{"id":9274,"date":"2015-09-05T10:58:13","date_gmt":"2015-09-05T13:58:13","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9274"},"modified":"2015-09-24T23:50:35","modified_gmt":"2015-09-25T02:50:35","slug":"agitacao-popular-e-odio-de-classe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9274","title":{"rendered":"Agita\u00e7\u00e3o popular e \u00f3dio de classe"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/portugal\/imagens\/porto_15out11.jpg?w=747\" alt=\"\" \/>Jo\u00e3o Vilela<\/p>\n<p>No limite, o chamado &#8220;fator subjetivo&#8221; pode ser resumido em duas coisas simples: \u00a0forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e consci\u00eancia da pr\u00f3pria for\u00e7a. A falta de condi\u00e7\u00f5es subjetivas numa fase em que as condi\u00e7\u00f5es objetivas tornam o socialismo a \u00fanica sa\u00edda <!--more-->para os problemas da humanidade (a n\u00e3o ser nas cabe\u00e7as onde a ilus\u00e3o mec\u00e2nica do etapismo continua a pesar) \u00e9 de se explicar por estes dois motivos: \u00a0 n\u00e3o foi feito um devido trabalho de esclarecimento, n\u00e3o foram organizadas for\u00e7as que permitam aspirar \u00e0 vit\u00f3ria sobre a burguesia. Como as duas coisas s\u00e3o uma e a mesma, posto que \u2013 como sabemos desde as &#8220;Teses Sobre Feuerbach&#8221; de Marx \u2013 o proletariado colhe ensinamentos na praxis revolucion\u00e1ria e n\u00e3o sentado \u00e0 mesa de uma sala de forma\u00e7\u00e3o, e a praxis revolucion\u00e1ria s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com proletariado mobilizado para ela, os problemas do fator subjetivo resolvem-se a montante com agita\u00e7\u00e3o, a jusante com organiza\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, e em todo este processo com o papel insubstitu\u00edvel dos comunistas.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da agita\u00e7\u00e3o coloca problemas dif\u00edceis de superar: como arrancar do torpor o gigante adormecido que \u00e9 o proletariado? Como faz\u00ea-lo sentir a descarga de energia, o tremor eletrizante, a vontade irreprim\u00edvel de agarrar o seu destino nas m\u00e3os com firmeza, e o guiar pelo caminho dos seus interesses, fazendo voar \u00e0 estalada (ou da forma que for preciso) qualquer um que se meta no seu caminho? N\u00e3o h\u00e1, responderiam os habituais cultores da banalidade, nenhuma receita culin\u00e1ria sobre como trilhar esse caminho. Mas h\u00e1 exemplos da nossa vida quotidiana, que interpretados \u00e0 luz da experi\u00eancia hist\u00f3rica do movimento oper\u00e1rio, nos auxiliam a compreender o que desata este torpor.<\/p>\n<p>O autor destas linhas teve o seu baptismo de fogo na participa\u00e7\u00e3o em algo parecido com a organiza\u00e7\u00e3o da luta de massas enquanto organizador dos chamados &#8220;movimentos inorg\u00e2nicos&#8221; que fervilharam entre 2011 e 2013. Naturalmente, fala em nome da sua experi\u00eancia pessoal e sem ser porta-voz de mais ningu\u00e9m. Mas n\u00e3o julga estar a for\u00e7ar demasiado a nota se disser que o que movia os que se reuniram, os que colaram cartazes, os que distribu\u00edram documentos, os que pegaram em faixas, em megafones, em pancartas, em cart\u00f5es improvisados para estampar as suas causas, era um profundo sentimento de raiva. De exaspero. Da c\u00f3lera profunda de algu\u00e9m a quem mentiram, a quem faltaram ao prometido, a quem garantiram uma vida e lha roubaram depois. Essa raiva crescia nos dentes, nascia nos dedos. Era a raiva dos pais que eles traziam, e dos av\u00f3s j\u00e1 velhos, e dos que lutavam h\u00e1 muito, e foram \u00e0 escadaria da Igreja de St\u00ba Ildefonso dizer-nos que n\u00e3o era para isto que tinham feito o 25 de Abril. O que unia toda aquela massa de gente era um sincero e mordido \u00f3dio de classe.