{"id":9139,"date":"2015-08-17T23:56:19","date_gmt":"2015-08-18T02:56:19","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9139"},"modified":"2015-09-09T07:48:11","modified_gmt":"2015-09-09T10:48:11","slug":"o-que-e-a-esquerda-dez-observacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9139","title":{"rendered":"O que \u00e9 &#8220;a Esquerda&#8221;? Dez observa\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/grecia\/imagens\/syriza_dorme.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><\/p>\n<p><u>Qualquer semelhan\u00e7a com o BE portugu\u00eas n\u00e3o ser\u00e1 coincid\u00eancia<\/u><\/p>\n<p>O que \u00e9 &#8220;a Esquerda&#8221;? Dez observa\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p><b>por Antonis<\/b><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><b>1.<\/b> Na Gr\u00e9cia, &#8220;a Esquerda&#8221; existe desde 1951, desde a funda\u00e7\u00e3o naquele ano da Esquerda Democr\u00e1tica Unida (EDA). Como categoria do pensamento pol\u00edtico, no per\u00edodo anterior a 1950 n\u00e3o tinha significado no pa\u00eds. O &#8220;anarquismo&#8221; era muito mais importante como descritor da ideologia nos princ\u00edpios do movimento oper\u00e1rio grego do que &#8220;a Esquerda&#8221; \u2013 sem mencionar o significado, para uma pol\u00edtica anti-burguesa, de express\u00f5es como &#8220;Bolchevismo&#8221; e &#8220;Terceira Internacional&#8221;. Estruturalmente, a condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para o nascimento de &#8220;a Esquerda&#8221; era a auto-censura da designa\u00e7\u00e3o de um sector da popula\u00e7\u00e3o como &#8220;comunista&#8221; em consequ\u00eancia do terror de Estado. &#8220;A Esquerda&#8221; nasceu sob condi\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o estatal, como uma troca de nomes defensiva, como uma pseudo-denomina\u00e7\u00e3o com objectivos de auto-protec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>2.<\/b> A derrota do Ex\u00e9rcito Democr\u00e1tico da Gr\u00e9cia (EDG), em combina\u00e7\u00e3o com o terror de estado e a repress\u00e3o, tamb\u00e9m criaram as condi\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias para a pseudo-categoria de &#8220;a Esquerda&#8221; (como uma abstrac\u00e7\u00e3o nominalista, ao inv\u00e9s de um designador concreto de uma tend\u00eancia <b>dentro <\/b>de um partido socialista de trabalhadores \u2013 uma utiliza\u00e7\u00e3o com uma genealogia inteiramente diferente) adquirir o seu pr\u00f3prio significado substantivo. Ela criou, para dizer mais simplesmente, a possibilidade de uma sec\u00e7\u00e3o dos comunistas fazerem <b>realmente <\/b>(e n\u00e3o apenas superficialmente) a transi\u00e7\u00e3o para a &#8220;ideologia democr\u00e1tica&#8221;, a qual nas condi\u00e7\u00f5es da inabal\u00e1vel domina\u00e7\u00e3o capitalista significa necessariamente a transi\u00e7\u00e3o para o lado da democracia burguesa. &#8220;A Esquerda&#8221; \u00e9 o resultado da efectiva rendi\u00e7\u00e3o de uma sec\u00e7\u00e3o dos comunistas ao vitorioso estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p><b>3.<\/b> Economicamente falando, &#8220;a Esquerda&#8221; significa a reivindica\u00e7\u00e3o de &#8220;uma distribui\u00e7\u00e3o da riqueza mais justa&#8221;, ou do &#8220;produto social&#8221;. Ela <b>nunca <\/b>significa a luta para mudar o modo de produ\u00e7\u00e3o, nunca a mudan\u00e7a de rela\u00e7\u00f5es produ\u00e7\u00e3o, nunca a socializa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o. J\u00e1 em 1875, Karl Marx mostrava, no seu <i>Cr\u00edtica do programa de Gotha, <\/i>qu\u00e3o contradit\u00f3rio \u00e9 o pr\u00f3prio conceito de uma &#8220;justa distribui\u00e7\u00e3o&#8221; da riqueza dentro do capitalismo. O cultivo da ilus\u00e3o de que as apostas de &#8220;a Esquerda&#8221; eram porventura algo mais do que esta vaga reivindica\u00e7\u00e3o de uma &#8220;distribui\u00e7\u00e3o mais justa&#8221; era um tanto activado pela coexist\u00eancia compuls\u00f3ria, sob o regime de terror de estado da d\u00e9cada de 1950, de sociais-democratas e comunistas. Esta coexist\u00eancia foi utilizada para promover confus\u00e3o e gerar placebos agrad\u00e1veis para um movimento desarmado e derrotado.