{"id":89,"date":"2009-08-23T23:05:20","date_gmt":"2009-08-23T23:05:20","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=89"},"modified":"2009-08-23T23:05:20","modified_gmt":"2009-08-23T23:05:20","slug":"a-historia-se-repete-no-afeganistao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/89","title":{"rendered":"\u201cA hist\u00f3ria se repete no Afeganist\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>BBC Mundo conversou sobre este tema com Robert Fisk, jornalista brit\u00e2nico veterano, autor de v\u00e1rios livros e correspondente do jornal The Independent no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, o Talib\u00e3 experimentou um ressurgimento e hoje em dia tem o controle em v\u00e1rias regi\u00f5es do Afeganist\u00e3o. Como se explica que esteja ganhando tanto apoio?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que esteja ganhando apoio. Deve-se tomar em conta que uma vez que uma for\u00e7a de ocupa\u00e7\u00e3o passa certo per\u00edodo em um pa\u00eds h\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o contra ela.<\/p>\n<p>Recordo que em 2002 visitei alguns povoados no entorno de Kandahar e as pessoas nos diziam que estavam perdendo a paci\u00eancia. \u201cVoc\u00eas do Ocidente t\u00eam prometido muitas coisas que n\u00e3o t\u00eam cumprido\u201d, me diziam.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 simplesmente que o Talib\u00e3 tenha come\u00e7ado, de uma hora para a outra, a ser uma for\u00e7a popular ou que o adorem. O fato \u00e9 que eles come\u00e7aram a representar a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o, ainda quando as suas pol\u00edticas sociais, se \u00e9 que se pode chamar assim, s\u00e3o horr\u00edveis.<\/p>\n<p>Inclusive, quando as mulheres eram tratadas como objeto sob o governo do Talib\u00e3, este conseguiu impor uma ordem no Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu estive em Kandahar novamente no per\u00edodo do natal e nos hospitais chegavam muitas crian\u00e7as fam\u00e9licas porque n\u00e3o havia alimentos nos povoados e o hospital tinha uma incubadora para tr\u00eas prematuros.<\/p>\n<p>Isto com sete anos ap\u00f3s a ofensiva estadunidense no Afeganist\u00e3o. Que tipo de progresso estamos levando ao Afeganist\u00e3o? Estas s\u00e3o as necessidades cruciais \u00e0s quais h\u00e1 que se responder caso se queira enfrentar ao Talib\u00e3.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos e a OTAN t\u00eam feito do Afeganist\u00e3o a prioridade n\u00famero um na luta contra o terrorismo e para isso, neste ver\u00e3o, mais de 90.000 soldados se somar\u00e3o \u00e0s opera\u00e7\u00f5es no pa\u00eds. Voc\u00ea cr\u00ea que esta estrat\u00e9gia funcionar\u00e1?<\/p>\n<p>N\u00e3o. \u00c9 uma loucura. N\u00e3o entendo por que Obama fez do Afeganist\u00e3o um tema t\u00e3o crucial do ponto de vista militar.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 que o ex\u00e9rcito sovi\u00e9tico, quando invadiu o pa\u00eds no final dos anos 70, tinha o dobro de soldados e n\u00e3o p\u00f4de com o Afeganist\u00e3o. Tiveram que retirar-se. Como diabos os estadunidenses v\u00e3o se virar com a metade de tropas? Ter\u00e3o que se retirar tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o cemit\u00e9rio dos imp\u00e9rios e ser\u00e1 o cemit\u00e9rio das tropas estadunidenses se Obama n\u00e3o se der conta de que o que h\u00e1 a fazer \u00e9 sair do Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante que voc\u00ea diga isso porque acabo de ler um artigo de um jornalista e acad\u00eamico da Funda\u00e7\u00e3o Nova Am\u00e9rica que sustenta que esta ideia de que o Afeganist\u00e3o \u00e9 o cemit\u00e9rio dos imp\u00e9rios n\u00e3o \u00e9 mais do que um clich\u00ea.<\/p>\n<p>Gostaria que fosse um clich\u00ea, mas lamentavelmente o ex\u00e9rcito brit\u00e2nico sofreu uma devastadora derrota no Afeganist\u00e3o em 1882, os russos tamb\u00e9m foram derrotados nos anos 80 e este tem sido o cemit\u00e9rio de muitas pot\u00eancias desde os tempos de Alexandre Magno.<\/p>\n<p>Desafortunadamente essa \u00e9 a verdade e n\u00e3o podemos dizer simplesmente \u201cisso \u00e9 hist\u00f3ria; estamos agora em uma nova era\u201d. Se isso n\u00e3o for compreendido, essa hist\u00f3ria ser\u00e1 repetida, e a hist\u00f3ria est\u00e1 se repetindo no Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante que muitos soldados brit\u00e2nicos est\u00e3o morrendo a apenas algumas milhas de onde se produziu, no s\u00e9culo XIX, uma derrota brit\u00e2nica em uma batalha chamada Maywand. At\u00e9 nisto a hist\u00f3ria est\u00e1 se repetindo no Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 quem considera que alguns dos elementos desta nova estrat\u00e9gia foram aplicados no Iraque com \u00eaxito. O que voc\u00ea diria a este respeito?