{"id":8888,"date":"2015-07-17T01:35:46","date_gmt":"2015-07-17T04:35:46","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=8888"},"modified":"2015-08-01T13:50:53","modified_gmt":"2015-08-01T16:50:53","slug":"e-o-lobo-e-o-lobo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8888","title":{"rendered":"\u00c9 o lobo, \u00e9 o lobo!"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2015\/07\/mauro-iasi_c3a9-o-lobo.jpg?w=747&#038;h=500&#038;fit=500%2C500\" alt=\"imagem\" \/><em>Por <a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/category\/colunas\/mauro-iasi\/\" target=\"_blank\">Mauro Luis Iasi<\/a>.<\/em><\/p>\n<p>Uma vez mais se apresenta o alerta sobre a possibilidade de interrup\u00e7\u00e3o do mandato presidencial e a possibilidade de algum tipo de golpe. Desta vez pelas declara\u00e7\u00f5es golpistas do PSDB, preocupado que o prazo para que a interrup\u00e7\u00e3o leve a uma nova elei\u00e7\u00e3o est\u00e1 para se esgotar. Como das outras vezes, intensificam-se os ataques ao governo, convocam-se novas manifesta\u00e7\u00f5es e os meios de comunica\u00e7\u00f5es atacam com novas e requentadas den\u00fancias.<!--more--><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/03\/17\/a-adaga-dos-covardes-ou-o-limite-da-imbecilidade-direitista\/\" target=\"_blank\">Continuamos acreditando<\/a> que a op\u00e7\u00e3o principal da direita, no sentido mais preciso dos interesses de classe ligados ao grande capital monopolista, caminha em outro sentido, qual seja, de produzir uma transi\u00e7\u00e3o sob um governo fraco e sob cerco, enquanto se gesta uma alternativa para substitu\u00ed-lo nas elei\u00e7\u00f5es de 2018. Alert\u00e1vamos, no entanto, em outra oportunidade, que um dos mecanismos desta opera\u00e7\u00e3o, a constante amea\u00e7a de impedimento antecipado da presidente, poderia ganhar uma din\u00e2mica pr\u00f3pria e se viabilizar como alternativa e, desta maneira, n\u00e3o estaria por princ\u00edpio descartada como possibilidade pelo bloco dominante.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio atual comprova a persist\u00eancia deste quadro. Intensificam-se os ataques, enquanto a base de sustenta\u00e7\u00e3o do governo no Congresso \u00e9 corro\u00edda e os meios de comunica\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nicos, por meio de um eficiente manejo do anti-petismo, trabalham para configurar um clima de descontrole total nas hostes governistas. Ao mesmo tempo o governo reage intensificando suas concess\u00f5es ao bloco dominante: implanta o ajuste e as pol\u00edticas de austeridade, intensifica os ataques aos trabalhadores (como nas medidas provis\u00f3rias 664 e 665, no veto \u00e0s superficiais mudan\u00e7as na previd\u00eancia, etc.), opera cortes na educa\u00e7\u00e3o e na sa\u00fade, e imp\u00f5e arrocho sobre o funcionalismo p\u00fablico federal. Tudo isso sem deixar de abrir seus cofres em generosas contribui\u00e7\u00f5es ao agroneg\u00f3cio e financiar a manuten\u00e7\u00e3o de empregos com redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios e benef\u00edcios para as grandes empresas.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre estes dois vetores da conjuntura que nem sempre fica t\u00e3o vis\u00edvel. O desgaste inevit\u00e1vel que as concess\u00f5es ao grande capital monopolista produzem gera uma igualmente inevit\u00e1vel depress\u00e3o nos setores sociais que sustentaram a atual presidente na expectativa de uma mudan\u00e7a de orienta\u00e7\u00e3o. A esquerda petista, isolada e minorit\u00e1ria no interior do PT, est\u00e1 rouca de tanta tentar alertar que o caminho escolhido contribui com a estrat\u00e9gia da direita de ir sangrando o governo e dilapidando sua base social para derrot\u00e1-lo eleitoralmente na pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o nacional. Prop\u00f5em um \u201ccavalo de pau\u201d, rompendo com a alian\u00e7a com o PMDB e retomando o caminho de um projeto democr\u00e1tico popular.