentes a 225 por dia nessa f\u00e1brica. J\u00e1 os afastamentos por doen\u00e7as osteomusculares ou traumas somaram 6 mil horas em 2014.<\/p>\n<p>Muitos dos problemas v\u00eam da gest\u00e3o anterior, mas os resultados da opera\u00e7\u00e3o indicam que n\u00e3o houve mudan\u00e7as significativas. \u201cAlgumas empresas j\u00e1 tinham condi\u00e7\u00f5es ruins de trabalho, em raz\u00e3o de m\u00e1 administra\u00e7\u00e3o. Eles vieram, adquiriram essas ind\u00fastrias e a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores piorou, envolvendo a quest\u00e3o salarial e a quest\u00e3o de sa\u00fade\u201d, diz Ernane Garcia Ferreira, presidente da Federa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores nas Ind\u00fastrias da Alimenta\u00e7\u00e3o do Estado do Paran\u00e1 (FTIAPR). \u201cLucro, lucro, lucro. Essa \u00e9 a vis\u00e3o da empresa.\u201d<\/p>\n<p><strong>Mais r\u00e1pidos que m\u00e1quinas<\/strong><\/p>\n<p>Uma fiscaliza\u00e7\u00e3o na unidade de Montenegro (RS), no in\u00edcio do ano passado, resultou na interdi\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas e atividades. Foram aplicados 33 autos de infra\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a visita. Entre as irregularidades, uma das que mais chamaram a aten\u00e7\u00e3o dos fiscais foi a situa\u00e7\u00e3o dos funcion\u00e1rios respons\u00e1veis por embalar frangos do tipo griller \u2013 um galeto pequeno, exportado principalmente para o Oriente M\u00e9dio. Para colocar a ave dentro de um saco pl\u00e1stico, \u00e9 necess\u00e1rio pass\u00e1-la dentro de um funil. Os funcion\u00e1rios escalados para a tarefa realizavam nada menos de 90 movimentos por minuto com os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Com isso, os trabalhadores conseguiam embalar 30 frangos por minuto, ou um frango a cada dois segundos, aproximadamente, com tr\u00eas movimentos. N\u00e3o existem m\u00e1quinas capazes de atingir tamanha produtividade. As mais r\u00e1pidas embalavam 15 frangos por minuto, metade da velocidade de um funcion\u00e1rio da JBS. \u201cSe uma m\u00e1quina consegue dar conta apenas dessa produ\u00e7\u00e3o, imagine o n\u00edvel de exig\u00eancia dos m\u00fasculos, dos tend\u00f5es, dos bra\u00e7os do trabalhador nesse posto\u201d, afirma Mauro M\u00fcller, auditor fiscal do Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego no Rio Grande do Sul. Ao todo, 93% dos empregados entrevistados no setor disseram ter sentido dor na semana anterior \u00e0 visita.<\/p>\n<p>A mesma opera\u00e7\u00e3o verificou as condi\u00e7\u00f5es na unidade de Passo Fundo (RS) e encontrou funcion\u00e1rios lidando com uma quantidade de peso acima do normal. No setor de descarregamento de frango vivo, havia pessoas manuseando 50 toneladas por dia. O m\u00e1ximo permitido pela legisla\u00e7\u00e3o, no entanto, s\u00e3o 10 toneladas di\u00e1rias. A f\u00e1brica tamb\u00e9m usa empilhadeiras e paleteiras el\u00e9tricas movidas a bateria, que pesam 1,1 tonelada cada. A troca dessas baterias, feita a cada turno, era manual. Os funcion\u00e1rios usavam o corpo para fazer a substitui\u00e7\u00e3o, empurrando ou puxando as pe\u00e7as.