{"id":9108,"date":"2015-08-13T21:56:03","date_gmt":"2015-08-14T00:56:03","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9108"},"modified":"2015-09-01T13:31:35","modified_gmt":"2015-09-01T16:31:35","slug":"tres-crises-falta-uma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9108","title":{"rendered":"Tr\u00eas crises\u2026 falta uma"},"content":{"rendered":"<p><em><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2015\/08\/15-08-12-mauro-iasi-trc3aas-crises-blog-da-boitempo-1.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><\/em>Por Mauro Luis Iasi.<\/p>\n<p>Na conjuntura brasileira se entrela\u00e7am duas crises: uma crise econ\u00f4mica e um pol\u00edtica. Falta uma crise, aquela que costuma ser decisiva e que marca momentos de ruptura hist\u00f3rica: a crise do Estado.<!--more--><\/p>\n<p>Direta ou indiretamente, toda crise em uma sociedade capitalista se associa a uma crise econ\u00f4mica, mas os nexos entre as dimens\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas de uma crise nem sempre s\u00e3o claros. Como sabemos, a crise \u00e9 inerente ao processo de acumula\u00e7\u00e3o, mas h\u00e1 momentos em que esta crise se torna mais vis\u00edvel e o paradoxo da superacumula\u00e7\u00e3o explode na queima de capitais, na destrui\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas, com todos os efeitos por n\u00f3s conhecidos sobre os trabalhadores. J\u00e1 a crise pol\u00edtica, depende da coexist\u00eancia das fra\u00e7\u00f5es da classe dominante e dos acordos pol\u00edticos para formar o bloco dominante, assim como, em grande medida da forma pol\u00edtica que historicamente se estabeleceu e dentro da qual tal coexist\u00eancia se tornou poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A crise do Estado, no entanto, \u00e9 algo mais profundo. \u00c9 sinal de que a contradi\u00e7\u00e3o foi al\u00e9m dos limites que a ordem burguesa pode conter. Emerge para primeiro plano a luta de classes, amea\u00e7ando n\u00e3o apenas um ou outro segmento das classes dominantes, mas a pr\u00f3pria ordem burguesa. \u00c9 uma crise que, apesar de se expressar em uma conjuntura determinada marcada por um governo de uma ou outra fac\u00e7\u00e3o do bloco dominante, \u00e9, ao mesmo tempo, uma crise do Estado Burgu\u00eas.<\/p>\n<p><strong>A CRISE ECON\u00d4MICA<\/strong><\/p>\n<p>A grande ilus\u00e3o do per\u00edodo conjuntural mais recente foi a cren\u00e7a no mito do desenvolvimento capitalista \u201csustent\u00e1vel\u201d \u2013 como se fosse poss\u00edvel evitar as crises com a administra\u00e7\u00e3o dos investimentos, controle fiscal e monet\u00e1rio, do consumo, dos gastos p\u00fablicos e todos estes e outros elementos da chamada \u201cmacroeconomia\u201d. Como M\u00e9sz\u00e1ros j\u00e1 nos alertava h\u00e1 muito tempo, esta \u00e9 uma v\u00e3 tentativa de controle de um \u201csociometabolismo incontrol\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>A tal \u201csustentabilidade\u201d significa em poucas palavras, um equil\u00edbrio entre a demanda crescente impulsionada pelo consumo e um crescente aumento da produ\u00e7\u00e3o que por sua vez geraria mais empregos e, por via de consequ\u00eancia, mais consumo e assim por diante. Bastaria que o Estado garantisse boas condi\u00e7\u00f5es para que os capitalistas investissem para que a economia crescesse, a arrecada\u00e7\u00e3o aumentasse, e o governo tivesse mais recursos para investir \u2013 seja em infraestrutura, impulsionando a continuidade do ciclo econ\u00f4mico virtuoso, seja com pol\u00edticas compensat\u00f3rias destinadas a diminuir os efeitos mais vis\u00edveis da mis\u00e9ria absoluta.