{"id":8741,"date":"2015-06-28T15:07:37","date_gmt":"2015-06-28T18:07:37","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=8741"},"modified":"2015-07-20T14:33:56","modified_gmt":"2015-07-20T17:33:56","slug":"o-terrorismo-racista-nos-eua-e-tao-antigo-como-o-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8741","title":{"rendered":"O terrorismo racista nos EUA \u00e9 t\u00e3o antigo como o pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resumenlatinoamericano.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/EEUU-racismo.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><b>Brit Bennett\/Cubadebate\/Resumen Latinoamericano, 24 de junho de 2015 \u2013 <\/b>Minha av\u00f3 contava sobre os homens da Ku Klux Klan que andavam a cavalo pel noite na Luisiana. Ela os via com suas roupas brancas que brilhavam na escurid\u00e3o como tamb\u00e9m via as pessoas negras que se escondiam nos p\u00e2ntanos para se escapar deles. <!--more-->Antes que ela chegasse ao mundo, durante a Reconstru\u00e7\u00e3o, os membros da Ku Klux Klan acreditavam que podiam assustar uma popula\u00e7\u00e3o negra supersticiosa e com uma liberdade rec\u00e9m-conquistada. Vestiam trajes aterrorizantes, por\u00e9m n\u00e3o se escondiam totalmente \u2013 muitos antigos donos de escravos e alguns vizinhos podiam ser reconhecidos por baixo dos len\u00e7\u00f3is brancos. Eles eram exorcistas mascarados, uma maneira de manter o controle usando o terror. Al\u00e9m de matar e golpear os negros, muitas vezes afirmavam ser os fantasmas dos soldados confederados mortos.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel argumentar, ent\u00e3o, que n\u00e3o existem fantasmas da Confedera\u00e7\u00e3o, porque a Confedera\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o morreu. As estrelas e as barras vivem orgulhosamente estampadas nas camisetas e nas placas dos carros; o s\u00edmbolo por excel\u00eancia da escravid\u00e3o, a bandeira, ainda tribula sobre o Capit\u00f3lio da Carolina do Sul. O assassinato n\u00e3o parou e como exemplo est\u00e1 a morte recente de nove pessoas de ra\u00e7a negra em uma igreja em Charleston. O suspeito, que \u00e9 de ra\u00e7a branca e que na sexta-feira foi acusado de nove assassinatos, disse ao grupo de estudo b\u00edblico que depois massacrou: \u201cTenho que faz\u00ea-lo&#8230; Voc\u00eas violam nossas mulheres e est\u00e3o tomando nosso pa\u00eds e precisam ir embora\u201d.<\/p>\n<p>Os meios de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e3o sendo reticentes em classificar o tiroteio de Charleston como terrorismo, apesar do qu\u00e3o perturbador ser o eco da hist\u00f3ria do terrorismo em nosso pa\u00eds. O terrorismo estadunidense originou-se com a finalidade de restringir o movimento e a liberdade dos rec\u00e9m-libertos estadunidenses negros que, pela primeira vez, come\u00e7aram a ganhar um pouco de poder pol\u00edtico. O Ato da Ku Klux Klan foi uma das primeiras pe\u00e7as consideradas pela legisla\u00e7\u00e3o antiterrorista dos Estados Unidos. Quando se promulgou a lei federal em 1871, nove condados da Carolina do Sul se colocaram sob a lei marcial e dezenas de pessoas foram presas. Os temores do pistoleiro de Charleston \u2013 homens negros que violam mulheres brancas, negros que tomam o pa\u00eds \u2013 s\u00e3o os mesmos temores que sentiam os membros da Ku Klux Klan, que utilizaram a viol\u00eancia e a intimida\u00e7\u00e3o para controlar as comunidades de negros libertos.<\/p>\n<p>Mesmo com estes paralelismos, escutamos intermin\u00e1veis especula\u00e7\u00f5es sobre os motivos do atacante de Charleston. A governadora, Nikki Haley, da Carolina do Sul difundiu uma mensagem de Facebook na qual dizia: \u201cAinda que n\u00e3o conhe\u00e7amos todos os detalhes, sabemos que nunca vamos entender o que motiva algu\u00e9m a entrar em um de nossos lugares de culto e tirar a vida de outra pessoa\u201d.<\/p>\n<p>Apesar dos informes de que o assassino declarou seu \u00f3dio racial antes de disparar contra os membros do grupo de ora\u00e7\u00e3o, seus motivos s\u00e3o inescrut\u00e1veis. Inclusive depois de serem divulgadas as fotos nas quais o suspeito vestia uma jaqueta adornada de bandeiras da Rod\u00e9sia e da \u00c1frica do Sul durante a era do apartheid ou que estivesse junto a um autom\u00f3vel com a placa da bandeira confederada \u2013 uma prova tang\u00edvel de seu alinhamento com a ideologia violenta, segregacionista \u2013, suas a\u00e7\u00f5es se mantiveram supostamente indecifr\u00e1veis. Um tweet do Seattle Times (agora apagado) perguntava se no pistoleiro se \u201cconcentra o mal ou \u00e9 um doce menino\u201d, The Wall Street Journal o qualificou \u201csolit\u00e1rio\u201d e o prefeito de Charleston o chamou de \u201csem vergonha\u201d, no entanto, as denomina\u00e7\u00f5es aparentemente \u00f3bvias \u2013 assassino, terrorista, criminoso, racista \u2013 n\u00e3o aparecem em nenhuma parte.