<\/p>\n<p>Neste ponto a situa\u00e7\u00e3o ganha uma complexidade que est\u00e1 longe de ser simples de ser compreendida. A analogia do \u201ccavalo de pau\u201d serve como imagem da urgente necessidade de uma mudan\u00e7a radical de rumos, mas \u00e9 absolutamente inapropriada para o momento. O ato de puxar o freio de m\u00e3o e produzir uma mudan\u00e7a abrupta de dire\u00e7\u00e3o, inclusive valendo-se da derrapagem lateral do ve\u00edculo, costuma funcionar, n\u00e3o sem riscos de capotagens, quando se trata de ve\u00edculos leves. Mas no caso de um grande navio, h\u00e1 restri\u00e7\u00f5es de movimento por conta de suas dimens\u00f5es e do tamanho de seu calado. Quando se aproxima do porto, por exemplo, uma embarca\u00e7\u00e3o como essa n\u00e3o pode nem sequer sair fora do rumo do canal, e mesmo com suas m\u00e1quinas desligadas chega a percorrer milhas antes de parar. Por essas condi\u00e7\u00f5es estruturais, ele est\u00e1 impossibilitado de dar o que se chamaria de um \u201ccavalo de pau\u201d. O governo petista est\u00e1 mais para um grande navio do que para um carro esporte.<\/p>\n<p>No entanto, cabe nos perguntar: por que motivo o governo opera num aparente paradoxo que contribui para a estrat\u00e9gia daqueles que querem derrot\u00e1-lo? Podemos falar o que quisermos deste governo (muito temos falado de como ele operou uma estrat\u00e9gica que desarmou a classe trabalhadora conduzindo-a ao p\u00e2ntano da concilia\u00e7\u00e3o de classes), mas n\u00e3o que ele \u00e9 ing\u00eanuo ou que lhe falta habilidade pol\u00edtica. Aqui a analogia com o navio \u00e9 ainda mais \u00fatil, pois n\u00e3o adianta olharmos para a superf\u00edcie do mar ou para as hipn\u00f3ticas luzes de bordo, pois a resposta est\u00e1 no canal em que navega.<\/p>\n<p>O caminho escolhido pelo PT como via de desenvolvimento de sua estrat\u00e9gia acabou por considerar virtuosa uma configura\u00e7\u00e3o que segundo seu ju\u00edzo constitu\u00eda uma imprud\u00eancia da burguesia e um cen\u00e1rio favor\u00e1vel aos desenvolvimento de \u201creformas\u201d gradualistas que beneficiariam aos trabalhadores. Este equ\u00edvoco se fundamenta na incompreens\u00e3o de um dos elementos do Estado burgu\u00eas na sua configura\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p><strong>A FORMA DEMOCR\u00c1TICA DA REP\u00daBLICA BURGUESA<\/strong><\/p>\n<p>Talvez possa parecer, a um olhar superficial, que a forma democr\u00e1tica da rep\u00fablica burguesa e a preval\u00eancia das elei\u00e7\u00f5es como um meio de composi\u00e7\u00e3o de seus governos, fosse um equ\u00edvoco das classes dominantes (ou ainda, em outro registro, uma concess\u00e3o que s\u00f3 se explica pela press\u00e3o dos trabalhadores). Afinal, sendo as elei\u00e7\u00f5es um jogo num\u00e9rico e a classe trabalhadora inegavelmente mais numerosa que as classes dominantes, a tend\u00eancia seria a forma\u00e7\u00e3o gradual maiorias que pouco a pouco poderiam ir construindo a vontade geral como express\u00e3o dos interesses dos trabalhadores, reduzindo o poder pol\u00edtico da burguesia \u00e0 proporcionalidade de sua express\u00e3o quantitativa.