<\/p>\n<p>A raiz da atual crise \u00e9 a comprova\u00e7\u00e3o da incontrolabilidade do capital. O capital acumula de forma desigual entre os componentes que o constituem, cada vez proporcionalmente mais em capital constante (m\u00e1quinas, tecnologia, instala\u00e7\u00f5es, etc.) do que em capital vari\u00e1vel (for\u00e7a de trabalho), gerando o que Marx denominou de uma tend\u00eancia \u00e0 queda da taxa de lucro.<\/p>\n<p>Nesta aproxima\u00e7\u00e3o, o que gera a crise n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es para o crescimento da acumula\u00e7\u00e3o, mas o pr\u00f3prio crescimento que gera uma superacumula\u00e7\u00e3o na qual os capitais n\u00e3o conseguem voltar ao ciclo de sua reprodu\u00e7\u00e3o ampliada com taxas de lucro aceit\u00e1veis.<\/p>\n<p>O Estado burgu\u00eas \u00e9 o principal protagonista das medidas necess\u00e1rias, seja para colocar em pr\u00e1ticas as contratend\u00eancias \u00e0 queda da taxa de lucro, seja para gerir a crise c\u00edclica e peri\u00f3dica inevit\u00e1vel. O autor d\u2019<em><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/344\" target=\"_blank\">O capital<\/a><\/em> listou seis contratend\u00eancias. Notem como podemos identific\u00e1-las claramente na a\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica conjuntural dos governos burgueses:<\/p>\n<ol>\n<li>Intensifica\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores;<\/li>\n<li>Redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios;<\/li>\n<li>Aumento da superpopula\u00e7\u00e3o relativa (expropriar muito mais do que ser\u00e1 utilizado pelo capital em sua esfera produtiva);<\/li>\n<li>Redu\u00e7\u00e3o dos custos do capital constante (subs\u00eddios, novas mat\u00e9rias primas, infraestrutura, etc.);<\/li>\n<li>Amplia\u00e7\u00e3o de mercados, seja para escoar a superprodu\u00e7\u00e3o de mercadorias, encontrar novas fontes de mat\u00e9rias primas ou m\u00e1quinas, etc., seja, na fase atual do capitalismo, exportar capitais;<\/li>\n<li>Autonomiza\u00e7\u00e3o da esfera banc\u00e1ria, buscando compensar com juros pagos por t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica ou outras formas, a queda na taxa de lucro.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Tais medidas, que evidenciam a essencialidade do Estado no funcionamento da economia capitalista, desmontando assim a premissa liberal, n\u00e3o evitam a crise, nem impedem a queda tendencial da taxa de lucro, mas imp\u00f5e ao movimento da economia seu car\u00e1ter c\u00edclico, isto \u00e9, momentos de crescimento da acumula\u00e7\u00e3o, auge, crise, recess\u00e3o, e assim por diante.<\/p>\n<p>O que vemos hoje \u00e9 um momento em que se paga o pre\u00e7o pelo crescimento capitalista impulsionado anteriormente como sendo virtuoso. Segundo o Boletim de acompanhamento da conjuntura (<a href=\"http:\/\/www.criticadaeconomia.com.br\">www.criticadaeconomia.com.br<\/a>):<\/p>\n<p>\u201cNo confronto com igual m\u00eas do ano passado, a produ\u00e7\u00e3o industrial apresentou recuo de 3,2%, com o \u00edndice mensal de junho de 2015 apontando o d\u00e9cimo sexto resultado negativo. Na compara\u00e7\u00e3o semestral, o total da ind\u00fastria recuou 6,3% nos seis primeiros meses de 2015, redu\u00e7\u00e3o mais elevada desde o primeiro semestre de 2009 (-13,0%), no auge da \u00faltima crise global de 2008\/2009. Mais alarmante ainda s\u00e3o os n\u00fameros da derrocada dos principais setores industriais. Eles j\u00e1 desativaram grande parte da produ\u00e7\u00e3o de bens de capital (m\u00e1quinas, equipamentos, instala\u00e7\u00f5es), que continuou desabando de -11,2% no segundo semestre do ano passado para -20,0% nos seis primeiros meses de 2015. O estrat\u00e9gico setor de bens de consumo dur\u00e1veis \u00e9 outro que tamb\u00e9m apresenta ritmo de sucateamento, passando de -10,1% no segundo semestre de 2014 para -14,6% nos seis primeiros meses deste ano.