{"id":9342,"date":"2015-09-17T00:11:37","date_gmt":"2015-09-17T03:11:37","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9342"},"modified":"2015-10-20T14:05:12","modified_gmt":"2015-10-20T17:05:12","slug":"como-insurgentes-nao-vamos-cumprir-nenhum-segundo-de-prisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9342","title":{"rendered":"\u201cComo insurgentes, n\u00e3o vamos cumprir nenhum segundo de pris\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resumenlatinoamericano.org\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/c8f29fc99996dfa78f964234a3f76283_L.jpg?w=747\" alt=\"&quot;\" \/>(Entrevista com Jes\u00fas Santrich, comandante guerrilheiro das FARC)<\/p>\n<p>Resumen Latinoamericano\/ 03 de setembro de 2015 \u2013\u00a0\u00a0\u00a0Em uma extensa entrevista da ANNCOL com Jes\u00fas Santrich, o comandante guerrilheiro das FARC destaca que o processo <!--more-->de paz \u00e9 pol\u00edtico e n\u00e3o jur\u00eddico e que \u201cbusca um acordo de paz est\u00e1vel e duradouro\u201d. Repudia contundentemente as tentativas dos organismos do Estado, como a Promotoria, de desviar o processo de Paz em termos jur\u00eddicos.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe-se publicamente que a Mesa de Conversa\u00e7\u00f5es de Havana j\u00e1 come\u00e7ou a discutir o tema JUSTI\u00c7A entre as partes em conflito, sendo criado um grupo de trabalho jur\u00eddico. Dentro deste processo, o que significa para as FARC-EP abordar tal tema?<\/p>\n<p>&#8211; JES\u00daS SANTRICH:\u00a0O tema justi\u00e7a \u00e9 compreendido por n\u00f3s como a supera\u00e7\u00e3o da desigualdade, da mis\u00e9ria e da car\u00eancia de democracia, essencialmente, e n\u00e3o como o cen\u00e1rio do punitivo, da san\u00e7\u00e3o ou do penal. Por isso, em um processo de paz falamos de buscar formula\u00e7\u00f5es de tr\u00e2nsito para a justi\u00e7a social.<br \/>\nEm uma longa confronta\u00e7\u00e3o como a que vivemos na Col\u00f4mbia, como consequ\u00eancia de problemas de ordem social e pol\u00edtica, ent\u00e3o, uma solu\u00e7\u00e3o que passe pelo reconhecimento dos direitos daqueles que de um e outro lado foram afetados ou vitimizados, implica assumir um sistema de justi\u00e7a que recorra \u00e0 abordagem anterior e que, em tal sentido, se fundamente na verdade, na possibilidade da repara\u00e7\u00e3o e no compromisso de n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o. Isso quer dizer que \u00e9 preciso superar as condi\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria, desigualdade e exclus\u00e3o pol\u00edtica que geraram o conflito.<br \/>\n&#8211; Isto quer dizer que as FARC n\u00e3o abordar\u00e3o o assunto a partir de um enfoque exclusivamente jur\u00eddico?<\/p>\n<p>&#8211; O que se adianta em Havana n\u00e3o \u00e9 um processo jur\u00eddico, mas um processo de di\u00e1logo para alcan\u00e7ar a paz. As FARC-EP est\u00e3o ao lado da solu\u00e7\u00e3o de problemas centrais vividos pela maioria em nosso pa\u00eds, como o da necessidade de uma reforma rural integral que ajude na supera\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria e da desigualdade no campo e nos setores mais marginalizados da cidade; da solu\u00e7\u00e3o dos problemas de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que, em ess\u00eancia, est\u00e1 relacionado com a necessidade de expandir a democracia e resolver as m\u00faltiplas e extensas car\u00eancias da popula\u00e7\u00e3o rural e urbana. Colocamos sobre a mesa as sa\u00eddas para alcan\u00e7ar tamb\u00e9m uma nova pol\u00edtica antinarc\u00f3ticos, integrada \u00e0 reforma rural integral que, com fundamento nos direitos humanos e respeito \u00e0s ideias de que este \u00e9 um problema fundamentalmente social, ajude a superar este flagelo de ordem transnacional. Ao mesmo tempo, assumimos a aten\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas do conflito como um dever que deve ser compreendido como parte essencial da busca da Paz como direito s\u00edntese.