{"id":9214,"date":"2015-08-29T19:33:49","date_gmt":"2015-08-29T22:33:49","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9214"},"modified":"2015-09-16T00:05:08","modified_gmt":"2015-09-16T03:05:08","slug":"prostitutas-greves-e-mortos-os-limites-do-realismo-fantastico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9214","title":{"rendered":"Prostitutas, greves e mortos (os limites do realismo fant\u00e1stico)"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2015\/08\/mauro-iasi-realismo-fantc3a1stico.jpg?w=747&#038;h=366&#038;fit=500%2C366\" alt=\"imagem\" \/><em>Por <a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/category\/colunas\/mauro-iasi\/\" target=\"_blank\">Mauro Luis Iasi<\/a>.<\/em><\/p>\n<p>Enquanto isso, em um suposto pa\u00eds imagin\u00e1rio chamado Espanha, duas not\u00edcias abalam os cidad\u00e3os de bem: as prostitutas de luxo se recusam a fazer sexo com os banqueiros e os mortos est\u00e3o sendo despejados de seus jazigos por falta de pagamento.<!--more--><\/p>\n<p>\u201cBuenas noches\u2026 a p\u00e1tria estarrecida enfrenta uma de suas maiores crises\u201d, diz o locutor do jornal televisivo com aquele tom sarc\u00e1stico que mescla dramaticidade e um toque sard\u00f4nico, como se dissesse: \u201cSua m\u00e3e morreu\u2026 e estou adorando isso.\u201d<span id=\"more-13151\"><\/span><\/p>\n<p>Em entrevista, a l\u00edder da associa\u00e7\u00e3o das profissionais do sexo afirma que \u201cn\u00f3s somos as \u00fanicas com capacidade real de pressionar o setor\u201d para que cumpra com suas fun\u00e7\u00f5es sociais. Segundo os dados apurados por esta emissora, estas senhoras afirmam que os bancos deveriam liberar linhas de cr\u00e9dito especial para os mais pobres e empresas que enfrentam dificuldades. Voltaremos a esta not\u00edcia logo ap\u00f3s nossos intervalos comerciais.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s alguns minutos de comerciais \u2013 alguns inclusive de bancos nos quais se insiste como voc\u00ea pode ser realmente feliz e atingir seus objetivos abrindo uma conta (afinal, o verdadeiro objetivo das institui\u00e7\u00f5es financeiras n\u00e3o \u00e9 o lucro, mas o bem estar de seus clientes) \u2013 o locutor volta: \u201cFalamos com figuras eminentes do setor financeiro que deram sua opini\u00e3o sobre a crise e a posi\u00e7\u00e3o firme das prostitutas. \u2018Esta \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o caluniosa e descabida\u2019, disse um grande magnata das finan\u00e7as, \u2018querem atacar nossa reputa\u00e7\u00e3o ilibada e a sagrada institui\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Jamais usar\u00edamos de tal expediente para saciar os desejos da carne. Quero aproveitar para desmentir que tenha alterado minha agenda de viagens para para\u00edsos sexuais no terceiro mundo: todos eram compromissos anteriormente assumidos, a senhora pode confirmar com minha secret\u00e1ria\u2026 n\u00e3o, com ela n\u00e3o, \u00e9 melhor com a respons\u00e1vel pela comunica\u00e7\u00e3o social de nossa institui\u00e7\u00e3o\u2019\u201d.