\u201d<\/p>\n<p>O desespero do governo, nestes momentos, \u00e9 que os mecanismos que antes funcionavam para incentivar o investimento e o crescimento econ\u00f4mico, parecem agora jogar a economia no buraco.<\/p>\n<p><strong>DA CRISE ECON\u00d4MICA \u00c0 CRISE POL\u00cdTICA<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto de crise da acumula\u00e7\u00e3o e necessidade de queima de capitais, que a irracionalidade da racionalidade capitalista se revela. O chamado \u201cajuste\u201d implantado pelo governo Dilma atrav\u00e9s de seu funcion\u00e1rio Levy (afinal, dizer que apoia a Dilma, mas \u00e9 contra o Levy equivale a dizer que gosta dos Rolling Stones, mas n\u00e3o do Mick Jagger) responde aos interesses do capital, mas se choca com interesses dos capitalistas. Explico. Aqui se expressa, mais uma vez, a velha contradi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da sociabilidade burguesa entre o interesse geral e os interesses particulares.<\/p>\n<p>A necessidade do capital \u00e9 de queimar for\u00e7as produtivas, frear a produ\u00e7\u00e3o e o consumo, devastar mercados, destruir o poder de compra da moeda, rebaixar sal\u00e1rios e demitir em massa para recriar as condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis \u00e0 retomada dos investimentos com taxas de lucro aceit\u00e1veis. No entanto, se todos concordam que esse \u00e9 o rem\u00e9dio, n\u00e3o podemos esperar que cada capitalista em particular se disponha a sacrificar-se para o bem comum da acumula\u00e7\u00e3o queimando suas for\u00e7as produtivas e destruindo sua capacidade produtiva.<\/p>\n<p>Como nos explica Mandel, seguindo as pistas de Marx, \u00e9 exatamente por isso que a eclos\u00e3o da crise se d\u00e1 de maneira catastr\u00f3fica, porque paradoxalmente no momento que a antecede, os capitalistas ao contr\u00e1rio de frear, intensificam a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem outras media\u00e7\u00f5es, uma crise desta natureza colocaria em risco a ordem do capital, como ocorreu no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, nas duas grandes guerras mundiais e, neste contexto, a eclos\u00e3o das revolu\u00e7\u00f5es socialistas na R\u00fassia, na China e, depois, em outras partes do globo. \u00c9 o Estado que entra aqui mais uma vez para garantir a ordem burguesa. \u00c9 fundamental transformar a crise da economia capitalista em uma crise de todos, da sociedade, exigindo os sacrif\u00edcios compartilhados para voltar ao m\u00edtico crescimento que beneficiar\u00e1 a todos.<\/p>\n<p>No entanto, as diferentes fac\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em o bloco de poder (que em nosso momento hist\u00f3rico significa os setores que comp\u00f5em o grande capital monopolista), como \u00e9 natural supor, nem sempre se entendem sobre a forma de administrar a crise, buscando com sua proximidade a um governo de plant\u00e3o, salvar seu setor, garantir seus investimentos e, se poss\u00edvel, arrasar seus concorrentes. O \u00fanico consenso no bloco dominante, \u00e9 que o peso maior da crise recair\u00e1 sobre a classe trabalhadora, mas mesmo a\u00ed h\u00e1 problemas, pois a sobreviv\u00eancia pol\u00edtica de uma ou outra fac\u00e7\u00e3o burguesa pressup\u00f5e n\u00e3o se identificar com as medidas draconianas que s\u00e3o impostas contra o conjunto da popula\u00e7\u00e3o para salvar o capital.<\/p>\n<p>Neste momento, a conjuntura pol\u00edtica pode ficar confusa ao observador desavisado. Isso porque, nos conflitos internos da burguesia monopolista e suas express\u00f5es pol\u00edticas, as fra\u00e7\u00f5es em luta acabam se valendo da crise como acerto de contas contra o arranjo de for\u00e7as pol\u00edticas anterior visando ocupar o lugar central na administra\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas e seu governo.