<br \/>\nAo cair no terreno da reivindica\u00e7\u00e3o dos direitos das v\u00edtimas do conflito, assumimos assim os conceitos que nesta mat\u00e9ria regem o Direito Internacional Humanit\u00e1rio e o Direito Internacional, expressando a necessidade de adequar sua interpreta\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o \u00e0s particularidades do conflito colombiano, insistindo que tal reivindica\u00e7\u00e3o inclua como parte essencial o respeito e garantia dos direitos econ\u00f4micos, sociais, culturais e ambientais. E para alcan\u00e7ar tal dimens\u00e3o, apresentamos a aplica\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a restaurativa, reparadora, prospectiva, transformadora, que beneficie as v\u00edtimas do conflito e o conjunto da sociedade.<br \/>\n&#8211; O que \u00e9 a justi\u00e7a restaurativa?<\/p>\n<p>&#8211; A justi\u00e7a restaurativa \u00e9 a mesma chamada justi\u00e7a restauradora. N\u00e3o se trata de uma inven\u00e7\u00e3o nossa e seu conceito deriva de um amplo movimento mundial que advoga por uma vis\u00e3o no direito penal diferente \u00e0 conceitua\u00e7\u00e3o medieval punitiva e carcer\u00e1ria, que de uma ou outra forma entra no plano da vingan\u00e7a, do chamado olho por olho, dente por dente, muito mais antiquada inclusive que a estritamente medieval.<br \/>\nPara a justi\u00e7a restaurativa, a v\u00edtima e a verdade s\u00e3o os epicentros de sua raz\u00e3o de ser. Nela, quem vitimiza ou comete um crime promove um dano contra uma pessoa ou grupo de pessoas em concreto, contra as rela\u00e7\u00f5es interpessoais, e isso \u00e9 o que precisa ser reparado, buscando a reconcilia\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a vingan\u00e7a contra o ofensor. Isto marca uma profunda diferen\u00e7a com a muito generalizada e convencional justi\u00e7a chamada retributiva, na qual o que se observa \u00e9 o preju\u00edzo promovido \u00e0 norma jur\u00eddica e ao Estado como v\u00edtima principal.<br \/>\nIsto, em termos muito gerais, explica o sentido do que consideramos vi\u00e1vel para resolver a quest\u00e3o do componente justi\u00e7a, no sentido de san\u00e7\u00e3o, no caminho da Paz, procurando que as v\u00edtimas do conflito desempenhem um papel protagonista, expressando-se livremente sobre os danos sofridos e como acreditam que devam ser reparados. \u00c0 v\u00edtima se deve responder com medidas concretas de repara\u00e7\u00e3o e uma das medidas \u00e9 a verdade. Vale dizer que \u00e9 o \u00fanico caminho que permitiria ao ofensor reencontrar-se com a v\u00edtima em um espa\u00e7o de reconcilia\u00e7\u00e3o, restituindo, reparando a v\u00edtima e o entorno social, com o qual as consequ\u00eancias da falta se resolvem, em grande medida, com a participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria.<br \/>\n&#8211; Este tipo de justi\u00e7a se aplica no marco da Comiss\u00e3o de Esclarecimento da Verdade?<\/p>\n<p>&#8211; Enquadramos a justi\u00e7a restaurativa dentro do que chamamos de \u201cSistema Integral de Verdade, Justi\u00e7a, Repara\u00e7\u00e3o e N\u00e3o Repeti\u00e7\u00e3o\u201d, partindo da ideia de que sua formula\u00e7\u00e3o n\u00e3o confronta com o direito internacional, nem com o apego \u00e0s causas, origens e consequ\u00eancias do conflito. Por isso, partimos para o seu esbo\u00e7o, para forma\u00e7\u00e3o de uma Comiss\u00e3o Hist\u00f3rica do Conflito e suas V\u00edtimas que foi a encarregada de apresentar os esclarecimentos sobre a verdade hist\u00f3rica, sobre o porqu\u00ea do conflito, para assim saber para onde apontar no momento de propor solu\u00e7\u00f5es.