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o privil\u00e9gio da tez branca nos EUA: se um terrorista \u00e9 branco, seus atos de viol\u00eancia nunca ser\u00e3o vinculados a sua cor de pele. Um terrorismo branco tem motivos \u00fanicos e complexos; est\u00e1 al\u00e9m de toda compreens\u00e3o. Pode ser um solit\u00e1rio perturbado ou um monstro. \u00c9 um doente mental ou o mal personificado. O terrorismo branco existe unicamente como d\u00edade de extremos: ou ser humanizado at\u00e9 o ponto de despertar simpatia ou \u00e9 quase t\u00e3o monstruoso como um ser mitol\u00f3gico. De qualquer maneira, nunca \u00e9 indicativo de um problema global que se relaciona com a cor da pele, nem est\u00e1 vinculado com uma sociedade racista. Ele s\u00f3 se representa a si mesmo. Um terrorista branco ser\u00e1 definido de qualquer modo que permita qualific\u00e1-lo como uma anomalia, sem conex\u00e3o com a longa hist\u00f3ria do terrorismo racista dos EUA.<\/p>\n<p>Sempre me chamou a aten\u00e7\u00e3o esta retic\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 para nomear o terrorismo cometido pelos brancos estadunidenses, mas com rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio adjetivo \u201cbranco\u201d nos atos de viol\u00eancia racial. Em um artigo recente do New York Times sobre a hist\u00f3ria dos linchamentos, as v\u00edtimas s\u00e3o descritas repetidamente como negros. Nenhuma s\u00f3 vez, no entanto, os protagonistas dos atos violentos descritos como o que s\u00e3o: brancos. Em troca, as turbas brancas dedicadas ao linchamento s\u00e3o simplesmente descritas como \u201cum grupo de homens\u201d ou \u201cuma turba\u201d. Em um artigo sobre a viol\u00eancia racial, esta supress\u00e3o \u00e9 absurda. A cor das v\u00edtimas \u00e9 relevante, por\u00e9m a ra\u00e7a dos assassinos n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Caso estejamos dispostos a admitir a cor da pele dos negros que foram linchados, por que n\u00e3o estamos dispostos a admitir que a ra\u00e7a \u00e9 a raz\u00e3o pela qual foram linchados? No discurso ap\u00f3s a matan\u00e7a de Charleston, o presidente Obama mencionou a cor branca apenas uma vez \u2013 em uma cita\u00e7\u00e3o do reverendo Martin Luther King Jr. que tenta fomentar a harmonia interracial. Obama reconheceu ambiguamente que \u201cesta n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que as igrejas negras foram atacadas\u201d, por\u00e9m se omitiu de especificar as causas dos ataques a ditas igrejas. Usa um tempo verbal passivo que \u00e9 o eco da mesma estranha imprecis\u00e3o, a ren\u00fancia em nomear inclusive o terrorismo dos brancos, como se as igrejas negras fossem atacadas por uma for\u00e7a sem corpo; e n\u00e3o por gente real motivada por uma ideologia racista cujas ra\u00edzes se estendem para al\u00e9m da funda\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Entendo que seja c\u00f4modo guardar sil\u00eancio. Se n\u00e3o falarmos da viol\u00eancia branca, se ela n\u00e3o for reconhecida, se considerarmos que os terroristas brancos s\u00e3o santos ou dem\u00f4nios, n\u00e3o teremos que lidar com a realidade muito mais complicada da viol\u00eancia racial. Atualmente, o terror por raz\u00f5es raciais j\u00e1 se apresenta com capuchos e batas brancas. Voc\u00ea pode ser algu\u00e9m de 21 anos de idade, possuir muitos amigos negros no Facebook, contar piadas racistas inofensivas e cometer um ato atroz de viol\u00eancia racial. N\u00e3o podemos nos separar dos monstros porque os monstros n\u00e3o existem. Os monstros foram sempre seres humanos.<\/p>\n<p>Na imagina\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea dos Estados Unidos, o terrorismo \u00e9 estrangeiro e tem a pele escura. Os terroristas n\u00e3o possuem motiva\u00e7\u00f5es complexas. N\u00e3o nos estimulamos, uns aos outros, a n\u00e3o emitir nenhum ju\u00edzo at\u00e9 conhecer sua hist\u00f3ria no Facebook ou escutar as entrevistas de seus amigos. Psic\u00f3logos n\u00e3o s\u00e3o convidados para analisar o estado mental dessas pessoas. Sabemos de imediato por que matam. Em contrapartida, um terrorista branco \u00e9 um enigma. Um terrorista branco n\u00e3o tem hist\u00f3ria, nem contexto, nem origem. Continua sendo para sempre uma inc\u00f3gnita. De sua exist\u00eancia n\u00e3o se fala. Vemos, mas fingimos n\u00e3o v\u00ea-los. \u00c9 um fantasma que flutua na noite.<\/p>\n<p><i>*Brit Bennett \u00e9 uma escritora que vive na Calif\u00f3rnia. Sua primeira novela, \u201cLas Madres\u201d, foi publicada por Riverhead Books.<\/i><\/p>\n<p><i>Tradu\u00e7\u00e3o para o espanhol: Cubadebate. <\/i><i>(Editado por Rebeli\u00f3n)<\/i><\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2015\/06\/24\/el-terrorismo-racista-en-eeuu-es-tan-antiguo-como-el-pais\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Brit Bennett\/Cubadebate\/Resumen Latinoamericano, 24 de junho de 2015 \u2013 Minha av\u00f3 contava sobre os homens da Ku Klux Klan que andavam a cavalo \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8741\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[164,165],"tags":[],"class_list":["post-8741","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-do-norte","category-eua"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2gZ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8741","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8741"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8741\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8741"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8741"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8741"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}