{"id":8634,"date":"2015-06-17T02:28:04","date_gmt":"2015-06-17T05:28:04","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=8634"},"modified":"2015-07-08T18:15:04","modified_gmt":"2015-07-08T21:15:04","slug":"no-para-indigenas-lutam-contra-vale","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8634","title":{"rendered":"No Par\u00e1, ind\u00edgenas lutam contra Vale"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm6.staticflickr.com\/5441\/18829924235_a388fbafa8_b.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>O Territ\u00f3rio Ind\u00edgena M\u00e3e Maria, no munic\u00edpio de Bom Jesus do Tocantins, \u00e9 um respiro de verde no Par\u00e1, estado que lidera o ranking de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/541952-desmatamento-aumentou-195-em-marco-de-2015\" target=\"_blank\">desmatamento da Amaz\u00f4nia Legal<\/a>, conforme os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Nele vivem tr\u00eas povos ind\u00edgenas \u2013 Gavi\u00e3o Akr\u00e3tikat\u00eaj\u00ea, Gavi\u00e3o Kykatej\u00ea e Gavi\u00e3o Parkat\u00eaj\u00ea \u2013 que somam pouco mais de 700 habitantes (Siasi\/Sesai 2013). <!--more-->Eles se dividem atualmente em nove aldeias, em uma \u00e1rea de 62 mil hectares de floresta preservada na regi\u00e3o sudeste do estado, pressionada h\u00e1 mais de 30 anos pela minera\u00e7\u00e3o e por obras de infraestrutura.<\/p>\n<p>A reportagem \u00e9 de Joana Zanotto, publicada pela Ag\u00eancia P\u00fablica, 12-06-2015.<\/p>\n<p>Os Parkat\u00eaj\u00ea s\u00e3o os mais numerosos entre os povos de M\u00e3e Maria, embora tenham perdido mais de 70% da popula\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o traum\u00e1tico contato com n\u00e3o ind\u00edgenas, ocorrido durante a d\u00e9cada de 1950. O territ\u00f3rio que habitam foi alvo dos projetos de integra\u00e7\u00e3o do governo militar. Hoje \u00e9 cortado pela rodovia BR-222, pela linha de transmiss\u00e3o de energia de Tucuru\u00ed, da Eletronorte, e pela estrada de ferro Caraj\u00e1s, alvo da batalha mais recente travada pelos Gavi\u00e3o \u2013 incluindo os Parkat\u00eaj\u00ea \u2013 com a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/541948-relatorio-denuncia-violacoes-de-direitos-humanos-e-ambientais-pela-vale\" target=\"_blank\">mineradora Vale<\/a> S.A.<\/p>\n<p>A ferrovia foi constru\u00edda no in\u00edcio dos anos 1980, durante o governo de Jo\u00e3o Figueiredo, \u00faltimo presidente da ditadura militar, e come\u00e7ou a operar em 1986, na transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica do pa\u00eds. Pertencia \u00e0 ent\u00e3o estatal Companhia Vale do Rio Doce, privatizada em 1997. O trilho de 892 quil\u00f4metros liga as minas da Floresta Nacional de Caraj\u00e1s (PA) ao terminal mar\u00edtimo de Ponta da Madeira, no Maranh\u00e3o, cortando terras ind\u00edgenas, quilombos e 22 unidades de conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O barulho, os atropelamentos, e os danos ambientais provocados pela estrada de ferro nas comunidades do entorno prometem aumentar. Em novembro de 2012, o Ibama concedeu Licen\u00e7a de Instala\u00e7\u00e3o (LI) para o projeto de expans\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o da Vale S.A. na Floresta Nacional de Caraj\u00e1s. Al\u00e9m da abertura de uma nova frente de extra\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio na floresta, o projeto prev\u00ea a duplica\u00e7\u00e3o de 786 quil\u00f4metros da via, em linha paralela \u00e0 existente. O objetivo \u00e9 ampliar a produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio de ferro escoada pela ferrovia, passando de 130 milh\u00f5es de toneladas\/ano para 230 milh\u00f5es de toneladas\/ano at\u00e9 2018 (veja <a href=\"http:\/\/www.apublica.org\/amazoniapublica\/corrida-do-ferro\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a> a s\u00e9rie sobre o tema no especial Amaz\u00f4nia P\u00fablica).<\/p>\n<p>As obras em terras ind\u00edgenas s\u00e3o submetidas \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, e por isso a LI 895\/2012, concedida pelo Ibama para a duplica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o contemplava os trechos em que a ferrovia atravessa o territ\u00f3rio M\u00e3e Car\u00fa, no Maranh\u00e3o, e o M\u00e3e Maria. Exige-se antes a aprova\u00e7\u00e3o do Estudo e Relat\u00f3rio de Impacto Ambiental (EIA-Rima ) e do Estudo de Componente Ind\u00edgena pelas comunidades atingidas, em um processo intermediado pela Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai). A partir desse ponto, \u00e9 elaborado o Plano B\u00e1sico Ambiental, em conjunto aos ind\u00edgenas, com a especifica\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es mitigat\u00f3rias de redu\u00e7\u00e3o de impacto, condi\u00e7\u00e3o para que a licen\u00e7a seja retificada e as obras em trechos condicionados, liberada.<\/p>\n<p>A LI 895\/2012 foi retificada duas vezes. Na \u00faltima, datada de 4 de dezembro (<a href=\"https:\/\/www.dropbox.com\/s\/cjcrjeslg102o9i\/LI%20895-2012%20-%20retificada%20em%20dez2014.pdf?dl=0\" target=\"_blank\">confira o documento na \u00edntegra<\/a>), os trabalhos em M\u00e3e Car\u00fa foram autorizados. O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal do Maranh\u00e3o tenta sua anula\u00e7\u00e3o. J\u00e1 em M\u00e3e Maria, ainda se espera a manifesta\u00e7\u00e3o definitiva da Funai.