{"id":9318,"date":"2015-09-12T08:50:42","date_gmt":"2015-09-12T11:50:42","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9318"},"modified":"2015-09-12T08:50:42","modified_gmt":"2015-09-12T11:50:42","slug":"o-silencio-dos-inocentes-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9318","title":{"rendered":"O sil\u00eancio dos inocentes"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2015\/09\/15-09-11_mauro-iasi_o-silc3aancio-dos-inocentes.jpg?w=747\" alt=\"\" \/>Mauro Luis Iasi.<\/p>\n<p>Fotografia de Ian Maenfeld (Jornalistas Livres)<\/p>\n<p><em>Em resposta \u00e0 coluna de Emir Sader, \u201c<\/em><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/09\/02\/dilemas-da-intelectualidade-latinoamericana\/\">Dilemas da intelectualidade latinoamericana<\/a>\u201c.<!--more--><\/p>\n<p>Uma vez mais o professor Emir Sader parece estar preocupado com a produ\u00e7\u00e3o intelectual latino-americana, mais precisamente com a aparente falta de correspond\u00eancia entre a produ\u00e7\u00e3o intelectual e os processos pol\u00edticos \u201cp\u00f3s-neoliberais\u201d (segundo o soci\u00f3logo brasileiro).<\/p>\n<p>Para Sader, outros momentos (como as d\u00e9cadas de 1950 e 1960 no Brasil) foram marcados por intensa produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica sobre os processos em curso, com significantes reflex\u00f5es, como pode se comprovar pela produ\u00e7\u00e3o de autores como Caio Prado Jr., S\u00e9rgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Milton Santos e Ruy Mauro Marini, entre outros.<\/p>\n<p>Entretanto, diante dos atuais processos pol\u00edticos em curso na America Latina, qualificados como progressistas e na contracorrente da hegemonia neoliberal, presenciar\u00edamos uma esp\u00e9cie de sil\u00eancio intelectual. A hip\u00f3tese de Sader \u00e9 expressa da seguinte maneira:<\/p>\n<blockquote><p>Uma parte importante da intelectualidade latino-americana n\u00e3o est\u00e1 engajada em apoiar esses governos a resolver dilemas atuais e proje\u00e7\u00f5es de futuro. Alguns se isolam dos processos hist\u00f3ricos concretos, ao assumir uma postura intelectualista, incapaz de captar as novidades da realidade concreta, tornando-se impotentes para contribuir para os processos pol\u00edticos concretos.<\/p><\/blockquote>\n<p>Duas quest\u00f5es de imediato se apresentam. \u00a0Se uma parte assim procede, existiria outra parte que deveria estar contribuindo na dire\u00e7\u00e3o da compreens\u00e3o desejada pelo autor. Cabe perguntar: onde estaria esta valiosa reflex\u00e3o? Quem s\u00e3o seus representantes ilustres? Em segundo lugar, o que determinaria esta \u201cincapacidade\u201d de captar a \u201crealidade concreta\u201d que levaria estes intelectuais \u00e0 impot\u00eancia? O autor tem uma explica\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria para responder \u00e0 sua tese: alguns intelectuais ficariam \u201cencerrados nos muros das institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, voltados para as problem\u00e1ticas dissociadas da realidade externa, presos \u00e0s din\u00e2micas institucionais\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 bem dif\u00edcil analisar a produ\u00e7\u00e3o intelectual de uma \u00e9poca \u00e0 quente, isto \u00e9, no momento mesmo em que ela ocorre. Muitas produ\u00e7\u00f5es n\u00e3o alcan\u00e7am a dimens\u00e3o e a repercuss\u00e3o que lhes cabe em sua pr\u00f3pria \u00e9poca e s\u00e3o, por assim dizer, destiladas e refinadas pelo tempo, at\u00e9 que o devir revela a pertin\u00eancia daquilo que se afirmava. A pr\u00f3pria lista apresentada por Sader tem bons exemplos disso. Se h\u00e1 autores que em sua \u00e9poca foram reconhecidos, como S\u00e9rgio Buarque de Holanda e Celso Furtado, por exemplo, o mesmo n\u00e3o ocorreu com Caio Prado Jr, Florestan Fernandes e, menos ainda, Ruy Mauro Marini. Seria bom destacar que parte dos autores citados se colocaram claramente contra a corrente, criticando e se chocando com aquilo que Caio Prado Jr. chamava de \u201cverdades consagradas\u201d \u2013 e pagaram um pre\u00e7o por isso.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio que move o autor est\u00e1 correto. Em nossa perspectiva, fundada no marxismo, os intelectuais t\u00eam a responsabilidade de voltar seus olhos para o real e incidir sobre ele, s\u00e3o parte do movimento vivo da luta de classes e evitam as confort\u00e1veis armadilhas da neutralidade axiol\u00f3gica ao gosto da sociologia compreensiva weberiana ou da \u201cobjetividade\u201d funcionalista. Da mesma forma, o risco do isolamento institucional (eu n\u00e3o diria apenas acad\u00eamico institucional, pois h\u00e1 outras institui\u00e7\u00f5es com potencial de aprisionamento do pensamento igual ou superior ao presente na academia) \u00e9 um fator concreto de limita\u00e7\u00e3o no sentido do desenvolvimento de um pensamento cr\u00edtico.