{"id":8987,"date":"2015-07-31T18:47:51","date_gmt":"2015-07-31T21:47:51","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=8987"},"modified":"2015-08-16T19:40:35","modified_gmt":"2015-08-16T22:40:35","slug":"este-texto-nao-e-sobre-a-grecia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8987","title":{"rendered":"Este texto n\u00e3o \u00e9 sobre a Gr\u00e9cia"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-m-SRfTNYc9Y\/VaT4gkjEkbI\/AAAAAAAAAZM\/1fnMHrch8Yw\/s640\/nysp.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>por Miguel Tiago*<\/p>\n<p>Nem sobre Portugal, ou Alemanha. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 sobre austeridade, nem sobre resultados de referendos.<\/p>\n<p>Na verdade, ao falar-se de Uni\u00e3o Europeia, excluem-se os povos que alimentam esse projeto imperialista, entre os quais o Grego, o Portugu\u00eas, o Alem\u00e3o. Porque falar de Uni\u00e3o Europeia <!--more-->n\u00e3o \u00e9 falar de Europa, que \u00e9 um continente, um vasto conjunto de pa\u00edses, que c\u00e1 continuar\u00e3o muito ap\u00f3s o colapso do projeto de espolia\u00e7\u00e3o que \u00e9 a Uni\u00e3o Econ\u00f4mica e Monet\u00e1ria e a Uni\u00e3o Pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Este texto n\u00e3o \u00e9 sobre austeridade porque &#8220;austeridade&#8221; \u00e9 a capa sob a qual se esconde o capitalismo. O capitalismo n\u00e3o \u00e9 austero porque austeridade pressup\u00f5e rigor e conten\u00e7\u00e3o no uso de recursos. O capitalismo \u00e9 o inverso disso: \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e a explora\u00e7\u00e3o do trabalho, com desperd\u00edcio incalcul\u00e1vel. O capitalismo, que agora d\u00e1 pelo pomposo nome de &#8220;austeridade&#8221;, faz produzir o dobro do que todos os habitantes globo inteiro necessitariam para viver, mas joga fora metade do que produz e mesmo assim um hemisf\u00e9rio do planeta morre de fome. O capitalismo esbanja os recursos para concentr\u00e1-los nas m\u00e3os dos seus privilegiados. Enquanto metade da popula\u00e7\u00e3o da terra sofre de mal-nutri\u00e7\u00e3o ou car\u00eancias no plano da sa\u00fade, higiene e acesso \u00e0 \u00e1gua, uma outra metade consome o suficiente para suportar um planeta inteiro e ainda joga fora diariamente uma parte igual.<\/p>\n<p>Dessa metade de privilegiados, em que nos inclu\u00edmos apesar de n\u00e3o termos tido op\u00e7\u00e3o, apenas um punhado de indiv\u00edduos abocanha a riqueza gerada, vivendo na opul\u00eancia obscena dos milion\u00e1rios a quem nenhuma fortuna satisfaz. Para que esses milh\u00f5es se concentrem nas m\u00e3os de menos de 1% da popula\u00e7\u00e3o terrestre \u00e9 preciso destruir os recursos comuns e apropriar-se do trabalho dos outros mais de 99%. Mesmo neste contexto, o capitalismo desperdi\u00e7a milh\u00f5es e milh\u00f5es de trabalhadores, votando-os ao desemprego para garantir baixos custos de trabalho e a total precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es laborais.<\/p>\n<p>O capitalismo \u00e9 desperd\u00edcio. Austeridade \u00e9 o eufemismo, tal como Estado Novo o era para o fascismo.<\/p>\n<p>Ora, desde o princ\u00edpio que a Benelux, a Uni\u00e3o do Carv\u00e3o e do A\u00e7o, depois a CEE, agora UEM e a UE, s\u00e3o estruturas de mercados capitalistas, s\u00e3o tratados e acordos entre classes dominantes de diversos pa\u00edses que, por mero acaso, ocupam o solo europeu. Aqueles que agora dizem que a &#8220;Europa falhou&#8221;, que &#8220;a Alemanha destruiu a Europa&#8221;, como muito se l\u00ea por parte dos que, dizendo-se de esquerda, sempre defenderam a estrutura mais de direita que existe no continente: a Uni\u00e3o Europeia, est\u00e3o na verdade, a cumprir o seu papel de sempre.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a &#8220;Europa&#8221; n\u00e3o \u00e9 a &#8220;Uni\u00e3o Europeia&#8221;, porquanto um corresponde a uma soma de povos e a um espa\u00e7o geogr\u00e1fico e outro a um conjunto de tratados entre capitalistas que usurparam estados e decidiram mercados.