{"id":8989,"date":"2015-07-31T18:51:30","date_gmt":"2015-07-31T21:51:30","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=8989"},"modified":"2015-08-16T19:40:54","modified_gmt":"2015-08-16T22:40:54","slug":"farc-ep-oxigenam-os-dialogos-de-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8989","title":{"rendered":"FARC-EP oxigenam os di\u00e1logos de paz"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resumenlatinoamericano.org\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/imgres1.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Resumen Latinoamericano \/ Semanario Voz \/ 18 de julho de 2015 \u2013\u00a0Entrevista exclusiva para <a href=\"http:\/\/www.semanariovoz.com\/\">www.semanariovoz.com<\/a>\u00a0com o diretor de VOZ e dirigente d Partido Comunista Colombiano, Carlos A. Lozano Guill\u00e9n, est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Pode ser divulgada e reproduzida com liberdade sempre e quando respeitado o texto original.<!--more--><\/p>\n<p>Encontramos Carlos A. Lozano Guill\u00e9n, diretor de VOZ, dirigente comunista e uma das vozes mais conhecidas em mat\u00e9ria de paz, trancado em sua resid\u00eancia de Santa Isabel no centro de Bogot\u00e1, rodeado de livros e papeis em seu escrit\u00f3rio, onde costuma trabalhar at\u00e9 altas horas da noite. \u201cEsta semana posso faz\u00ea-lo porque descanso da quimioterapia. Na pr\u00f3xima ser\u00e1 dif\u00edcil fazer isto porque na ter\u00e7a-feira receberei outra dose e os efeitos s\u00e3o duros, n\u00e3o me permitindo trabalhar com inteira capacidade\u201d. Est\u00e1 muito melhor, o encontramos de bom humor ainda que nos explique que o tratamento \u00e9 longo e seja necess\u00e1rio esperar at\u00e9 outubro para constatar se fez o efeito desejado. \u00c9 otimista e acredita que conseguir\u00e1 recuperar a sa\u00fade.<\/p>\n<p>Eventos importantes est\u00e3o ocorrendo nos di\u00e1logos de Havana. As FARC-EP acabam de declarar um novo cessar-fogo unilateral, a partir do pr\u00f3ximo 20 de julho e por um m\u00eas. Por\u00e9m, como Lozano disse, \u201cos gestos do governo de Juan Manuel Santos n\u00e3o s\u00e3o vistos em nenhuma parte\u201d. Existe uma ofensiva da extrema direita e dos \u201cinimigos da paz de dentro e fora do governo\u201d que tem importunado o presidente Santos, que n\u00e3o a enfrenta com coragem, apoiando-se no poder. Observa-se um mandat\u00e1rio sozinho, fazendo concess\u00f5es e dando mais \u00eanfase \u00e0 guerra que \u00e0 paz.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses garantidores, \u00e0 decis\u00e3o das FARC-EP do cessar-fogo unilateral e \u00e0 press\u00e3o internacional e nacional, o governo se viu obrigado a chegar a um acordo em Havana, no domingo, 12 de julho passado, no qual se comprometeu a adotar medidas para baixar a intensidade do conflito a partir da tr\u00e9gua unilateral insurgente, ainda que o presidente Santos tenha insistido no ultimato, desta vez para dentro de quatro meses, quando avaliar\u00e1 o funcionamento do cessar-fogo unilateral. \u201c\u00c9 como acender uma vela para Deus e outra para o diabo\u201d, disse o Diretor de VOZ.<\/p>\n<p>Sobre estas caracter\u00edsticas da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica o seman\u00e1rio VOZ falou com Carlos Lozano.<\/p>\n<p><strong>A crise dos di\u00e1logos<\/strong><\/p>\n<p><strong>Qual sua opini\u00e3o sobre o acordo de domingo, 12 de julho passado, na Mesa de Di\u00e1logos de Havana?