<\/p>\n<p>A esposa do banqueiro tamb\u00e9m deu uma declara\u00e7\u00e3o: \u201cN\u00e3o nos atingem aqueles que dos escal\u00f5es chafurdados na perdi\u00e7\u00e3o e no pecado querem manchar nossa reputa\u00e7\u00e3o e a honra de nossas fam\u00edlias. Tenho total confian\u00e7a em meu esposo, at\u00e9 porque, se for verdade ele sabe que arrancarei seus ovos e servirei na <em>paeja<\/em> de domingo, <em>cabr\u00f3n sinverg\u00fcenza\u2026\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Os servi\u00e7os de seguran\u00e7a afirmam que a l\u00edder do movimento n\u00e3o representa de fato a categoria e que os servi\u00e7os estariam garantidos. \u201c\u00c9 uma minoria destitu\u00edda de sentimentos de p\u00e1tria e de honra, envolvidas com perigosos grupos extremistas\u201d. \u201cLembremos, disse o oficial de pol\u00edcia, as palavras de Marx \u2018nossos burgueses, n\u00e3o contentes em ter \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o as mulheres e filhas dos prolet\u00e1rios, sem falar na prostitui\u00e7\u00e3o oficial, tem singular prazer em cornearem-se uns aos outros\u2019, a influ\u00eancia marxista \u00e9 patente\u201d, concluiu o representante da lei e da ordem que foi levado preso logo em seguida por ter citado Marx ao vivo num programa de alcance nacional.<\/p>\n<p>Um especialista da UFRJ, eminente universidade brasileira, afirmou, em f\u00e9rias na Espanha: \u201cA greve \u00e9 um direito, n\u00e3o somos contra a greve, mas ela deve ser usada somente em \u00faltimo caso, para n\u00e3o banalizar este instrumento t\u00e3o importante, de forma que as prostitutas deveriam tentar outras formas de luta antes desta t\u00e3o dr\u00e1stica\u201d. Infelizmente, o especialista n\u00e3o soube indicar quais seriam estas \u201coutras formas\u201d, nem em que casos a greve poderia ser usada, mas insistiu que, \u201csem descartar o sexo presencial, deveriam se dar prefer\u00eancia a formas eletr\u00f4nicas e digitais, mais modernas e interativas\u201d.<\/p>\n<p>Outro eminente representante de uma grande casa banc\u00e1ria alem\u00e3 afirmou que \u201cpassamos por um momento de austeridade e cortes ser\u00e3o necess\u00e1rios, mas todos n\u00f3s sabemos que n\u00e3o ser\u00e1 nesta \u00e1rea, at\u00e9 por que se tivermos que cortar alguma coisa ser\u00e1 na Gr\u00e9cia\u201d. Imediatamente a <em>Asociaci\u00f3n Nacional de los Psicoanal\u00edticos Lacanianos Aut\u00eanticos<\/em> (cis\u00e3o da <em>Asociaci\u00f3n de Psicoanal\u00edticos Lacanianos Verdaderos<\/em>) marcou um simp\u00f3sio internacional para discutir a rela\u00e7\u00e3o entre a crise, os cortes e a interrup\u00e7\u00e3o do gozo, numa clara referencia a s\u00edndrome de castra\u00e7\u00e3o implicada na declara\u00e7\u00e3o, n\u00e3o chegaram, no entanto, a um acordo sobre a referencia \u00e0 Gr\u00e9cia. Alguns participantes alegam que se trata de uma refer\u00eancia no campo do Real e se aplica ao pa\u00eds que atravessa uma grave crise, enquanto outros afirmam categoricamente que se insere no campo do Simb\u00f3lico e tem evidentes rela\u00e7\u00f5es com a p\u00e1tria do complexo de \u00c9dipo. Um terceiro grupo afirma que pode ser as duas coisas e prepara uma nova cis\u00e3o na <em>Asociaci\u00f3n<\/em>.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo esloveno Slavoj \u017di\u017eek n\u00e3o emitiu uma opini\u00e3o, pois foi acometido de um grave ataque de riso que j\u00e1 dura dois dias, mas afirmou que est\u00e1 preparando um livro de aproximadamente mil p\u00e1ginas sobre o tema.