{"id":8871,"date":"2015-07-14T17:58:58","date_gmt":"2015-07-14T20:58:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=8871"},"modified":"2015-08-01T13:44:12","modified_gmt":"2015-08-01T16:44:12","slug":"grandes-grupos-economicos-estao-ditando-a-formacao-de-jovens-brasileiros-diz-novo-reitor-da-ufrj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8871","title":{"rendered":"&#8216;Grandes grupos econ\u00f4micos est\u00e3o ditando a forma\u00e7\u00e3o de jovens brasileiros&#8217;, diz novo reitor da UFRJ"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/leher1.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Luiz Felipe Abulquerque | Brasil de Fato | S\u00e3o Paulo &#8211; 11\/07\/2015 &#8211; 06h00<\/p>\n<p>Para Roberto Leher, educa\u00e7\u00e3o brasileira se tornou &#8216;um grande neg\u00f3cio&#8217;: &#8216;s\u00e3o operadores do mercado financeiro que est\u00e3o controlando as organiza\u00e7\u00f5es educacionais&#8217;, formando jovens para serem apenas for\u00e7a de trabalho e mercadoria<!--more--><\/p>\n<p>Um grande neg\u00f3cio. \u00c9 assim que o novo reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Leher, enxerga o novo momento da educa\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Em entrevista, o professor titular da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da UFRJ tra\u00e7a um panorama do atual est\u00e1gio da educa\u00e7\u00e3o no Brasil, e as conclus\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o nada animadoras.<\/p>\n<p>Para Leher, que tomou posse no dia 03 de julho, os recentes processos de fus\u00f5es entre grandes grupos educacionais, como Kroton e Anhanguera, e a cria\u00e7\u00e3o de movimentos como o\u00a0Todos pela Educa\u00e7\u00e3o\u00a0representam a s\u00edntese deste processo.<\/p>\n<p>No primeiro caso, ocorre uma invers\u00e3o de valores, em que o primordial n\u00e3o \u00e9 mais a educa\u00e7\u00e3o em si, mas a busca de lucros por meio de fundos de investimentos. No segundo, a defesa de um projeto de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica em que a classe dominante define forma e conte\u00fado do processo formativo de crian\u00e7as e jovens brasileiros.<\/p>\n<p>O movimento\u00a0Todos Pela Educa\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0uma articula\u00e7\u00e3o entre grandes grupos econ\u00f4micos como bancos (Ita\u00fa), empreiteiras, setores do agroneg\u00f3cio e da minera\u00e7\u00e3o (Vale) e os meios de comunica\u00e7\u00e3o que procuram ditar os rumos da educa\u00e7\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Para o professor, o movimento se organiza numa esp\u00e9cie de partido da classe dominante, ao pensarem um projeto de educa\u00e7\u00e3o para o pa\u00eds, organizarem fra\u00e7\u00f5es de classe em torno desta proposta e criar estrat\u00e9gias de difus\u00e3o de seu projeto para a sociedade.<\/p>\n<p>\u201cOs setores dominantes se organizaram para definiram como as crian\u00e7as e jovens brasileiros ser\u00e3o formados. E fazem isso como uma pol\u00edtica de classe, atuam como classe que tem objetivos claros, um projeto, concep\u00e7\u00f5es claras de forma\u00e7\u00e3o, de modo a converter o conjunto das crian\u00e7as e dos jovens em capital humano\u201d, observa o professor.<\/p>\n<p>Confira trechos da entrevista a seguir.<\/p>\n<p><strong>Muitos setores denunciam a atual mercantiliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o brasileira. O que est\u00e1 acontecendo neste setor?<\/strong><\/p>\n<p><em>Roberto Leher<\/em>:\u00a0De fato h\u00e1 mudan\u00e7as no que diz respeito \u00e0 mercantiliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, diferente do que acontecia at\u00e9 2006 no Brasil. Os novos organizadores dessa mercantiliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es de natureza financeira, particularmente os chamados fundos de investimento.