{"id":907,"date":"2010-10-19T00:02:25","date_gmt":"2010-10-19T03:02:25","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=907"},"modified":"2017-08-25T00:35:56","modified_gmt":"2017-08-25T03:35:56","slug":"reflexoes-sobre-o-12-de-outubro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/907","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es sobre o 12 de outubro"},"content":{"rendered":"\n<p>O maior genoc\u00eddio da hist\u00f3ria<\/p>\n<p>\u201c<em>Hoje, calcula-se que 90% da popula\u00e7\u00e3o americana desapareceu nesse choque de civiliza\u00e7\u00f5es, 70 milh\u00f5es de mortos.\u201d <\/em><\/p>\n<p>Reflex\u00f5es sobre o 12 de outubro<\/p>\n<p>Faz um par de anos que um amigo do qual me honro, Esteban Mira Caballos, publicou um excelente livro intitulado <em>Conquista e destrui\u00e7\u00e3o das \u00cdndias<\/em>, no qual tentava averiguar a veracidade de Bartolomeu de las Casas em sua narrativa sobre a invas\u00e3o espanhola e portuguesa da Am\u00e9rica, a <em>Brev\u00edssima rela\u00e7\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o das \u00cdndias<\/em>. Esteban \u00e9 historiador da Universidade de Sevilla, especializado no tema Am\u00e9rica, e seu livro levantou fa\u00edscas entre professores e catedr\u00e1ticos da universidade, seus companheiros de estudos de ideologia conservadora. Mas foi elogiado por Josep Fontana, catedr\u00e1tico da Universidade de Barcelona e um dos historiadores mais prestigiosos de nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>A integridade intelectual de Esteban est\u00e1 fora de suspeita; para preservar sua liberdade de pensamento, prefere ser professor do Ensino Fundamental II e escrever o que acredita ser verdadeiro, sem depender de ningu\u00e9m. Gra\u00e7as a esse talento independente podemos desfrutar de suas contribui\u00e7\u00f5es inovadoras sobre a hist\u00f3ria da Espanha.<\/p>\n<p>Nesse estudo demonstrava que a descri\u00e7\u00e3o de Las Casas do genoc\u00eddio americano n\u00e3o tem um \u00e1pice de exagero. Cometeram barb\u00e1ries incr\u00edveis, crimes incont\u00e1veis, assassinatos, estupros e torturas por muito tempo, um reinado do terror para submeter a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena do Novo Continente rec\u00e9m descoberto. Las Casas fala de milh\u00f5es de mortos, povos inteiros, pac\u00edficos e hospitaleiros foram passados \u00e0 faca no continente. Arquip\u00e9lagos do Caribe devastados ficaram desertos de seres humanos depois da invas\u00e3o espanhola, guerras desiguais nas quais uns povos desnudos e com flechas rudimentares enfrentavam homens armados com armas de a\u00e7o e fogo; tamb\u00e9m nos fala dos assassinatos de crian\u00e7as e mulheres gr\u00e1vidas, das milhares de pessoas queimadas na fogueira ou empaladas em estacas; dos castigos corporais e do trabalho excessivo, etc. Esteban Mira pesquisou nos diferentes Arquivos das \u00cdndias, que cont\u00eam os documentos da conquista, para provar que tudo o que conta Las Casas \u00e9 ver\u00eddico, n\u00e3o pertence \u00e0 fabula\u00e7\u00e3o do te\u00f3logo dominicano, mas aos fatos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Hoje, calcula-se que 90% da popula\u00e7\u00e3o americana desapareceu nesse choque de civiliza\u00e7\u00f5es, 70 milh\u00f5es de mortos. \u00c9 verdade que as epidemias causaram uma boa parte da mortalidade, mas tamb\u00e9m \u00e9 certo que a submiss\u00e3o dos povoadores origin\u00e1rios do continente americano \u00e0 escravid\u00e3o, mediante a pr\u00e1tica da encomenda, debilitou espiritualmente e fisicamente os abor\u00edgenes com castigos e penalidades, impondo o trabalho at\u00e9 a exaust\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 certo que houve uma legisla\u00e7\u00e3o protetora dos \u00edndios, mas sem efeito nem aplica\u00e7\u00e3o, foi s\u00f3 no papel para livrar a cara da monarquia espanhola. A conquista de um territ\u00f3rio t\u00e3o vasto como o continente americano foi um prolongado ato terrorista.