<\/p>\n<p>O que os atuais reformistas (a bem da verdade estes senhores acabaram ficando muito aqu\u00e9m do reformismo, a ponto de ter de ficar a cargo da esquerda petista a defesa da retomada do rumo das reformas), de fato desconhecem \u00e9 que a burguesia j\u00e1 equacionou h\u00e1 muito tempo este problema. Podemos comprovar isso resgatando o pensamento de James Madison (1751-1836), que foi um dos destacados redatores de <em>O Federalista<\/em> (uma serie de ensaios, publicada 1788, defendendo a federa\u00e7\u00e3o contra a forma confederada), no contexto da luta pela independ\u00eancia dos EUA e consolida\u00e7\u00e3o de sua forma pol\u00edtica republicana.<\/p>\n<p>O problema dos revolucion\u00e1rios norte-americanos, resumidamente, era determinar qual seria a forma de governo da jovem na\u00e7\u00e3o que poderia responder simultaneamente a duas exig\u00eancias cruciais: manter a necess\u00e1ria unidade pol\u00edtica, economia e militar das ex-col\u00f4nias, e garantir a liberdade das partes aderissem \u00e0 na\u00e7\u00e3o, evitando o risco da tirania.<\/p>\n<p>Diante disso se enfrentam com o problema das fac\u00e7\u00f5es, entendidas, nos termos de Madison, como grupos de cidad\u00e3os, maiorias ou minorias, que unidos por sentimentos e interesses comuns se op\u00f5em a outras fac\u00e7\u00f5es, cidad\u00e3os ou mesmo interesses coletivos de uma comunidade. Parecia a Madison que as duas possibilidades apresentadas \u2013 atacar as causas das fac\u00e7\u00f5es ou tentar controlar seus efeitos \u2013 se apresentavam impratic\u00e1veis. Isso porque as causas estariam ligadas \u00e0 natureza humana, sendo portanto, incontorn\u00e1veis. Quanto ao controle dos efeitos, a impraticabilidade derivaria do fato de que teria que ser operada pelos pr\u00f3prios seres humanos que colocariam suas vontades e paix\u00f5es como crit\u00e9rio de tal controle. A solu\u00e7\u00e3o encontrada seria, segundo Madison, colocar tanto a natureza como seus efeitos a servi\u00e7o de uma forma que possibilitasse a Rep\u00fablica. A chave para tal feito seria expressa na formula: \u201cambi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 incentivada para enfrentar a ambi\u00e7\u00e3o\u201d (<em>O Federalista<\/em>, n.51).<\/p>\n<p>Antes de ver como isso se materializa em uma forma pol\u00edtica, \u00e9 importante fazer uma ressalva. Apesar de localizar na natureza humana o comportamento de fac\u00e7\u00e3o, o revolucion\u00e1rio norte-americano sabe que a base material da disputa dos diversos interesses que comp\u00f5em uma sociedade n\u00e3o \u00e9 a mera predisposi\u00e7\u00e3o dos seres humanos como criaturas \u201cambiciosas, vingativas e rapaces\u201d. Por isso poder\u00e1 concluir, sem abandonar aquela premissa, que \u201ca fonte mais comum e duradoura das fac\u00e7\u00f5es tem sido a distribui\u00e7\u00e3o variada e desigual da propriedade\u201d, de tal forma que \u201caqueles que possuem e os n\u00e3o-propriet\u00e1rios invariavelmente corporificam distintos interesses na sociedade\u201d.<\/p>\n<p>Todos s\u00e3o ju\u00edzes de suas pr\u00f3prias causas. Uma vez que prevale\u00e7a o poder de uma fac\u00e3o ou conjunto de fac\u00e7\u00f5es associadas, seria natural supor que esta maioria tente impor seus interesses sobre as demais, impondo os interesses dos manufatureiros sobre os donos de terra, ou o inverso, \u201cn\u00e3o havendo em nenhum dos casos considera\u00e7\u00e3o para com a justi\u00e7a ou o interesse p\u00fablico\u201d. A confian\u00e7a de que \u201cestadistas esclarecidos\u201d poderiam funcionar em prol do equil\u00edbrio e da preval\u00eancia do bem p\u00fablico \u00e9 descartada pelo autor com requintes de pragmatismo: \u201cnem sempre os estadistas esclarecidos estar\u00e3o no leme\u201d.