<\/p>\n<p>A fiscaliza\u00e7\u00e3o dos rel\u00f3gios de ponto na unidade de Passo Fundo, de 16 de maio a 15 de dezembro do ano passado, identificou cerca de 27 mil jornadas al\u00e9m do limite permitido. \u201c\u00c9 muita coisa. \u00c9 praticamente o setor produtivo todo trabalhando uma m\u00e9dia di\u00e1ria de 9h40\u201d, diz M\u00fcller. \u201cA partir do momento em que voc\u00ea prorroga a jornada al\u00e9m das oito horas, estaria aumentando em 50% o risco de adoecimento por LER\/Dort [les\u00f5es por esfor\u00e7os repetitivos\/dist\u00farbios osteomusculares relacionados ao trabalho]. \u00c9 muito grave. H\u00e1 o aumento da jornada, o aumento da fadiga e o aumento do risco de adoecimento num ambiente que tem v\u00e1rios outros fatores de risco.\u201d<\/p>\n<p>No Mato Grosso, estado que concentra a maior quantidade de acidentes da JBS, uma das linhas de atua\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho tem sido impedir as horas extras em ambientes insalubres. \u201cA atividade do frigor\u00edfico tem ritmo intenso, com um grande n\u00famero de movimentos na unidade do tempo, atuando em baixas temperaturas. Ent\u00e3o, h\u00e1 uma por\u00e7\u00e3o de riscos\u201d, explica Leomar Daroncho, procurador do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho do Mato Grosso. \u201cTem uma s\u00e9rie de condena\u00e7\u00f5es com fundamento da insalubridade. Nessas condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel que os trabalhadores fiquem expostos al\u00e9m do n\u00famero de horas que a legisla\u00e7\u00e3o permite.\u201d<\/p>\n<p>Desobedecer \u00e0 jornada de trabalho m\u00e1xima permitida, no entanto, n\u00e3o \u00e9 exclusividade da JBS. Isso vale para outras transgress\u00f5es \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o cometidas em frigor\u00edficos. \u201cOs problemas que o setor tem, a JBS tamb\u00e9m tem. Sob o ponto de vista trabalhista, n\u00e3o \u00e9 muito diferente do que ocorre com as demais empresas. Como \u00e9 a maior, \u00e9 claro que tem mais problemas\u201d, diz Daroncho. \u201cNo Mato Grosso, o setor de frigor\u00edficos \u00e9 o que mais tem mais acidentes de trabalho e est\u00e1 bem \u00e0 frente do segundo lugar.\u201d Ele estima que de 30% a 35% das a\u00e7\u00f5es na Justi\u00e7a do Trabalho no estado envolvam essas empresas.<\/p>\n<p>Sal\u00e1rios baixos s\u00e3o comuns, principalmente porque muitos frigor\u00edficos est\u00e3o instalados em cidades pequenas, com poucas op\u00e7\u00f5es de inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho. Isso estimula a presta\u00e7\u00e3o de horas extras. \u201cO trabalhador acaba buscando na jornada excedente uma forma de sobreviver, de custear a sua vida. E com isso ele produz a m\u00e9dio prazo s\u00e9rios problemas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 integridade f\u00edsica dele mesmo\u201d, ressalta Daroncho.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m falta muitas vezes uma estrutura f\u00edsica adequada para o trabalho. Funcion\u00e1rios da JBS da \u00e1rea fria na unidade de Pontes e Lacerda (MT), por exemplo, n\u00e3o tinham um lugar adequado para descansar. Depois de trabalharem a quase zero grau, ficavam em ambiente externo, cuja temperatura \u00e0s vezes beirava 40 graus. Uma decis\u00e3o judicial de novembro do ano passado obrigou a empresa a construir um espa\u00e7o refrigerado para as pausas. Determina\u00e7\u00f5es como essa trazem multas pesadas se forem descumpridas.