<\/p>\n<p><b>4.<\/b> Porque a suprema reivindica\u00e7\u00e3o de &#8220;a Esquerda&#8221; \u00e9 uma &#8220;distribui\u00e7\u00e3o mais justa&#8221; da riqueza capitalista acumulada, a Esquerda por defini\u00e7\u00e3o est\u00e1 do lado da Reforma contra a Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>5.<\/b> Porque a crise financeira do capitalismo torna extremamente estreitas as margens para satisfazer a reivindica\u00e7\u00e3o da &#8220;distribui\u00e7\u00e3o mais justa&#8221;, &#8220;a Esquerda&#8221; n\u00e3o pode ter conte\u00fado econ\u00f3mico que seja diferente daquele dos partidos burgueses em tais per\u00edodos. Ela pode adquirir um tal conte\u00fado s\u00f3 em per\u00edodos de desenvolvimento econ\u00f3mico das taxas de acumula\u00e7\u00e3o capitalistas, sempre sob a condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de que ela tenha na sua perspic\u00e1cia meios de exercer press\u00e3o de modo que lhe seja permitido aparecer como um &#8220;provedor&#8221; para a classe trabalhadora e como um &#8220;negociador&#8221; no seu interesse. Mas a subvers\u00e3o do socialismo realmente existente significa que tais meios n\u00e3o existem, tanto durante crises financeiras como durante per\u00edodo de desenvolvimento capitalista. Consequentemente, n\u00e3o se pode esperar de &#8220;a Esquerda&#8221; vir a obter um conte\u00fado econ\u00f3mico que a diferencie de qualquer forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica burguesa no futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p><b>6.<\/b> Dada a aus\u00eancia de um conte\u00fado econ\u00f3mico distinto na categoria de &#8220;a Esquerda&#8221;, tanto na Gr\u00e9cia como no exterior, a palavra evoluiu, a partir das d\u00e9cadas de 1960 e 1970, para uma categoria da <b>superestrutura <\/b>.<\/p>\n<p><b>7.<\/b> A primeira esfera fundamental dentro da qual &#8220;a Esquerda&#8221; obteve um conte\u00fado foi a <b>est\u00e9tica <\/b>, em todas as suas formas. Por esta raz\u00e3o, hoje continua mais f\u00e1cil localizar a &#8220;Esquerda&#8221; no cinema, poesia, pintura, imag\u00edstica, ret\u00f3rica, do que num programa econ\u00f3mico da &#8220;Esquerda&#8221; que seja diferente da generalidade dos programas econ\u00f3micos burgueses. Ap\u00f3s a d\u00e9cada de 1960, &#8220;a Esquerda&#8221; tornou-se predominantemente uma <b>categoria est\u00e9tica <\/b>, uma proposta para uma est\u00e9tica.<\/p>\n<p><b>8.<\/b> A segunda esfera fundamental na qual &#8220;a Esquerda&#8221; obteve um conte\u00fado, durante o mesmo per\u00edodo, e enquanto estava a ser disseminada no terreno da est\u00e9tica, foram os &#8220;direitos sociais&#8221;, concebidos como direitos individuais baseados na &#8220;diferen\u00e7a&#8221;. Estes, inevitavelmente, s\u00e3o direitos que pressup\u00f5em uma norma que eles simultaneamente questionam. Todos os movimentos sociais de &#8220;a Esquerda&#8221; criados desde a d\u00e9cada de 1950 s\u00e3o determinados por esta contradi\u00e7\u00e3o entre o n\u00e3o-questionamento da exist\u00eancia de uma norma \u2013 a aceita\u00e7\u00e3o da estabilidade e da sustentabilidade, efectivamente, do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista \u2013 e o seu questionamento ao n\u00edvel ideol\u00f3gico e ret\u00f3rico, bem como a contradi\u00e7\u00e3o decorrente entre a rejei\u00e7\u00e3o da normatividade <i>como tal <\/i>e o esfor\u00e7o para faz\u00ea-la mais &#8220;inclusiva&#8221; do que fora no passado.