{"id":9265,"date":"2015-09-03T20:51:52","date_gmt":"2015-09-03T23:51:52","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9265"},"modified":"2015-09-24T23:49:21","modified_gmt":"2015-09-25T02:49:21","slug":"a-filha-do-dirigente-maximo-da-fplp-conta-sobre-a-visita-a-seu-pai-preso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9265","title":{"rendered":"A filha do dirigente m\u00e1ximo da FPLP conta sobre a visita a seu pai preso"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"606\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resumenlatinoamericano.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/ahmad_saadat2-606x400.jpg?resize=606%2C400\" alt=\"\" \/>Resumen Latinoamericano \/ 25 de Agosto 2015.- Sumoud Saadat: Minha viagem para ver meu pai: 45 minutos, um copo e um telefone.<\/p>\n<p>Sumoud Sa\u2019adat, 29 anos, ela \u00e9 filha de Ahmad Sa\u2019adat, Secret\u00e1rio Geral da Frente Popular pela a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina e MP palestina. <!--more-->Ahmad Saadat foi preso pela ocupa\u00e7\u00e3o israelense em 2006, quando o ex\u00e9rcito israelense o capturou numa pris\u00e3o da Autoridade Palestina, em Jeric\u00f3, onde estava desde 2002. Ahmad Saadat, \u00e0s vezes, \u00e9 colocado em confinamento solit\u00e1rio e est\u00e1 privado das visitas familiares arbitrariamente. Desde o ver\u00e3o de 2014 que n\u00e3o recebia uma visita. A mais recente foi a de seu filho mais velho, Ghassan. H\u00e1 dois anos sua esposa n\u00e3o possui o direito de visit\u00e1-lo. Em 20 de agosto de 2015, depois de 9 anos de proibi\u00e7\u00e3o, Sumoud, sua filha, pode visit\u00e1-lo. Testemunho.<\/p>\n<p>9 a\u00f1os depois. Minha viagem para ver meu pai: 45 minutos, um copo e um telefone.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, palestinos, a vida tem um significado e um sabor diferente. Enquanto pessoas de todo o mundo viajam para desfrutar a natureza, a caminhada nas montanhas ou mergulhar no mar, n\u00f3s, os familiares dos presos pol\u00edticos palestinos, viajamos para diferentes lugares. Viajamos para os c\u00e1rceres da ocupa\u00e7\u00e3o israelense, onde nossos queridos parentes s\u00e3o mantidos em cativeiro. Ainda que estas pris\u00f5es tenham sido impostas pela for\u00e7a, n\u00f3s, palestinos, sempre levamos alegria e entusiasmo em nosso cora\u00e7\u00e3o enquanto tentamos ignorar a dura e amarga realidade que encontramos por tr\u00e1s dos muros da pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Na noite antes da visita, muitos s\u00e3o incapazes de dormir, como \u00e9 o caso para mim. Outros n\u00e3o podem dormir profundamente e passam a noite virando na cama, tentando relaxar seu corpo na esperan\u00e7a ansiosa para estar em sua melhor forma para a viagem.<\/p>\n<p>Preparativos antes da visita<\/p>\n<p>Nosso dia come\u00e7ou \u00e0s 5 horas da manh\u00e3. Em primeiro lugar, embalamos cuidadosamente as coisas que meu pai pediu, a fim de n\u00e3o esquecer nada. Depois, preparamos algo para comer, caf\u00e9 e \u00e1gua fresca, devido \u00e0 alta temperatura para onde \u00edamos.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e, meu irm\u00e3o (Ghassan) e eu sa\u00edmos de casa \u00e0s 6 horas para nos dirigirmos ao \u00f4nibus estacionado em frente ao parque \u201cIsa\u2019ad Al-toufeleh\u201d, no distrito de Al-Bireh Ramallah .