<\/p>\n<p>Como o pr\u00f3prio nome diz, os fundos de investimentos s\u00e3o fundos constitu\u00eddos por v\u00e1rios investidores, grande parte deles estrangeiros, como fundos de pens\u00e3o, trabalhadores da GM, bancos, etc, que apostam num determinado fundo, e esse fundo vai fazer neg\u00f3cios em diversos pa\u00edses.<\/p>\n<p>Em geral, os fundos fazem fus\u00f5es, como \u00e9 o caso da Sadia e Perdig\u00e3o no Brasil. Mas \u00e9 o mesmo grupo que tamb\u00e9m adquire faculdades e organiza\u00e7\u00f5es educacionais com o objetivo de constituir monop\u00f3lios.<\/p>\n<p>Esse processo levou a Kroton e a Anhanguera &#8211; fundo Advent e P\u00e1tria &#8211; a constitu\u00edrem, no Brasil, a maior empresa educacional do mundo, um conglomerado que hoje j\u00e1 possui mais de 1,2 milh\u00e3o de estudantes, mais do que todas as universidades federais juntas.<\/p>\n<p><strong>O que muda com essa nova forma de mercantiliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>O neg\u00f3cio do investidor n\u00e3o \u00e9 propriamente a educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 o fundo. Ele investiu no fundo e quer resposta do fundo, que cria mecanismos para que os lucros dos setores em que eles est\u00e3o fazendo as aquisi\u00e7\u00f5es e fus\u00f5es sejam lucros exorbitantes. \u00c9 isso que valoriza o fundo.<\/p>\n<p>A racionalidade com que s\u00e3o organizadas as universidades sob controle dos fundos \u00e9 uma racionalidade das finan\u00e7as. S\u00e3o gestores de finan\u00e7as, n\u00e3o s\u00e3o administrados educacionais. S\u00e3o operadores do mercado financeiro que est\u00e3o controlando as organiza\u00e7\u00f5es educacionais.<\/p>\n<p>Toda a parte educacional responde \u00e0 l\u00f3gica dos grupos econ\u00f4micos, e por isso eles fazem articula\u00e7\u00f5es com editoras, com softwares, hardwares, computadores, tablets; \u00e9 um conglomerado que vai redefinindo a forma\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de jovens.<\/p>\n<p>No caso do Brasil, cinco fundos t\u00eam atualmente cerca de 40% das matr\u00edculas da educa\u00e7\u00e3o superior brasileira, e tr\u00eas fundos t\u00eam quase 60% da educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Quais os interesses dessas grandes corpora\u00e7\u00f5es para al\u00e9m do econ\u00f4mico?<\/strong><\/p>\n<p>A principal iniciativa dos setores dominantes na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica brasileira \u00e9 uma coaliz\u00e3o de grupos econ\u00f4micos chamada Todos pela Educa\u00e7\u00e3o, organizada pelo setor financeiro, agroneg\u00f3cio, mineral, meios de comunica\u00e7\u00e3o, que defendem um projeto de educa\u00e7\u00e3o de classe, obviamente interpretando os anseios dos setores dominantes para o conjunto da sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Em outras palavras, os setores dominantes se organizaram para definiram como as crian\u00e7as e jovens brasileiros ser\u00e3o formados. E fazem isso como uma pol\u00edtica de classe, atuam como classe que tem objetivos claros, um projeto, concep\u00e7\u00f5es claras de forma\u00e7\u00e3o, de modo a converter o conjunto das crian\u00e7as e dos jovens em capital humano.<\/p>\n<p>Em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 com isso que eles est\u00e3o preocupados: em como fazer com que a juventude seja educada na perspectiva de ser um fator da produ\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a racionalidade geral, e isso tem v\u00e1rias media\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas.<\/p>\n<p>A apar\u00eancia \u00e9 de que est\u00e3o preocupados com a alfabetiza\u00e7\u00e3o, com a escolariza\u00e7\u00e3o, com o aprendizado, etc. E de fato est\u00e3o, mas dentro dessa matriz de classe, no sentido de educar a juventude para o que seria esse novo esp\u00edrito do capitalismo, de modo que n\u00e3o vislumbrem outra maneira de vida que n\u00e3o aquela em que ser\u00e3o mercadorias, apenas for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p><strong>De que maneira eles interferem nas pol\u00edticas educacionais do Estado?