{"id":8603,"date":"2015-06-13T23:33:22","date_gmt":"2015-06-14T02:33:22","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=8603"},"modified":"2015-06-28T15:49:14","modified_gmt":"2015-06-28T18:49:14","slug":"carta-da-prisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8603","title":{"rendered":"Carta da pris\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/obeissancemorte.files.wordpress.com\/2015\/06\/mideast-israel-palest_horo-4.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>por Khalida Jarrar*<\/p>\n<p>O texto que se segue \u00e9 de Khalida Jarrar, prisioneira palestiniana detida por Israel desde o passado dia 2 de Abril de 2015. Escreveu esta carta na pris\u00e3o no dia 2 de Junho de 2015.<!--more--><\/p>\n<p>No dia 20 de Agosto de 2014, as for\u00e7as armadas israelitas entraram na sua casa, em Ramallah, para lhe dar a ordem de ex\u00edlio na cidade de Jeric\u00f3, com a interdi\u00e7\u00e3o de sair durante um per\u00edodo de seis meses. Khalida recusou e montou um acampamento de protesto \u00e0 frente do Conselho Legislativo Palestiniano, em Ramallah. A sua luta, nesse momento, foi vitoriosa. A 2 de Abril de 2015, mais de 60 soldados israelitas atacaram novamente a sua casa e detiveram-na. Foi-lhe ordenada deten\u00e7\u00e3o administrativa com 12 processos de culpa, nomeadamente o de pertencer a uma organiza\u00e7\u00e3o ilegal e de participar em manifesta\u00e7\u00f5es. Interrogada no centro de deten\u00e7\u00e3o de OFER (Cisjord\u00e2nia), foi em seguida levada para a pris\u00e3o de Hasharon, na Palestina Ocupada.<\/p>\n<p><b>&#8220;Envio-vos esta mensagem da pris\u00e3o, quando ainda n\u00e3o sei qual ser\u00e1 o meu destino,<\/b><\/p>\n<p><b>quando ainda n\u00e3o sei quanto tempo vou passar nesta pris\u00e3o suja que n\u00e3o \u00e9 feita para seres humanos, <\/b><\/p>\n<p><b>ainda n\u00e3o sei se encontrarei um m\u00e9dico digno desse t\u00edtulo se ficar doente,<\/b><\/p>\n<p><b>n\u00e3o sei se a comida que me d\u00e3o \u00e9 polu\u00edda ou se a \u00e1gua n\u00e3o est\u00e1 envenenada, <\/b><\/p>\n<p><b>n\u00e3o sei quando \u00e9 que o meu carrasco vai investir a minha cela para me impedir de dormir e violar a minha intimidade.<\/b><\/p>\n<p><b> N\u00e3o sei quando \u00e9 que vou poder agarrar os meus filhos, Yafa e Suha, nos meus bra\u00e7os, <\/b><\/p>\n<p><b>n\u00e3o sei quando \u00e9 que vou ver o meu marido ou abra\u00e7ar os meus pais.<\/b><\/p>\n<p><strong>Sei que para tudo isto preciso de v\u00f3s, de cada voz livre neste mundo, para que ele repita com o meu povo e eu pr\u00f3pria: Abaixo a ocupa\u00e7\u00e3o, viva o povo da Palestina Livre.<\/strong>\u201d<\/p>\n<p>\u201cNunca deixei de falar na causa dos prisioneiros pol\u00edticos: o n\u00famero, as condi\u00e7\u00f5es de deten\u00e7\u00e3o, das estat\u00edsticas e percentagens\u2026 eu falo de um milh\u00e3o de palestinianos que passaram pelas pris\u00f5es israelitas desde 1967 \u2013 este n\u00famero significa que um em cada quatro palestinianos esteve detido pelo menos uma vez na sua vida. Falo das centenas de mulheres que foram detidas. Falo tamb\u00e9m dos milhares de crian\u00e7as que foram presas numa viola\u00e7\u00e3o constante a todas as leis e conven\u00e7\u00f5es internacionais. Neste mesmo instante, 240 crian\u00e7as est\u00e3o na pris\u00e3o entre os 11000 prisioneiros palestinianos. Entre estes existem doentes graves e sem acesso a tratamento, o que significa uma condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte. Alguns deles s\u00e3o pessoas