<\/p>\n<p>Quando chegamos, todas as fam\u00edlias dos presos estavam fora do carro. Quando nos aproximamos, nos receberam com sorrisos e sauda\u00e7\u00f5es. Ouvi algu\u00e9m dizer: \u201cEsta \u00e9 a fam\u00edlia de Ahmad Sa\u2019adat. Visitar\u00e3o conosco\u201d. Alguns se aproximaram para nos dar suas calorosas sauda\u00e7\u00f5es: \u201cAt\u00e9 que enfim permitiram a visita!\u201d.<\/p>\n<p>A intera\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s e as outras fam\u00edlias come\u00e7ou imediatamente e se desenvolveu sem problemas, sem nenhum tipo de barreira. Afinal, sabemos quem \u00e9 a maioria dessas pessoas. Alguns deles trouxeram roupas e livros para meu pai quando visitavam seu filho, um parente ou uma pessoa amada, enquanto est\u00e1vamos com a visita suspensa. Tamb\u00e9m reconhecemos os mais pr\u00f3ximos da fam\u00edlia e outras pessoas que conhe\u00e7o atrav\u00e9s de meu trabalho no Addameer, ONG que defende os presos pol\u00edticos e dos direitos humanos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m me encontrei com a professora de \u00e1rabe que tive no 7\u00b0 ano (no in\u00edcio da universidade). Por\u00e9m, hoje ela estava ali como a m\u00e3e do preso Mohammed Wahbeh, condenado a 5 anos nas pris\u00f5es israelenses. Nesses momentos, \u00e9 poss\u00edvel ver somente mentes otimistas, cheias de energia, sorridos, risos e alegria.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse momento que voc\u00ea se d\u00e1 conta de que todos nesta parada de \u00f4nibus compartilham a mesma dor e a mesma meta: visitar nossos parentes queridos na pris\u00e3o \u201cNahfa\u201d.<\/p>\n<p>Ponto de controle Beit Seira: o medo retorna<\/p>\n<p>O \u00f4nibus saiu para a estrada \u00e0s 6:50 horas. Como se tratava da minha primeira visita, as fam\u00edlias me explicaram quais eram as paradas seguintes. O ponto de controle Beit Seira foi nosso passo seguinte. Neste ponto de controle, espera-se com temor n\u00e3o poder passar. Chegamos ao posto de controle de Beit Seira \u00e0s 7:30 horas da manh\u00e3, sa\u00edmos do \u00f4nibus e caminhamos uns 50 metros at\u00e9 chegar a um p\u00e1tio aberto com um teto de chapa de metal. No p\u00e1tio, existiam apenas 15 banheiros que as fam\u00edlias se v\u00eam obrigadas a utilizar devido \u00e0 longa viagem. Assim, um empregado do Comit\u00ea Internacional da Cruz Vermelha entregou \u00e0s fam\u00edlias suas entradas para a visita. Retiramos nosso bilhete e nos dirigimos para a zona de inspe\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na zona de inspe\u00e7\u00e3o, cada um deve passar por baixo de uma porta de metal (porta n\u00famero um). Esta porta se chama \u201cAl-Ma\u2019atah\u201d, uma porta habitual utilizada pelos animais, especialmente frangos. Ent\u00e3o, voc\u00ea precisa esvaziar suas sacolas e se voc\u00ea \u00e9 mulher, precisa colocar sua bolsa em uma m\u00e1quina para inspe\u00e7\u00e3o. Na porta, voc\u00ea apresenta sua identifica\u00e7\u00e3o e s\u00f3 tem que esperar at\u00e9 que tenha permiss\u00e3o para ir \u00e0 porta seguinte (porta n\u00famero dois). A porta n\u00famero dois \u00e9 a que as fam\u00edlias odeiam e desprezam. Na porta, existe uma janela, dois soldados armados a quem voc\u00ea deve apresentar sua c\u00e9dula de identidade, permiss\u00e3o de visitante e o bilhete da Cruz Vermelha. Quando apresentei minha permiss\u00e3o, minha c\u00e9dula de identidade e o bilhete, um dos soldados me pediu para esperar enquanto lia meu nome. Me dei conta de que todos os meus documentos foram dados \u00e0 segunda soldada, que estava sentada atr\u00e1s de um computador. Tive que esperar algum tempo, durante o qual duas fam\u00edlias passaram pelo posto de controle e olhei a soldada atr\u00e1s de seu computador. Ela me olhava. Assim, eu me perguntava que tipo de informa\u00e7\u00e3o leu em sua tela.