<\/strong><\/p>\n<p>Como sociedade civil, os setores dominantes buscam interferir nas pol\u00edticas de Estado. O\u00a0Todos pela Educa\u00e7\u00e3o\u00a0conseguiu difundir a sua proposta educativa para o Estado, inicialmente por meio do Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (PNE) &#8211; que ali\u00e1s foi homenageado com o nome\u00a0Plano de Metas Compromisso Todos pela Educa\u00e7\u00e3o,\u00a0em refer\u00eancia ao movimento. Com isso definiram em grandes linhas o que seria o PNE que est\u00e1 vigente.<\/p>\n<p>Articulam por meio de leis, mas tamb\u00e9m da ades\u00e3o de secret\u00e1rios municipais e estaduais \u00e0s suas metas, aos seus objetivos. Articulam com o Estado, que cria programas, como o programa de a\u00e7\u00f5es articuladas, em que a prefeitura, quando apresenta um projeto para o desenvolvimento da educa\u00e7\u00e3o municipal, tem que implicitamente aderir \u00e0s metas do movimento\u00a0Todos pela Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Temos um complexo muito sofisticado que coloca em rela\u00e7\u00e3o as fra\u00e7\u00f5es burguesas dominantes, as pol\u00edticas de Estado e os meios operativos do Estado para viabilizar esta agenda educacional.<\/p>\n<p><strong>Mas como se d\u00e1 isso na pr\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<p>Quando um munic\u00edpio faz um programa de educa\u00e7\u00e3o para a sua regi\u00e3o, ele j\u00e1 deve estar organizado com base no princ\u00edpio de que existe uma idade certa para educa\u00e7\u00e3o, que os conte\u00fados n\u00e3o devem se referenciar nos conhecimentos, mas sim no que eles chamam de compet\u00eancias, que o professor n\u00e3o deve escapar deste curr\u00edculo m\u00ednimo que eles est\u00e3o desenvolvendo por meio de uma coer\u00e7\u00e3o da avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A escola que n\u00e3o consegue bons \u00edndices no Idep [\u00cdndice de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica] \u00e9 penalizada, desmoralizada, sai nos jornais, e isso cria um constrangimento que chega ao cotidiano da sala de aula, e as prefeituras pressionadas por esses \u00edndices acabam sucumbindo \u00e0s f\u00f3rmulas que o capital oferece. A mais importante delas \u00e9 comprar sistemas de ensino, apostilas, que s\u00e3o fornecidos pelas pr\u00f3prias corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O professor est\u00e1 em sala de aula, recebe apostilas, exames padronizados que foram feitos pela corpora\u00e7\u00e3o, e na pr\u00e1tica, em lugar do professor desenvolver um papel intelectual, criador, ele tem que ser muito mais um aplicador das cartilhas, um entregador de conhecimento, e isso obviamente esvazia o papel do professor, o que tem consequ\u00eancias diretas sobre o processo de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o esperada do educador n\u00e3o \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o enquanto intelectual, mas sim como algu\u00e9m que sabe desenvolver t\u00e9cnicas para aplicar aquelas pacotes que as corpora\u00e7\u00f5es preparam.<\/p>\n<p><strong>E h\u00e1 resist\u00eancias a isso?<\/strong><\/p>\n<p>Existe um complexo de situa\u00e7\u00f5es onde as resist\u00eancias, as tens\u00f5es s\u00e3o muito grandes, o que traz infelicidade aos professores e aos estudantes, mas tudo isso \u00e9 muito difuso. As resist\u00eancias acontecem na forma de lutas sindicais, quando fazem greve criticando a chamada \u201cmeritocracia\u201d, os sistemas de avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aparecem aqui e ali, mas \u00e9 for\u00e7oso reconhecer que existe um complexo de controle sobre as escolas que restringem muito a margem de manobra dos trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o para desenvolverem um projeto pedag\u00f3gico aut\u00f4nomo e cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 agravada quando a pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o da escola, que deveria pensar como a escola se autogoverna, vem sendo ressignificada como um papel de gest\u00e3o. O diretor e os coordenadores s\u00e3o pensados como gestores na l\u00f3gica de uma empresa, que deve cumprir metas, fiscalizar o cumprimento delas e tentar atingir essas metas de todas as formas.