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito importante, esperan\u00e7oso, como disseram em Havana os porta-vozes da guerrilha. As FARC-EP decretaram o cessar-fogo unilateral a partir de 20 de julho (j\u00e1 o tinham feito antes) e o governo corresponder\u00e1 com medidas para diminuir o conflito, sem precisar bem quais ser\u00e3o. Espera-se que seja a suspens\u00e3o dos bombardeios que tanto afetam a popula\u00e7\u00e3o civil e o meio ambiente, acabando com tudo que existe a seu redor. Agilizar em Havana e diminuir o conflito \u00e9 o t\u00edtulo do comunicado conjunto #55. Visam acordar sem demoras o cessar-fogo bilateral e a entrega de armas. \u00c9 preciso reconstruir, respeitando o cronograma e buscando acordos de consenso e n\u00e3o impostos por nenhuma das partes, a confian\u00e7a que influir\u00e1 em maior aceita\u00e7\u00e3o dos colombianos do processo de di\u00e1logos e do apoio \u00e0 paz.<\/p>\n<p>N\u00e3o se resolvem, \u00e9 claro, aspectos nucleares como o da justi\u00e7a e das reformas pol\u00edticas e sociais, porque existem diferen\u00e7as \u00f3bvias entre as partes. Uns representam a mudan\u00e7a revolucion\u00e1ria, outros o freio, o status quo. Assim, de uma maneira simplista. Por\u00e9m, n\u00e3o me agrada a atitude do governo que recebe com certa desconfian\u00e7a o acordo e fixa o ultimato em quatro meses, que s\u00e3o dados para diminuir o conflito. Uma vez feito o balan\u00e7o pela parte governamental, ser\u00e1 definida a continuidade ou n\u00e3o na mesa. \u00c9 como acender uma vela para Deus e outra para o diabo. O governo permanece na posi\u00e7\u00e3o med\u00edocre de n\u00e3o defender de frente o processo de paz e prefere enviar mensagens para Uribe, para Ord\u00f3\u00f1ez e para os militares golpistas, tranquilizando-os. Essa atitude n\u00e3o \u00e9 boa porque \u00e9 uma mensagem contr\u00e1ria \u00e0 opini\u00e3o nacional e n\u00e3o gera confian\u00e7a \u00e0 for\u00e7a insurgente.<\/p>\n<p><strong>Como qualifica a decis\u00e3o das FARC de declarar, antes do \u00faltimo acordo, o cessar-fogo unilateral?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma decis\u00e3o audaz e construtiva, um novo gesto de vontade de paz da guerrilha em Havana. Oxigena o processo em meio \u00e0s dificuldades, quando estava em agonia por querer do governo e da classe dominante. Santos provocou a suspens\u00e3o do cessar-fogo unilateral e reiniciou os bombardeios, em meio a amea\u00e7as e ultimatos. Quer a guerrilha rendida, entregando as armas e seus principais dirigentes no c\u00e1rcere, evitando as reformas pol\u00edticas e sociais chaves para superar as causas do conflito. \u00c9 uma vis\u00e3o equivocada dos di\u00e1logos de paz, onde se considera que os gestos e os compromissos s\u00e3o unilaterais e o Estado colombiano n\u00e3o tem nada a conceder. A guerrilha demonstrou v\u00e1rios deles e os gestos governamentais n\u00e3o aparecem em nenhuma parte.<\/p>\n<p><strong>Que gestos deve apresentar o governo?<\/strong><\/p>\n<p>As FARC-EP com esta \u00faltima tr\u00e9gua unilateral completa seis ao longo dos di\u00e1logos da Mesa de Havana: entregou os \u2018prisioneiros de guerra\u2019, incluindo o general Alzate, decretou o fim das reten\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e esteve disposta a contribuir na chamada diminui\u00e7\u00e3o do confronto (desminagem, crian\u00e7as na guerra, respeito \u00e0s mulheres combatentes), entre outras. O governo n\u00e3o apresentou nenhum, nem na mesa nem fora dela. Aproveitou o cessar unilateral para obter vantagem militar, continua reprimindo a luta social, popular e as mobiliza\u00e7\u00f5es, ao mesmo tempo em que as pris\u00f5es se enchem de presos pol\u00edticos. Hoje s\u00e3o mais de 9.000.<\/p>\n<p>Em Havana, os porta-vozes governamentais falam de paz, mas na Col\u00f4mbia Santos promove a guerra, n\u00e3o apenas porque aprofunda o confronto armado, sim porque implanta mais medidas neoliberais e antipopulares, como o Plano Nacional de Desenvolvimento. A desigualdade cresce, a brecha \u00e9 cada vez maior, enquanto nega a \u201cconcertaci\u00f3n social\u201d com os trabalhadores, os camponeses, os ind\u00edgenas, os afrodescendentes, os jovens, as mulheres e os LGBTI.