<\/p>\n<p>O Iraque \u00e9 um caso bem louco, do ponto de vista social e econ\u00f4mico. Nada tem funcionado para os iraquianos. Sa\u00edram de Saddam Hussein, mas n\u00e3o havia tantos mortos sob aquele governo.<\/p>\n<p>O problema \u00e9: estamos no Afeganist\u00e3o por raz\u00f5es morais? Para educar o povo? Estamos a\u00ed para trazer igualdade de g\u00eanero? Isso n\u00e3o acontecer\u00e1.<\/p>\n<p>Uma das quest\u00f5es que me coloco constantemente, especialmente quando estou em qualquer lugar dos Estados Unidos, \u00e9 esta ideia de que podemos andar pelo mundo injetando os nossos modelitos de democracia nos lugares afastados onde n\u00e3o existe esta tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando eu converso com um homem do interior do Afeganist\u00e3o, n\u00e3o das cidades, convenc\u00ea-lo da import\u00e2ncia da igualdade de g\u00eanero \u00e9 como convencer Henrique VIII (monarca brit\u00e2nico que governou de 1509 a 1547) das vantagens da democracia parlamentar. N\u00e3o se consegue.<\/p>\n<p>Qualquer desenvolvimento que se produza no Afeganist\u00e3o vai acontecer sem a interven\u00e7\u00e3o estrangeira.<\/p>\n<p>Em um discurso recente, o embaixador brit\u00e2nico David Milliband defendeu a necessidade de negociar com os elementos moderados do Talib\u00e3 como um componente chave desta nova estrat\u00e9gia, e isso foi algo que tamb\u00e9m se fez no Iraque. Ser\u00e1 vi\u00e1vel no Afeganist\u00e3o?<\/p>\n<p>Por anos esta tem sido uma pol\u00edtica brit\u00e2nica no Afeganist\u00e3o, ainda quando n\u00e3o \u00e9 feita publicamente. Mas o problema \u00e9 que no Afeganist\u00e3o n\u00e3o se trata de ter moderados e militantes de linha dura dentro da insurg\u00eancia. A sociedade afeg\u00e3 \u00e9 uma sociedade tribal.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se paga aos Senhores da Guerra, como de fato se fez no Iraque, e dessa forma \u00e9 que se poderia sair do Afeganist\u00e3o: pagando a alguns inimigos para que recrutem outros inimigos e, assim, comprar influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas o fato \u00e9 que isso foi feito no Afeganist\u00e3o ap\u00f3s a ofensiva estadunidense de 2001. Pagou-se a Senhores da Guerra para que estabelecessem esp\u00e9cies de quart\u00e9is tribais.<\/p>\n<p>Muitos destes Senhores da Guerra est\u00e3o agora no governo de (Hamid) Karzai, outra farsa democr\u00e1tica, e assim se seguir\u00e1 fazendo. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 nada de novo no que Miliband diz.<\/p>\n<p>Obama disse que quer uma estrat\u00e9gia de sa\u00edda do Afeganist\u00e3o, mas para ele isso significa sair com \u00eaxito. Pode-se prever algum n\u00edvel de \u00eaxito ou ser\u00e1 que o Afeganist\u00e3o \u00e9 o Vietn\u00e3 de Obama?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o caso de dizer que este ser\u00e1 o Vietn\u00e3 de Obama. Este sim \u00e9 um clich\u00ea, mas trazer democracia e igualdade de g\u00eanero ao Afeganist\u00e3o \u00e9 um objetivo inalcan\u00e7\u00e1vel.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 uma coisa que os afeg\u00e3os querem \u00e9 justi\u00e7a. Mas n\u00f3s n\u00e3o queremos lidar com o tema da justi\u00e7a, queremos bombardear, ocupar, e decidir como os outros devem viver suas vidas.<\/p>\n<p>Obama quer \u00eaxito para os Estados Unidos, n\u00e3o necessariamente para o Afeganist\u00e3o \u2013 e isso n\u00e3o \u00e9 necessariamente o mesmo.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias coisas que ele pode dizer para medir este \u00eaxito, como terem conseguido tais objetivos militares, terem eliminado tantos militantes do Talib\u00e3, terem levado certo grau de democracia a alguns povos,\u2026 mas, o problema, \u00e9 que vivemos com a ilus\u00e3o de que estamos a\u00ed por boas raz\u00f5es e necessitamos uma outra ilus\u00e3o para por fim a esta.<\/p>\n<p>(tradu\u00e7\u00e3o de Rodrigo Oliveira Fonseca)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Entrevista ao jornalista Robert Fisk:\nMar\u00eda Esperanza S\u00e1nchez, da BBC\nO presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez do Afeganist\u00e3o a sua maior prioridade na luta contra o terrorismo.\nA nova estrat\u00e9gia dos Estados Unidos demanda aumentar o n\u00famero de tropas e tamb\u00e9m colocar maior \u00eanfase na reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e no fortalecimento das institui\u00e7\u00f5es.\nEntretanto, isto ocorre em um momento em que as for\u00e7as do Talib\u00e3 continuam ganhando terreno. Espera-se que este ano seja o mais violento e com o maior n\u00famero de v\u00edtimas desde 2001. Neste contexto, qu\u00e3o efetiva ser\u00e1 a estrat\u00e9gia dos EUA? At\u00e9 que ponto ela oferece respostas aos afeg\u00e3os?\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/89\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-89","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1r","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}