<\/p>\n<p>Temos uma mudan\u00e7a de refer\u00eancias quando a pr\u00f3pria equipe de coordena\u00e7\u00e3o da escola se torna uma equipe de gestores. No documento P\u00e1tria Educadora h\u00e1 uma possibilidade de puni\u00e7\u00e3o dos professores que n\u00e3o cumprirem as metas.<\/p>\n<p><strong>Por sinal, o P\u00e1tria Educadora \u00e9 um dos programas carro chefe do governo federal. Como voc\u00ea avalia este documento?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o casualmente, esse documento foi elaborado pela Secretaria de Assuntos Estrat\u00e9gicos (SAE), atualmente dirigido pelo ministro Mangabeira Unger. Ele parte de um diagn\u00f3stico de que o modelo de desenvolvimento baseado em commodities se esgotou com a crise mundial, com seus pre\u00e7os despencando depois daquele per\u00edodo de ouro entre 2004 e 2009.<\/p>\n<p>Com a desvaloriza\u00e7\u00e3o dessas commodities, Mangabeira chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que o Brasil deveria buscar outra forma de inser\u00e7\u00e3o na economia mundial que n\u00e3o seja apenas de commodities.<\/p>\n<p>E a minha hip\u00f3tese \u00e9 que eles est\u00e3o sinalizando nesse documento que o Brasil deveria ser uma esp\u00e9cie de plataforma de exporta\u00e7\u00e3o, assim como j\u00e1 existe na fronteira norte do M\u00e9xico e em alguns pa\u00edses asi\u00e1ticos &#8211; o modelo chin\u00eas foi isso nos anos 90, de ser um local em que a for\u00e7a de trabalho \u00e9 muito explorada, recebe um treinamento espec\u00edfico que permite uma explora\u00e7\u00e3o muito grande, e esses pa\u00edses entram em circuitos de produ\u00e7\u00e3o industrial de maneira subalterna, explorando o que seriam sua vantagens comparativas: baixo custo de energia, da for\u00e7a de trabalho, baixa regulamenta\u00e7\u00e3o ambiental, e isso daria vantagens competitivas novamente ao pa\u00eds.<\/p>\n<p>O drama \u00e9 que a concep\u00e7\u00e3o do P\u00e1tria Educadora tem como correspond\u00eancia a ideia de que a forma\u00e7\u00e3o da maior parte da for\u00e7a de trabalho no Brasil deve ser por um trabalho mais simples, e isso tem consequ\u00eancias pedag\u00f3gicas muito grande.<\/p>\n<p>Se \u00e9 para formar para o trabalho simples, a maior parte das escolas podem ser institui\u00e7\u00f5es estruturadas para a forma\u00e7\u00e3o de um trabalho de menor complexidade, o que se desdobraria em processos de forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de cursos de curta dura\u00e7\u00e3o, cujo exemplo mais conhecido \u00e9 o Pronatec, em que grande parte dos cursos s\u00e3o aligeirados para a forma\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a de trabalho simples &#8211; tanto aquela que j\u00e1 estar\u00e1 inserida no mercado quanto aquela que constitui o que podemos denominar de um ex\u00e9rcito industrial de reserva.<\/p>\n<p>O documento P\u00e1tria Educadora altera a racionalidade da organiza\u00e7\u00e3o da escola quando vislumbra escolas que v\u00e3o formar for\u00e7as de trabalho de menor complexidade. \u00c9 importante destacar que no documento encontramos uma formula\u00e7\u00e3o muito perigosa com enormes consequ\u00eancias para o futuro da educa\u00e7\u00e3o brasileira, que \u00e9 a refer\u00eancia que o Mangabeira faz da ado\u00e7\u00e3o de um modelo tipo SUS (Sistema \u00danico de Sa\u00fade).<\/p>\n<p><strong>O que seria isso?