<\/p>\n<p>Um argumento que foi dito para justificar esse horror \u00e9 que qualquer um faria o mesmo, inclusive as pr\u00f3prias v\u00edtimas. N\u00e3o se pode ignorar o grau de incapacidade moral nem a falta de penetra\u00e7\u00e3o ps\u00edquica que cont\u00e9m essa fal\u00e1cia. Em primeiro lugar, equipara as v\u00edtimas aos criminosos, todos s\u00e3o a mesma coisa; se a v\u00edtima pudesse se converteria em verdugo. Mas o fato \u00e9 que essas v\u00edtimas padeceram os crimes contra a humanidade, n\u00e3o foram eles que cometeram; e os verdugos atentaram contra os direitos humanos sem merecer o m\u00ednimo paliativo. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel comparar um ao outro. E em sua maior parte, a popula\u00e7\u00e3o americana, ainda submetida aos imp\u00e9rios asteca, inca e maia, vivia em paz antes da conquista. Las Casas descreve os \u00edndios como povos pac\u00edficos e tranquilos, assaltados por crimes sem escr\u00fapulos.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, a falsidade desse argumento n\u00e3o reside somente em sua desqualifica\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana em geral, mas indica uma perigosa identifica\u00e7\u00e3o com os verdugos. \u00c9 preciso dizer em alto e bom som: os espanh\u00f3is foram piores que outros povos, e possivelmente continuam sendo. Qualquer um que se identifique com o espanhol, com o Estado e com a Igreja da Espanha \u00e9 suspeito de inten\u00e7\u00f5es genocidas.<\/p>\n<p>Pois a hist\u00f3ria se repetiu muitas vezes, come\u00e7ando pela conquista e destrui\u00e7\u00e3o de Al-\u00c1ndalus pelos reinos crist\u00e3os da pen\u00ednsula, seguindo pela conquista da Am\u00e9rica, continuando com as guerras de religi\u00e3o na Europa, com a gue rra criminosa de Cuba e tamb\u00e9m, j\u00e1 no s\u00e9culo XX, com o genoc\u00eddio da guerra do Rif contra a Rep\u00fablica revolucion\u00e1ria fundada por Abd-el-Krim. A culmina\u00e7\u00e3o dessa hist\u00f3ria de crimes foi a guerra civil, um novo genoc\u00eddio contra os povos da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de que o objetivo da conquista foi a convers\u00e3o das massas americanas ao cristianismo, a reden\u00e7\u00e3o das culturas ind\u00edgenas que ainda se encontravam no paganismo foi repetida at\u00e9 a exaust\u00e3o. Falou-se dos feitos her\u00f3icos que foram realizados em prol dessa grandiosa fa\u00e7anha pela f\u00e9 cat\u00f3lica. Toda essa \u00e9pica pode ser desmontada em poucas palavras, quando se conhece a verdade da hist\u00f3ria: os conquistadores n\u00e3o foram her\u00f3is, mas assassinos. E seu objetivo n\u00e3o era a salva\u00e7\u00e3o dos \u00edndios, mas a busca de ouro e prata para enriquecer e garantir um futuro de prosperidade ao regressarem a sua p\u00e1tria. Essas riquezas eram roubadas dos ind\u00edgenas americanos, depois de mat\u00e1-los. A maior parte dos metais preciosos adquiridos era destinada, via imposto, a engrossar as arcas do Imp\u00e9rio, esgotadas pelas cont\u00ednuas contendas entre os Estados europeus. A monarquia espanhola permitiu todas as atrocidades porque necessitava de ouro e prata para financiar suas guerras na Europa contra os hereges, procurando submet\u00ea-los \u00e0 f\u00e9 cat\u00f3lica. Al\u00e9m disso, lembrem-se que os \u00edndios tiveram que trabalhar como escravos nas minas, depois do descobrimento em Potosi de uma fabulosa montanha, toda cheia de minerais preciosos que hoje em dia, depois de 500 anos, ainda \u00e9 explorada.