<\/p>\n<p><strong>Realidade oculta<\/strong><\/p>\n<p>Os dados de acidentes de trabalho da JBS e de outras empresas podem esconder um cen\u00e1rio muito pior. Isso porque o setor de frigor\u00edficos \u00e9 conhecido por n\u00e3o comunicar muitas das ocorr\u00eancias. Com medo de perder o emprego ou as bonifica\u00e7\u00f5es que melhoram os baixos sal\u00e1rios, funcion\u00e1rios costumam trabalhar adoentados. \u201cH\u00e1 os casos que v\u00e3o para a m\u00eddia e tamb\u00e9m aqueles que n\u00e3o aparecem. O trabalhador corta o dedo, recebe quatro, cinco pontos e vai trabalhar, porque \u00e9 o encarregado daquele dia. Se faltar, perde pr\u00eamio de abate, de couro, de desossa. Ent\u00e3o prefere trabalhar acidentado a ficar afastado\u201d, diz Vilson Gimenes Greg\u00f3rio, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Ind\u00fastrias de Carne e Derivados de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p>O ass\u00e9dio moral na linha de produ\u00e7\u00e3o, segundo Greg\u00f3rio, tamb\u00e9m \u00e9 comum. \u201cO trabalhador est\u00e1 ali, fazendo o servi\u00e7o. Os supervisores querem que fa\u00e7a mais r\u00e1pido e gritam. As mulheres querem ir ao banheiro e n\u00e3o podem ir antes do intervalo. Se forem, s\u00e3o pregui\u00e7osas, n\u00e3o querem trabalhar. Esse \u00e9 o tratamento deles\u201d, afirma o sindicalista. Benef\u00edcios acertados em conven\u00e7\u00e3o coletiva, como cesta b\u00e1sica, \u00e0s vezes s\u00e3o cortados pela empresa se o funcion\u00e1rio faltar, o que \u00e9 ilegal. \u201cEles n\u00e3o respeitam os acordos coletivos. Passam por cima de tudo e fazem do jeito deles\u201d, diz Greg\u00f3rio. At\u00e9 mesmo atestados de sa\u00fade que determinam afastamentos t\u00eam o tempo reduzido sem a devida justificativa.<\/p>\n<p>O \u00edndice de subnotifica\u00e7\u00e3o de acidentes de trabalho no setor pode passar de 90% a 95%, calcula o procurador Heiler Ivens de Souza Natali, coordenador nacional do Programa de Adequa\u00e7\u00e3o das Condi\u00e7\u00f5es de Trabalho nos Frigor\u00edficos. De acordo com Natali, o problema acaba sendo evidenciado com a atua\u00e7\u00e3o das for\u00e7as-tarefa que fazem inspe\u00e7\u00f5es nas unidades. Quando os fiscais descobrem afastamentos que podem ter ocorrido devido \u00e0 natureza da atividade e n\u00e3o foram comunicados, isso pode resultar em uma a\u00e7\u00e3o judicial, por exemplo. Por isso, os dados de comunicados de acidentes de trabalho segundo a Classifica\u00e7\u00e3o Nacional de Atividades Econ\u00f4micas (CNAE), divulgados pelo Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia Social, s\u00e3o apenas uma amostra do que ocorre de fato.<\/p>\n<p>Diante do enorme n\u00famero de problemas, Natali afirma que a JBS tem feito algumas mudan\u00e7as para diminuir a quantidade de acidentes de trabalho nos seus frigor\u00edficos. \u201cA JBS tem uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a que est\u00e1 tentando implementar. Isso \u00e9 verdade\u201d, afirma. \u201cS\u00f3 que h\u00e1 uma outra discuss\u00e3o: se essa pol\u00edtica est\u00e1 adequada e se ela est\u00e1 em vigor nas unidades do Brasil inteiro. E, para os dois questionamentos, a resposta, em princ\u00edpio, n\u00e3o \u00e9 afirmativa.\u201d A realidade n\u00e3o corresponde \u00e0s imagens mostradas na publicidade.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o torna-se ainda mais complicada por causa do modo como o grupo se expande no pa\u00eds. Em vez de comprar empresas saud\u00e1veis e lucrativas, a JBS prefere adquirir frigor\u00edficos altamente endividados. \u201cConsiderada a pol\u00edtica de aquisi\u00e7\u00f5es da JBS, que n\u00e3o parece levar em considera\u00e7\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es de trabalho oferecidas pela empresa que est\u00e1 sendo adquirida, imaginamos que o reflexo disso seja a exist\u00eancia de um n\u00famero de unidades com elevado n\u00edvel de viola\u00e7\u00f5es de direitos trabalhistas\u201d, afirma Natali. Segundo o procurador, isso resultar\u00e1, mais tarde, em um cen\u00e1rio litigioso.