<\/p>\n<p>O governo n\u00e3o satisfaz nenhum setor popular, no que se refere aos direitos e reivindica\u00e7\u00f5es. Quando chega a se comprometer mediante acordos, afirma desconhec\u00ea-los, como ocorreu com a C\u00fapula Agr\u00e1ria. No entanto, os privil\u00e9gios e regalias s\u00e3o para as transnacionais, para os poderosos grupos econ\u00f4micos, o setor financeiro, latifundi\u00e1rios e pecuaristas. Afian\u00e7a-se o poder plutocr\u00e1tico para proteger os interesses da oligarquia e do capital estrangeiro com o conto da confian\u00e7a investidora. Em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 paz e aos acordos parciais de Havana, deu passe-livre aos TLC, t\u00e3o nocivos que o papa Francisco os criticou na recente viagem pela Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Creio que o presidente \u00e9 ref\u00e9m dos belicistas. A c\u00fapula militar, pelo menos a maioria, n\u00e3o quer a paz, e mais, pressiona a ruptura dos di\u00e1logos. Al\u00e9m disso, a extrema direita o pressiona e faz chantagem, o conhece muito bem, pois foi \u201cministro estrela\u201d de Uribe. Santos est\u00e1 mais pr\u00f3ximo de Uribe que da paz. Suas diferen\u00e7as s\u00e3o de forma, por\u00e9m no fundo, na estrutura do Estado antidemocr\u00e1tico, no modelo neoliberal, na confian\u00e7a investidora e em outros desprop\u00f3sitos olig\u00e1rquicos est\u00e3o de acordo.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, o que fazer?<\/strong><\/p>\n<p>O que sempre fizemos. Ganhar os espa\u00e7os na luta popular de massas. \u201cColocando o povo no processo\u201d. O caminho \u00e9 fortalecer a Frente Ampla pela Paz como um projeto independente, que pressione a sa\u00edda pol\u00edtica dialogada e se converta em op\u00e7\u00e3o de poder popular. Equivocam-se aqueles que acreditam que o papel da Frente Ampla \u00e9 estar na cola do Governo para respald\u00e1-lo na pol\u00edtica de paz, cada vez mais vazia e oportunista. O apoio \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o foi pertinente, no entendimento de que era necess\u00e1rio frear a vit\u00f3ria, que parecia iminente, da extrema direita uribista. E nada mais. N\u00e3o existiu um acordo program\u00e1tico porque nada nos identifica com o projeto neoliberal de Santos, o mesmo da oligarquia, do governo e da extrema direita uribista. Santos nos deve a vit\u00f3ria e tem que cumprir. Por\u00e9m, insisto: o precedente \u00e9 a a\u00e7\u00e3o de massas, a press\u00e3o popular, articular o movimento com a luta pela paz e pelas reformas que assegurem a paz e a unidade popular.<\/p>\n<p><strong>Na direita e, inclusive na esquerda, alguns dizem que as FARC-EP n\u00e3o querem a paz, que est\u00e1 no mesmo jogo de sempre, de aproveitar estes processos para se fortalecer. Qual sua opini\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Escrevi um livro que foi lan\u00e7ado na \u00faltima Feira Internacional do Livro, em Bogot\u00e1, com o t\u00edtulo de \u201cLas FARC-EP s\u00ed quieren la paz\u201d [As FARC-EP querem a paz]. \u00c9 o testemunho de conversas, entrevistas e an\u00e1lises baseadas na realidade de que chegou o momento da paz com democracia e justi\u00e7a social como nunca antes existiu. H\u00e1 poucas semanas, Iv\u00e1n M\u00e1rquez leu uma declara\u00e7\u00e3o em que as FARC-EP asseguram, sem rodeios, que querem pactuar a paz com Santos. Disseram isso no momento mais dif\u00edcil do processo, quando a \u201cgrande imprensa\u201d e a direita reclamavam suspender ou romper os di\u00e1logos. De alguma maneira, estabeleceram a temporalidade que tanto exige Santos, porque seu governo, como todos, possui um tempo fixo, um per\u00edodo de quatro anos dos quais j\u00e1 restam quase tr\u00eas.