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, est\u00e1 not\u00edcia s\u00f3 pode ser falsa, <em>cari\u00f1o<\/em>! Como que, ent\u00e3o, as prostitutas de luxo podem fazer uma greve\u201d? \u201cComo vou saber Lola, cada uma, como vou saber\u201d? \u201cComo n\u00e3o, pois n\u00e3o trabalha em um banco, <em>cari\u00f1o<\/em>\u201d? \u201cSou banc\u00e1rio\u2026 banc\u00e1rio, <em>coraz\u00f3n<\/em>\u2026 n\u00e3o tenho acesso a coisas\u2026 de\u2026 coisas de luxo\u201d. \u201cPor que voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o est\u00fapido\u201d? \u201cEu\u2026 eu n\u00e3o disse nada\u201d! \u201cPor que gritas\u201d? \u201c<em>Cari\u00f1o<\/em>\u2026\u201d \u201cCarinho <em>un carajo\u2026 que nadie va a follar hoy por la noche\u2026 la puta madre<\/em><em>\u201d!<\/em><\/p>\n<p>Outra not\u00edcia estarrecedora trata do despejo dos mortos. A administra\u00e7\u00e3o dos cemit\u00e9rios afirma que v\u00e1rias fam\u00edlias deixam de pagar as taxas e que diante da crescente demanda por espa\u00e7os, ser\u00e1 necess\u00e1rio desalojar os mortos para liberar jazigos para os que chegam e podem pagar. Em uma transmiss\u00e3o \u201cao vivo\u201d nosso rep\u00f3rter foi conversar com os ocupantes para conhecer sua opini\u00e3o sobre tal a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEstamos aqui, diretamente do cemit\u00e9rio, para saber a opini\u00e3o dos mortos sobre mais esta medida dram\u00e1tica de nossas autoridades, como o senhor v\u00ea a situa\u00e7\u00e3o?\u201d. \u201cOra minha filha, eu tamb\u00e9m acreditei naquela hist\u00f3ria de \u2018descanse em paz\u2019, veja voc\u00ea, aqui est\u00e1 uma confus\u00e3o s\u00f3. N\u00e3o \u00e9 verdade que falte terra, para os pobres qualquer cantinho serve, estamos acostumados a morrer em vida e n\u00e3o estranhamos a vida na morte, mas os ricos s\u00e3o um problema, com seus t\u00famulos enormes que parecem catedrais, est\u00e1tuas de anjos com grandes asas a segurar senhoras, analogias de suas profiss\u00f5es em vida, ocupam um espa\u00e7o enorme\u201d.<\/p>\n<p>Os mortos n\u00e3o reclamam muito das taxas, s\u00e3o os vivos que pagam, mas as moedas para o barqueiro t\u00eam gerado muita reclama\u00e7\u00e3o. \u201cNingu\u00e9m mais enterra ningu\u00e9m com moedas nos olhos ou na boca, ent\u00e3o chega na hora da travessia e o barqueiro n\u00e3o quer nem saber. O servi\u00e7o est\u00e1 muito ruim, quando era p\u00fablico funcionava, mas depois que privatizaram a travessia virou um caos. Ganhou a licita\u00e7\u00e3o uma empresa brasileira, a CCR Barcas, com o <em>slogam<\/em> \u2018nosso servi\u00e7o \u00e9 de morte\u2019, e tudo ficou muito confuso por aqui.\u201d<\/p>\n<p>Os mortos ricos n\u00e3o aceitam ir nas barcas com os pobres e exigem o direito de trazer seus iates para a travessia. \u201cVeja s\u00f3, disse um barqueiro, que n\u00e3o quis se identificar porque \u00e9 terceirizado, o cara chega com um iate de 170 metros, com onze cabines, tem at\u00e9 um mini submarino, duas piscinas, custando mais de oitocentos milh\u00f5es de d\u00f3lares, e a\u00ed me d\u00e1 duas moeda de ouro e me pede para passar ele na frente\u201d. O senhor Caronte, que come\u00e7ou a vida como barqueiro e hoje \u00e9 um grande magnata que controla v\u00e1rias firmas de terceiriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o quis dar entrevistas. Mas sua acess\u00f3ria afirmou que um barqueiro ou outro receber dinheiro para atravessar n\u00e3o \u00e9 fato novo, que nos velhos tempos tentaram at\u00e9 empurrar um ramo de ac\u00e1cia para passar gente viva para o inferno\u201d.