<\/p>\n<p>A P\u00fablica procurou a JBS para saber por que o n\u00famero de acidentes de trabalho nas unidades da empresa \u00e9 t\u00e3o elevado. Perguntamos tamb\u00e9m que tipos de medidas v\u00eam sendo tomadas para diminuir esse tipo de ocorr\u00eancia e quanto do faturamento tem sido investido em programas de preven\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o de acidentes nos \u00faltimos anos. Questionamos ainda por que interdi\u00e7\u00f5es de m\u00e1quinas e condena\u00e7\u00f5es judiciais s\u00e3o t\u00e3o frequentes nas unidades do grupo. A JBS n\u00e3o se manifestou at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n<p><strong>Um v\u00eddeo inc\u00f4modo<\/strong><\/p>\n<p>Um dos atritos mais recentes entre os sindicatos e a JBS \u00e9 a quest\u00e3o do plano de sa\u00fade. Nas unidades de Forquilhinha (SC) e Nova Veneza (PR), a empresa reajustou o valor do plano individual e tentou cobrar uma taxa adicional de R$ 104 para cada dependente. Isso aumentaria o impacto no contracheque dos funcion\u00e1rios. Como os sal\u00e1rios giram em torno de R$ 1.000, abatimentos extras poderiam inviabilizar a ado\u00e7\u00e3o do benef\u00edcio. Em outros locais, como os frigor\u00edficos de abate de bovinos, os trabalhadores n\u00e3o t\u00eam plano e a empresa n\u00e3o queria conced\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Como o grupo se recusava a negociar, a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores na Alimenta\u00e7\u00e3o (Contac\/CUT) produziu um v\u00eddeo em que denunciava o problema e publicou o conte\u00fado no YouTube, em fevereiro deste ano. O filme, de pouco mais de um minuto, foi inspirado nas propagandas da JBS e recebeu legendas em ingl\u00eas. Uma consumidora chega ao a\u00e7ougue e pede a carne \u201cdaquele ator famoso\u201d. O atendente, ent\u00e3o, fala sobre o reajuste do plano de sa\u00fade. Assustada, a cliente decide adquirir outro produto.<\/p>\n<p>A Contac tamb\u00e9m convocou uma manifesta\u00e7\u00e3o na Avenida Paulista, em S\u00e3o Paulo, para denunciar as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho nos frigor\u00edficos do grupo. Foi o que bastou para a JBS criar uma mesa de negocia\u00e7\u00f5es com os sindicalistas. A primeira reuni\u00e3o ocorreu em 12 de mar\u00e7o, dia do protesto, que acabou desmarcado. \u201cA empresa passou a dialogar com a gente\u201d, afirma Wagner do Nascimento Rodrigues, secret\u00e1rio-geral da FTIAPR. \u201cInfelizmente o di\u00e1logo ainda n\u00e3o gerou como fruto a solu\u00e7\u00e3o de problemas.\u201d<\/p>\n<p>Os encontros com os sindicalistas t\u00eam ocorrido uma vez por m\u00eas, em m\u00e9dia, desde mar\u00e7o. Outras quest\u00f5es trabalhistas tamb\u00e9m s\u00e3o debatidas com Wesley Batista, presidente executivo da JBS, como a ado\u00e7\u00e3o de um piso salarial unificado para os funcion\u00e1rios em todo o pa\u00eds. \u201cIniciamos uma pauta nacional\u201d, diz Siderlei de Oliveira, presidente da Contac. \u201cJ\u00e1 come\u00e7amos a discutir o plano de sa\u00fade. Vamos ver se avan\u00e7amos mais a\u00ed. Pelo menos mudou esse aspecto de rela\u00e7\u00e3o sindical, que n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos h\u00e1 anos.\u201d<\/p>\n<p>Fonte: Ag\u00eancia P\u00fablica<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nos comerciais da Friboi na TV, o roteiro se repete. 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