{"id":8621,"date":"2015-06-16T12:33:49","date_gmt":"2015-06-16T15:33:49","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=8621"},"modified":"2015-07-08T18:14:17","modified_gmt":"2015-07-08T21:14:17","slug":"sai-da-concha-e-mostra-toda-a-tua-garra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8621","title":{"rendered":"Sai da concha e mostra toda a tua garra"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh4.googleusercontent.com\/-opy22Rji4sg\/VYBEcTTze7I\/AAAAAAAAKfk\/oAjNjvGZDOo\/w853-h473-no\/russia70.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><em>(Falsa Tartaruga, personagem de Alice no Pa\u00eds das Maravilhas, de Lewis Carroll)<\/em><\/p>\n<p>Jacques Gruman<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=53DyhoxqB48\" target=\"_blank\">Um filmete gravado na pra\u00e7a Vermelha, em Moscou, registrou a celebra\u00e7\u00e3o pelo 70\u00ba anivers\u00e1rio do fim da Segunda Guerra Mundial(1)<\/a>. As l\u00e1grimas do p\u00fablico simbolizam o que significou a invas\u00e3o nazista na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Dezenas de milh\u00f5es de mortos (os eslavos estavam numa das escalas mais <!--more-->baixas dos dogmas raciais do nacional-socialismo), milhares de cidades e aldeias varridas do mapa, escraviza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de cidad\u00e3os sovi\u00e9ticos para trabalharem nos projetos megaloman\u00edacos em Berlim, assassinato sistem\u00e1tico de quadros do Partido Comunista, exterm\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o judaica. Hitler planejava transformar Moscou numa grande represa. Apesar das condi\u00e7\u00f5es extremamente adversas, foi em territ\u00f3rio sovi\u00e9tico que come\u00e7ou a grande rea\u00e7\u00e3o que terminou com a derrota do nazifascismo. Stalingrado ainda vibra nos cora\u00e7\u00f5es de quem n\u00e3o se rendeu ao revisionismo hist\u00f3rico, que canoniza l\u00edderes ocidentais que flertaram com o nazismo antes da guerra e omite o papel decisivo do Ex\u00e9rcito Vermelho. A bandeira vermelha tremulando sobre as ru\u00ednas do Reichstag \u00e9 uma imagens mais fortes do s\u00e9culo vinte.<\/p>\n<p>Olhando o espet\u00e1culo belo e majestoso representado na pra\u00e7a Vermelha, pensei como cada gera\u00e7\u00e3o paga tributo por refer\u00eancias espectrais. Se cruz\u00e1ssemos com um irland\u00eas no s\u00e9culo dezenove, estaria na ponta da l\u00edngua a chamada Grande Fome, que enxotou centenas de milhares de compatriotas para fora do pa\u00eds e matou outros tantos. Um pa\u00eds miser\u00e1vel, superpovoado, fortemente dependente da produ\u00e7\u00e3o de batatas, foi dizimado por um fungo que eliminou a fonte de renda e sustento de boa parte da popula\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o se apaga quando morre o \u00faltimo faminto. J\u00e1 um bessarabiano, no imediato pr\u00e9-Primeira Guerra Mundial, devia estar pensando nos destinos poss\u00edveis para fugir da mis\u00e9ria cr\u00f4nica. Levas pegavam navios para testar o Sonho Americano. Era, por exemplo, o que aconteceria com meu av\u00f4 paterno, caso n\u00e3o tivesse tido uma emerg\u00eancia ocular de \u00faltima hora, que o impediu de embarcar. Ativou o plano B e foi dar nas costas baianas. O resto \u00e9 (a minha) hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A Segunda Guerra Mundial teve dimens\u00e3o tamanha que vazou para mais de uma gera\u00e7\u00e3o. At\u00e9 hoje continua a busca por imagens e narrativas que se incorporem \u00e0 j\u00e1 monumental produ\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica, cinematogr\u00e1fica, ficcional, acad\u00eamica e documental da \u00e9poca. A impress\u00e3o que tenho \u00e9 de que essa pesquisa n\u00e3o cessar\u00e1 t\u00e3o cedo. S\u00e3o tantos os fantasmas que assombram sobreviventes e seus descendentes, que h\u00e1 uma corrida recorrente em busca da mem\u00f3ria e de sua preserva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o esquecer virou um imperativo. N\u00e3o faz muito, foi exibido um document\u00e1rio sobre como os nazistas lidaram com a m\u00fasica de F\u00e9lix Mendelssohn. Se o espectador se abstrair da \u00e9poca abordada, a obra parece descrever uma fic\u00e7\u00e3o monstruosa. Mendelssohn foi um judeu alem\u00e3o de fam\u00edlia pr\u00f3spera. Integrado \u00e0 sociedade alem\u00e3 do s\u00e9culo dezenove, converteu-se ao cristianismo para furar o bloqueio cultural e social que persistia contra os judeus. Acrescentou o sobrenome Bartholdy e comp\u00f4s algumas das mais populares pe\u00e7as cl\u00e1ssicas de seu per\u00edodo. A Marcha Nupcial ainda \u00e9 executada em casamentos. Pois bem, os nazistas tiveram que enfrentar um dilema. Por seus padr\u00f5es, F\u00e9lix era judeu e, como tal, sua m\u00fasica