<br \/>\nDepois projetamos, e ainda estamos na defini\u00e7\u00e3o de alguns de seus elementos, a \u201cComiss\u00e3o de Esclarecimento da Verdade, da Conviv\u00eancia e da N\u00e3o Repeti\u00e7\u00e3o\u201d, a qual, com a participa\u00e7\u00e3o central das v\u00edtimas, deve auxiliar na constru\u00e7\u00e3o de uma verdade exaustiva e irrefut\u00e1vel que seja a base do esclarecimento dos fatos para a busca de solu\u00e7\u00f5es que permitam o caminho para a justi\u00e7a social e a normaliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<br \/>\nEnt\u00e3o, estes s\u00e3o os componentes iniciais sobre os quais se avan\u00e7ou mais em sua elabora\u00e7\u00e3o, por\u00e9m s\u00e3o tamb\u00e9m componentes como o de repara\u00e7\u00e3o e o de n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o em torno dos quais estamos trabalhando medidas espec\u00edficas. Assim, o Sistema tem v\u00e1rios componentes e um deles \u00e9 a justi\u00e7a, por\u00e9m todos est\u00e3o estritamente inter-relacionados. Por isso, se denomina sistema integral e nele a verdade deve ser fornecida pela Comiss\u00e3o de Esclarecimento, de maneira exaustiva, por\u00e9m certamente ter\u00e1 que reiterar algum mecanismo especial que permita abrir campo \u00e0 defini\u00e7\u00e3o das san\u00e7\u00f5es a que tenha lugar para aqueles que tenham cometido preju\u00edzos ou as vitimiza\u00e7\u00f5es. Isto n\u00e3o necessariamente deve ser dentro da Comiss\u00e3o de Esclarecimento.<br \/>\n&#8211; Este sistema \u00e9 tamb\u00e9m para n\u00e3o combatentes?<\/p>\n<p>&#8211; Dentro da vis\u00e3o das FARC-EP, este sistema deve ser para todos os atores. Esta concep\u00e7\u00e3o reafirma a ideia de que em Havana n\u00e3o estamos diante de um processo judicial contra a insurg\u00eancia particularmente, nem contra nenhuma das partes que participaram do conflito em uma ou outra margem, mas que estamos em processo eminentemente pol\u00edtico que busca alcan\u00e7ar, n\u00e3o a rendi\u00e7\u00e3o ou a submiss\u00e3o da guerrilha, mas um acordo de paz est\u00e1vel e duradouro cuja ess\u00eancia \u00e9 a supera\u00e7\u00e3o das causas de diversos tipos que geraram o conflito. Nestes termos, e n\u00e3o como o cen\u00e1rio para julgar as FARC-EP, se deve entender a dose de justi\u00e7a que requer o processo e requer a Col\u00f4mbia para sair da guerra.<br \/>\nDo anteriormente exposto, mostra-se que na proposta de solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 objetivo a ideia de submeter a insurg\u00eancia a tribunal algum de julgamento, sobretudo caso se leve em conta que a insurg\u00eancia considera o Estado como o supremo respons\u00e1vel pelo confronto e pela vitimiza\u00e7\u00f5es, este fez colapsar sua pr\u00f3pria capacidade para julgar e sancionar, que chamamos de crise total do jus puniendi (o direito de castigar\/sentenciar). Em conclus\u00e3o, o Estado colombiano n\u00e3o pode pretender ser juiz e parte em um processo como o que se desenvolve em Havana.<br \/>\n&#8211; Algumas vozes da direita dizem que as FARC buscam a impunidade.<\/p>\n<p>&#8211; Se levarmos em conta considera\u00e7\u00f5es estritamente judiciais que concernem ao assunto das responsabilidades penais no marco da confronta\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio de um processo essencialmente pol\u00edtico, deveremos seguir, n\u00e3o obstante, que em mat\u00e9ria de impunidade n\u00e3o s\u00e3o as FARC as benefici\u00e1rias. N\u00e3o \u00e9 em torno da insurg\u00eancia que orbita a impunidade, pois \u00e9 mais que evidente que o Estado colombiano perseguiu, e em grande medida com gana, as guerrilhas e aqueles considerados sua \u00e1rea de apoio, inclusive mediante procedimentos de guerra suja e de persegui\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, extremos e ileg\u00edtimos, que afetaram imensas faixas da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o combatente.<br \/>\n\u00c9 preciso acrescentar que, para as FARC, as responsabilidades neste campo, independentemente da suprema responsabilidade do Estado e do que deriva da injusta ordem social vigente, nem sequer est\u00e3o essencialmente no universo dos combatentes da contraparte, os quais e, sobretudo a n\u00edvel dos baixos escal\u00f5es, s\u00e3o tomados como bodes expiat\u00f3rios dos instigadores da guerra suja e dos planejadores da ordem de injusti\u00e7a que impera na Col\u00f4mbia.