{"id":9444,"date":"2015-09-29T13:35:12","date_gmt":"2015-09-29T16:35:12","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9444"},"modified":"2015-10-22T22:14:17","modified_gmt":"2015-10-23T01:14:17","slug":"a-crise-nao-e-grega-europeia-ou-chinesa-e-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9444","title":{"rendered":"A crise n\u00e3o \u00e9 grega, europeia ou chinesa, \u00e9 mundial"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/a.abcnews.com\/images\/International\/gty_syrian_refugees_kb_130823_16x9_992.jpg?w=747\" alt=\"\" \/>J\u00falio C. Gambina<\/p>\n<p>Set.15 &#8211; Colaboradores<\/p>\n<p>A crise n\u00e3o \u00e9 de alguns pa\u00edses que se tornam vis\u00edveis por certas dificuldades &#8211; hoje Brasil, Gr\u00e9cia ou China. O problema est\u00e1 no capitalismo no seu conjunto e, por isso, o principal problema que intoxica o sistema mundial s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas e o exerc\u00edcio do poder mundial pelo principal Estado capitalista: os EUA.<!--more--><\/p>\n<p>Em um m\u00eas, entre meados de Junho e Julho a valoriza\u00e7\u00e3o da bolsa em Xangai caiu 30%, uma das cidades emblem\u00e1ticas da expans\u00e3o econ\u00f3mica de China, e em um ano a sua d\u00edvida cresceu de forma exponencial.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, apenas se ouvia falar do crescimento econ\u00f3mico na China, especialmente desde o in\u00edcio da moderniza\u00e7\u00e3o do seu modelo econ\u00f3mico em 1978. As chamadas taxas chinesas, de 10% anual ou mais, assim o indicavam.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tempos falou-se de desacelera\u00e7\u00e3o, com taxas de 7%, muito superiores \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o de qualquer economia nacional, de pa\u00edses desenvolvidos, emergentes ou atrasados. A interroga\u00e7\u00e3o \u00e9 se nas novas condi\u00e7\u00f5es de crise evidente isto continuar\u00e1 assim, e inclusivamente se afetar\u00e1 a taxa de crescimento e com isso o sistema mundial em nova espiral recessiva.<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s a interroga\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida, por a China ser um dos principais compradores da Argentina e um novo fornecedor de fundos por investimentos externos ou empr\u00e9stimos, recusados pelo sistema mundial. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o bastante generalizada na regi\u00e3o latino-americana e caribenha, pelo que se inclui na agenda de preocupa\u00e7\u00f5es dos governos e dos povos nesta parte do mundo.<\/p>\n<p>O \u00eaxito do modelo escondia que juntamente com o crescimento se consolidavam todas as formas das rela\u00e7\u00f5es capitalistas, entre elas o trabalho assalariado estimulado por investimentos externos difundidos por transnacionais de todo o tipo, sustentadas no incentivo do Estado.<br \/>\nAs rela\u00e7\u00f5es capitalistas, o dinheiro, o Estado e a d\u00edvida<\/p>\n<p>Isso supunha uma inser\u00e7\u00e3o da China na economia mundial, como grande produtor fabril e gestor de uma fabulosa massa de dinheiro, usada principalmente para sustentar o d\u00e9fice estadunidense, convertendo a China no principal credor do maior Estado capitalista, de uma d\u00edvida p\u00fablica gigantesca, a maior do mundo.<br \/>\nCom essas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o, troca e consumo consolidou-se um tipo de desenvolvimento sustentado na expans\u00e3o do consumismo interno e na exporta\u00e7\u00e3o, favorecendo a instala\u00e7\u00e3o de um sistema de cr\u00e9dito e investimento especulativo em mercados diversos, insuflando especialmente a bolha imobili\u00e1ria e o cr\u00e9dito pessoal e empresarial local.<\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o estatal teve esse prop\u00f3sito, a de estimular a expans\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es mercantis e monet\u00e1rias capitalistas.