<\/p>\n<p>No in\u00edcio deste ano as desaven\u00e7as aumentaram. A companhia rescindiu o Conv\u00eanio n\u00ba 0333\/90 firmado entre os Parkat\u00eaj\u00ea e a mineradora \u2013 na \u00e9poca, estatal CVRD \u2013 em 1990 e estendido aos demais povos Gavi\u00e3o \u00e0 medida que estes se dividiam em novas aldeias, em busca de autonomia. O conv\u00eanio, de prazo indeterminado, garantia aos ind\u00edgenas assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, fomento a atividades produtivas, vigil\u00e2ncia e prote\u00e7\u00e3o territorial. Para cumprir suas obriga\u00e7\u00f5es, eram acordados termos de compromisso, com tempo de vig\u00eancia estipulado, estabelecendo-se o valor dos repasses financeiros, renovados geralmente a cada cinco anos. A assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade era garantida pelo Plano de Assist\u00eancia \u00e0 Sa\u00fade do Aposentado da Vale (Pasa).<\/p>\n<p>Com a expira\u00e7\u00e3o dos termos de compromisso prevista para janeiro, desde novembro passado a ValeS.A. passou a negociar com os Gavi\u00e3o a assinatura de novos termos. Numa reuni\u00e3o no dia 25 de fevereiro entre as comunidades e a empresa, intermediada por assessoria jur\u00eddica dos ind\u00edgenas, a posi\u00e7\u00e3o da mineradora foi manter os repasses de custeio mensais ajustados pelo IPCA, sem aporte financeiro para demais projetos.<\/p>\n<p>Insatisfeitos, os Parkat\u00eaj\u00ea e os Akr\u00e3kapr\u00eakti ocuparam o leito da ferrovia como protesto. O advogado Anderson Costa Martinez, da assessoria jur\u00eddica do povo Parkat\u00eaj\u00ea, diz que n\u00e3o houve fechamento da estrada, apenas uma movimenta\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/521718-indios-bloqueiam-a-estrada-de-ferro-carajas\" target=\"_blank\">manifesta\u00e7\u00f5es desse tipo<\/a> ocorrem; em 2003, a a\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas chegou a ser reprimida com viol\u00eancia por tropas da Pol\u00edcia Federal.<\/p>\n<p>A resposta da Vale S.A.: benef\u00edcios suspensos<\/p>\n<p>Como resposta, a ValeS.A. rescindiu o conv\u00eanio e interrompeu o pagamento do termo de compromisso, expirado em janeiro, al\u00e9m de cancelar a assist\u00eancia de sa\u00fade. Segundo Luana Andrade, a empresa n\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o legal de manter o conv\u00eanio, e a atitude dos ind\u00edgenas fez com que os denunciasse por \u201cjusta causa\u201d, porquanto o fechamento da estrada envolve \u201cquest\u00e3o de seguran\u00e7a operacional com pessoas na faixa\u201d. \u201cUma locomotiva n\u00e3o freia de uma hora pra outra\u201d, diz a gerente da Vale.<\/p>\n<p>A procuradora da Rep\u00fablica Andrea Costa de Brito discorda da posi\u00e7\u00e3o da companhia. Segundo ela, \u201cos acordos firmados com a ValeS.A., ao contr\u00e1rio do que a empresa sustenta, no sentido de que seria mera liberalidade, decorre de previs\u00e3o contida no artigo 231, \u00a73\u00ba da CF-88. Pode-se afirmar que a nova Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 tornou verdadeira obriga\u00e7\u00e3o, portanto, imposi\u00e7\u00e3o. Risco de parar de efetuar repasses sempre h\u00e1, mas, certamente, caso a explora\u00e7\u00e3o das terras persista, iria flagrantemente contra a lei.\u201d<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal deu in\u00edcio a uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica, requerendo no in\u00edcio de mar\u00e7o que a Vale S.A. fosse \u201cimediatamente compelida a sustar toda e qualquer determina\u00e7\u00e3o de suspens\u00e3o do atendimento aos ind\u00edgenas \u00e0s empresas prestadoras de servi\u00e7o, restabelecendo-se imediatamente o plano de sa\u00fade dos ind\u00edgenas Gavi\u00e3o, devendo, tamb\u00e9m, ser impedida de proceder a novas suspens\u00f5es\u201d. Na a\u00e7\u00e3o afirma-se que a \u201csitua\u00e7\u00e3o n\u00e3o configura justa causa para a rescis\u00e3o do conv\u00eanio, o qual, frise-se, n\u00e3o se consubstancia em mera liberalidade por parte da requerida, mas se trata, sim, de obriga\u00e7\u00f5es assumidas em contrapartida \u00e0 concess\u00e3o de direito real de uso da Terra Ind\u00edgena M\u00e3e Maria\u201d.<\/p>\n<p>A procuradora da Rep\u00fablica Lilian Miranda Machado ainda atesta na a\u00e7\u00e3o que \u201cafirmou a Vale S\/A no Of\u00edcio encaminhado \u00e0s comunidades e a este \u00d3rg\u00e3o que teria havido a interdi\u00e7\u00e3o da Estrada de Ferro Caraj\u00e1s. Ocorre que a pr\u00f3pria empresa ajuizou uma a\u00e7\u00e3o de interdito proibit\u00f3rio e n\u00e3o de reintegra\u00e7\u00e3o de posse, o que demonstra que interdi\u00e7\u00e3o ou ocupa\u00e7\u00e3o por parte dos ind\u00edgenas n\u00e3o ocorreu. Desde j\u00e1 fica evidenciada a m\u00e1-f\u00e9 da ValeS\/A no trato com os ind\u00edgenas, afirmando situa\u00e7\u00e3o que sabe n\u00e3o ter ocorrido. N\u00e3o \u00e9 demais frisar que, conforme certificado por oficial de justi\u00e7a no bojo da a\u00e7\u00e3o de interdito proibit\u00f3rio ajuizada pela requerida, n\u00e3o houve interrup\u00e7\u00e3o, e nem haveria, no tr\u00e2nsito de locomotivas na linha f\u00e9rrea. N\u00e3o houve, assim, nenhuma amea\u00e7a e, muito menos, foi colocada em risco a seguran\u00e7a e a vida dos usu\u00e1rios do trem de passageiros, funcion\u00e1rios e dos pr\u00f3prios ind\u00edgenas\u201d.