<\/p>\n<p>Notem que, como fica evidente, o objetivo destes senhores \u00e9 evitar a tirania da maioria. A solu\u00e7\u00e3o de uma \u201cdemocracia pura\u201d, como a denominavam, \u00e9 recusada. Ela \u00e9 definida como necessariamente pr\u00f3pria de pequenas sociedades formadas por indiv\u00edduos virtuosos (definidos como aqueles que colocam o bem comum sobre o interesse particular) e cuja base \u00e9 a frugalidade, nos termos de Montesquieu. Em outras palavras, essa forma pol\u00edtica s\u00f3 funcionaria num contexto de pouca riqueza e uma vida simples e estaria descartada para grandes na\u00e7\u00f5es poderosas econ\u00f4mica e militarmente. Neste ponto, a afirma\u00e7\u00e3o de que as fac\u00e7\u00f5es se formam pela distribui\u00e7\u00e3o desigual da propriedade ganha uma dimens\u00e3o decisiva.<\/p>\n<p>A forma da \u201cdemocracia pura\u201d em uma sociedade moderna seria palco de \u201cdist\u00farbios e controv\u00e9rsias\u201d e levaria necessariamente a um quadro de inseguran\u00e7a e incapacidade de garantir o direito de propriedade, tendo conseguentemente, segundo o ju\u00edzo de Madison, uma vida curta e um fim violento. A solu\u00e7\u00e3o, portanto, \u00e9 a uma rep\u00fablica em que se aplica o \u201cesquema da representa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Entre as v\u00e1rias vantagens apresentadas por Madison para defender a rep\u00fablica contra a democracia pura, estaria em primeiro lugar o fato de que por meio da representa\u00e7\u00e3o os \u201cpontos de vista da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o filtrados\u201d pelo crivo de alguns cidad\u00e3os que ir\u00e3o represent\u00e1-los. Como o povo escolheria os \u201cmelhores\u201d nesse processo de sele\u00e7\u00e3o, os seria justo dizer que os eleitos saber\u00e3o discernir os verdadeiros interesses do pa\u00eds, gra\u00e7as ao seu \u201cpatriotismo e amor pela justi\u00e7a\u201d, dificilmente sacrificando estes interesses por \u201cconsidera\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias ou parciais\u201d, nas palavras de James Madison que chegou a ser o quarto presidente dos EUA.<\/p>\n<p>Evidentemente soa estranho esse grau de f\u00e9 nas virtudes morais expressa na pena do fundador do Partido Republicano, um sujeito, como vimos, dotado justamente de uma posi\u00e7\u00e3o marcada pelo pragmatismo. Sem d\u00favida, Madison tem plena consci\u00eancia de que indiv\u00edduos de \u201ctemperamento faccioso e prop\u00f3sitos maldosos\u201d podem por v\u00e1rios meios, inclusive a intriga e a corrup\u00e7\u00e3o, conseguir os votos necess\u00e1rios e \u201cdepois trair os interesses do povo\u201d. No entanto, para ele, a solu\u00e7\u00e3o estaria na pr\u00f3pria dimens\u00e3o da rep\u00fablica moderna, no sentido quantitativo propriamente dito.<\/p>\n<p>O argumento de Madison \u00e9 de que a fragmenta\u00e7\u00e3o de uma grande popula\u00e7\u00e3o em diversas fac\u00e7\u00f5es e partidos, pulveriza a representa\u00e7\u00e3o. Assim, com cada um buscando apenas seu pr\u00f3prio interesse, fica dif\u00edcil formar maiorias, obriga-se que os governantes (ainda que sendo express\u00e3o de uma maioria eleitoral) negociem com um conjunto pulverizado de interesses para lograr estabilidade em seu governo. Diz Madison ao falar da rep\u00fablica que defende:<\/p>\n<p>\u201calargado este campo (o do n\u00famero de cidad\u00e3o de um Estado) teremos uma variedade maior de partidos e interesses, tornando menos prov\u00e1vel a constitui\u00e7\u00e3o de uma maioria no conjunto que, alegando uma motiva\u00e7\u00e3o comum, usurpe os direitos de outros cidad\u00e3os\u201d.<\/p>\n<p>Desta maneira, conclui Madison, ter\u00edamos uma estrutura adequada, um \u201crem\u00e9dio republicano para as doen\u00e7as mais incidentes sobre um governo republicano\u201d.