<\/p>\n<p>Pouco depois, ela devolveu meus documentos ao soldado pr\u00f3ximo da janela que os entregou para mim. Sem hesita\u00e7\u00e3o, minha m\u00e3e teve que render-se \u00e0 mesma inspe\u00e7\u00e3o. A diferen\u00e7a \u00e9 que minha m\u00e3e possui um cart\u00e3o de residente de Jerusal\u00e9m, o que a permite passar pelos postos de controle sem necessidade de uma permiss\u00e3o. N\u00e3o obstante, decidiu compartilhar essa experi\u00eancia comigo.<\/p>\n<p>Finalmente, passamos pelo posto de controle e est\u00e1vamos esperando no outro lado que todas as fam\u00edlias se reunissem. No total, \u00e9ramos 72 visitantes nesse \u00f4nibus. Uma das fam\u00edlias\u2026 Devemos explicar que seu filho de 15 anos foi proibido de passar pelo controle para visitar seu irm\u00e3o. Os soldados disseram que tinha 16 anos e, de repente, era necess\u00e1ria uma permiss\u00e3o. Sua m\u00e3e tinha insistido que seu 16\u00b0 aniversario tinha sido h\u00e1 quatro meses e que ele n\u00e3o precisava de uma permiss\u00e3o. No entanto, para nosso pesar, os soldados n\u00e3o permitiram que continuasse sua viagem.<\/p>\n<p>O \u00f4nibus retomou seu caminho \u00e0s 9:20 horas. Meu cora\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a palpitar. Perguntava-me como seria o encontro, se choraria, se riria, se por algum milagre seria capaz de levar meu pai em meus bra\u00e7os. Como reagiria meu pai? A \u00faltima vez que me viu, eu tinha 20 anos. Hoje estou com 29. Ser\u00e1 que me reconheceria? Como estaria seu rosto? Estaria envelhecido? Eu iria encontrar consolo em seus olhos que sempre me deram? Iria me acalmar? Veria o sorriso que tanto me d\u00e1 for\u00e7a e esperan\u00e7a?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, decidi esquecer esta ansiedade sentando-me ao lado do condutor e comecei a pedir informa\u00e7\u00f5es sobre os lugares por onde est\u00e1vamos passando, falar sobre a chuva e o bom tempo com a finalidade de passar o tempo, mas tamb\u00e9m porque tinha muito tempo que eu n\u00e3o viajava para o sul da Palestina ocupada. Quando eu era jovem, costum\u00e1vamos visitar meu pai na \u201cpris\u00e3o de Al-Naqab\u201d (localizada em Negev). Depois, voltei na mem\u00f3ria, relembrando recorda\u00e7\u00f5es esquecidas. Passamos pelo cruzamento que leva \u00e0 pris\u00e3o israelense \u201cAl Naqab\u201d. Passamos tamb\u00e9m pela \u201cpris\u00e3o Eshel\u201d, de que tenho ouvido falar tanto. Ent\u00e3o, nos levaram atrav\u00e9s das impressionantes montanhas do deserto, de tal beleza que nunca tinha visto antes.<\/p>\n<p>Duas horas mais tarde, chegamos \u00e0 pris\u00e3o de \u201cRimon\u201d e \u201cNahfa\u201d. De repente, minha ansiedade voltou a aparecer, por\u00e9m desta vez com mais intensidade. Todas as minhas tentativas de acalmar a ansiedade falharam. Quando o motorista avisou que t\u00ednhamos chegado, todas as perguntas que eu estava tentando evitar estavam de volta. Era como se uma mariposa quisesse roubar meu cora\u00e7\u00e3o, estava correndo, meus olhos se encheram de l\u00e1grimas, t\u00e3o absurdo como soa ter um forte impulso de sorrir.