{"id":9137,"date":"2015-08-17T23:53:03","date_gmt":"2015-08-18T02:53:03","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9137"},"modified":"2015-09-09T07:44:15","modified_gmt":"2015-09-09T10:44:15","slug":"transfobia-e-travesticidio-alem-da-superficie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9137","title":{"rendered":"TRANSFOBIA E TRAVESTIC\u00cdDIO: AL\u00c9M DA SUPERF\u00cdCIE"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/lOzPr5zYD38lA6P6n4_gosynAAdD9-frJ0r-pjCbPsE=w849-h312\" alt=\"imagem\" \/>Nessa \u00faltima semana, a viol\u00eancia contra travestis, mulheres transexuais e homens trans voltou a debate por conta da divulga\u00e7\u00e3o de um v\u00eddeo com o relato de agress\u00e3o sofrida pela Viviany Beleboni, modelo travesti que ficou conhecida pela performance art\u00edstica na Parada do Orgulho LGBT de 2015, <!--more-->em que desfilou crucificada no trio da ONG ABCD\u2019S. Esse n\u00e3o foi o \u00fanico caso de viol\u00eancia transf\u00f3bica que ganhou visibilidade em 2015: h\u00e1 poucos meses, foi \u00e0 m\u00eddia o assassinato de Laura Vermont, travesti de 18 anos que foi linchada por cinco homens a caminho de casa e recebeu tiros da pol\u00edcia que foi chamada para socorr\u00ea-la; mais cedo esse ano, teve repercuss\u00e3o internacional o caso da Ver\u00f4nica Bolina, travesti negra v\u00edtima de tortura policial que teve fotos suas, seminua e sob cust\u00f3dia policial, divulgadas na internet.<\/p>\n<p>Esses casos, que chocam pela brutalidade e pelo expl\u00edcito desrespeito \u00e0 dignidade humana, s\u00e3o apenas fotografias da realidade de extrema precariza\u00e7\u00e3o da vida de uma parcela marginalizada da classe trabalhadora. A ANTRA \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais estima que a nossa expectativa de vida esteja em torno de 35 anos; no relat\u00f3rio Trans Murder Monitoring 2015, a TGEU (Transgender Europe) estima que 73%, no mundo todo, morrem antes de completar 40 anos e aponta o Brasil como o pa\u00eds com o maior n\u00famero absoluto de assassinato de travestis e transexuais. Al\u00e9m das viola\u00e7\u00f5es \u00e0 integridade f\u00edsica, os casos de Laura e Ver\u00f4nica tamb\u00e9m ilustram a viol\u00eancia institucional e a neglig\u00eancia, o desamparo e mesmo a colabora\u00e7\u00e3o ativa dos aparatos do Estado frente \u00e0 vulnerabilidade social de travestis, mulheres transexuais e homens trans.<\/p>\n<p>A baixa expectativa de vida, no entanto, n\u00e3o se deve exclusivamente ao alto \u00edndice de viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m \u00e0 precariedade do acesso aos servi\u00e7os regulares de sa\u00fade e \u00e0 inexpressividade do atendime0nto a demandas espec\u00edficas que sustenta, por exemplo, o nocivo uso de terapias hormonais por automedica\u00e7\u00e3o e tentativa e erro, a aplica\u00e7\u00e3o recorrente de silicone industrial por travestis e mulheres transexuais e os s\u00e9rios problemas de sa\u00fade que os homens trans enfrentam pelo uso prolongado de faixas e coletes supressores dos seios.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m v\u00e3o \u00e0 conta a realidade prec\u00e1ria de alimenta\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a e moradia decorrentes da dificuldade de acesso a condi\u00e7\u00f5es minimamente salubres de trabalho: a ANTRA estima que aproximadamente 90% das travestis e mulheres transexuais no Brasil sejam trabalhadoras do sexo, atividade n\u00e3o regulamentada, que n\u00e3o disp\u00f5e de garantias trabalhistas e de grande vulnerabilidade social. A parcela que consegue fugir a essa regra se encontra concentrada majoritariamente em outros polos de precariza\u00e7\u00e3o acentuada, como telemarketing, sal\u00f5es de beleza e com\u00e9rcio varejista \u201caut\u00f4nomo\u201d (Avon, Natura, Jequiti etc). Essa realidade, sintoma de uma organiza\u00e7\u00e3o social que nos reserva lugares muito bem delimitados de superexplora\u00e7\u00e3o e precariedade nas rela\u00e7\u00f5es com o trabalho, tamb\u00e9m faz com que sejamos parte expressiva das popula\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00e3o de rua, residente de albergues e de ocupa\u00e7\u00f5es e se concentre majoritariamente nas regi\u00f5es perif\u00e9ricas, que disp\u00f5em de tamb\u00e9m prec\u00e1rios servi\u00e7os de transporte, seguran\u00e7a, sa\u00fade e saneamento.