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 muito otimista a aprecia\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o acredito. Sim, com a Mesa de Havana se conjuga a luta popular e a press\u00e3o das massas. A Frente Ampla tem que se converter em uma for\u00e7a alternativa democr\u00e1tica para a paz e a justi\u00e7a social. Est\u00e3o dadas as condi\u00e7\u00f5es para a paz est\u00e1vel e duradoura. Por isso, a alternativa \u00e0 crise \u00e9 manter o di\u00e1logo e buscar sa\u00eddas. A guerra fracassou como solu\u00e7\u00e3o do conflito. Nenhuma das partes obteve vit\u00f3ria, o conflito est\u00e1 degradado e \u00e9 uma trag\u00e9dia nacional. \u00c9 preciso colocar um ponto final. N\u00f3s revolucion\u00e1rios somos humanistas e n\u00e3o podemos resolver o drama social a tiros e com viol\u00eancia quando ela traz consequ\u00eancias funestas e terr\u00edveis para a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Deve-se entender que a luta armada foi um erro?<\/strong><\/p>\n<p>A luta armada guerrilheira n\u00e3o foi inventada. Nem pelo Partido Comunista nem pelos camponeses que decidiram armar-se ante a viol\u00eancia do poder dominante. Ela obedeceu a causas profundas e hist\u00f3ricas. A an\u00e1lise disso foi aprofundada pela Comiss\u00e3o de Hist\u00f3ria, subestimada pelos porta-vozes governamentais que possuem pavor da academia e do registro hist\u00f3rico dos fatos e conflitos no pa\u00eds e no mundo. \u00c9 uma posi\u00e7\u00e3o retr\u00f3grada, reacion\u00e1ria e bestial, que n\u00e3o reconhece a contribui\u00e7\u00e3o que estes textos podem promover \u00e0 verdade, \u00e0 justi\u00e7a, \u00e0 repara\u00e7\u00e3o e \u00e0 n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A luta armada n\u00e3o surgiu porque sim. Adotou as modalidades a cada conjuntura hist\u00f3rica e a cada etapa do processo pol\u00edtico e social. N\u00e3o \u00e9 um problema de \u201ccombina\u00e7\u00e3o das formas de luta\u201d, que \u00e9 a forma vulgar de explic\u00e1-lo. A combina\u00e7\u00e3o das formas de luta de massas n\u00e3o \u00e9 um decreto ou uma lei revolucion\u00e1ria, \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o de uma realidade colombiana, uma esp\u00e9cie de radiografia social de nossa pr\u00f3pria realidade, em que a luta de massas se expressa de m\u00faltiplas formas, entre elas a a\u00e7\u00e3o armada guerrilheira. Neste sentido, o movimento guerrilheiro se converteu em uma for\u00e7a fundamental para as mudan\u00e7as no entendimento de que a prioridade sempre est\u00e1 nas lutas democr\u00e1ticas e de massas no campo e na cidade.<\/p>\n<p>Lembre que a primeira express\u00e3o da resist\u00eancia armada foi a autodefesa de massas, ou seja, os camponeses na metade do s\u00e9culo passado, tomaram as armas para se defender da viol\u00eancia dos latifundi\u00e1rios apoiados pelo Estado, durante as ditaduras conservadoras de Mariano Ospina P\u00e9rez e Laureano G\u00f3mez. Desse movimento fizeram parte os liberais, ainda que hoje n\u00e3o queiram recordar isso, apagando este fato da mem\u00f3ria hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Quando veio a ditadura militar em 1953, o general Rojas Pinilla falou de paz, os liberais se entregaram \u00e0 custa da morte de v\u00e1rios de seus dirigentes. As guerrilhas revolucion\u00e1rias se instalaram no sul do pa\u00eds, em plano defensivo, esperando que se ponderasse a pol\u00edtica do governo, orientada \u00e0 ditadura e ao anticomunismo vulgar e fazendo chamados \u00e0 paz.<\/p>\n<p>Chegou a Frente Nacional anunciando a paz e o que fez foi bombardear Marquetalia, El Pato, Riochiquito e Guayabero, tentando aniquilar a pequena for\u00e7a guerrilheira. Isso produziu a mudan\u00e7a estrat\u00e9gia e o movimento se converteu em uma for\u00e7a guerrilheira pol\u00edtica e militar, cuja a\u00e7\u00e3o se baseou na guerra de guerrilhas, ainda que sempre propondo o di\u00e1logo e a paz, repudiados pelo governo de Guillermo Le\u00f3n Valencia, sob a press\u00e3o do tenebroso \u00c1lvaro G\u00f3mez Hurtado, filho do \u201cmonstro\u201d Laureano G\u00f3mez.