<\/p>\n<p>A burguesia pode cobrir de a\u00e7\u00facar a explora\u00e7\u00e3o com que nos fustiga. Pode dizer que sofremos agora e depois passa, a seguir melhora, um dia, algures, se aguentarmos firmemente e mantivermos a f\u00e9, vamos chegar ao Para\u00edso e ter leite e mel para toda a vida. S\u00f3 precisamos de fazer curr\u00edculo, come\u00e7ar por baixo, tirar positivos das adversidades, agarrar as oportunidades (s\u00f3 o uso desta palavra dava um tratado&#8230;), j\u00e1 agora baixar a bolinha e perceber quem manda aqui. A crosta bruta pode soterrar a chama, pode amolecer uns quantos, pode garantir um, dois, seis, dez anos em que se trabalha no shopping &#8220;porque n\u00e3o \u00e9 vergonha nenhuma&#8221;, ou se est\u00e1 a recibo porque &#8220;o que \u00e9 preciso \u00e9 ter trabalho&#8221;. L\u00e1 dentro, onde vivem as aspira\u00e7\u00f5es e os anseios, onde se fazem as contas ao sal\u00e1rio uma semana depois de o receber, onde as ang\u00fastias fervilham e o pavor da escassez n\u00e3o \u00e9 narcotizado com discursos motivacionais, l\u00e1 dentro est\u00e1 o fundo essencial e sadio da alma trabalhadora. A chama da ideia \u00e9 esse fundo. E ela consome a crosta bruta, com a viol\u00eancia de um inc\u00eandio infernal, quando a organizam e lhe mostram que h\u00e1 uma sa\u00edda e for\u00e7a para a conquistar.<\/p>\n<p>O dever dos revolucion\u00e1rios \u00e9 alimentar esse fundo de rejei\u00e7\u00e3o, de revolta, de raiva, de um desejo de quebrar correntes e ser livre. Aliment\u00e1-lo mostrando ao trabalhador que n\u00e3o est\u00e1 sozinho. Aliment\u00e1-lo garantindo-lhe que outros lutar\u00e3o com ele. Espalhando por todo o lado os sinais, as evid\u00eancias, os compromissos da sua organiza\u00e7\u00e3o de classe com o seu futuro. Inscrevendo em cada parede, em cada documento, em cada cartaz, em toda e qualquer forma de interven\u00e7\u00e3o, que ela transporta consigo o selo da resist\u00eancia popular.<\/p>\n<p>Quando o proletariado entende a for\u00e7a da organiza\u00e7\u00e3o, acorre a ela. Quando l\u00e1 chega \u00e9 integrado na luta. Aprende nela. E cada vez mais unido com os seus irm\u00e3os de infort\u00fanio, com outros trabalhadores, faz-se parte do m\u00fasculo da sua classe. Vence com ela.<\/p>\n<p>Agitar este \u00f3dio de classe que vem de dentro, que vem do fundo, que vem das noites mal dormidas, das m\u00e3os na cabe\u00e7a a ver a conta da luz, a conta dos rem\u00e9dios ou do hospital, este \u00f3dio de ter o filho sem emprego, esta raiva de ver o pai velho e sem nada, este \u00e9 o dever fundamental de cada um de n\u00f3s, em cada dia. Fazer do \u00f3dio de classe um instinto de cada trabalhador. E da resist\u00eancia popular uma rea\u00e7\u00e3o coletiva e natural.<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em http:\/\/resistir.info\/portugal\/odio_de_classe.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Jo\u00e3o Vilela No limite, o chamado &#8220;fator subjetivo&#8221; pode ser resumido em duas coisas simples: \u00a0forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e consci\u00eancia da pr\u00f3pria for\u00e7a. A \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9274\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-9274","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2pA","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9274","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9274"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9274\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9274"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9274"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9274"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}