<\/p>\n<p>Em abril, a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/516460-por-que-a-vale-foi-eleita-a-pior-empresa-do-mundo\" target=\"_blank\">mineradora<\/a> voltou a disponibilizar \u00e0s comunidades o plano de sa\u00fade em sua integralidade ap\u00f3s a recomenda\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal. No mesmo m\u00eas, os Parkat\u00eaj\u00ea assinaram novo termo de compromisso, com tempo delimitado de vig\u00eancia, sem reatar o conv\u00eanio. O novo valor de custeio mensal \u00e9 de R$ 547 mil, at\u00e9 janeiro era de R$ 639 mil. Dos nove grupos de M\u00e3e Maria, tr\u00eas continuam sem receber o termo de compromisso: os Kyikat\u00eaj\u00ea, os Koyakatie os Kri\u00e3mretij\u00ea.<\/p>\n<p>Segundo a advogada dos tr\u00eas povos, Cristiane Bline, a Vale S.A. condicionou o termo de compromisso \u00e0 retirada da a\u00e7\u00e3o judicial, movida por meio de sua assessoria jur\u00eddica, pedindo a retomada do conv\u00eanio. Os grupos alegam que n\u00e3o participaram da manifesta\u00e7\u00e3o de fevereiro e que, portanto, n\u00e3o deveriam perder o direito ao conv\u00eanio. Cristiane afirma que os \u00edndios est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es ruins, com pessoas passando fome e sob fortes amea\u00e7as dos fornecedores de alimentos, a quem devem dinheiro.<\/p>\n<p>No dia 18 de abril, a pedido da mineradora, foi expedido mandado de reintegra\u00e7\u00e3o de posse pelo juiz federal da 2\u00aa vara, Bruno Teixeira de Castro, sob alega\u00e7\u00e3o de fechamento da ferrovia pelos Kyikat\u00eaj\u00ea, Koyakati e Kri\u00e3mretij\u00ea. O documento afirma que \u201ca conduta dos ind\u00edgenas possui um desvalor gigante, que beira os limites do ardil, da torpeza e da vilania\u201d. Ainda diz que eles \u201cbuscaram, por meio da for\u00e7a, da viol\u00eancia e da anarquia, impor seus interesses\u201d.<\/p>\n<p>No dia seguinte, de acordo com uma certid\u00e3o expedida pela oficial de Justi\u00e7a Maria Jos\u00e9 de Freitas, os representantes dos tr\u00eas povos foram \u00e0 Pol\u00edcia Federal, acompanhados da Funai, do antrop\u00f3logo do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e da advogada Cristiane e \u201calegaram todos, n\u00e3o terem os ind\u00edgenas, esbulhado ou turbado a estrada de ferro e sua \u00e1rea de dom\u00ednio, tendo realizado t\u00e3o somente manifesta\u00e7\u00e3o pac\u00edfica, sem impedir a passagem de qualquer composi\u00e7\u00e3o da Vale\u201d. O documento prossegue: \u201cDeclarou o Delegado Viana, ap\u00f3s o sobrevoo da \u00e1rea com a Pol\u00edcia Militar, que n\u00e3o havia obstru\u00e7\u00e3o da ferrovia, nem presen\u00e7a de ind\u00edgenas no local indicado pela Vale, tendo a composi\u00e7\u00e3o seguido normalmente pelos trilhos da ferrovia, sendo desnecess\u00e1rio disponibiliza\u00e7\u00e3o de efetivo policial \u00e0 reintegra\u00e7\u00e3o\u201d. Os tr\u00eas grupos continuam sem receber o custeio mensal repassado pela mineradora.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/531349-30-anos-de-terra-arrasada-no-territorio-de-carajas\" target=\"_blank\">Na terra de M\u00e3e Maria<\/a><\/p>\n<p>Os Parkat\u00eaj\u00ea sempre lutaram contra a tutela do Estado, exigindo autonomia para gerir seu territ\u00f3rio e negociar compensa\u00e7\u00f5es por conta pr\u00f3pria. Hoje, duas aldeias distantes quatro quil\u00f4metros uma da outra formam o lar dos 422 ind\u00edgenas. A aldeia do \u201cTrinta\u201d e o \u201cNeg\u00e3o\u201d t\u00eam casas de alvenaria, escola, campinhos de futebol, enfermaria, igreja e uma sede para a associa\u00e7\u00e3o administrativa do povo. O port\u00e3o de entrada \u00e9 guardado por tr\u00eas ind\u00edgenas da Guarda Florestal \u2013 da pr\u00f3pria comunidade \u2013, que impedem a entrada de bebidas alco\u00f3licas e exigem a identidade de quem entra. A ferrovia atravessa toda a parte sul do territ\u00f3rio, a menos de dez quil\u00f4metros de uma das aldeias, em \u00e1rea concedida pela Uni\u00e3o para o empreendimento.<\/p>\n<p>Embora sejam conhecidos como \u201cGavi\u00e3o\u201d, a alcunha que receberam dos moradores da cidade, que os temiam, os ind\u00edgenas se autodenominam Parket\u00eaj\u00ea. Mais tarde eles provariam coragem ao enfrentar a invas\u00e3o de seu territ\u00f3rio, cortado pelo rio Tucuru\u00ed e modificado pela barragem e a linha de energia da Eletrobras j\u00e1 na inaugura\u00e7\u00e3o do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/530505-o-que-significou-para-a-regiao-e-a-quem-beneficiou-o-programa-grande-carajas-30-depois-de-sua-implantacao-na-regiao-amazonica\" target=\"_blank\">Programa Grande Caraj\u00e1s<\/a>, em 1976. A antrop\u00f3loga Iara Ferraz, que auxiliou os \u00edndios nas conversa\u00e7\u00f5es com o governo e seus representantes, relatou na sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado para a USP, escrita em 1984, que \u201cem abril de 1980, os presidentes da FUNAI e da Eletronorte estiveram na aldeia do \u2018Trinta\u2019 e, nessa ocasi\u00e3o, apresentaram amea\u00e7as expl\u00edcitas de interven\u00e7\u00e3o militar naquele territ\u00f3rio, caso os componentes do grupo n\u00e3o aceitassem uma contraproposta de indeniza\u00e7\u00e3o\u201d. Segundo a antrop\u00f3loga, em \u201cmaio de 1980, o representante tutelar regional esteve no M\u00e3e Maria para convenc\u00ea-los a aceitar a indeniza\u00e7\u00e3o, enfatizando a possibilidade de interven\u00e7\u00e3o militar na \u00e1rea\u201d.