<\/p>\n<p>Boa parte desse ouro foi explorada pelos espanh\u00f3is. N\u00e3o s\u00f3 para financiamento das guerras, mas para a importa\u00e7\u00e3o de mercadorias. A chegada massiva de metais preciosos \u00e0s economias dos reinos peninsulares &#8211; Andaluzia, Castilha, Val\u00eancia, Gal\u00edcia, Catalunha, etc. -, provocou uma infla\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os que acabou afundando a atividade produtiva, j\u00e1 deteriorada depois da derrota do movimento comunero &#8211; de car\u00e1ter burgu\u00eas e artesanal -, e a expuls\u00e3o de mouros e judeus marranos da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. Desse modo, desapareceu uma rica e florescente ind\u00fastria que havia se desenvolvido nos albores da Idade Moderna na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. Com a economia arruinada, a maior parte das mercadorias que se consumiam na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica provinha do exterior. Por isso, a maior parte dos tesouros importados da Am\u00e9rica acabou nas arcas europeias. Como disse Quevedo: <em>\u201cdon Dinheiro nasce nas \u00cdndias honrado&#8230; vem morrer na Espanha e \u00e9 em G\u00eanova enterrado\u201d.<\/em><\/p>\n<p>O ouro e a prata chegados da Am\u00e9rica foram utilizados para cunhar moedas na Europa, de modo que o com\u00e9rcio floresceu e, com este, a ind\u00fastria. \u00c9 a etapa mercantilista do primeiro desenvolvimento capitalista. Enquanto o Imp\u00e9rio espanhol dilapidava seus lucros facilmente conquistados com o roubo e com o crime dos povos americanos indefesos diante dos ambiciosos espanh\u00f3is, os Estados europeus se empenhavam em entesourar metais preciosos para garantir o com\u00e9rcio e a prosperidade de seus pa\u00edses. Uma prova a mais de que o imp\u00e9rio e o capitalismo andam sempre juntos. Nisso se equivocou L\u00eanin quando disse que o imperialismo \u00e9 a fase superior do capitalismo. Pelo contr\u00e1rio, o imperialismo, a rapina de mat\u00e9rias primas para impulsionar o desenvolvimento econ\u00f4mico, \u00e9 a outra face do capitalismo desde suas origens. O que acontece \u00e9 que aquele capitalismo incipiente estava nascendo entre as dobras da monarquia absolutista, protegido por ela, mas tamb\u00e9m em guerra contra ela. Que seja dito em honra aos holandeses e sua guerra de independ\u00eancia contra o Imp\u00e9rio de Felipe II.<\/p>\n<p>Longe dos anais do Descobrimento, o que amanh\u00e3 teremos que comemorar n\u00e3o s\u00e3o as fa\u00e7anhas gloriosas dos nossos antepassados, mas os crimes injustific\u00e1veis de nossa hist\u00f3ria. Um dia de medita\u00e7\u00e3o e humildade, pedindo o perd\u00e3o das v\u00edtimas e oferecendo a necess\u00e1ria repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Rebeli\u00f3n publicou este artigo com a permiss\u00e3o do autor mediante uma licen\u00e7a de Creative Commons, respeitando sua liberdade para public\u00e1-lo em outras fontes.<\/strong><\/p>\n<p lang=\"en-US\">Tradu\u00e7\u00e3o: Valeria Lima<\/p>\n<p lang=\"en-US\">Fonte: <a href=\"http:\/\/www.rebelion.org\/mostrar.php?tipo=5&amp;id=Miguel+Manzanera&amp;inicio=0\" target=\"_blank\">Rebeli\u00f3n<\/a><\/p>\n<p align=\"justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: La Historia Del D\u00eda\n\n\n\n\n\n\n\n\nMiguel Manzanera\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/907\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[74],"tags":[],"class_list":["post-907","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c87-revolucao-russa"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-eD","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/907","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=907"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/907\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=907"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=907"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=907"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}