<br \/>\nA impunidade existe, digamos, para os genitores e instigadores do paramilitarismo e para aqueles que fazem parte do Bloco do Poder Dominante, inclusive sua dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, empresarial, financeira e econ\u00f4mica em geral. Por isso, insistimos que se fosse para assinar responsabilidades \u00e0s For\u00e7as Militares e de Pol\u00edcia, isto n\u00e3o poderia ficar no campo dos combatentes, pois a cadeia de comando n\u00e3o termina nos Estados Maiores destas for\u00e7as, mas na Casa de Nari\u00f1o (n.t.: sede do governo colombiano), na Presid\u00eancia e no Conselho de Ministros, o que n\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o das FARC, mas um fato tang\u00edvel e irrefut\u00e1vel que tamb\u00e9m recorre \u00e0 jurisprud\u00eancia internacional cuja observ\u00e2ncia nos reclama a contraparte.<br \/>\n&#8211; A Promotoria Geral da Na\u00e7\u00e3o continua falando de imputa\u00e7\u00f5es contra as FARC e de definir seus m\u00e1ximos respons\u00e1veis. O que voc\u00ea pensa sobre isso?<\/p>\n<p>&#8211; Em um processo de paz como o que se desenvolve para a Col\u00f4mbia n\u00e3o se deve insistir, como aqueles que buscam solu\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas para o mesmo, em buscar os m\u00e1ximos respons\u00e1veis para os crimes que tenham sido cometidos durante o conflito somente entre os que empunharam as armas, e muito menos n\u00e3o se pode nem se deve pretender que esses m\u00e1ximos respons\u00e1veis est\u00e3o na insurg\u00eancia, que em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9 uma resposta leg\u00edtima \u00e0s injusti\u00e7as impostas pelo regime. Sobretudo, ent\u00e3o, seria necess\u00e1rio perguntar, dentro da insurg\u00eancia ou dentro Estado, quais s\u00e3o os m\u00e1ximos respons\u00e1veis se \u00e9 que nesses termos \u00e9 que se deseja que falemos. Neste sentido \u00e9 que dizemos que para a justi\u00e7a internacional n\u00e3o existe isen\u00e7\u00e3o para ningu\u00e9m, independente de ser um alto funcion\u00e1rio ou o mais elevado representante de um governo ou cargo pol\u00edtico.<br \/>\nNisto deve existir equidade e sensatez porque, geralmente, a partir das grandes m\u00eddias se alenta a ideia de que na Col\u00f4mbia o que ocorre \u00e9 uma guerra dos terroristas das FARC e do ELN contra a sociedade ou contra a popula\u00e7\u00e3o. E isto \u00e9 absolutamente falso, em primeiro lugar porque n\u00e3o somos terroristas e, depois, porque nossa guerra de resist\u00eancia \u00e9 contra o regime de injusti\u00e7a que vitimiza as maiorias. Por isso \u00e9 que n\u00e3o cabe, no n\u00edvel de avan\u00e7o que alcan\u00e7aram os di\u00e1logos, pretender que a partir da Promotoria Geral da Col\u00f4mbia se deva qualificar os fatos e as responsabilidades a partir de obtusos e tendenciosos pacotes de imputa\u00e7\u00f5es que, evidentemente, apontam somente para os levantados em armas, fundando-se em fic\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas ou nas abstra\u00e7\u00f5es algor\u00edtmicas da senhora Natalia Springer, enquanto contra os organizadores, instigadores e financiadores do paramilitarismo que se escondem no seio das associa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas nacionais e nas pr\u00f3prias transnacionais, n\u00e3o existem duas frases. Isto indica a posi\u00e7\u00e3o manipulada da promotoria, e do sistema jur\u00eddico colombiano. Por que existe uma \u201cunidade de contexto\u201d para construir um prontu\u00e1rio criminal das FARC-EP, empregando nela centenas de funcion\u00e1rios e milion\u00e1rias somas de dinheiro, contratando pessoas que fabricam os casos e, em contrapartida, n\u00e3o ocorre o mesmo a respeito dos crimes de Estado, incluindo as atrocidades do paramilitarismo? A \u00fanica a\u00e7\u00e3o que se operou para tratar deste \u00faltimo \u00e9 um processo de \u201djusti\u00e7a e paz\u201d, mais ligado \u00e0 impunidade que outra coisa, pois ainda que se tenha produzido a suposta \u201cdesmobiliza\u00e7\u00e3o\u201d de quase 40 mil paramilitares, at\u00e9 o momento n\u00e3o existe mais de 35 senten\u00e7as, e como j\u00e1 dissemos, para os instigadores deve existir uma.