<\/p>\n<p>Dois anos depois, em 1982, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) firmou um acordo de cinco anos com os Parkat\u00eaj\u00ea. O Banco Mundial, financiador do Projeto Grande Caraj\u00e1s, determinou que os recursos financeiros, ent\u00e3o advindos de um conv\u00eanio assinado entre a Funai e a CVRD, fossem destinados a \u201cprojetos de apoio\u201d aos ind\u00edgenas afetados pela ferrovia. Foi por meio desse conv\u00eanio que, em 1984, os ind\u00edgenas receberam uma indeniza\u00e7\u00e3o de 56 milh\u00f5es de cruzeiros \u2013 U$$ 1 milh\u00e3o \u2013 quando a estrada de ferro Caraj\u00e1s come\u00e7ou a ser constru\u00edda. Desde o in\u00edcio, por\u00e9m, os Parkat\u00eaj\u00ea demonstraram vontade de dispor de modo aut\u00f4nomo desses recursos, sem a intermedia\u00e7\u00e3o da Funai. Segundo Iara, \u201cas negocia\u00e7\u00f5es para o pagamento dessa indeniza\u00e7\u00e3o verificaram-se de forma precipitada e sob intensa press\u00e3o sobre \u2018Cotia\u2019 e \u2018Krohokrenhum\u2019, principalmente (os representantes da \u2018comunidade\u2019), exercida pelos agentes da empresa estatal respons\u00e1vel pelo empreendimento\u201d.<\/p>\n<p>Os Parkat\u00eaj\u00ea, por\u00e9m, continuaram lutando pelo direito de administrar o territ\u00f3rio e o dinheiro advindo das compensa\u00e7\u00f5es pelo seu uso. J\u00f3axarare, o \u201cradialista\u201d da aldeia, que faz a comunica\u00e7\u00e3o entre os ind\u00edgenas pelo alto-falante \u201cBoc\u00e3o\u201d, ainda lembra bem o dia em que eles fecharam a ferrovia para exigir o fim da intermedia\u00e7\u00e3o da Funai. Ele conta que veio gente de todo o Brasil, inclusive a imprensa, para acompanhar as manifesta\u00e7\u00f5es. O objetivo se concretizou s\u00f3 em 1999, depois da privatiza\u00e7\u00e3o da Vale, com a cria\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Ind\u00edgena Parkat\u00eaj\u00ea Amjip TarKaxuwa. \u201cAs coisas melhorou porque fomos pra Bras\u00edlia e fomos brigar pelo que queremos. O dinheiro da Vale e a terra \u00e9 nossa. Se n\u00e3o fizer pra n\u00f3s, n\u00e3o passa.\u201d<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, o dinheiro repassado pela companhia \u00e9 depositado na conta banc\u00e1ria da associa\u00e7\u00e3o e administrado pelos ind\u00edgenas, que o distribuem entre investimentos em cultura, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, vigil\u00e2ncia, atividade produtiva e administra\u00e7\u00e3o. O destino dos recursos \u00e9 decidido em conjunto, mediante aprova\u00e7\u00e3o do cacique. Al\u00e9m dos investimentos coletivos, as fam\u00edlias recebem uma ajuda de custo proporcional ao n\u00famero de membros. \u00c9 poss\u00edvel verificar desigualdade social dentro da aldeia, impens\u00e1vel anos atr\u00e1s, que vem resultando em seguidas cis\u00f5es.<\/p>\n<p>Iara Ferraz, em artigo publicado neste ano, afirma que \u201ctodas estas cis\u00f5es espelham o descontentamento de seus integrantes com a gest\u00e3o dos recursos financeiros disponibilizados anualmente pela Vale; por outro lado, os termos de compromisso impostos pela empresa desde 2005 apenas em torno de valores monet\u00e1rios (e da\u00ed a mercantiliza\u00e7\u00e3o dessas rela\u00e7\u00f5es, aqui referida) consistem em um instrumento considerado insatisfat\u00f3rio pelos ind\u00edgenas, uma vez que provis\u00f3rio e impositivo de condi\u00e7\u00f5es inaceit\u00e1veis, dependendo de negocia\u00e7\u00f5es entre partes substancialmente desiguais\u201d.<\/p>\n<p>Respeitado dentro e fora da aldeia, o cacique Krohokrenhum \u00e9 o presidente da Associa\u00e7\u00e3o Ind\u00edgena Parkat\u00eaj\u00ea AmjipTar Kaxuwa desde sua funda\u00e7\u00e3o. Os outros representantes s\u00e3o votados de tr\u00eas em tr\u00eas anos, em elei\u00e7\u00e3o aberta a toda a comunidade. Eles se organizam em uma diretoria e um conselho formado por seis pessoas. Cada conselheiro eleito \u00e9 respons\u00e1vel por acompanhar um dos setores administrativos.<\/p>\n<p>Entre as realiza\u00e7\u00f5es da associa\u00e7\u00e3o est\u00e1 o fato de a maioria de seus representantes ter diploma de ensino superior e de incentivar os ind\u00edgenas a obter a forma\u00e7\u00e3o superior, utilizando-se das cotas para ind\u00edgenas nas universidades p\u00fablicas criadas em 2010. No setor de sa\u00fade, por exemplo, h\u00e1 tr\u00eas t\u00e9cnicas de enfermagem, dois agentes de saneamento e duas estudantes de medicina, todos ind\u00edgenas. Fabiano, \u00edndio Temb\u00e9 criado desde mo\u00e7o com os Parkat\u00eaj\u00ea, est\u00e1 na \u00faltima fase da gradua\u00e7\u00e3o, na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Par\u00e1 (Unifesspa). Ser\u00e1 o primeiro ind\u00edgena do pa\u00eds formado em Engenharia de Minas e Meio Ambiente. Kuia, o filho do cacique, tamb\u00e9m integra a gera\u00e7\u00e3o de \u00edndios universit\u00e1rios; \u00e9 estudante de direito.<\/p>\n<p>Munidos de suas tradi\u00e7\u00f5es culturais, em cont\u00ednua transforma\u00e7\u00e3o, da resist\u00eancia pol\u00edtica gerada pela luta por autonomia, e do conhecimento adquirido no mundo dos n\u00e3o ind\u00edgenas, os Parkat\u00eaj\u00ea se negam a aceitar passivamente a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/528743-ferrovia-e-mineracao-casamento-impotente-diante-da-pobreza-brasileira\" target=\"_blank\">duplica\u00e7\u00e3o da ferrovia<\/a>, que, na pr\u00e1tica, representa uma nova interfer\u00eancia em seu territ\u00f3rio e estilo de vida. A reportagem acompanhou uma assembleia realizada em 11 de agosto de 2014 na aldeia do \u201cTrinta\u201d para dar in\u00edcio ao ciclo de discuss\u00f5es sobre o empreendimento.