<\/p>\n<p>Frente a esse cen\u00e1rio, cada novo caso de viol\u00eancia que ganha visibilidade deveria nos lembrar do qu\u00e3o urgente \u00e9 que combatamos as redu\u00e7\u00f5es da nossa luta a meras quest\u00f5es identit\u00e1rias, para que possamos fortalecer uma abordagem que compreenda cada um desses casos como express\u00f5es de um mecanismo muito mais amplo e sist\u00eamico de exclus\u00e3o instrumentalizada e marginaliza\u00e7\u00e3o, cujo fim \u00e9 a pr\u00f3pria manuten\u00e7\u00e3o do sistema de explora\u00e7\u00e3o humana que sustenta todos os tipos de desigualdade social.<\/p>\n<p>Compreender as formas particulares de opress\u00e3o que esse sistema imp\u00f5e a popula\u00e7\u00e3o de travestis, mulheres transexuais e homens trans permite n\u00e3o apenas um aprofundamento qualitativo na compreens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es capitalistas de g\u00eanero e suas conex\u00f5es com a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, como tamb\u00e9m nos d\u00e1 as ferramentas necess\u00e1rias para tra\u00e7ar estrat\u00e9gias e t\u00e1ticas realmente eficazes de combate a essa opress\u00e3o. Desvela, por exemplo, que as viol\u00eancias, agress\u00f5es e assassinatos que nos assolam n\u00e3o s\u00e3o resolv\u00edveis por meros dispositivos de puni\u00e7\u00e3o ao agressor dos crimes j\u00e1 cometidos, assim como n\u00e3o se perpetuam apenas por uma \u201cfalta de empatia\u201d decorrente de elementos culturais, mas s\u00e3o express\u00f5es de um conjunto mais complexo de vulnerabilidades que precisam ser pensadas articuladas e em conjunto. Esse olhar sist\u00eamico nos d\u00e1 um panorama mais estrutural de diretrizes de luta e explicita as reais necessidades que sustentam as reivindica\u00e7\u00f5es do movimento, como:<\/p>\n<ul>\n<li>Garantia do direito \u00e0 integridade f\u00edsica e \u00e0 vida;<\/li>\n<li>acesso pleno, gratuito e de qualidade a servi\u00e7os de sa\u00fade, com atendimento \u00e0s necessidades espec\u00edficas dessa popula\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>acesso a condi\u00e7\u00f5es regulares de trabalho, com possibilidade de melhores sal\u00e1rio e garantia de direitos trabalhistas j\u00e1 conquistados pela classe \u2013 al\u00e9m do acesso \u00e0 pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o trabalhista;<\/li>\n<li>garantia de acesso e perman\u00eancia \u00e0 educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, profissionalizante e superior e por fim, de forma mais ampla,<\/li>\n<li>acesso pleno, seguro e inclusivo \u00e0 cidade e \u00e0 vida p\u00fablica.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Dessa forma, caminhamos para al\u00e9m da redu\u00e7\u00e3o de danos e ganhamos a possibilidade de pensar essa particularidade de opress\u00e3o nos seus elementos mais estruturais, abrindo canais reais de articula\u00e7\u00e3o com outras particularidades de luta e construindo condi\u00e7\u00f5es subjetivas para que possamos nos reconhecer como parte integrante e indispens\u00e1vel da classe trabalhadora, assim como da luta pela supera\u00e7\u00e3o da ordem social que nos mant\u00e9m oprimidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nessa \u00faltima semana, a viol\u00eancia contra travestis, mulheres transexuais e homens trans voltou a debate por conta da divulga\u00e7\u00e3o de um v\u00eddeo com \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9137\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-9137","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s6-movimentos"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2nn","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9137","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9137"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9137\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9137"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9137"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9137"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}