<\/strong><\/p>\n<p>O modelo SUS teve como objetivo assegurar o direito ao atendimento \u00e0 sa\u00fade de maneira universal, e isso poderia ser feito tanto pelo \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos quanto pelas entidades privadas.<\/p>\n<p>Quando Mangabeira reivindica o modelo SUS, claramente est\u00e1 sinalizando que a forma\u00e7\u00e3o do conjunto da classe trabalhadora deveria ser feita em nome de uma suposta democratiza\u00e7\u00e3o, realizada tanto pelas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas quanto pelas organiza\u00e7\u00f5es privadas.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 congruente com o PNE aprovado em 2014, ao estabelecer que a verba p\u00fablica \u00e9 aquela utilizada nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, mas tamb\u00e9m em todas as parcerias p\u00fablico-privadas, como o FIES, PROUNI, Ci\u00eancia Sem Fronteiras, PRONATEC, Pronacampo, sistema S, tudo isso entra como recurso p\u00fablico.<\/p>\n<p>A rigor, estamos diante de uma pol\u00edtica que pode indiferenciar as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas em detrimento do p\u00fablico, j\u00e1 que as corpora\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m se acercam da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n<p><strong>Em setembro acontecer\u00e1 o 2\u00b0 Encontro Nacional dos Educadores e Educadoras da Reforma Agr\u00e1ria (Enera), em Bras\u00edlia. Como o Enera\u00a0se insere nesta conjuntura?<\/strong><\/p>\n<p>Tenho uma expectativa muito positiva em rela\u00e7\u00e3o ao segundo Enera. No primeiro Enera tivemos a constitui\u00e7\u00e3o de outra perspectiva pedag\u00f3gica para a educa\u00e7\u00e3o brasileira, que foi a Educa\u00e7\u00e3o do Campo, uma conceitua\u00e7\u00e3o do que seria uma educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica voltada para o campo, mas com um horizonte de forma\u00e7\u00e3o humana que ultrapassa o campo.<\/p>\n<p>Foi certamente uma proposta que promoveu s\u00ednteses brilhantes entre uma perspectiva cr\u00edtica que vem do campo marxista, da ideia da escola unit\u00e1ria, do trabalho, ao compreender que o trabalho deveria ser um elemento simb\u00f3lico, imaginativo, capaz de nos constituir como seres humanos, e que portanto a escola \u00e9 o lugar da cultura, da arte, da ci\u00eancia, da tecnologia, e n\u00e3o uma institui\u00e7\u00e3o livresca. \u00c9 uma institui\u00e7\u00e3o que tem intera\u00e7\u00e3o com o mundo, com a vida, com os processos de trabalho, com a produ\u00e7\u00e3o real da cultura em diversos espa\u00e7os, como pensar no que significa a agricultura no Brasil.<\/p>\n<p>Foi uma proposta pedag\u00f3gica que promoveu s\u00ednteses incorporando pensamento cr\u00edtico marxista, tradi\u00e7\u00e3o latino-americana de educa\u00e7\u00e3o popular, particularmente com Paulo Freire, e criou bases para um pensamento pedag\u00f3gico socialista.<\/p>\n<p>O segundo Enera, a meu ver, est\u00e1 desafiado pela conjuntura a fazer um balan\u00e7o do que foi essa mercantiliza\u00e7\u00e3o e de como o capital est\u00e1 tentando se apropriar do conjunto da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n<p>Ao fazer essa reflex\u00e3o, certamente o Enera vai ajudar a criar bases para uma perspectiva de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica unit\u00e1ria capaz de contrapor a educa\u00e7\u00e3o frente \u00e0 l\u00f3gica de movimentos empresariais como o\u00a0Todos pela Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pode haver incorpora\u00e7\u00f5es de elementos novos na nossa reflex\u00e3o sobre a pedagogia socialista que respondam aos desafios da ofensiva do capital, mas sobretudo respondam aos anseios que est\u00e3o pulsando em todo o pa\u00eds em torno da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Como as \u00faltimas greves na educa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Podemos problematizar a fragmenta\u00e7\u00e3o das lutas pela educa\u00e7\u00e3o, o fato de que muitas vezes s\u00e3o lutas econ\u00f4micas e corporativas, que est\u00e3o vinculadas \u00e0s pol\u00edticas municipais e estaduais, mas n\u00e3o tenho d\u00favidas de que essas lutas que est\u00e3o pulsando no pa\u00eds est\u00e3o enfrentando aspectos dessa pedagogia do capital, criticando a meritocracia, a racionalidade das compet\u00eancias e dos sistemas centralizados de avalia\u00e7\u00e3o, o uso de cartilhas.