<\/p>\n<p>Depois de ter ouvido atentamente a exposi\u00e7\u00e3o do Estudo de Componente Ind\u00edgena feita pelo advogado Anderson Costa Martinez, Iracema, a filha primog\u00eanita do cacique, levantou-se da cadeira em um pulo, encheu o pulm\u00e3o e bradou com dedo em riste: \u201cT\u00e1 na hora de n\u00f3is acord\u00e1. Tenho certeza que n\u00e3o t\u00e1 escrito que tipo de doen\u00e7a vai surgi, se tem escola pra n\u00f3s. A Vale nenhum momento pensa na nossa comunidade. N\u00f3s temos que nos uni. A Funai n\u00e3o ajuda a gente: \u2018Voc\u00eas s\u00e3o formado, se virem\u2019. Temos s\u00f3 nossos advogado. N\u00f3is paguemo para eles virem aqui, nos explic\u00e1, convers\u00e1 com n\u00f3is. E se n\u00f3is n\u00e3o tivesse com ele? N\u00f3is tava que nem aquele pessoal do Belo Monte. N\u00f3is qu\u00e9 isso pra n\u00f3is? N\u00f3is que lut\u00e1! Hoje n\u00f3is t\u00e1 bem. Vamos brig\u00e1 pelo nosso povo. Vamos faz\u00ea eles plant\u00e1 coisa boa pra n\u00f3is. Vamos procur\u00e1 l\u00ea. Se eles fiz\u00e9 coisa errada e engan\u00e1 n\u00f3is, como enganaram nossos pais, quando fizeram trilho? Hoje n\u00f3s temo mais estudo, n\u00f3s vamo lut\u00e1!\u201d<\/p>\n<p>Da expuls\u00e3o \u00e0 escravid\u00e3o por d\u00edvida<\/p>\n<p>Em M\u00e3e Maria, a safra de castanha-do-par\u00e1 come\u00e7ava depois das primeiras chuvas, em janeiro. Para o cacique Krohokrenhum e seus quatro companheiros Timbira, era o in\u00edcio de um pesadelo. Ali, entre os rios Flecheiras e Jacund\u00e1, afluentes da margem direita do Tocantins, o grupo acordava antes da alvorada para trabalhar na mata, a\u00e7oitado pelos xingamentos proferidos pelos agentes do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o ao \u00cdndio (SPI), depois Funai. \u201c\u00cdndios pregui\u00e7osos\u201d, \u201cVagabundos\u201d, ouviam, enquanto se entregavam \u00e0 coleta da castanha-do-par\u00e1 at\u00e9 o anoitecer. Ficavam t\u00e3o cansados que n\u00e3o conseguiam praticar os rituais tradicionais. Os dias eram passados \u00e0 cata dos ouri\u00e7os ca\u00eddos aos p\u00e9s das castanheiras, que abriam com fac\u00f5es para tirar as castanhas, colocadas em cestos que carregavam \u00e0s costas at\u00e9 o celeiro, no meio da mata. Dali, as castanhas eram transportadas por tropas de muares at\u00e9 o Posto Ind\u00edgena, onde eram lavadas, pesadas e, por fim, vendidas na cidade.<\/p>\n<p>Ar\u00e3kuiyt conhece a hist\u00f3ria de cor, embora nunca a tenha vivido. Ouviu do seu esposo, j\u00e1 falecido, que durante dez anos foi for\u00e7ado a trabalhar no castanhal. Em meados da d\u00e9cada de 1970, quando ela chegou a M\u00e3e Maria, transferida do Maranh\u00e3o, depois que sua aldeia foi inundada pela barragem de Tucuru\u00ed, seu povo j\u00e1 havia travado batalhas com os ind\u00edgenas liderados por Krohokrenhum e deles se separado. Os Gavi\u00e3o do Maranh\u00e3o se instalaram em Maguari, local sujeito a inunda\u00e7\u00f5es, a quatro quil\u00f4metros da aldeia de Krohokrenhum.<\/p>\n<p>Foi depois do casamento, nos anos 1980, que ela foi viver na aldeia do marido, com quem teve oito filhos. Longe da fam\u00edlia, ela conta que n\u00e3o sabia como agir durante a primeira gravidez nem como criar suas crian\u00e7as. O servi\u00e7o da casa ficava inteiramente por sua conta, j\u00e1 que o finado esposo n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de ajudar. Todas as noites, recorda a vi\u00fava, ele lamentava a heran\u00e7a deixada pelo servi\u00e7o no castanhal. Um grave problema nas costas o obrigava a se entupir constantemente de analg\u00e9sicos.<\/p>\n<p>Krohokrenhum tamb\u00e9m n\u00e3o morava em M\u00e3e Maria quando caiu na cilada e aceitou a proposta que o faria \u201cenricar\u201d. Guerras intertribais e doen\u00e7as p\u00f3s-contato em meados dos anos 1950 haviam levado o cacique ao munic\u00edpio de Itupiranga, onde vivia como os \u201cbrancos\u201d. \u201cA\u00ed n\u00f3s trabaiava em Praia Alta. A\u00ed n\u00f3s levava gado, atirava on\u00e7a, vendia couro. N\u00f3s at\u00e9 vivia bem l\u00e1, depois me tiraram pra c\u00e1.\u201d Em 1964, Jaime e Corn\u00e9lio, funcion\u00e1rios do extinto SPI, empenharam-se em persuadir o cacique a se mudar para M\u00e3e Maria, com seus grandes castanhais. Os 62 mil hectares de terras foram concedidos aos ind\u00edgenas em 1943, mas haviam sido tomados por arrendat\u00e1rios e invasores desde 1947.<\/p>\n<p>Convencido pelos servidores, o l\u00edder fez o reconhecimento do terreno. Ao chegar, deu com o sertanista Ant\u00f4nio Cotrim, que o tratou bem, ofereceu comida e mostrou o ro\u00e7ado, com arroz, mandioca, milho, banana e cana. Krohokrenhum se sentiu agradado. Acolheu o pedido do homem e juntou seus companheiros para retirar os invasores e tomar sua castanha. O povo de ca\u00e7adores destemidos era receado pelos n\u00e3o ind\u00edgenas desde os tempos em que morava no meio da mata, recebendo por isso a alcunha Gavi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA\u00ed a cata\u00e7\u00e3o que os cara tavam roubando, n\u00e9. Rapaz, n\u00f3s era pouco, pequenininho. Mas tomamos mesmo. Ele pegou, vendeu e bot\u00f4 o dinheiro assim, \u00f3: \u2018T\u00e1 aqui. Isso aqui \u00e9 teu\u2019. Eu peguei: \u2018Ih, rapaz. Eu n\u00e3o vou mais embora n\u00e3o\u2019. Mas agora quando o Cotrim saiu, o SPI entrou e a\u00ed era do SPI. N\u00e3o dava mais nada\u201d, recorda o cacique, ainda vigoroso, apesar dos seus estimados 100 anos de idade.