<\/p>\n<p>Nos anos oitenta e noventa, novas tentativas de paz foram fracassadas pela relut\u00e2ncia do poder \u00e0s reformas pol\u00edticas e sociais para remover as causas do conflito. Fracassaram as tentativas com Belisario Betancur, C\u00e9sar Gaviria Trujillo e Andr\u00e9s Pastrana. O genoc\u00eddio da Uni\u00e3o Patri\u00f3tica, nos anos oitenta, gerou desconfian\u00e7a na insurg\u00eancia porque a viol\u00eancia por parte do poder determinou este aniquilamento horr\u00edvel de toda uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O genoc\u00eddio foi perpetrado pelos paramilitares com o respaldo da for\u00e7a p\u00fablica, de pol\u00edticos nacionais e regionais tradicionais, latifundi\u00e1rios, pecuaristas, empres\u00e1rios e narcotraficantes, uma verdadeira trama criminosa que demonstrou a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 paz e \u00e0s mudan\u00e7as democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Como voc\u00ea v\u00ea, estamos ante um poder violento, que se nega \u00e0 democracia, fechado \u00e0s mudan\u00e7as avan\u00e7adas na vida nacional. Olhe voc\u00ea, tudo isso foi denunciado pela Corpora\u00e7\u00e3o Paz e Seguran\u00e7a, que na campanha eleitoral de outubro do presente ano (elei\u00e7\u00f5es regionais) existem 140 candidatos com estreitos la\u00e7os com o paramilitarismo, o narcotr\u00e1fico e as m\u00e1fias, que lucram com o poder. Santos guarda sil\u00eancio porque esses candidatos s\u00e3o endossados pelo Partido Liberal, pelo Partido Conservador, a U (do presidente Santos), Mudan\u00e7a Radical (do vice-presidente Vargas Lleras), Op\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3, todos da Unidade Nacional (governista) e do Centro Democr\u00e1tico uribista. Nestas condi\u00e7\u00f5es, \u00e9 dif\u00edcil a paz; n\u00e3o se criam condi\u00e7\u00f5es quando o governo est\u00e1 fechado \u00e0 democracia, \u00e0s liberdades e ao chamado Estado Social de Direito. A paz \u00e9 poss\u00edvel com uma nova ordem pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social.<\/p>\n<p><strong>Est\u00e1 claro. Por\u00e9m, onde se encaixam as fases da viol\u00eancia na Col\u00f4mbia neste quadro que voc\u00ea descreve?<\/strong><\/p>\n<p>Est\u00e3o nesse marco. Soci\u00f3logos, historiadores e analistas do Partido Comunista Colombiano atribuem quatro etapas \u00e0 viol\u00eancia na Col\u00f4mbia, desde a metade do s\u00e9culo passado at\u00e9 nossos dias: de 1948, ap\u00f3s o assassinato de Jorge Eli\u00e9cer Gait\u00e1n pela direita conservadora e pela CIA, at\u00e9 1953, golpe militar de Rojas Pinilla; de 1953 a 1957, durante a ditadura, anticomunismo que ilegalizou o partido na Constituinte de bolso; de 1957 a 1964, com o ataque a Marquetalia, El Pato, Riochouito e Guayabero; e de 1964 at\u00e9 nossos dias. No entanto, numa moderna vis\u00e3o, coloca-se uma quinta etapa, desde 1984 at\u00e9 nossos dias, mais complexa porque \u00e9 a do paramilitarismo, o genoc\u00eddio da Uni\u00e3o Patri\u00f3tica e dos processos de paz. \u00c9 uma etapa de agudas lutas na qual fracassa a via militar e se abre caminho para a necessidade da solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dialogada mediante a abertura democr\u00e1tica e social.<\/p>\n<p><strong>Outro tema: Quais s\u00e3o os erros de maior destaque do presidente Santos nos di\u00e1logos de Havana?