<\/p>\n<p>Um forte sentimento que eu n\u00e3o tinha h\u00e1 9 anos, que estava oprimido. Finalmente, fui ver meu pai, por\u00e9m eu estava certa de que sorrir seria f\u00e1cil, apesar das longas horas de espera e da humilha\u00e7\u00e3o que tinha sofrido.<\/p>\n<p>Chegamos \u00e0 pris\u00e3o \u201cNahfa\u201d \u00e0s 11:30. N\u00e3o espere apenas descer do \u00f4nibus e come\u00e7ar a visitar familiares. Este, definitivamente, n\u00e3o \u00e9 o caso aqui. Justo na entrada, um carro de seguran\u00e7a nos cercou e pediu que esper\u00e1ssemos. Um \u00f4nibus chegou e teve que estacionar no lado e nos surpreendeu ver como ele era grande. O \u00f4nibus era branco e tinha o logo da unidade \u201cNaas\u00f3n\u201d (for\u00e7as especiais) e do Servi\u00e7o Penitenci\u00e1rio israelense (IPS). Tinha pequenas e altas janelas e parecia um caminh\u00e3o de leite. Era um \u00f4nibus reservado para o transporte de prisioneiros. \u00c9 claro, n\u00e3o pod\u00edamos vislumbrar os presos que estavam ali, por\u00e9m vimos dezenas de empregados das for\u00e7as especiais que rodeavam o \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Esperamos 20 minutos no \u00f4nibus e n\u00e3o fomos autorizados a nos mover. Por \u00faltimo, um policial vestido com o uniforme da administra\u00e7\u00e3o penitenci\u00e1ria chegou, abriu uma porta e nos conduziu a uma casa. Ao voltar dessa casa fechada, o oficial se assegurou de que todo o mundo tinha regressado para que pudesse fechar a porta atr\u00e1s de n\u00f3s. Na sala, estavam os assentos met\u00e1licos inc\u00f4modos e apenas dois ventiladores funcionando. Fazia um calor incr\u00edvel. Eram t\u00e3o sujos que seria melhor n\u00e3o us\u00e1-los ou se realmente fosse necess\u00e1rio. Havia duas janelas na casa, uma para os fumantes e a segunda pela qual as fam\u00edlias deram roupa e livros aos prisioneiros. Tenho muita vontade de destruir esta janela por causa da humilha\u00e7\u00e3o que proporcionava. O policial na janela era chato, lento e mesquinho. Parecia ter algumas satisfa\u00e7\u00f5es com as fam\u00edlias que sofrem. \u00c0 esquerda, tinha uma janela pela qual apresent\u00e1vamos a licen\u00e7a e o cart\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o, depois que chamassem o nome do prisioneiro. Chamei esta janela de janela da oportunidade.<\/p>\n<p>Um dos carcereiros chama os nomes de v\u00e1rios presos que se localizam no primeiro grupo. Eram 72 visitantes, divididos em 4 grupos diferentes. Ainda que o quarto grupo fosse formado por apenas 4 fam\u00edlias, esta era uma oportunidade para que atrasassem o Servi\u00e7o Penitenci\u00e1rio de benef\u00edcio e nos causassem mais sofrimento. Minha m\u00e3e, Ghassan e eu nos dirigimos separadamente \u00e0s tr\u00eas janelas. Ghassan se aproximou da janela de fumantes, eu me aproximei da janela da soldada e minha m\u00e3e da janela da oportunidade.<\/p>\n<p>Na janela, o soldado disse a minha m\u00e3e que somente eu (Sumoud) estava autorizada a visitar nesse dia e ela e Ghassan n\u00e3o estavam. Minha m\u00e3e come\u00e7ou a gritar, dizendo que a fam\u00edlia foi autorizada a visitar e ele respondeu com frieza que era essa a decis\u00e3o. Nesse momento, senti a profunda dor de minha m\u00e3e e vi seus olhos cheios de l\u00e1grimas. O rosto de Ghassan estava repleto de raiva. A alegria e o entusiasmo que t\u00ednhamos sobre a visita t\u00e3o esperada foram completamente apagados. Minha m\u00e3e tentou n\u00e3o me olhar nos olhos para esconder suas l\u00e1grimas. Ghassan tomou-me em seus bra\u00e7os e pediu que eu desse uma sauda\u00e7\u00e3o calorosa a nosso pai. Ele tentava esconder sua ira.