<\/p>\n<p>O velho l\u00edder fala com voz firme, mas trope\u00e7a no portugu\u00eas, auxiliado pelos filhos e sobrinhos. Normalmente se comunica com os anci\u00f5es em Timbira, no dialeto Parkat\u00eaj\u00ea. Rodeado pela comunidade, bateu repetidas vezes com os punhos sobre a mesa enquanto contava sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Cacique ou capit\u00e3o?<\/p>\n<p>Quando Krohokrenhum se mudou para M\u00e3e Maria, em 1966, transformou-se em \u201ccapit\u00e3o\u201d, como desde 1913 o SPI denominava os chefes ind\u00edgenas \u2013 nem sempre reconhecidos como tal pelos povos. No in\u00edcio, ele ficou satisfeito com o acordo, que proporcionava ao grupo condi\u00e7\u00f5es de adquirir produtos industrializados. Os Parkat\u00eaj\u00ea fabricavam aguardente, melado e rapadura para consumo pr\u00f3prio e comercializa\u00e7\u00e3o. E extra\u00edam castanha para ser vendida por eles, junto a servidores do \u00f3rg\u00e3o tutelar, em Marab\u00e1, distante 30 quil\u00f4metros da aldeia.<\/p>\n<p>A partir de 1967, por\u00e9m, a situa\u00e7\u00e3o mudou, principalmente no ano seguinte, com a substitui\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o SPI pela Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai). A extin\u00e7\u00e3o do SPI se deu ap\u00f3s um relat\u00f3rio com mais de 7 mil p\u00e1ginas feito pelo procurador <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/519632-agentes-do-extinto-servico-de-protecao-escravizavam-indios-aponta-relatorio-figueiredo\" target=\"_blank\">Jader Figueiredo<\/a>, com den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o e abusos do \u00f3rg\u00e3o. Na realidade, por\u00e9m, a maioria dos funcion\u00e1rios se manteve no cargo e a nova institui\u00e7\u00e3o conservou o princ\u00edpio da \u201ctutela\u201d em rela\u00e7\u00e3o aos \u00edndios, o que s\u00f3 seria alterado pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Por sua vez, o relat\u00f3rio Figueiredo sumiu misteriosamente, como ocorreu com diversos documentos da ditadura, para ser encontrado apenas em 2013.<\/p>\n<p>A coleta de castanha-do-par\u00e1 passou a ser feita em sistema de escravid\u00e3o por d\u00edvida, o chamado \u201cbarrac\u00e3o\u201d, peculiar \u00e0s \u00e1reas extrativistas na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, no Norte do pa\u00eds. O patr\u00e3o \u2013 no caso, a delegacia regional da Funai em Bel\u00e9m, que se comportava como \u201cdona\u201d do castanhal \u2013 vendia fiado o \u201crancho\u201d (muni\u00e7\u00e3o, querosene, sal, a\u00e7\u00facar, caf\u00e9, fumo e farinha) nos barrac\u00f5es, que depois era descontado do pagamento da produ\u00e7\u00e3o individual da castanha, lavada e medida em hectolitros. Como os pre\u00e7os praticados eram mais altos do que os do mercado regional, o saldo quase sempre era desfavor\u00e1vel ao castanheiro, que ficava devendo ao \u201cbarrac\u00e3o\u201d. E obrigado a trabalhar mais e novamente se endividar. Nas palavras de Krohokrenhum: \u201cEle troca trabalho da castanha. Ele d\u00e1 a\u00e7\u00facar, medicamento, mas coitado, n\u00f3s n\u00e3o entendia\u201d.<\/p>\n<p>Foi o per\u00edodo em que o governo militar iniciou sua pol\u00edtica de \u201cintegra\u00e7\u00e3o nacional\u201d, com a ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os considerados vazios na Amaz\u00f4nia por estatais e empreendedores privados que recebiam incentivos fiscais. Em paralelo, grandes projetos de infraestrutura, como a rodovia Transamaz\u00f4nica e a hidrel\u00e9trica de Tucuru\u00ed, come\u00e7aram a ser desenvolvidos. Segundo dados da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, a constru\u00e7\u00e3o de estradas na Amaz\u00f4nia provocou a morte de 8 mil ind\u00edgenas somente no governo do general Garrastazu M\u00e9dici, entre 1969 e 1973. J\u00e1 no ano anterior, em 1968, a rodovia PA-70, atual BR-222, havia cortado o territ\u00f3rio dos Parkat\u00eaj\u00ea.<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio produzido pela Cruz Vermelha em 1970, depois de visita ao Posto Ind\u00edgena M\u00e3e Maria, chamou aten\u00e7\u00e3o para a situa\u00e7\u00e3o dos Parkat\u00eaj\u00ea, destacando ter encontrado 28 \u201cgavi\u00f5es\u201d \u00e0 beira da estrada: \u201cN\u00f3s ficamos muito surpresos ao v\u00ea-los aqui e achamos incompreens\u00edvel a Funai ter o Posto \u00e0 beira da rodovia. O risco desses \u00edndios vivendo t\u00e3o pr\u00f3ximos a poss\u00edveis fontes de infec\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio.\u201d<\/p>\n<p>O sistema de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da castanha atrav\u00e9s da m\u00e3o de obra Parkat\u00eaj\u00ea foi formalizado pelo \u201cProjeto de Extrativismo Vegetal: Castanha-do-Par\u00e1\u201d, empreendido pelo Departamento Geral do Patrim\u00f4nio Ind\u00edgena (DGPI) da Funai. Um Boletim Informativo de 1971 destaca que a Funai aplicou \u201ca import\u00e2ncia de Cr$ 30.610,00\u201d em M\u00e3e Maria, \u201co maior produtor de castanhas em \u00e1reas ind\u00edgenas\u201d. Segundo o mesmo boletim, \u201ca receita alcan\u00e7ada pela safra de castanhas de 1970-1971 do P.I. M\u00e3e Maria cuja renda bruta foi de Cr$ 88.403,88 e a l\u00edquida de Cr$ 45.801,95 foi assim t\u00f4da revertida em benef\u00edcio do P\u00f4sto e dos silv\u00edcolas (sic)\u201d. Para ter dimens\u00e3o dos valores, pode-se levar em conta que o sal\u00e1rio m\u00ednimo em janeiro de 1971 era de Cr$ 187,20. No mesmo documento, a Funai informa que \u201cnos vinte e oito Projetos Econ\u00f4micos aprovados pelo Departamento Geral do Patrim\u00f4nio Ind\u00edgena em execu\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas ind\u00edgenas est\u00e3o sendo empregadas 639 pessoas, das quais 596 s\u00e3o ind\u00edgenas. Os civilizados (sic) desempenham fun\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e administrativas especializadas.