<\/strong><\/p>\n<p>Crer que est\u00e1 frente a uma guerrilha e como tal pretende trat\u00e1-la em um processo de paz com duas partes envolvidas; a modalidade de dialogar em meio ao conflito. N\u00e3o requer maior explica\u00e7\u00e3o porque o objetivo essencial \u00e9 a entrega das armas, a desmobiliza\u00e7\u00e3o e as regalias, ainda que com uma justi\u00e7a inquisitorial e exclusiva, pois n\u00e3o incorpora os respons\u00e1veis e imp\u00f5e decis\u00f5es unilaterais, perdendo de vista a estrita bilateralidade da crise; n\u00e3o entender que o fundamental s\u00e3o as reformas, as mudan\u00e7as no Estado para fortalecer a democracia e a justi\u00e7a social. Por isso, para ele, \u00e9 a partir do Estado de viol\u00eancia e promotor dos crimes em todos os tempos, prestar-se ao vaiv\u00e9m das concess\u00f5es, tolerar a ambiguidade nas fileiras governamentais e dar demasiadas explica\u00e7\u00f5es a Uribe e Ord\u00f3\u00f1ez, vil\u00f5es inimigos da paz.<\/p>\n<p><strong>Quer dizer que se chegou em Havana ao ponto de n\u00e3o retorno?<\/strong><\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o. Falta um longo trecho a ser percorrido. Ficam pendentes temas chaves, como justi\u00e7a, entrega de armas, garantias, mecanismos de referendo e o que est\u00e1 na geladeira. Tudo isso deve ser definido. Por\u00e9m, digo uma coisa: Tenho certeza de que se chegar a um acordo sobre justi\u00e7a, o processo chegar\u00e1 ao ponto de n\u00e3o retorno. Este \u00e9 um acordo fundamental. A verdade, a justi\u00e7a e a repara\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o associadas a repres\u00e1lias e \u00e0 pris\u00e3o. Isso foi dito de Kofi Anan at\u00e9 outras importantes personalidades internacionais. Na Col\u00f4mbia, a oligarquia tem uma posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 de vingan\u00e7a, mas de subtrair sua pr\u00f3pria responsabilidade sobre a viol\u00eancia na Col\u00f4mbia. Foi ela que converteu o Estado em instrumento violento de domina\u00e7\u00e3o, agora n\u00e3o quer reconciliar.<\/p>\n<p><strong>Referendo ou Assembleia Nacional Constituinte?<\/strong><\/p>\n<p>Definitivamente Assembleia Nacional Constituinte, que permite uma maior participa\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o e de suas organiza\u00e7\u00f5es. \u00c9 o poder constituinte convertido em instrumento fundamental de mudan\u00e7a. Nela se podem ratificar os acordos, dirimir os desacordos e abordar outras reformas pol\u00edticas e sociais de fundo na vida do pa\u00eds. Por que a classe dominante tem medo da Constituinte? Por conta de seu pavor \u00e0 democracia. O dia em que este pa\u00eds conquistar uma real abertura de liberdades, direitos e aut\u00eanticos mecanismos de participa\u00e7\u00e3o respeitados por todos, come\u00e7ar\u00e1 a oscilar o poder destes parasitas que enriquecem do er\u00e1rio e do que tiram dos camponeses e dos trabalhadores.<\/p>\n<p><strong>Obrigado, camarada Carlos. Desejamos r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2015\/07\/21\/colombia-farc-ep-oxigenan-los-dialogos-de-paz\/\">http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2015\/07\/21\/colombia-farc-ep-oxigenan-los-dialogos-de-paz\/<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Resumen Latinoamericano \/ Semanario Voz \/ 18 de julho de 2015 \u2013\u00a0Entrevista exclusiva para www.semanariovoz.com\u00a0com o diretor de VOZ e dirigente d Partido \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/8989\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-8989","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2kZ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8989","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8989"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8989\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8989"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8989"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8989"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}