<\/p>\n<p>Os sinais aparecem trocados, assim como historicamente vimos em nosso continente na luta entre conservadores e liberais, de forma que os liberais no governo agem como conservadores e os conservadores na oposi\u00e7\u00e3o viram liberais. Trata-se de jogar o \u00f4nus da crise no bloco pol\u00edtico de governo, para assumir em seu lugar, beneficiando-se do ciclo de crescimento que se segue quando as taxas de lucro, gra\u00e7as ao massacre dos sal\u00e1rios e empregos, da destrui\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas e da capacidade de consumo.<\/p>\n<p>O PT se beneficiou desta forma c\u00edclica, culpou o bloco PSDB\/DEM\/PMDB pela crise, alcan\u00e7ou a condi\u00e7\u00e3o de governo, reconstruiu o bloco de alian\u00e7as numa nova governabilidade com seu protagonismo \u2013 PT\/PCdoB\/PSB\u2026 e, l\u00f3gico, PMDB. Agora, na nova emerg\u00eancia da crise e suas consequ\u00eancias, a oposi\u00e7\u00e3o tenta inverter o jogo, atrair o PMDB para a forma\u00e7\u00e3o de um novo bloco e seguir a altern\u00e2ncia t\u00e3o saud\u00e1vel a continuidade da acumula\u00e7\u00e3o de capitais e seus ciclos.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, neste \u00e2mbito, a crise econ\u00f4mica se expressa, ainda, apenas numa crise pol\u00edtica que pode culminar na mudan\u00e7a do bloco de poder no governo. As mesmas express\u00f5es de classe, isto \u00e9, os diversos segmentos do grande capital monopolista (industrial, agr\u00e1rio, financeiro, exportador, comercial, etc.) que se acomodavam atrav\u00e9s do bloco governista, seguem agora na busca de uma alternativa. Na verdade, jogam nos dois lados e apoiar\u00e3o aquele que vencer a disputa.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma aus\u00eancia importante neste cen\u00e1rio e tal aus\u00eancia \u00e9 determinante para o impasse pol\u00edtico atual: os trabalhadores. O transformismo do PT e sua op\u00e7\u00e3o por um governo de concilia\u00e7\u00e3o de classes, desarmou a classe trabalhadora para o cen\u00e1rio previs\u00edvel de acirramento da luta de classes. A posi\u00e7\u00e3o rebaixada e defensiva de um \u201creformismo de baixa intensidade\u201d como diz Andr\u00e9 Singer (eu acredito que n\u00e3o chegou a ser nem isso), colocou o centro do governo na depend\u00eancia econ\u00f4mica do m\u00edtico crescimento \u201csustentado\u201d e politicamente ref\u00e9m da alian\u00e7a com o PMDB.<\/p>\n<p>O zeloso compromisso com o ajuste \u201cnecess\u00e1rio\u201d para garantir a continuidade da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, precondi\u00e7\u00e3o expressa para que o plano de governo petista se desenvolvesse adequadamente, produz o ingrediente que o bloco de oposi\u00e7\u00e3o necessita: um governo que se apresenta como de \u201cesquerda\u201d operando o ajuste brutal contra os trabalhadores para salvar os lucros dos grandes monop\u00f3lios.<\/p>\n<p>A crise gera, assim, dois dividendos para o bloco de oposi\u00e7\u00e3o conservador. A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a quebra do consumo via endividamento, o desemprego, a infla\u00e7\u00e3o e a corros\u00e3o dos sal\u00e1rios, o desmonte do Estado e das prec\u00e1rias pol\u00edticas semi-p\u00fablicas de acesso a bens e servi\u00e7os essenciais (como educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade), tudo isso gera o clima para a tese do descontrole, coroada pelas den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o. Um cen\u00e1rio no qual um opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (agora n\u00e3o na c\u00fapula do poder, mas na base social) se torna vi\u00e1vel: afastar os segmentos m\u00e9dios do governo e ganh\u00e1-los para a oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O segundo dividendo \u00e9 para n\u00f3s o mais