n\u00e3o podia \u201ccontaminar os puros ouvidos arianos\u201d. Sua obra foi proibida nos concertos das grandes salas alem\u00e3s. No entanto, como eliminar da tradi\u00e7\u00e3o musical um compositor de t\u00e3o forte raiz local ? A verdade \u00e9 que tentaram, mas n\u00e3o conseguiram. Quer na clandestinidade (o maestro Kurt Masur conta que aprendia piano com as janelas fechadas, pois seu professor trazia partituras de Mendelssohn e execut\u00e1-las podia dar cadeia), quer na impossibilidade de encontrar um substituto \u00e0 altura (tentaram, em 44 inacredit\u00e1veis vezes, alternativas para a Marcha Nupcial nas apresenta\u00e7\u00f5es shakespeareanas dos Sonhos de uma noite de ver\u00e3o; tudo em v\u00e3o, o p\u00fablico recha\u00e7ava). Mais uma bela hist\u00f3ria de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Acho que minha gera\u00e7\u00e3o convive com dois espectros. O primeiro \u00e9 generoso, fraterno. Foi bem resumido pela intelectual argentina Beatriz Sarlo, que est\u00e1 lan\u00e7ando o livro <em>Viagens \u2013 Da Amaz\u00f4nia \u00e0s Malvinas<\/em>. As primeiras resenhas falam do despojamento de um grupo de amigos argentinos, que, nos anos 60, viajaram pela Am\u00e9rica Latina, travando contato com popula\u00e7\u00f5es secularmente exploradas, com culturas ignoradas, com um \u00edmpeto revolucion\u00e1rio que parecia invenc\u00edvel. \u201cConhecemos uma Am\u00e9rica Latina \u00e9pica, muito diferente da que existe hoje\u201d, diz Sarlo. \u201c\u00c9ramos populistas sentimentais\u201d, acrescenta, com boa dose de humor e, diria eu, de rigor portenho. A narrativa faz lembrar as viagens de motocicleta do Che Guevara na d\u00e9cada anterior. Era uma juventude em busca de uma utopia constru\u00edda a partir das popula\u00e7\u00f5es exploradas e exclu\u00eddas. Dos invis\u00edveis na Hist\u00f3ria oficial. Onde estar\u00e1 este sonho ?<\/p>\n<p>O segundo foi verde-oliva. O golpe de 1964, mais do que abortar um programa de reformas, reduziu drasticamente a participa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica no cotidiano. As consequ\u00eancias ainda est\u00e3o por a\u00ed. A trucul\u00eancia produziu tortura, desterro, mentiras, morte. Os \u201crevolucion\u00e1rios\u201d de fancaria insistem em negar a pr\u00e1tica sistem\u00e1tica de torturas. Calam-se sobre a colabora\u00e7\u00e3o entre as ditaduras irm\u00e3s, que constituiuuma multinacional do terror. Boicotaram o trabalho das Comiss\u00f5es da Verdade. Pensam que cinco d\u00e9cadas \u00e9 uma eternidade, suficiente para jogar uma p\u00e1 de cal no \u201cpassado\u201d. O general Leonidas Pires Gon\u00e7alves morreu no dia 4 passado. Foi saudado por Sarney como um grande homem. Certa vez, falando sobre a ditadura, a quem serviu fielmente, o militar sentenciou: \u201cN\u00e3o entendo porqu\u00ea se discute tanto uma coisa do passado, h\u00e1 50 anos. Voc\u00ea quer parar o pa\u00eds por causa de quatro, cinco mortos ? Eles ganharam no tapet\u00e3o. N\u00e3o querem falar da subvers\u00e3o de esquerda\u201d. Infelizmente, os que \u201cganharam no tapet\u00e3o\u201d ainda choram mortos sem corpos, tratam de feridas que teimam em n\u00e3o cicatrizar. A sociedade brasileira tem mem\u00f3ria curta. As conclus\u00f5es da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade provocaram impacto durante n\u00e3o mais do que um m\u00eas. C\u00f3pias do relat\u00f3rio final j\u00e1 devem estar cobertas por uma fina camada de p\u00f3. Vit\u00f3ria p\u00f3stuma do general Leonidas e de todos os que, civis e militares, cultivaram o espectro da burocratiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, tra\u00edram o povo brasileiro, empurraram uma gera\u00e7\u00e3o para a apatia e o cinismo. Est\u00e1 dando um trabalh\u00e3o virar o jogo.<\/p>\n<p>1. https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=53DyhoxqB48<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"(Falsa Tartaruga, personagem de Alice no Pa\u00eds das Maravilhas, de Lewis Carroll) Jacques Gruman Um filmete gravado na pra\u00e7a Vermelha, em Moscou, registrou \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8621\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[74],"tags":[],"class_list":["post-8621","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c87-revolucao-russa"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2f3","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8621","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8621"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8621\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8621"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8621"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8621"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}