<\/p>\n<p><b>9.<\/b> Em per\u00edodos de recess\u00e3o, as vit\u00f3rias dos &#8220;novos movimentos sociais&#8221; n\u00e3o s\u00f3 desaparecem como revelam-se miragens. Como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel qualquer desvio das necessidades da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, assim os &#8220;direitos sociais&#8221; revelam-se serem destitu\u00eddos de subst\u00e2ncia ou absolutamente &#8220;seguros&#8221; para o sistema social, mesmo durante per\u00edodos de repress\u00e3o social. Esta \u00e9 a era na qual o casamento gay pode ser percebido como uma reivindica\u00e7\u00e3o muito menos radical do que o direito a uma casa ou a cuidados m\u00e9dicos, porque estes \u00faltimos t\u00eam um custo para o capital, ao passo que o primeiro exige apenas um &#8220;ajustamento ideol\u00f3gico&#8221; no estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p><b>10.<\/b> &#8220;A Esquerda&#8221; \u00e9 o aspecto essencial e org\u00e2nico da &#8220;Grande ilus\u00e3o&#8221; de um importante sector dos estratos m\u00e9dios e baixos. Estes estratos tiraram conclus\u00f5es erradas quanto \u00e0 natureza do sistema capitalista ao limitarem suas observa\u00e7\u00f5es ao per\u00edodo no qual os ritmos de desenvolvimento econ\u00f3mico e a press\u00e3o tornada poss\u00edvel pelo socialismo realmente existente permitiu que a reivindica\u00e7\u00e3o de uma &#8220;distribui\u00e7\u00e3o mais justa do produto social&#8221; tivesse algumas limitadas consequ\u00eancias pr\u00e1ticas para a qualidade da vida di\u00e1ria em sociedades ocidentais. Hoje, a \u00fanica utilidade de &#8220;a Esquerda&#8221; \u00e9 promover a confus\u00e3o quanto \u00e0 natureza real de uma categoria que historicamente \u00e9 muito mais importante e substantiva \u2013 a Social-Democracia \u2013 e assisti-la na reprodu\u00e7\u00e3o da elites intelectuais e tecnocr\u00e1ticas que a utilizam para ganhar legitimidade popular, levando portanto \u00e0 sua sempre maior deslegitima\u00e7\u00e3o aos olhos de estratos populares, com todas as graves consequ\u00eancias pol\u00edticas que isto pode ter para a convers\u00e3o destas \u00faltimas \u00e0 Reac\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que todo o debate, na Gr\u00e9cia e no exterior, a respeito do que \u00e9 &#8220;a Esquerda real&#8221; e de que partido pol\u00edtico &#8220;realmente&#8221; exprime algo <b>destitu\u00eddo de qualquer conte\u00fado econ\u00f3mico real <\/b>\u00e9 desorientador em termos definicionais. O \u00fanico objectivo de um tal debate \u00e9 a perpetua\u00e7\u00e3o da paralisia pol\u00edtica e da impot\u00eancia dos estratos sociais mais baixos.<\/p>\n<p>15\/Agosto\/2015<\/p>\n<p><b>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/leninreloaded.blogspot.pt\/2014\/06\/blog-post_6471.html\" target=\"_blank\">leninreloaded.blogspot.pt\/<wbr \/>2014\/06\/blog-post_6471.html<\/a><br \/>\ne a vers\u00e3o em ingl\u00eas em <a href=\"http:\/\/indefenseofgreekworkers.blogspot.pt\/2015\/08\/what-is-left-ten-remarks.html#more\" target=\"_blank\">indefenseofgreekworkers.<wbr \/>blogspot.pt\/2015\/08\/what-is-<wbr \/>left-ten-remarks.html#more<\/a> <\/b><\/p>\n<p><b>Este artigo encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Qualquer semelhan\u00e7a com o BE portugu\u00eas n\u00e3o ser\u00e1 coincid\u00eancia O que \u00e9 &#8220;a Esquerda&#8221;? 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