<\/p>\n<p>Os ricos n\u00e3o correm o risco de serem desalojados. No entanto, s\u00f3 por precau\u00e7\u00e3o, os trabalhadores madrile\u00f1os fizeram uma coleta para pagar as taxas do t\u00famulo de Franco. Diante da amea\u00e7a de desalojar os inadimplentes, os mortos pobres \u00e9 que est\u00e3o preocupados. \u201cFui desalojado minha vida inteira, primeiro de minha terra, depois de algumas moradias que n\u00e3o consegui pagar e alguns empregos em \u00e9pocas de crise, minha mulher me jogou pra fora de casa por causa do vinho, s\u00f3 falta agora me jogarem pra fora de minha cova\u201d. \u201cO que me deixa mais tranquilo, seguiu o defunto, \u00e9 que minha fam\u00edlia mudou-se para o Brasil e deve estar bem l\u00e1 na Vila Aut\u00f3dromo no Rio de Janeiro\u201d.<\/p>\n<p>O problema dos mortos teve consequ\u00eancias tamb\u00e9m para os vivos. Fora de suas tumbas os mortos t\u00eam que se virar entre os vivos e isso tem gerado muitos problemas. \u201cQuando voc\u00ea chega para tentar um emprego, disse um jovem de Barcelona (uma cidade imagin\u00e1ria), agora tem que disputar a vaga tamb\u00e9m com os mortos. Eles levam uma s\u00e9rie de vantagens sobre n\u00f3s, n\u00e3o comem, n\u00e3o dormem, n\u00e3o ficam mais doentes, alguns est\u00e3o em dana\u00e7\u00e3o eterna, ent\u00e3o, n\u00e3o ligam muito para as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, embora outras afirmem que no inferno era melhor. Quanto \u00e0 apar\u00eancia, \u00e9, n\u00e3o \u00e9 nada boa, mas para telemarketing t\u00e1 valendo\u201d.<\/p>\n<p>Para o governo, a volta dos mortos n\u00e3o \u00e9 um problema. \u201cEm algumas \u00e1reas, disse um representante do governo, pode ser mesmo uma solu\u00e7\u00e3o. Veja a previd\u00eancia, por exemplo, com os mortos no mercado de trabalho podemos aumentar a idade para a aposentadoria para patamares razo\u00e1veis at\u00e9 equilibrar as contas\u201d. \u201cH\u00e1 muito preconceito com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte, disse um grande empres\u00e1rio, n\u00f3s capitalistas temos a mente aberta a novas possibilidades, j\u00e1 exploramos os vivos at\u00e9 que morram, porque n\u00e3o explorar os mortos at\u00e9 que renas\u00e7am\u201d?<\/p>\n<p>Boa noite.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Leia, na coluna de agosto de <strong>Mauro Iasi<\/strong>, \u201c<a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/08\/12\/tres-crises-falta-uma\/\" target=\"_blank\">Tr\u00eas crises\u2026 falta uma<\/a>\u201c, uma an\u00e1lise da crise pol\u00edtica e da crise econ\u00f4mica, que se entrela\u00e7am na atual\u00a0conjuntura brasileira.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Mauro Iasi\u00a0<\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a>\u00a0(Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a>\u00a0(Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o\u00a0<strong>Blog da Boitempo\u00a0<\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/08\/25\/prostitutas-greves-e-mortos-os-limites-do-realismo-fantastico\/\">Prostitutas, greves e mortos (os limites do realismo&nbsp;fant\u00e1stico)<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Mauro Luis Iasi. 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