<br \/>\n&#8211; Por\u00e9m, ainda estando as v\u00edtimas no centro deste processo, a reivindica\u00e7\u00e3o de seus direitos n\u00e3o implica sancionar os assassinos, n\u00e3o implicaria que algu\u00e9m tem que pagar na pris\u00e3o? Que passos teriam que ser dados em mat\u00e9ria estritamente judicial?<\/p>\n<p>&#8211; Bom, j\u00e1 expliquei que est\u00e1 sendo projetado um sistema integral que incluir\u00e1 o componente justi\u00e7a, ligando-o a outros de repara\u00e7\u00e3o e n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o, no qual a verdade e o protagonismo das v\u00edtimas s\u00e3o essenciais. Por\u00e9m, tamb\u00e9m devemos partir de que para resolver o conflito, \u00e9 preciso fazer algo muito importante n\u00e3o s\u00f3 em mat\u00e9ria pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m em mat\u00e9ria jur\u00eddica: reconhecer que somos rebeldes, que o ocorrido neste \u00faltimo meio s\u00e9culo \u00e9 um levante contra uma ordem social injusta, o que nos coloca novamente no campo pol\u00edtico e na ideia de que ent\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o ao conflito neste processo de di\u00e1logo \u00e9 essencialmente pol\u00edtica, por mais elementos de ordem jur\u00eddica que se queira incluir.<br \/>\nEm tal sentido, ter\u00edamos que restabelecer o crime pol\u00edtico incluindo as mais amplas conex\u00f5es, devemos pactuar uma lei de anistia tamb\u00e9m muito ampla para resolver o assunto da ilegalidade da insurg\u00eancia e se chegar a ter casos que n\u00e3o s\u00e3o anisti\u00e1veis, deve existir um mecanismo extrajudicial para obter a normaliza\u00e7\u00e3o. Estes s\u00e3o elementos que devem ser considerados na defini\u00e7\u00e3o de um Sistema Integral da Verdade, Justi\u00e7a, Repara\u00e7\u00e3o e N\u00e3o Repeti\u00e7\u00e3o que conte com o protagonismo das v\u00edtimas do conflito, e tenha como eixo, reitero, n\u00e3o uma justi\u00e7a punitiva retributiva, mas a justi\u00e7a restaurativa, reparadora, prospectiva e a doutrina da Margem Nacional de Aprecia\u00e7\u00e3o. No que se refere \u00e0 \u00eanfase a ser dada, ser\u00e1 a nossa hist\u00f3ria, nossos costumes, nossa forma como colombianos.<br \/>\n&#8211; Isto daria a solu\u00e7\u00e3o jur\u00eddica ao processo de paz?<\/p>\n<p>&#8211; O mecanismo extrajudicial que opera tomando como base de a\u00e7\u00e3o que se garanta a verdade exaustiva e que se assumam san\u00e7\u00f5es reparadoras no seio das comunidades, fornece todas as possibilidades de que os fatos sobre os quais se tratem tenham efeito de coisa julgada. Nada disto conflita com as normas internacionais. Este \u00e9 o Sistema que devemos construir bilateralmente sob o abrigo do \u00fanico Marco Jur\u00eddico que este processo possui, e que \u00e9 o Acordo Geral de Havana. Este Sistema, no qual se integra a Comiss\u00e3o de Esclarecimento da Verdade, a Conviv\u00eancia e a N\u00e3o Repeti\u00e7\u00e3o garante perfeitamente tamb\u00e9m para o Estado, se \u00e9 que isso preocupa algu\u00e9m, que se cumpra a obriga\u00e7\u00e3o que tem regularmente quanto \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o e esclarecimento dos fatos ou persegui\u00e7\u00e3o e san\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis.<br \/>\nPor\u00e9m, acrescento que n\u00e3o existe nenhuma norma internacional que obrigue que as san\u00e7\u00f5es devam ser carcer\u00e1rias ou de priva\u00e7\u00e3o de liberdade ou inferidas de julgamentos penais. Existem outras formas que v\u00e3o desde o pr\u00f3prio fornecimento da verdade at\u00e9 as situa\u00e7\u00f5es em que se procede com efetivos atos de repara\u00e7\u00e3o e compromisso de n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o, que equivalem ao cumprimento de san\u00e7\u00f5es alternativas que extinguem a responsabilidade penal. Tudo isto \u00e9 uma abordagem e existem especialistas que devem ajudar a convert\u00ea-lo em acordo que se ajuste ao que signifique uma sa\u00edda pol\u00edtica que implique tamb\u00e9m uma solu\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, que abra caminhos para a Paz. E \u00e9 preciso recordar que embora o Estado seja o m\u00e1ximo respons\u00e1vel por a\u00e7\u00e3o e por omiss\u00e3o das vitimiza\u00e7\u00f5es, as FARC-EP, independentemente dos erros que tenhamos cometido sem inten\u00e7\u00e3o de causar danos, e sobre os quais estamos dispostos a responder, falamos \u00e0 margem das v\u00edtimas.<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea acredita que seja poss\u00edvel um acordo nos temos do planejado?<\/p>\n<p>&#8211; Bom, isto \u00e9 para ser discutido, j\u00e1 que cada uma das partes tem suas pr\u00f3prias vis\u00f5es. Por\u00e9m, sou otimista e acredito que \u00e9 poss\u00edvel aproximar posi\u00e7\u00f5es caso sejam deixados de lado os \u00e2nimos de retalia\u00e7\u00e3o e n\u00e3o sejam alimentados os \u00f3dios.<br \/>\n&#8211; Nesse campo de aproxima\u00e7\u00f5es, voc\u00ea acredita que seria poss\u00edvel, por parte da FARC, aceitar um m\u00ednimo de priva\u00e7\u00e3o da liberdade?<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me que est\u00e1 faltando clareza em minha explica\u00e7\u00e3o. Vou ser mais direto e conclusivo:<br \/>\nMinha resposta a isto \u00e9 N\u00c3O. Quanto a isto, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter aproxima\u00e7\u00f5es. Pretender a pris\u00e3o, persistir na ideia de levar a insurg\u00eancia ao c\u00e1rcere \u00e9 um extremismo inaceit\u00e1vel. Repito que este n\u00e3o \u00e9 um processo judicial contra as FARC, e que caso se busque os respons\u00e1veis para aplicar a justi\u00e7a retributiva e carcer\u00e1ria, os nichos da impunidade est\u00e3o dentro do Bloco do Poder Dominante.<br \/>\nComo insurgentes, n\u00e3o vamos cumprir nem um segundo de pris\u00e3o. A rebeli\u00e3o \u00e9 um direito universal que exercemos, do qual n\u00e3o existe arrependimento algum e pelo qual n\u00e3o admitimos san\u00e7\u00e3o de nenhum tipo. No mais, n\u00e3o s\u00e3o as comunidade empobrecidas que padeceram os rigores da guerra que clamam a pris\u00e3o, mas as vozes governistas, que \u00e9 onde repousa a impunidade. Nisso n\u00e3o existem enganos, pois uma vis\u00e3o intransigente e equivocada na defini\u00e7\u00e3o de um Sistema de verdade, justi\u00e7a, repara\u00e7\u00e3o e n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o,\u00a0que inclua um componente de justi\u00e7a vingativo, n\u00e3o pode atravessar o caminho que tem sido aberto de forma exitosa para a conquista da paz.<br \/>\nFonte original:\u00a0\u00a0ANNCOL<\/p>\n<p>Foto:\u00a0Jes\u00fas Santrich, FARC-EP.\u00a0Foto: Dick Emanuelsson<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2015\/09\/03\/colombia-entrevista-a-jesus-santrich-comandante-guerrillero-de-las-farc-como-insurgentes-no-vamos-a-pagar-ni-un-segundo-de-carcel\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"(Entrevista com Jes\u00fas Santrich, comandante guerrilheiro das FARC) Resumen Latinoamericano\/ 03 de setembro de 2015 \u2013\u00a0\u00a0\u00a0Em uma extensa entrevista da ANNCOL com Jes\u00fas \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9342\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-9342","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2qG","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9342","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9342"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9342\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9342"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9342"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9342"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}