com uma idade bastante avan\u00e7ada. H\u00e1 tamb\u00e9m cerca de 600 prisioneiros, sem ter o n\u00famero exacto \u00e0 m\u00e3o, que passam por per\u00edodos de deten\u00e7\u00e3o administrativa sem nenhuma justifica\u00e7\u00e3o jur\u00eddica ou acusa\u00e7\u00e3o, exceptuando a utiliza\u00e7\u00e3o de um decreto militar brit\u00e2nico que data da coloniza\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica na Palestina h\u00e1 70 anos, sincronizada com o fim da \u00e9poca Nazi, o que nos reenvia infelizmente \u00e0quilo que eu descrevo da nossa \u00e9poca. H\u00e1 9 anos que ocupo o lugar de Presidente da comiss\u00e3o dos prisioneiros palestinianos nas pris\u00f5es israelitas, como deputada eleita pelo povo palestiniano em luta pela sua liberta\u00e7\u00e3o. Fui durante 13 anos a Directora Geral da Associa\u00e7\u00e3o Addameer pelos direitos dos palestinianos e direitos humanos, uma das associa\u00e7\u00f5es mais importantes que tem por miss\u00e3o a defesa dos prisioneiros. Isto significa que consagrei os \u00faltimos vinte anos da minha vida a trabalhar na defesa dos prisioneiros da Palestina nas pris\u00f5es do colonizador e no seu combate por uma liberdade que lhes foi roubada por uma das \u00faltimas ocupa\u00e7\u00f5es coloniais que resta no nosso planeta.<\/p>\n<p>Durante todos estes anos, e em particular desde a minha elei\u00e7\u00e3o, onde me tornei representante dos palestinianos, defendi com toda a minha for\u00e7a os prisioneiros e o seu direito a lutar contra as condi\u00e7\u00f5es das deten\u00e7\u00f5es e os m\u00e9todos utilizados nos interrogat\u00f3rios, entre confid\u00eancias forjadas e falsas acusa\u00e7\u00f5es. Defendi os seus direitos a ter acesso a servi\u00e7os m\u00e9dicos, o direito \u00e0 vida e \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o s\u00e3o culpados de defender a liberdade do seu povo oprimido, uma ac\u00e7\u00e3o reconhecida por todas as leis internacionais e pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas, cujas leis e conven\u00e7\u00f5es deveriam aplicar-se a todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Sempre me enderecei aos povos de todo o mundo, pedi aos deputados, aos representantes dos governos e presidentes, para se meterem ao lado dos detidos palestinianos, ao lado daqueles que procuram justi\u00e7a, liberdade, valores e direitos humanos. Sempre exigi a condena\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o, a sua san\u00e7\u00e3o e o seu fim. Acredito que isto \u00e9 o nosso dever, \u00e9 o vosso dever tal como \u00e9 o nosso, n\u00f3s, os Palestinianos.<\/p>\n<p>Hoje, afirmo n\u00e3o ter mudado de ideias: as minhas posi\u00e7\u00f5es, as minhas convic\u00e7\u00f5es e as minhas vontades permanecem intactas, no entanto, o meu olhar \u00e9 diferente, observo a realidade de uma outra perspetiva, a partir da qual vejo as coisas mais claramente. <strong>Hoje, fa\u00e7o eu mesma parte das prisioneiras de que falei anteriormente, uma entre os 6000 prisioneiros, uma entre aqueles que sofrem a viol\u00eancia dos carrascos, que sofrem o peso da injusti\u00e7a a cada dia, a cada hora, a cada instante.<\/strong><\/p>\n<p>Hoje, desde que fui detida na minha casa, em frente da minha fam\u00edlia e do meu companheiro, fui privada do meu dever de servir aqueles que me elegeram. Hoje, sofri eu pr\u00f3pria as t\u00e9cnicas dos soldados dos ocupantes, armados at\u00e9 aos cabelos, chegando \u00e0 minha casa, com toda a atrocidade, no meio da noite, algemando-me, tapando-me os olhos e conduzindo-me para um lugar que desconhe\u00e7o.