\u201d<\/p>\n<p>A real din\u00e2mica econ\u00f4mica \u00e9 revelada na disserta\u00e7\u00e3o de mestrado apresentada \u00e0 Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) em 1984 pela antrop\u00f3loga Iara Ferraz. \u201cAs \u2018promessas\u2019 efetuadas pela \u2018FUNAI\u2019, atrav\u00e9s dos servidores locais e regionais, n\u00e3o se cumpriam, pois s\u00f3 o Posto se beneficiava com a instala\u00e7\u00e3o de benfeitorias, em geral, constru\u00e7\u00f5es em alvenaria com vistas \u00e0 maior racionaliza\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o e da produ\u00e7\u00e3o das safras seguintes (sede, escola e o \u2018hospital\u2019 que acabou por se transformar em dep\u00f3sito de castanha)\u201d, escreve a antrop\u00f3loga.<\/p>\n<p>O Boletim Informativo da FUNAI de 1972 tamb\u00e9m faz coment\u00e1rios elogiosos ao posto de M\u00e3e Maria, um dos primeiros instalados pelo antigo Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o ao \u00cdndio (SPI): \u201c[o posto] sobressai-se por apresentar a maior produ\u00e7\u00e3o de Castanha do Par\u00e1 dentre todos Postos da FUNAI na Amaz\u00f4nia.\u201d Nas p\u00e1ginas seguintes, o mesmo documento exaltava o projeto Krenac, em Minas Gerais, em artigo intitulado \u201c\u00cdndios aculturados aprender\u00e3o of\u00edcios na fazenda Guarani\u201d. Uma reportagem do jornalista Andre Campos, publicada pela ag\u00eancia P\u00fablica no ano passado, revelou a exist\u00eanciade trabalhos for\u00e7ados no Reformat\u00f3rio Krenac, na verdade um centro para a deten\u00e7\u00e3o \u201cde \u00edndios considerados \u2018infratores\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que foram escritos esses boletins, o posto M\u00e3e Maria era chefiado pelo j\u00e1 falecido sertanista Osmundo Fontes. O \u00edndio Pyrkrejimokre, conhecido como Cotia, transferido em 1967 de sua aldeia em Tucuru\u00ed \u00e0 M\u00e3e Maria, contou \u00e0 reportagem como agia o sertanista \u2013 qualificado como \u201cmau\u201d por Krohokrenhum: \u201cO Osmundo, ele e o pai dele, ele queria todo o trabalho do capit\u00e3o. Ele (Krohokrenhum) colhia castanha, o Osmundo mais o pai dele pegava e entregava para a Funai. A Funai \u00e9 que vendia a castanha. E, depois, ele s\u00f3 dava assim, alguma coisa, o fac\u00e3o, coisa que ele dava, mas a castanha ele pegava e entregava\u201d.<\/p>\n<p>A virada dos Parkat\u00eaj\u00ea<\/p>\n<p>Revoltado, Krohokrenhum orientou os Parkat\u00eaj\u00ea a n\u00e3o cumprir a meta da produ\u00e7\u00e3o na safra de 1974\/1975. Na mesma \u00e9poca, ent\u00e3o rec\u00e9m-formada em Ci\u00eancias Sociais, Iara Ferraz foi chamada a trabalhar em M\u00e3e Maria, que \u201cestava em crise\u201d, atrav\u00e9s de um conv\u00eanio firmado entre a USP, a Funai e a Funda\u00e7\u00e3o Projeto Rondon que previa a futura contrata\u00e7\u00e3o da antrop\u00f3loga pela Funai. Na sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, relatou fatos que presenciava no territ\u00f3rio, como \u201co chefe do posto acionar de madrugada o gerador de for\u00e7a e dar tiros de rev\u00f3lver para o alto, a fim de \u2018acordar os \u00edndios\u2019 para que fossem carregar o caminh\u00e3o da Funai.\u201d<\/p>\n<p>Ferraz acabou sendo contratada pela Funai \u2013 fora do conv\u00eanio \u2013 em novembro de 1975 e se tornou uma figura essencial para os Parkat\u00eaj\u00ea, auxiliando-os na conquista de autonomia econ\u00f4mica e nas negocia\u00e7\u00f5es com a Eletronorte \u2013 respons\u00e1vel pela Linha de Transmiss\u00e3o de Energia de Tucuru\u00ed \u2013 e com a b\u2013 construtora da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/512276-o-frei-que-freia-a-ferrovia\" target=\"_blank\">Ferrovia Caraj\u00e1s<\/a> \u2013 dentro do territ\u00f3rio ind\u00edgena. Ela tamb\u00e9m cooperou com as pesquisas do Grupo de Trabalho \u201cGraves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos no campo ou contra ind\u00edgenas\u201d da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), coordenado pela psicanalista e jornalista Maria Rita Kehl. E n\u00e3o gostou do resultado. Segundo Iara Ferraz, entrevistada para esta reportagem, \u201ca CNV chega ao fim deixando muita gente decepcionada.\u201d Ela afirma que a funda\u00e7\u00e3o ficou fora das pesquisas \u201capesar de o Relat\u00f3rio Figueiredo ter sido encontrado no Museu do \u00cdndio\u2026\u201d<\/p>\n<p>A partir de 1976, em fun\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as na pol\u00edtica da Funai, os antrop\u00f3logos foram afastados da coordena\u00e7\u00e3o de projetos e substitu\u00eddos por funcion\u00e1rios dos quadros administrativos da funda\u00e7\u00e3o. Os Parkat\u00eaj\u00ea solicitaram a continuidade dos trabalhos da antrop\u00f3loga. Em julho de 1977, a FUNAI impediu formalmente a perman\u00eancia de Iara Ferraz em M\u00e3e Maria. Em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, ela conta que chegou a ser pressionada por policiais para sair da aldeia.