{"id":9457,"date":"2015-09-30T19:03:27","date_gmt":"2015-09-30T22:03:27","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9457"},"modified":"2015-10-22T22:17:17","modified_gmt":"2015-10-23T01:17:17","slug":"depois-de-mais-de-730-dias-de-barricadas-povo-argentino-derrota-nova-fabrica-da-monsanto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9457","title":{"rendered":"Depois de mais de 730 dias de barricadas, povo argentino derrota nova f\u00e1brica da Monsanto"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm9.staticflickr.com\/8723\/16805891283_8572565440_b.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>\u201cChamam de progresso, mas os lucros s\u00e3o privados e nos territ\u00f3rios ficam a doen\u00e7a e a devasta\u00e7\u00e3o\u201d, diz um dos moradores; \u201cJ\u00e1 nos deram golpes e balas de borracha. N\u00e3o me importo. Vou deixar a vida pelos meus filhos\u201d, afirma outro.<!--more--><\/p>\n<p>25 de setembro de 2015<\/p>\n<p>Por\u00a0Dar\u00edo Aranda<br \/>\nDo\u00a0La Vaca<\/p>\n<p>Formado por donas de casa, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, empregados do setor privado, jovens e adultos, o movimento Assembleia das Malvinas Argentinas \u2013 cidade da prov\u00edncia de C\u00f3rdoba \u2013 completa neste m\u00eas mais de 730 dias combatendo a Monsanto, a maior corpora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola mundial. \u201cChamam de progresso, mas os lucros s\u00e3o privados e nos territ\u00f3rios ficam a doen\u00e7a e a devasta\u00e7\u00e3o\u201d, diz um dos moradores.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o \u00e9 cercada por planta\u00e7\u00f5es de transg\u00eanicos e fumiga\u00e7\u00f5es. O impacto na vida das pessoas \u00e9 sentido pela contamina\u00e7\u00e3o vivenciada por familiares, vizinhos e no pr\u00f3prio corpo. Aos poucos, os moradores da regi\u00e3o come\u00e7aram a se informar sobre a empresa e o impacto que a f\u00e1brica de milho transg\u00eanico teria naquela sociedade. Ent\u00e3o decidiram, em 19 de setembro de 2013, realizar o bloqueio da entrada da f\u00e1brica e, mesmo com a repress\u00e3o da pol\u00edcia e do governo local, dois anos depois, seguem barrando os objetivos da corpora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O fato, estranhado pela pr\u00f3pria empresa que \u201creconheceu nunca ter passado por semelhante situa\u00e7\u00e3o\u201d, como afirma um dos moradores, \u00e9 objeto de estudo para acad\u00eamicos e \u00e9 considerado um importante caso testemunhal para outros movimentos, al\u00e9m de mau exemplo por governos e empresas.<\/p>\n<p>Para retratar essa experi\u00eancia, o jornalista argentino Dar\u00edo Aranda foi at\u00e9 a localidade e registrou as impress\u00f5es dessas pessoas que lutam contra uma causa supostamente perdida e est\u00e3o ganhando. Segue o relato:<\/p>\n<p>Televis\u00e3o<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o das Malvinas Argentina se inteirou pela televis\u00e3o de que teria a Monsanto como vizinha. Foi em 15 de junho de 2012, quando a presidente Cristina Kirchner informou, falando dos Estados Unidos, que a multinacional lhe havia confirmado a instala\u00e7\u00e3o de uma f\u00e1brica na localidade de C\u00f3rdoba. S\u00f3 sabiam disso o prefeito, Daniel Arzani, do partido UCR (Uni\u00e3o C\u00edvica Radical UCR), e seus colaboradores mais pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>Eli Leiria escutou o an\u00fancio na televis\u00e3o. Mas deu por certo que se tratava da localidade de mesmo nome na Prov\u00edncia de Buenos Aires. At\u00e9 que lhe avisaram que era a poucas quadras de sua casa. N\u00e3o sabia nada sobre a Monsanto. No dia seguinte, perguntou a um estudante universit\u00e1rio, da casa de fam\u00edlia onde trabalhava, e a resposta a deixou gelada: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 frita\u201d, ele disse. E lhe passou os primeiros dados da hist\u00f3ria da empresa.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a ler, a se informar, a perguntar. E j\u00e1 n\u00e3o lhe restavam d\u00favidas. \u201cA\u00ed, acordei. Alguns vizinhos diziam que ia trazer mais trabalho, eu lhes respondia que sim. Mais trabalho para os oncologistas, os m\u00e9dicos, os coveiros\u201d, ironiza, mas n\u00e3o esbo\u00e7a um sorriso.<\/p>\n<p>Raquel Cerrudo conta que havia deixado a capital cordobesa em busca de tranquilidade. \u201cQuer melhor que uma pequena cidade nos arredores?