s\u00e9rio e perigoso. Trata-se do empenho do governo em salvar o capital atacando os trabalhadores: afastam a pr\u00f3pria base social origin\u00e1ria da esquerda e a colocam sob influ\u00eancia do discurso pol\u00edtico da direita. A eficiente manipula\u00e7\u00e3o que identifica \u201cpetismo\u201d com \u201ccomunismo\u201d, permite ao bloco de oposi\u00e7\u00e3o atacar o bloco atual de governo do Estado burgu\u00eas, n\u00e3o por aquilo que ele realmente opera (at\u00e9 porque neste campo h\u00e1 a concord\u00e2ncia da vontade geral da ordem burguesa), mas pelo preconceito contra a esquerda.<\/p>\n<p>O moralismo da cruzada contra a corrup\u00e7\u00e3o serve, desta forma, tanto para angariar apoio nos setores m\u00e9dios, como atacar as bases das classes trabalhadoras oferecendo a explica\u00e7\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o como cortina de fuma\u00e7a que encobre a din\u00e2mica da explora\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p><strong>A CRISE QUE FALTA<\/strong><\/p>\n<p>Apesar da dramaticidade da crise (em parte inflada por interesse da oposi\u00e7\u00e3o conservadora), a ordem est\u00e1 garantida por hora. Seja pelo bloco que tenta se manter no poder, seja pela poss\u00edvel altern\u00e2ncia por um outro arranjo pol\u00edtico das for\u00e7as burguesas mais conservadoras.<\/p>\n<p>Isso revela que o Estado burgu\u00eas n\u00e3o foi atingido pela crise, ou, em outras palavras, que a crise pol\u00edtica se restringe a uma disputa, nos termos e na forma da ordem burguesa.<\/p>\n<p>A classe trabalhadora, derrotada e dividida, reage como pode. Recusa o pacote de garantia das empresas contra os trabalhadores, faz greves (muitas), procura manter vivo os movimentos sociais que lutam por suas demandas espec\u00edficas (pela terra, em defesa da sa\u00fade p\u00fablica, em defesa da universidade p\u00fablica e da educa\u00e7\u00e3o, contra a ordem urbana expropriadora, contra a viol\u00eancia policial, etc.). No entanto, isso n\u00e3o encontra uma express\u00e3o pol\u00edtica para deslocar a crise pol\u00edtica para uma crise do Estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c9 comum colocar a culpa na esquerda e em sua incapacidade cr\u00f4nica de se unir. Mas, essa \u00e9 mais uma perversidade da crise atual. O grande problema da unidade da esquerda (necess\u00e1ria e urgente) \u00e9 que um segmento consider\u00e1vel est\u00e1 enredado num paradoxo que alimenta a crise pol\u00edtica da classe trabalhadora. Este paradoxo \u00e9 a necessidade destes setores de recuperar o apoio de suas bases sociais (e nesta dire\u00e7\u00e3o \u00e9 uma boa not\u00edcia, porque criticam a linha geral da pol\u00edtica econ\u00f4mica e os ataques aos trabalhadores) sem deixar de apoiar o governo que decidiu atacar os trabalhadores para salvar sua governabilidade \u00e0 direita.<\/p>\n<p>O paradoxo deste setor governista \u00e9 que precisa mobilizar os segmentos que s\u00e3o brutalmente atingidos pelo governo que precisa ser defendido. Quer o apoio dos oper\u00e1rios, mas seu governo imp\u00f5e uma redu\u00e7\u00e3o de jornada com redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios, quer apoio dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos mas os trata como inimigos numa greve na qual a categoria quer apenas repor perdas e garantia de direitos que est\u00e3o sendo atacados, quer apoio dos professores universit\u00e1rios mas desmonta a universidade p\u00fablica enquanto descarrega milhares de reais para as universidades privadas, quer o apoio dos movimentos de luta pela terra e prioriza com bilh\u00f5es o agroneg\u00f3cio e enterra a reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Uma verdadeira unifica\u00e7\u00e3o deste segmentos das classes trabalhadoras, sua entrada decidida em cena em