<\/p>\n<p>Parecia que o gigante asi\u00e1tico, ascendendo no p\u00f3dio da produ\u00e7\u00e3o e da economia mundial, ficava \u00e0 margem da crise mundial do capitalismo.<br \/>\nDe facto, a China disputa a primazia da produ\u00e7\u00e3o mundial com os EUA e alguns antecipavam-se a predizer o surgimento de uma nova pot\u00eancia hegem\u00f3nica no sistema mundial, replicando outras transi\u00e7\u00f5es anteriores na hist\u00f3ria da ordem capitalista.<\/p>\n<p>Parece que n\u00e3o, que a bolha especulativa tem agora o seu trajeto na China, com um Estado com muito forte capacidade de intervir a partir da sua disponibilidade de 4 milh\u00f5es de milh\u00f5es de d\u00f3lares de reservas internacionais. \u00c9 o que gera incerteza e expectativas de controlo dos desastrosos efeitos de toda a crise, especialmente entre os sectores mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>O Estado estadunidense tem, para atuar sobre a crise, o poder do monop\u00f3lio da emiss\u00e3o de d\u00f3lares. A China f\u00e1-lo a partir do poder da propriedade de ativos globais, especialmente estadunidenses e da tentativa de fazer circular a sua moeda por todo o mundo, pelo que generaliza acordos sustentados em interc\u00e2mbios em moedas locais. O objetivo \u00e9 a mundializa\u00e7\u00e3o do yuan, a moeda local da China.<\/p>\n<p>Desde a\u00ed e do poder estatal sobre a propriedade das principais empresas e a gest\u00e3o de \u00e2mbitos da regula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f3mica pode intervir para atenuar os efeitos da inevit\u00e1vel crise.<br \/>\nA emiss\u00e3o como pol\u00edtica anticrise<\/p>\n<p>Uma crise que, reiteramos, \u00e9 mundial e se tornou vis\u00edvel em 2007\/2008 em Wall Street, no mercado imobili\u00e1rio, de valores e de toda a economia dos EUA, transferida para o sistema mundial, com escalas e acontecimentos vis\u00edveis em Espanha, Europa, com a Gr\u00e9cia no centro das not\u00edcias e da agenda atual.<br \/>\nEm todos esses pa\u00edses o tema do endividamento \u00e9 chave. \u00c9 um mecanismo utilizado para protelar o problema da crise e tentar super\u00e1-la.<\/p>\n<p>Os EUA necessitam praticamente todos os anos de autoriza\u00e7\u00e3o parlamentar para efeito de incrementar a sua d\u00edvida, que \u00e9 de 100% do seu PIB.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, como essa d\u00edvida gera juros que devem cancelar-se, o problema fiscal constitui-se em problema estrutural e ano ap\u00f3s ano, da mesma forma como cresce a d\u00edvida, \u00e9 sustentado um d\u00e9fice fiscal (maiores despesas do que receitas) que se explica com emiss\u00e3o sem limite, for\u00e7ando a possibilidade que cada Estado tem de impor a circula\u00e7\u00e3o da sua moeda.<\/p>\n<p>No caso dos EUA, o Estado obteve desde 1945 a prerrogativa de impor ao mundo a circula\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar, mesmo com a crise da convertibilidade de 1971.<\/p>\n<p>Hoje amea\u00e7a com uma subida de taxas que provoca a queda das outras moedas e dos pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas de exporta\u00e7\u00e3o, gerando condi\u00e7\u00f5es para impor uma sa\u00edda para a crise capitalista a partir dos interesses nacionais da domina\u00e7\u00e3o transnacional global. Pretende capturar os capitais excedentes do sistema mundial em busca de rentabilidade e seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Para o caso grego, o Estado est\u00e1 limitado pelos compromissos impostos pelo euro-grupo, e o monop\u00f3lio da emiss\u00e3o do euro, que alguns quiseram sem \u00eaxito violentar, sugerindo a emiss\u00e3o de euros virtuais sustentados na circula\u00e7\u00e3o no interior da Gr\u00e9cia. Era parte do que \u00e9 chamado Plano B na situa\u00e7\u00e3o grega, e inclusivamente tamb\u00e9m para outros pa\u00edses aprisionados na l\u00f3gica do euro e na hegemonia ortodoxa da Alemanha e seu governo.