<\/p>\n<p>Foi um momento muito doloroso e estressante para n\u00f3s tr\u00eas. Minha m\u00e3e n\u00e3o poderia visitar meu pai por mais dois anos e meu irm\u00e3o n\u00e3o o via desde a \u00faltima guerra em Gaza, em 2014. Como iam visitar meu pai? Senti vontade de chorar e gritar t\u00e3o forte, por\u00e9m eu n\u00e3o queria que \u201celes\u201d destru\u00edssem este encontro precioso e que n\u00e3o tem pre\u00e7o para mim. Minha m\u00e3e e Ghassan sa\u00edram da casa e fiquei sozinha. Uma sensa\u00e7\u00e3o muito cruel me invadiu nesse momento, por\u00e9m tinha que ir para esta grande visita prevista.<\/p>\n<p>A janela atroz<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos de volta \u00e0 sala de espera at\u00e9 o momento da visita. Est\u00e1vamos com um grupo de dez pessoas na janela do policial terr\u00edvel. Esperamos ali de 11:45 \u00e0s 13:00 horas. Durante todo este tempo, o oficial fazia o poss\u00edvel para nos ver sofrer. Aceitou entregar um pouco de roupa aos prisioneiros e negou outras, dependendo de sua cor e de seu estado de \u00e2nimo. Uma m\u00e3e explicou que da \u00faltima vez foram aceitas roupas de cor preta, mas que agora o preto estava proibido. A cada fam\u00edlia negou ao menos uma pe\u00e7a de roupa. Al\u00e9m disso, ele desaparecia regularmente sem explica\u00e7\u00e3o, o que nos deixava apreensivos. Em lugar de ter um momento de tranquilidade para planejar como e o que dizer a nossos parentes queridos durante os 45 minutos de visita, a pol\u00edcia nos fez esperar com esta sensa\u00e7\u00e3o dolorosa e humilhante.<\/p>\n<p>Durante 9 anos, sonhei visitar meu pai. Depois de 9 anos de espera, pude v\u00ea-lo durante 45 minutos. Em torno de 13:15 horas, chamaram os nomes do primeiro grupo de prisioneiros. Esperamos atr\u00e1s de uma porta de metal para entrar. Um policial perguntou se todos iam visitar e que era preciso mais um tempo de espera para comprovar os nomes. Ainda mais espera! Nesse momento, eu esperava que n\u00e3o existissem estas portas, estes homens e pequenos rostos! S\u00f3 queria sair pela porta e ver meu pai. Queria que estas restri\u00e7\u00f5es acabassem e que n\u00e3o existissem limita\u00e7\u00f5es, que este sofrimento terminasse. N\u00e3o podia esperar nem um minuto mais.<\/p>\n<p>Finalmente, passei esta porta. Atr\u00e1s, tinha um detector de metais. Pediram-me que tirasse os sapatos, colocasse-os na m\u00e1quina e caminhasse sob o p\u00f3rtico. Se a m\u00e1quina apitasse, tinha que estar com algo que pudesse fazer soar. \u00c0s vezes pedem \u00e0s mulheres que tirem a roupa \u00edntima, caso tenha alguma pe\u00e7a de metal. Neste caso, pedem \u00e0s mulheres que tirem sua roupa \u00edntima no banheiro e que depois a coloque na m\u00e1quina, para continuar a inspe\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tive a sorte da m\u00e1quina n\u00e3o apitar, o que me permitiu seguir adiante. Logo entrei em uma segunda casa de inspe\u00e7\u00e3o. Havia dois soldados fortemente armados, que possu\u00edam aproximadamente 22 anos. Estavam com um detector de metais port\u00e1til. Seus olhos estavam completamente desprovidos de inoc\u00eancia e de humanidade, o que n\u00e3o se espera devido a sua idade. Queria gritar-lhes \u201ccomo se sentem sendo t\u00e3o opressivos para as mulheres?