defesa de suas demandas pr\u00f3prias reconfiguraria os blocos pol\u00edticos e colocaria em primeira plano a luta de classes entre os interesses dos trabalhadores e o das classes dominantes (parece ser nesta dire\u00e7\u00e3o que a esquerda, assim como o que restou de esquerda dentro do PT e parte de movimentos socais significativos apontam). Ocorre que isso desencadearia a crise do Estado e colocaria em risco a ordem burguesa, colocando a perspectiva da ruptura em primeiro plano, enterrando de vez as chances de recomposi\u00e7\u00e3o do atual bloco de governo nos termos em que est\u00e1 estabelecido e com eles a possibilidade de uma continuidade via uma vit\u00f3ria eleitoral em 2018.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos parece que o n\u00facleo dirigente do PT tem qualquer interesse nesta dire\u00e7\u00e3o e aposta numa retomada da economia que normalize as coisas, traga de volta o PMBD para o ninho governista, acreditando que neste cen\u00e1rio a velha chantagem do risco (que \u00e9 real, consider\u00e1vel e hoje o mais prov\u00e1vel) de um bloco mais conservador assumir o governo seja o passaporte para a continuidade do ciclo petista. A esquerda reformista do PT e os movimentos sociais n\u00e3o t\u00eam for\u00e7as para reverter isso dentro do PT e n\u00e3o podem abandon\u00e1-lo, a esquerda revolucion\u00e1ria resiste ao lado dos trabalhadores, mas, est\u00e1 longe de ser, mesmo unida, uma alternativa pol\u00edtica para o curto prazo, eis o paradoxo.<\/p>\n<p>Por vezes, o politicismo das an\u00e1lises levam muitos a crer que o que falta \u00e9 vontade pol\u00edtica, uma boa reuni\u00e3o e a disposi\u00e7\u00e3o ao dialogo e tudo se resolveria. Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 assim. O que falta \u00e9 o desenlace da crise econ\u00f4mica numa dimens\u00e3o que transborde os limites da crise pol\u00edtica e se transforme numa crise do Estado burgu\u00eas.* Esta \u00e9 a boa (e a m\u00e1) not\u00edcia\u2026 isto pode, em breve, n\u00e3o faltar mais.<\/p>\n<p>*\u201cNa verdade estas hesita\u00e7\u00f5es, e at\u00e9 incertezas, s\u00e3o um sintoma de crise da sociedade burguesa. Enquanto produto do capitalismo, o proletariado est\u00e1 submetido \u00e0s formas de exist\u00eancia de seu produtor. Estas formas de exist\u00eancia s\u00e3o a desumanidade, a reifica\u00e7\u00e3o. O proletariado \u00e9, pela sua exist\u00eancia, a cr\u00edtica, a nega\u00e7\u00e3o destas formas de vida. Mas, at\u00e9 que a crise objetiva do capitalismo esteja consumada, at\u00e9 que o pr\u00f3prio proletariado tenha conseguido discernir completamente esta crise da reifica\u00e7\u00e3o, e como tal, apenas negativamente ascende acima de uma parte do que nega. Quando a cr\u00edtica n\u00e3o ultrapassa a simples nega\u00e7\u00e3o de uma parte, quando pelo menos, ela n\u00e3o tende para totalidade, ent\u00e3o n\u00e3o pode ultrapassar o que nega, como por exemplo, nos mostra o car\u00e1ter pequeno burgu\u00eas da maior parte dos sindicalistas.\u201d (Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs, Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe. Porto: Escorpi\u00e3o, 1974, p 91-92)<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Mauro Iasi\u00a0<\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a>\u00a0(Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a>\u00a0(Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o\u00a0<strong>Blog da Boitempo\u00a0<\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/08\/12\/tres-crises-falta-uma\/\">Tr\u00eas crises&#8230; falta&nbsp;uma<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Mauro Luis Iasi. Na conjuntura brasileira se entrela\u00e7am duas crises: uma crise econ\u00f4mica e um pol\u00edtica. 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