<\/p>\n<p>Hoje fui informada que a minha deten\u00e7\u00e3o administrativa foi ordenada, uma deten\u00e7\u00e3o fundada sobre um decreto mais velho do que eu, um decreto que n\u00e3o se coaduna nem com a humanidade nem com a nossa \u00e9poca. Hoje o governo do ocupante tremeu depois de ter sofrido a press\u00e3o de pessoas livres de todo o mundo (condenando a minha deten\u00e7\u00e3o sem nenhuma acusa\u00e7\u00e3o). <strong>Mas isso n\u00e3o impede o ocupante com as suas leis racistas de me enviar diante um tribunal, que todos sabemos ileg\u00edtimo, diante ju\u00edzes que todos conhecemos a sua incompet\u00eancia, pois um carrasco nunca poder\u00e1 ser o juiz da sua v\u00edtima.<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo que consigamos encontrar erros nestas leis caducas, falta uma \u00faltima palavra, a do representante do ocupante, o procurador, uma vez que nenhuma autoridade est\u00e1 \u00e0 altura da coloniza\u00e7\u00e3o e das suas regras, o ocupante n\u00e3o respeita mesmo as sua pr\u00f3prias leis injustas e o seu sistema jur\u00eddico j\u00e1 implicado por si mesmo.<\/p>\n<p><strong>Isto \u00e9 para n\u00f3s o pre\u00e7o a pagar pela nossa liberta\u00e7\u00e3o, pela nossa dignidade e a do mundo inteiro. N\u00f3s ficamos mais fortes com a vossa solidariedade, n\u00f3s ficamos de p\u00e9 e continuamos a nossa luta enquanto ouvimos a vossa voz solid\u00e1ria com a nossa resist\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p>Envio-vos esta mensagem da pris\u00e3o, quando ainda n\u00e3o sei qual ser\u00e1 o meu destino, quando ainda n\u00e3o sei quanto tempo vou passar nesta pris\u00e3o suja que n\u00e3o \u00e9 feita para seres humanos, ainda n\u00e3o sei se encontrarei um m\u00e9dico digno desse t\u00edtulo se ficar doente, n\u00e3o sei se a comida que me d\u00e3o \u00e9 polu\u00edda ou se a \u00e1gua n\u00e3o est\u00e1 envenenada, n\u00e3o sei quando \u00e9 que o meu carrasco vai investir a minha cela para me impedir de dormir e violar a minha intimidade. N\u00e3o sei quando \u00e9 que vou poder agarrar os meus filhos, Yafa e Suha, nos meus bra\u00e7os, n\u00e3o sei quando \u00e9 que vou ver o meu marido ou abra\u00e7ar os meus pais.<strong>Sei que para tudo isto preciso de v\u00f3s, de cada voz livre neste mundo, para que ele repita com o meu povo e eu pr\u00f3pria: Abaixo a ocupa\u00e7\u00e3o, viva o povo da Palestina Livre.<\/strong>\u201d<\/p>\n<p>*Khalida Jarrar, 52 anos, \u00e9 militante feminista, dirigente do FPLP (Frente Popular de Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina), deputada do Conselho Legislativo Palestiniano.<\/p>\n<p>http:\/\/somostodospalestinos.blogspot.com.br\/2015\/06\/carta-da-prisao-por-khalida-jarrar.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Khalida Jarrar* O texto que se segue \u00e9 de Khalida Jarrar, prisioneira palestiniana detida por Israel desde o passado dia 2 de \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8603\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-8603","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2eL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8603","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8603"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8603\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8603"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8603"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8603"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}