<\/p>\n<p>Krohokrenhum resolveu ent\u00e3o ir ao escrit\u00f3rio da Funai em Bras\u00edlia, onde conheceu o funcion\u00e1rio Humberto Nascimento, o Tiur\u00e9, filho de pai potiguara e m\u00e3e branca. Ele decidiu se mudar para a aldeia na hora em que viu o capit\u00e3o. Largou mulher e filho no Distrito Federal. Trabalhou com os Parkat\u00eaj\u00ea e, mais tarde, em contato com o povo Suru\u00ed, acabou descobrindo um cemit\u00e9rio clandestino onde foram enterrados guerrilheiros do Araguaia \u2013 em regi\u00e3o pr\u00f3xima \u00e0 M\u00e3e Maria, no sudeste paraense. Tiur\u00e9, que foi perseguido e torturado durante a ditadura, se tornou, no ano passado, o primeiro \u00edndio a receber indeniza\u00e7\u00e3o da Anistia.<\/p>\n<p>A safra da autonomia<\/p>\n<p>Para a safra de 1976 Tiur\u00e9 e Iara Ferraz, junto com o novo chefe do Posto Ind\u00edgena, Saulo Petean, conseguiram um empr\u00e9stimo de 32 mil cruzeiros com o banqueiro Alain Moreau, intermediado pelo advogado Carlos Mar\u00e9s, do escrit\u00f3rio do jurista <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/noticias-anteriores\/13166-operacao-mata-indios-artigo-de-dalmo-dallari\" target=\"_blank\">Dalmo Dallari<\/a>. O escrit\u00f3rio da Funai em Bel\u00e9m havia autorizado o repasse do dinheiro, que havia ficado retido na Delegacia Regional. Cotia, o \u00edndio Pyrkrejimokre que viera de Tucuru\u00ed, tamb\u00e9m estava envolvido nas negocia\u00e7\u00f5es e lembra at\u00e9 hoje dos detalhes. \u201cA\u00ed ele arrumou 30 mil cruzeiro, em 75. J\u00e1 come\u00e7a do 75 j\u00e1, do 75 para 76. Iara veio j\u00e1 chegou o dinheiro, j\u00e1 t\u00e1 a\u00ed. A\u00ed n\u00f3s vamos arruma tropeira para castanheira, ainda n\u00e3o tinha nada nada\u201d, conta.<\/p>\n<p>A safra de 1976 foi um sucesso. Os \u00edndios produziram quatro lotes de castanha, obtendo cerca de trezentos mil cruzeiros com a venda feita ao exportador Evandro Mutran, em Bel\u00e9m. Uma parte do dinheiro foi destinada para um fundo comum de recursos para empreendimentos da comunidade e outra parcela foi depositada em uma conta do banco Bradesco em nome da \u201cComunidade Ind\u00edgena Parkat\u00eaj\u00ea\u201d para dar in\u00edcio \u00e0 safra seguinte. Em um ano, eles conseguiram comprar uma camionete Toyota.<\/p>\n<p>O controle dos Parkat\u00eaj\u00easobre sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m alterou a din\u00e2mica das atividades, que se tornaram mais coletivas. Trabalhava-se junto e dividia-se tudo. Se algu\u00e9m n\u00e3o quisesse trabalhar na nova sistem\u00e1tica poderia se juntar aos n\u00e3o-ind\u00edgenas e trabalhar no sistema de barrac\u00e3o, bem aprimorado em compara\u00e7\u00e3o ao anterior.<\/p>\n<p>Ao menos \u00e9 o que transparece na carta de 5 maio de maio de 1976 escrita pelo Kruwa, a pedido de Krohokrenhum: \u201cOs pr\u00f3prio \u00edndios botaram os civilizados para cort\u00e1 castanha para os \u00edndios e os \u00edndios pagava imposto de renda \u2013 era livre os \u00edndios pagava os kupem (n\u00e3o ind\u00edgena), a\u00ed, kupem ficou muito satisfeito com os \u00edndios, porque n\u00e3o tinha desconto em nada ent\u00e3o por isso que kupem ficou gostando do servi\u00e7o dos \u00edndios. Gostaram mais o servi\u00e7o dos \u00edndios de que o tempo que era Funai disse o povo que n\u00e3o gostaram do servi\u00e7o que era da Funai\u2026 Agora os \u00edndios t\u00e3o contentes porque os pr\u00f3prios \u00edndios fez a safra da castanha sem ter gente para ensinar como era para fazia. Mais assim mesmo, agora a gente sem a Funai eu acho que n\u00f3s vamos pra frente, com f\u00e9 em deus n\u00f3s ter o que precisamos ter e vai ter\u201d.<\/p>\n<p>O controle financeiro passou a ser feito por Saulo Petean e Cotia. Os dois elaboraram livros-caixa, apresentados em sess\u00f5es p\u00fablicas no p\u00e1tio da aldeia do Trinta. Eles discriminavam de forma simplificada os d\u00e9bitos e cr\u00e9ditos dos Parkat\u00eaj\u00ea. Quem n\u00e3o entendia podia pedir ajuda \u00e0 auxiliar de ensino, na escola do posto. Cotia se recorda: \u201cTodo mundo gostaram do meu trabalho. Eu olhava castanha, olhava castanheira. Tudo que precisava eu dava, mas descontava sim, ajustava conta n\u00e9. Recebia castanha no dia que deu e ajustava. Que tinha ele recebia. Pagava e tudo bem.\u201d<\/p>\n<p>Com a conquista da autonomia, o grupo passou a exigir ser chamado por Parkat\u00eaj\u00ea, que significa \u201cgrupo que controla a jusante do rio\u201d, de acordo com a antrop\u00f3loga e Iara Ferraz. \u00c9 com essa identidade que eles agora enfrentam a Vale S.A pela defesa de seus direitos.<\/p>\n<p>http:\/\/www.mst.org.br\/2015\/06\/15\/no-para-indigenas-lutam-contra-vale.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O Territ\u00f3rio Ind\u00edgena M\u00e3e Maria, no munic\u00edpio de Bom Jesus do Tocantins, \u00e9 um respiro de verde no Par\u00e1, estado que lidera o \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8634\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[163],"tags":[],"class_list":["post-8634","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-movimento-indigena"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2fg","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8634","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8634"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8634\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8634"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8634"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8634"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}