<\/p>\n<p>Reparem: a vacina contra a poss\u00edvel \u201cdoen\u00e7a\u201d de uma maioria chegar ao poder em algum ponto do Estado burgu\u00eas est\u00e1 dada desde 1788. N\u00e3o \u00e9 demais relembrar que tal estrutura adequada se completa com um redesenho da solu\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica da divis\u00e3o de poderes, muito al\u00e9m da simples divis\u00e3o funcional na qual quem governa n\u00e3o redige as leis, e quem as redige n\u00e3o governa, da mesma forma que aquele que julga n\u00e3o redige a lei, nem governa.<\/p>\n<p><strong>O MENINO E O LOBO<\/strong><\/p>\n<p>Agora, depois da experi\u00eancia norte-americana, aplica-se uma din\u00e2mica de pesos e contrapesos. Isto \u00e9, a cada poder de uma esfera se apresenta um poder para que a outra o controle, como no dispositivo de veto do executivo a uma lei elaborada pelo legislativo e a possibilidade de derrubada do veto pelo segundo, assim como, se houver d\u00favidas os tribunais s\u00e3o acionados e se tudo der errado h\u00e1 for\u00e7as armadas para \u201cgarantir\u201d a constitui\u00e7\u00e3o em defesa da propriedade (notem como estamos hoje muito longe da necessidade deste \u00faltimo expediente).<\/p>\n<p>No contexto atual estas chamadas estruturas adequadas n\u00e3o est\u00e3o menos, mas muito <em>mais eficientes e sofisticadas<\/em>. Em forma\u00e7\u00f5es sociais como a nossa, na qual a contradi\u00e7\u00e3o entre propriet\u00e1rios e n\u00e3o-propriet\u00e1rios \u00e9 explosiva, o risco de uma tirania da maioria \u00e9 enfrentado com rigor e profissionalismo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de um eventual executivo que expresse uma certa maioria eleitoral ligeiramente comprometida com interesses populares ser obrigado a compor sua governabilidade com os partidos que comp\u00f5em o poder legislativo, o filtro eleitoral garante que ali se represente o conjunto das fac\u00e7\u00f5es das classes propriet\u00e1rias, obstaculizando ao m\u00e1ximo a possibilidade da maioria real na sociedade se apresentar como maioria na chamada \u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Uma das formas conhecidas, e n\u00e3o por acaso veementemente garantida na atual farsa da reforma pol\u00edtica, \u00e9 o financiamento privado de campanha em sua forma expl\u00edcita. O poder econ\u00f4mico na sociedade capitalista sempre determina a disputa eleitoral, mesmo numa situa\u00e7\u00e3o na qual se pro\u00edba o financiamento direto de empres\u00e1rios, seja por formas il\u00edcitas e caminhos alternativos (que n\u00e3o deixam de agir mesmo na legalidade do financiamento privado) seja por seu poder indireto no controle de v\u00e1rias esferas da vida, da comunica\u00e7\u00e3o de massa, da cultura, do assedio que se funda no poder brutal que patr\u00f5es t\u00eam sobre os trabalhadores nos locais de trabalho, etc.<\/p>\n<p>Uma vez entrando neste canal e aceitando suas regras, que por um tempo favoreceram os governos petistas e sua continuidade, torna-se muito dif\u00edcil sair, pelo menos sem rupturas consider\u00e1veis. Ocorre que \u00e9 exatamente a dimens\u00e3o da ruptura que foi abandonada no desenho da estrat\u00e9gia. Querer introduzi-la agora \u00e9 uma artificialidade infantil, ing\u00eanua e, por uma motivo mais banal, imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Nos termos atuais, para a burguesia inviabilizar o governo petista, basta o deslocamento do PMDB para um bloco de oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o tendo outra alternativa no horizonte imediato que n\u00e3o manter o rumo, a comandante tenta se manter firme no tim\u00e3o exercendo a arte de fazer de conta que n\u00e3o \u00e9 com ela, enquanto caminha decididamente para a cat\u00e1strofe. Para se manter cede aos interesses do capital e mergulha ainda mais na tentativa insana de manter a base aliada que se desfaz sob seus p\u00e9s. Esta t\u00e1tica permite sobreviver no campo imediato, mas tudo indica que fortalece as condi\u00e7\u00f5es da futura derrota eleitoral. Este \u00e9 o paradoxo.