<\/p>\n<p>No entanto, nesta dire\u00e7\u00e3o tenho uma boa e uma m\u00e1 not\u00edcia para Emir Sader. H\u00e1 no Brasil uma intensa e significativa produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que se p\u00f5e a refletir sobre os processos pol\u00edticos em curso. Certamente h\u00e1 tamb\u00e9m na America Latina, mas, uma vez que o autor se det\u00eam no Brasil, farei o mesmo.<\/p>\n<p>Vemos no per\u00edodo mais recente um renova\u00e7\u00e3o do pensamento cr\u00edtico, n\u00e3o apenas em semin\u00e1rios e simp\u00f3sios acad\u00eamicos de grande qualidade, como na produ\u00e7\u00e3o intelectual da esquerda brasileira.\u00a0H\u00e1 sempre o risco de deixar de fora muita coisa relevante, no entanto, apenas no intuito de exemplifica\u00e7\u00e3o podemos citar a relevante produ\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/ricardo-antunes\">Ricardo Antunes<\/a>, da Unicamp, sobre o mundo do trabalho em franca oposi\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia contra a ofensiva dos que alegavam o fim da determina\u00e7\u00e3o do trabalho, da lei do valor e da centralidade das classes nos processos pol\u00edticos. Tamb\u00e9m relevantes s\u00e3o os estudos de <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/virginia--fontes\">Virg\u00ednia Fontes<\/a> sobre o Capital Imperialismo, pesquisadora infelizmente t\u00e3o atacada pelo pensamento p\u00f3s-moderno que domina a \u00e1rea de Hist\u00f3ria, trincheira na qual conta com colegas de igual calibre como <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/osvaldo-coggiola\">Osvaldo Coggiola<\/a>\u00a0(USP) ou Marcelo Badar\u00f3 (colega de Virg\u00ednia na UFF). Podemos somar a estes estudos relevantes o professor da UFSC Paulo Tumolo e seus estudos sobre educa\u00e7\u00e3o e sobre o movimento sindical, assim como estudos pioneiros de Ant\u00f4nio Oza\u00ed (hoje na Universidade Estadual de Londrina), assim como as contribui\u00e7\u00f5es de <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/ruy-braga\">Ruy Braga<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/ricardo-musse\">Ricardo Musse<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/lincoln-secco\">Lincoln Secco<\/a> na USP;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/antonio-carlos-mazzeo\">Ant\u00f4nio Carlos Mazzeo<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/marcos-del-roio\">Marcos Del Roio<\/a> na Unesp \u2013 nesta institui\u00e7\u00e3o devemos lembrar os pertinentes estudos de <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/giovanni-alves\">Giovanni Alves<\/a>.\u00a0E tantos outros, em diversas institui\u00e7\u00f5es, entre os quais me incluo, com meus estudos sobre consci\u00eancia de classe e sobre a trajet\u00f3ria pol\u00edtica do PT no per\u00edodo hist\u00f3rico que nos coube viver.<\/p>\n<p>H\u00e1 no Servi\u00e7o Social, o campo que me acolheu carinhosamente, uma produ\u00e7\u00e3o igualmente significativa e que incide muito al\u00e9m da \u00e1rea profissional da qual parte. Temos as cl\u00e1ssicas reflex\u00f5es do camarada <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/jose-paulo-netto\">Jos\u00e9 Paulo Netto<\/a>, de Marilda Iamamoto, de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/carlos-nelson-coutinho\">Carlos Nelson Coutinho<\/a>, de Maria In\u00eas de Souza Bravo e de toda uma gera\u00e7\u00e3o de grande qualidade te\u00f3rica e pol\u00edtica como Elaine Behring (UERJ), Maria Lucia Durighetto (UFJF), Evil\u00e1sio Salvador (UNB), Sara Granemann (UFRJ) e Beatriz Abramides (PUC SP), entre tantos outros.<\/p>\n<p>Ainda poder\u00edamos falar de novos intelectuais que apresentaram seus trabalhos bem recentemente como Rodrigo Castelo (Unirio) e seu estudo sobre o social-liberalismo, Mirla Cisne (UFRN) e seu brilhante estudo sobre G\u00eanero e rela\u00e7\u00f5es sociais de sexo, Morena Marques (ex-UNB, hoje Unirio) e seu estudo sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira, uma an\u00e1lise da estrat\u00e9gia democr\u00e1tico-popular, assim como a bel\u00edssima tese de doutoramento de <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/valter-pomar\">Valter Pomar<\/a>, defendida na USP, que estuda especificamente o programa econ\u00f4mico dos governos petistas.