<\/p>\n<p>Temos cr\u00edticas reais a essa l\u00f3gica de controle que o capital est\u00e1 buscando sobre a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, mas precisamos sistematizar isso com outros fundamentos pedag\u00f3gicos, e aprofundando a experi\u00eancia que foi constru\u00edda a partir do primeiro Enera.<\/p>\n<p>No segundo Enera acredito que novas dimens\u00f5es para essa pedagogia socialista v\u00e3o ser esbo\u00e7ados, e n\u00e3o como o resultado de um processo em que os especialistas de educa\u00e7\u00e3o do MST v\u00e3o se reunir e pensar o que seria essa agenda.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, como resultado de uma articula\u00e7\u00e3o de movimentos que est\u00e3o fazendo educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e est\u00e3o buscando uma educa\u00e7\u00e3o criativa, que est\u00e3o fazendo as lutas de resist\u00eancias com as greves, mobiliza\u00e7\u00f5es, com a participa\u00e7\u00e3o de estudantes.<\/p>\n<p>Esta riqueza de produ\u00e7\u00f5es que est\u00e3o em circula\u00e7\u00e3o nas lutas em defesa da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica que podem criar uma sistematiza\u00e7\u00e3o maior. Cria condi\u00e7\u00f5es para que possamos ampliar esta alian\u00e7a entre experi\u00eancias da luta urbana com as que v\u00eam do campo, produzindo novas s\u00ednteses e novas possibilidades para que a classe trabalhadora tenha sua pr\u00f3pria agenda para o futuro da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u00c9 um processo longo e exigir\u00e1 um esfor\u00e7o organizativo e intelectual de enorme envergadura. Temos que ter uma produ\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica mais sistematizada, mais profunda, para criarmos a base desse pensamento pedag\u00f3gico cr\u00edtico, que assegure uma forma\u00e7\u00e3o integral, mas uma educa\u00e7\u00e3o que recusa a divis\u00e3o dos seres humanos em dois grupos: um que pensa e manda, outro que executa e obedece.<\/p>\n<p>Essas bases para uma proposta socialista est\u00e3o sendo gestadas nas lutas, mas com o Enera podemos ganhar um momento de qualidade no terreno da elabora\u00e7\u00e3o, articula\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o em defesa desse projeto de novo tipo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Entrevista original publicada no site <a href=\"http:\/\/brasildefato.com.br\/node\/32359\" target=\"_blank\">Brasil de Fato<\/a>.<\/em><\/p>\n<p>http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/samuel\/40983\/grandes+grupos+economicos+estao+ditando+a+formacao+de+jovens+brasileiros+diz+novo+reitor+da+ufrj.shtml#<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Luiz Felipe Abulquerque | Brasil de Fato | S\u00e3o Paulo &#8211; 11\/07\/2015 &#8211; 06h00 Para Roberto Leher, educa\u00e7\u00e3o brasileira se tornou &#8216;um grande \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8871\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[60,54],"tags":[],"class_list":["post-8871","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c71-educacao","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2j5","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8871","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8871"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8871\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8871"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8871"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8871"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}