<\/p>\n<p>N\u00e3o podendo mobilizar suas bases sociais que correm o risco de serem capturadas pela direita, pela a\u00e7\u00e3o em defesa de direitos, conquistas ou condi\u00e7\u00f5es de vida (uma vez que o presente ajuste e a linha de governo praticada nos \u00faltimos doze anos caminharam no sentido contr\u00e1rio), resta a esperan\u00e7a de que, mais uma vez, a chantagem da necessidade do apoio a este governo contra a \u201cdireita\u201d ou o \u201cconservadorismo\u201d.<\/p>\n<p>Sabemos que a direita se move em v\u00e1rias frentes, \u00e9 evidente a <a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/04\/15\/de-onde-vem-o-conservadorismo\/\" target=\"_blank\">retomada de um conservadorismo<\/a> sem m\u00e1scaras e preocupante. Compreendemos que papel estes fatores ocupam na estrat\u00e9gia do desgaste visando uma futura derrota eleitoral do petismo, ou na possibilidade de antecipar este desfecho por uma interrup\u00e7\u00e3o do mandato da presidente. Mas a direita e a forma de manifesta\u00e7\u00e3o do conservadorismo tem um papel, tamb\u00e9m, na estrat\u00e9gia governista. \u00c9 o de desviar a aten\u00e7\u00e3o da brutalidade do ajuste e do real e evidente car\u00e1ter do compromisso do governo com as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 retomada da acumula\u00e7\u00e3o de capitais, criando uma cortina de fuma\u00e7a que desvia a aten\u00e7\u00e3o para uma abstrata contraposi\u00e7\u00e3o entre conservadorismo e progressismo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de desviar a aten\u00e7\u00e3o do ataque operado contra os trabalhadores, a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade p\u00fabica e tantas outras \u00e1reas, procurando desarmar a resist\u00eancia que se ensaia nas greves e nas lutas sociais, h\u00e1 tamb\u00e9m a clara inten\u00e7\u00e3o de desvincular-se do governo que naufraga para, justificado pelo combate ao conservadorismo, manter a mesma estrat\u00e9gia e a continuidade do ciclo petista.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o para esta estrat\u00e9gia nos rumos escolhidos, ao mesmo tempo n\u00e3o h\u00e1 como buscar outros caminhos mantendo-se no essencial esta estrat\u00e9gia que ao nosso ver se esgotou.<\/p>\n<p>No melhor cen\u00e1rio imaginado pela comandante agarrada ao tim\u00e3o \u00e9 que o reajuste d\u00ea certo, a economia capitalista volte a crescer, o governo logre manter a alian\u00e7a com o PMDB e tenha condi\u00e7\u00f5es de disputar as elei\u00e7\u00f5es para renovar o mito. Vejam que o melhor cen\u00e1rio renova o caminho que os colocou no impasse em que se encontram.<\/p>\n<p>\u00c9 bom que lembremo-nos que, pelo menos na vers\u00e3o original da hist\u00f3ria, quando o lobo veio mesmo\u2026 ningu\u00e9m acreditou no menino.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Mauro Iasi\u00a0<\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a>\u00a0(Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a>\u00a0(Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o\u00a0<strong>Blog da Boitempo\u00a0<\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/07\/15\/e-o-lobo-e-o-lobo\/\">\u00c9 o lobo, \u00e9 o&nbsp;lobo!<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Mauro Luis Iasi. 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