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, aqueles que agora v\u00eam chorar pela &#8220;europa&#8221; (que \u00e9 na verdade a &#8220;Uni\u00e3o Europeia&#8221;), est\u00e3o apenas a absolver-se a si pr\u00f3prios de terem durante d\u00e9cadas dado a cobertura pol\u00edtica &#8220;de esquerda&#8221; de que o capitalismo sempre precisou para seduzir os povos da Europa com uma Uni\u00e3o de liberdade, fraternidade e amizade quando na verdade ia impondo uma Uni\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A derrota do Governo grego nas negocia\u00e7\u00f5es com a Uni\u00e3o e o Eurogrupo n\u00e3o \u00e9 uma derrota da uni\u00e3o europeia (a que agora essa &#8220;esquerda&#8221; chama &#8220;Europa&#8221;), antes uma vit\u00f3ria dessa estrutura antidemocr\u00e1tica. A derrota do Governo grego \u00e9 o triunfo dessa Uni\u00e3o Europeia, n\u00e3o \u00e9 o triunfo da Alemanha, n\u00e3o \u00e9 o triunfo da Fran\u00e7a, nem de qualquer outro pa\u00eds: \u00e9 o do capitalismo.<\/p>\n<p>Vir agora chorar pela &#8220;Europa&#8221; cumpre apenas o ritual da defesa da estrutura de direita que, passo a passo, vai fazendo marchar o capitalismo sobre os povos.<\/p>\n<p>Dizer que a &#8220;Europa&#8221; perdeu, ou que a &#8220;Alemanha destruiu o sonho europeu&#8221; iliba o Governo grego ante as ced\u00eancias que aceitou em prol dessa &#8220;Europa&#8221;;<\/p>\n<p>Limpa o passado dos partidos &#8220;de esquerda&#8221; que sempre foram &#8220;europe\u00edstas&#8221; (ou seja, pr\u00f3-capitalistas) porque ao inv\u00e9s de reconhecer que este \u00e9 o projeto que sempre defenderam, afirmam estar derrotado esse &#8220;projeto&#8221; humanista e internacionalista que &#8211; como se v\u00ea &#8211; nunca existiu. Ou seja, n\u00e3o foram o BE, a SYRIZA, o PS, o PASOK e os seus semelhantes que andaram a mentir aos povos sobre a Uni\u00e3o Europeia, mas foi a Uni\u00e3o Europeia que, como se de repente, se converteu num feudo do grande capital;<\/p>\n<p>Oculta igualmente o verdadeiro papel da Uni\u00e3o, colocando o problema no comportamento de um pa\u00eds ou de um ou outro l\u00edder, fazendo crer que o problema n\u00e3o \u00e9 estrutural, mas conjuntural. Como se a Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o fosse precisamente isto e como se n\u00e3o fosse precisamente para isto que foi criada: assegurar o aprofundamento da explora\u00e7\u00e3o do trabalho pelo capital, independentemente da geografia que lhe sirva de quartel-general.<\/p>\n<p>Por todo o mundo &#8211; e aqui em Portugal n\u00e3o se v\u00ea exce\u00e7\u00e3o &#8211; os comentadores e fazedores de opini\u00e3o, os dirigentes da &#8220;esquerda moderna&#8221;, da &#8220;esquerda livre&#8221;, da &#8220;esquerda de confian\u00e7a&#8221;, da &#8220;esquerda democr\u00e1tica&#8221;, da &#8220;esquerda moderada&#8221;, se desdobram em desculpas esfarrapadas sobre uma tal &#8220;Europa&#8221; destro\u00e7ada para n\u00e3o assumirem as responsabilidades de terem desde o in\u00edcio defendido afinal uma &#8220;uni\u00e3o europeia de regress\u00e3o, opressora, sem transpar\u00eancia, antidemocr\u00e1tica e absoluta e ferozmente neoliberal&#8221;. Em nada moderna, livre, de confian\u00e7a, democr\u00e1tica ou moderada.<\/p>\n<p>Nem mesmo perante o colapso da mentira, a burguesia reconhece o fracasso do capitalismo, seja burguesia de &#8220;esquerda&#8221;, seja de &#8220;direita&#8221;.<\/p>\n<p>14\/Julho\/2015<br \/>\n[*]\u00a0Deputado do PCP.<\/p>\n<p>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/manifesto74.blogspot.pt\/2015\/07\/este-texto-nao-e-sobre-grecia.html\" target=\"_blank\">manifesto74.blogspot.pt\/2015\/07\/este-texto-nao-e-sobre-grecia.html<\/a><\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a>\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Miguel Tiago* Nem sobre Portugal, ou Alemanha. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 sobre austeridade, nem sobre resultados de referendos. 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