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos ir muito mais longe neste levantamento, mas\u00a0podemos parar por aqui pois, al\u00e9m da qualidade de suas contribui\u00e7\u00f5es, h\u00e1 algo comum entre estes intelectuais citados. Todos eles, evidente que com posturas e posicionamentos diversos, refletiram em algum momento sobre os processos pol\u00edticos em curso, especificamente sobre algum momento dos 12 anos de governos petistas ou processos a eles relacionados. Outra caracter\u00edstica \u00e9 significativa para a problem\u00e1tica que discutimos: nenhum deles pode ser considerado um intelectual que se \u201cencerrou nos muros das institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas\u201d; s\u00e3o, em diferentes graus, intelectuais militantes, comprometidos com a luta de classes e com claro compromisso pol\u00edtico.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda outra caracter\u00edstica: refletem sobre os processos pol\u00edticos, como diversos posicionamentos, de apoio ou de oposi\u00e7\u00e3o aos governos petistas, mas todos eles souberam manter a necess\u00e1ria perspectiva cr\u00edtica e reflexiva essencial \u00e0 boa produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica no campo do marxismo. Mesmo aqueles com compromissos partid\u00e1rios claros, como \u00e9 o caso de Valter Pomar, Lincoln Secco e Ricardo Musse (e poder\u00edamos incluir aqui <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/marcio-pochmann\">M\u00e1rcio Pochmann<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/marilena--chaui\">Marilena Chau\u00ed<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/andre-singer\">Andr\u00e9 Singer<\/a>) n\u00e3o perderam a objetividade que lhes permite ver as contradi\u00e7\u00f5es dos processos em curso e seus evidentes limites, fugindo do servilismo que confunde apoio pol\u00edtico com rendi\u00e7\u00e3o ao governismo e aos c\u00e1lculos do pragmatismo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Neste sentido, a boa not\u00edcia \u00e9 que se Sader busca uma produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que reflita sobre os \u201cprocessos reais\u201d, ela existe e \u00e9 de qualidade e vasta. Talvez o que Sader n\u00e3o encontre, e seu texto revela seu mais puro desejo, \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o intelectual que est\u00e1 \u201cengajada em apoiar esses governos\u201d, talvez pelo simples fato de que esse governo (pelo menos no caso do Brasil) se apresente cada vez mais indefens\u00e1vel para aqueles que defendem os trabalhadores.<\/p>\n<p>Um \u201cdeslize\u201d interessante que vemos na coluna de Sader \u00e9 que ele centra a reflex\u00e3o necess\u00e1ria dos processos pol\u00edticos por suas contradi\u00e7\u00f5es \u201ccom o movimento do capitalismo em escala global\u201d. Ora, evidente que isso \u00e9 importante, ainda que muito idealizada e cevada de subjetivismos otimistas, mas\u2026 suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es internas n\u00e3o seriam essenciais para a reflex\u00e3o que procura \u201ccontribuir para os processos pol\u00edticos concretos\u201d? Se sobre a an\u00e1lise cr\u00edtica (n\u00e3o importa se de apoio ou de oposi\u00e7\u00e3o ao governo) temos excelentes exemplos de boas contribui\u00e7\u00f5es, \u00e9 no campo do governismo arrogante, rebaixado e intolerante que vemos um enorme sil\u00eancio sobre as contradi\u00e7\u00f5es reais que se apresentam nos processos concretos.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhum problema em um intelectual apoiar um governo de sua prefer\u00eancia, \u00e9 um direito de qualquer um. No entanto, a quest\u00e3o \u00e9 se este apoio faz com que sua produ\u00e7\u00e3o deslize da an\u00e1lise da \u201crealidade concreta\u201d para a pura justificativa laudat\u00f3ria que esconde e obscurece as contradi\u00e7\u00f5es que precisam ser compreendidas. Como nos alertou Silvio Rodriguez em seu \u00faltimo trabalho, lembrando a importante contribui\u00e7\u00e3o de nosso comandante: <em>\u201cDijo Guevara El humano, que ning\u00fan intelectual debe ser asalariado del pensamiento oficial\u201d.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Mauro Iasi\u00a0<\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a>\u00a0(Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a>\u00a0(Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o\u00a0<strong>Blog da Boitempo\u00a0<\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/09\/11\/o-silencio-dos-inocentes\/\">O sil\u00eancio dos&nbsp;inocentes<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mauro Luis Iasi. 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