\u201d. Por\u00e9m, eu n\u00e3o o fiz. Depois da inspe\u00e7\u00e3o, entrei em uma casa e fiquei esperando. Esperei e esperei. Pouco a pouco, comecei a me sentir feliz. Atr\u00e1s da porta seguinte, fui ver meu pai, finalmente. Fui ver o rosto radiante que tanto gosto e que sinto falta.<\/p>\n<p>Um oficial de pol\u00edcia entrou na casa e avisou o hor\u00e1rio das visitas. Nesse momento, me senti como se estivesse correndo e eu estava caminhando! Eu realmente n\u00e3o sabia o que fazer. Finalmente entramos na sala de visitas. A primeira coisa que notei foi o vidro que nos separava dos prisioneiros. Tentei ver meu pai. Onde voc\u00ea est\u00e1, papai? Tentei ansiosamente encontr\u00e1-lo. Na primeira janela, tinha um homem, na segunda, um outro. Mas n\u00e3o eram meu pai. E, de repente, o vi, caminhando junto ao \u00faltimo homem. Corri para a janela vazia t\u00e3o r\u00e1pido como se subisse escadas. De repente, ali estava em minha frente. Meu pai, Abu Ghassan. Eu queria que o vidro se quebrasse para que n\u00f3s pud\u00e9ssemos nos abra\u00e7ar, como quando era jovem. Por\u00e9m, alguns sonhos n\u00e3o est\u00e3o destinados a se converter em realidade. O vidro n\u00e3o se quebrou.<\/p>\n<p>Meu pai, minha fonte de fortaleza e alegria. Finalmente nossos pudemos nos encontrar. Ainda que o vidro nos separasse, agarrei o telefone e gritei t\u00e3o forte como pude: \u201cBaba, Habibi!\u201d (Papai, meu amor!). Enfim, enviei v\u00e1rios beijos atrav\u00e9s da janela. Nesse momento, meus olhos se encheram de l\u00e1grimas e minha voz tremia. Os olhos de meu pai tamb\u00e9m se encheram de l\u00e1grimas. No entanto, n\u00e3o quer\u00edamos chorar, porque era um momento de alegria. Ent\u00e3o, do nada, fiz um Youyou e come\u00e7amos a rir. Ali \u00e9 que realmente come\u00e7ou a viagem.<\/p>\n<p>Meu pai era ainda mesmo. V\u00ea-lo me fez sentir acima do mundo. Rimos e falamos. Enviei outros beijos atrav\u00e9s da janela. Passei as sauda\u00e7\u00f5es de muitas pessoas. Falou-me de sua vida cotidiana, como passa seu dia e eu fiz o mesmo. Esse momento foi como um sonho que nunca poderei esquecer.<\/p>\n<p>Olhei-o bastante com a finalidade de satisfazer minha necessidade dele, meu pai caloroso e amoroso, e seus olhos que eu n\u00e3o seria capaz de ver t\u00e3o cedo. Ent\u00e3o, senti-me mais uma vez uma crian\u00e7a que vive uma inf\u00e2ncia feliz. Apesar de parecer ser o mesmo, tinha mudado. Isto me chateou muito, \u00e9 claro. Sua mente parecia jovem e tinha o mesmo sorriso e a mesma for\u00e7a com a qual est\u00e1vamos acostumados. Um grisalho charmoso se estendia por todo o cabelo. Seus olhos estavam um pouco tristes, talvez porque minha m\u00e3e e Ghassan n\u00e3o tenham conseguido visit\u00e1-lo, mas tamb\u00e9m porque foi o 13\u00b0 anivers\u00e1rio de morte de meu tio. Meu pai tamb\u00e9m estava triste porque o filho de seu companheiro de cela, Ishrak Rimawi Ahmad, tinha sido morto dois dias antes. Falamos como a morte de Ahmad foi impactante e triste. Ahmad tinha sido libertado recentemente dos c\u00e1rceres da ocupa\u00e7\u00e3o israelense, onde tinha passado um tempo com seu pai, na mesma pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar da tristeza e da dor, continuamos sorrindo e enviando beijos de vez em quando. Continuamos brincando e rindo em voz alta sobre hist\u00f3rias familiares. No final da visita, meu pai estava a ponto de dizer \u201cadeus\u201d e \u201ccuide-se\u201d quando, de repente, o telefone foi desligado. Ent\u00e3o, n\u00e3o pude mais ouvir sua voz. Tinham transcorrido os 45 minutos. Continuou falando atr\u00e1s do vidro e colocou sua m\u00e3o na janela. Eu disse, gritando: \u201cN\u00e3o se preocupe, Abu Ghassan\u201d e coloquei minha m\u00e3o sobre a sua no vidro. Olhei-o pela \u00faltima vez e ele fez o mesmo. Esse momento foi o mais dif\u00edcil. Meu sonho estava terminando e eu n\u00e3o tinha o suficiente de meu pai. Preciso dele novamente, sinto sua falta.<\/p>\n<p>Meu pai levantou-se e caminhou para a porta. Caminhei pelo outro lado do vidro atr\u00e1s de seus passos e olhando-o. Um oficial da pol\u00edcia pediu que eu me apressasse, mas eu n\u00e3o estava escutando. Tentei refazer os passos de meu pai. Quando cheguei \u00e0 porta e estava perto de sair, gritei muito forte: \u201cBaba (papai), Abu Ghassan! Sentirei sua falta\u201d e mandei um beijo. Fiz um gesto com a m\u00e3o para dizer adeus com um sorriso e deixamos a sala.<\/p>\n<p>45 minutos n\u00e3o s\u00e3o suficientes para uma conversa de 9 anos. Foi insuficiente, inclusive, para satisfazer minha sede e meu desejo de meu pai, por\u00e9m foi suficiente para nos dar for\u00e7a e esperan\u00e7a. Meu sonho ali terminou e eu n\u00e3o queria que terminasse. No entanto, a beleza da situa\u00e7\u00e3o \u00e9 que todo o mundo pode romper as amarras impostas a sua felicidade e pode ser feliz, apesar de ter sido curta, apesar das circunst\u00e2ncias dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Durante 45 minutos, ignoramos os policiais que rodeavam seu lado, o meu, as fam\u00edlias e seus queridos parentes presos. N\u00e3o quis saber de suas rea\u00e7\u00f5es acerca de nossas intera\u00e7\u00f5es ou a opini\u00e3o sobre o vidro que nos separava de nossos parentes e este telefone desumano. S\u00f3 est\u00e1vamos buscando minutos de felicidade, inclusive para nossa dor e para nos mantermos, e a encontramos.<\/p>\n<p>Depois da visita, ao sonho\u2026 Pensando<\/p>\n<p>A visita terminou, por\u00e9m a viagem n\u00e3o. Sa\u00edmos da sala \u00e0s 14:50 para ir a uma casa, onde tivemos que esperar que outras fam\u00edlias completassem suas visitas. N\u00e3o posso descrever como a atmosfera estava triste nesta sala de espera. A casa era muito tranquila. Fam\u00edlias em espera, comer um pouco de comida que tinham levado com eles. Olhos tristes estavam em todas as faces. Todos estavam ocupados, pensando, para lembrar cada detalhe da breve visita que acabavam de fazer. Todo mundo estava cansado e cheio de tristeza. Todos n\u00f3s ter\u00edamos que esperar duas horas para que todas as fam\u00edlias completassem suas visitas. J\u00e1 eram 17:10 quando sa\u00edmos. Quando entramos pelas portas da pris\u00e3o, eu tinha a esperan\u00e7a de ficar mais um pouco. Ainda que n\u00e3o pudesse ver meu pai, n\u00e3o queria deix\u00e1-lo sozinho ali. Estes momentos foram muito dif\u00edceis para mim e para todas as fam\u00edlias. Deixar para tr\u00e1s nossos amados. Continuaremos sonhando. Seguiremos a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2015\/08\/27\/palestina-la-hija-del-maximo-dirigente-del-fplp-cuenta-la-visita-a-su-padre-encarcelado\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Resumen Latinoamericano \/ 25 de Agosto 2015.- Sumoud Saadat: Minha viagem para ver meu pai: 45 minutos, um copo e um telefone. 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