<\/p>\n<p>Alguma coisa como os t\u00edtulos provinciais da crise de 2001, as \u201cquase moedas\u201d que favoreciam o interc\u00e2mbio entre os habitantes da Argentina, para al\u00e9m, claro, de reservas e restri\u00e7\u00f5es de sectores privados \u00e0 circula\u00e7\u00e3o desses t\u00edtulos p\u00fablicos. Foi o mesmo argumento usado nos clubes de troca, com o reconhecimento e valida\u00e7\u00e3o que a pr\u00f3pria sociedade outorgava a esses meios de pagamento, que foram tamb\u00e9m objeto de especula\u00e7\u00e3o e fraude. Foram meios que desapareceram com o tempo, mas o Estado e a Sociedade puderam imp\u00f4-los, ainda que transitoriamente, como meios de circula\u00e7\u00e3o e pagamento.<\/p>\n<p>A soberania dos Estados nacionais est\u00e1 posta em discuss\u00e3o pela crise atual e suas manifesta\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias que entre outras se formulam, segundo a CEPAL, como volatilidades monet\u00e1rias para a Am\u00e9rica Latina, com respostas conjunturais diferenciais entre os pa\u00edses, alguns desvalorizando as suas moedas e outros escalonando as medidas com pol\u00edticas diferenciadas, mas todos a partir de uma l\u00f3gica de subordina\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar ou \u00e0s moedas aceites no mercado capitalista mundial.<\/p>\n<p>Crise, hegemonia e alternativa<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 que h\u00e1 muito sustentamos que a crise n\u00e3o \u00e9 de alguns pa\u00edses que se tornam vis\u00edveis por certas dificuldades, hoje Brasil, Gr\u00e9cia ou China, mas que o problema est\u00e1 no capitalismo no seu conjunto e, por isso, o principal problema que intoxica o sistema mundial s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas e o exerc\u00edcio do poder mundial pelo principal Estado capitalista: os EUA, que exercem a hegemonia mundial com a for\u00e7a do d\u00f3lar, as armam e a simbologia do poder cultural.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que as suas receitas impregnam as institui\u00e7\u00f5es que formulam pol\u00edticas com pretens\u00e3o universal, a OMC, o FMI, o Banco Mundial, e com elas difundem-se as receitas liberalizadoras nas cimeiras e em todo o protocolo de assist\u00eancia a pa\u00edses com problemas. Quando n\u00e3o funcionam as receitas \u00e9 sempre responsabilidade da sua m\u00e1 aplica\u00e7\u00e3o pelos poderes locais, nunca do sistema ideol\u00f3gico que promove essas medidas.<\/p>\n<p>Assumo a dificuldade de romper a l\u00f3gica da receita do poder dominante para superar a crise e restabelecer a normalidade da valoriza\u00e7\u00e3o e da acumula\u00e7\u00e3o. Isso sup\u00f5e superar o conjunto de valores culturais da sociedade capitalista, de um modelo de produ\u00e7\u00e3o assente na explora\u00e7\u00e3o e no saque juntamente com uma cultura de consumismo estimulado pelas quotas do irrespons\u00e1vel endividamento induzido pelo sistema financeiro e pelas pol\u00edticas p\u00fablicas do capitalismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Temos o desafio hist\u00f3rico de tornar realidade as propostas emancipadoras que sucumbiram ante o projeto de domina\u00e7\u00e3o. Como sempre dizemos, parece uma tarefa gigantesca, que se inicia a partir do debate e da constru\u00e7\u00e3o de uma pr\u00e1tica social por outra ordem social e cultural de coopera\u00e7\u00e3o, solidariedade, e que pense na harmonia do metabolismo social, o que sup\u00f5e o respeito pela reprodu\u00e7\u00e3o da natureza, ou seja, a inclus\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o da humanidade e seu habitat na sociedade.<br \/>\nBuenos Aires, 30 de Julho de 2015<\/p>\n<p>Julio C. Gambina<br \/>\nPresidente da Fundaci\u00f3n de Investigaciones Sociales y Pol\u00edticas, FISYP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"J\u00falio C. 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