\u201d, diz. Passados seis meses da mudan\u00e7a, o an\u00fancio da Monsanto. Raquel via a televis\u00e3o e chorava. Sabia o que era a Monsanto por um trabalho com uma bi\u00f3loga cr\u00edtica do modelo agropecu\u00e1rio. Conhecia pouca gente no bairro. Come\u00e7ou a falar com os lojistas, no a\u00e7ougue, no armaz\u00e9m, a trocar informa\u00e7\u00f5es. Assim conheceu outras pessoas inquietas com o tema e se inteirou de uma palestra do bi\u00f3logo Ra\u00fal Montenegro. E tamb\u00e9m de uma manifesta\u00e7\u00e3o na capital, onde foi com uma faixa da cidade de Malvinas. L\u00e1, conheceu Ester Quispe, hoje tamb\u00e9m parte da assembleia. Veio a primeira reuni\u00e3o e o contato com dezenas de vizinhos, o segundo encontro e o nascimento do movimento.<\/p>\n<p>Despertar<\/p>\n<p>Silvana Alarc\u00f3n cresceu em Malvinas. Sotaque cordob\u00eas inconfund\u00edvel, lembra que n\u00e3o sabia o que era a Monsanto, como a grande maioria de seus vizinhos. A princ\u00edpio acreditou no discurso de investimentos, de trabalho, mas tamb\u00e9m come\u00e7ou a escutar \u2013 primeiro superficialmente \u2013 quem era a empresa, sua hist\u00f3ria de den\u00fancias e contamina\u00e7\u00e3o. \u201cCome\u00e7amos a reunir os vizinhos, a ler, ter outras informa\u00e7\u00f5es. Aos pouquinhos fomos aprendendo\u201d, recorda. Tamb\u00e9m lhe causou impacto o modo como a empresa come\u00e7ou a intervir no bairro, prometendo trabalho. Num terceiro momento, come\u00e7aram a problematizar a situa\u00e7\u00e3o atual, do povo rodeado por cultivos transg\u00eanicos e fumiga\u00e7\u00f5es. \u201cE nos demos conta de que havia muitas crian\u00e7as doentes, com l\u00fapus, malforma\u00e7\u00f5es, problemas respirat\u00f3rios, broncoespasmos. E se a isso acrescent\u00e1ssemos a Monsanto&#8230; fomos nos dando conta de que iria ser pior\u201d, explica.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o se deve muito \u00e0 visita de bi\u00f3logos, m\u00e9dicos, advogados e tamb\u00e9m de movimentos e ativistas de outras cidades. A popula\u00e7\u00e3o avaliou tamb\u00e9m a proximidade da f\u00e1brica com a escola, conhecida como \u201cLa Candel\u00e1ria\u201d, onde o filho de Alarc\u00f3n estuda, e de onde se pode ver o pr\u00e9dio da Monsanto.<\/p>\n<p>Ela lembra que a justi\u00e7a havia freado a obra, mas a f\u00e1brica continuava em andamento. Sentia impot\u00eancia ao ver que a empresa seguia com a constru\u00e7\u00e3o. \u201cFaziam o que queriam. At\u00e9 que demos um basta, aqui n\u00e3o entra mais ningu\u00e9m\u201d, relata.<\/p>\n<p>E nasceu o bloqueio. Setembro de 2013. N\u00e3o foi sem consequ\u00eancias. V\u00e1rias a\u00e7\u00f5es repressivas, policiais, balas de borracha, bandos da UOCRA (sindicato dos oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o civil na Argentina), pancadaria. Recorda-se de uma em particular. Ela estava em sua casa e escutava os disparos. Seus amigos e parentes estavam sendo alvo da repress\u00e3o. Chorava de impot\u00eancia. Espancaram seu irm\u00e3o e seu marido. \u201cPodia acontecer qualquer coisa\u201d, afirma, e a voz fica embargada. \u201cEm primeiro lugar, como m\u00e3e, est\u00e1 a sa\u00fade de meu filho. N\u00e3o importa o que tenhamos de fazer. E n\u00e3o vamos recuar\u201d, avisa.<\/p>\n<p>Sa\u00fade<\/p>\n<p>Em 2007, a dona de casa Eli Leir\u00eda teve seu primeiro choque com o modelo agropecu\u00e1rio. Come\u00e7ou a ter v\u00f4mitos, diarreia, perdeu muito peso e passou a ficar fraca. O m\u00e9dico n\u00e3o encontrava nada, mas ela sentia que n\u00e3o tinha for\u00e7as nem para se levantar da cama. Davam-lhe inje\u00e7\u00f5es, levantava-se um pouco e voltava a cair. Foi a outro m\u00e9dico. Ele lhe disse que os exames estavam bem. Ela sentia que estava morrendo.<\/p>\n<p>At\u00e9 que ligou os pontos. Ao lado de sua casa eram reciclados gal\u00f5es de herbicidas. Na realidade, o processo era mais que rudimentar. Eram levados sem lavar, cortados com uma serra de a\u00e7ougue e mo\u00eddos. O terreno vizinho estava repleto de recipientes, e justo colado ao seu quarto. As \u00e1rvores e todas as suas plantas morriam. Contou ao m\u00e9dico e ele n\u00e3o teve d\u00favidas. Mandou-a fazer novos exames. Mais complexos. Encontraram herbicidas no sangue dela. N\u00e3o se lembra dos nomes, mas, sim, das cifras: \u201cO m\u00e1ximo tolerado pelo organismo \u00e9 0,3%. Eu tinha 27\u201d.<\/p>\n<p>Perguntou ao m\u00e9dico como iria se curar. E se fez um longo sil\u00eancio. Ele lhe respondeu que nada podia ser feito. Que era preciso esperar. Disse-lhe que era como um tornado. A tempestade passa, mas as sequelas ficam. E as doen\u00e7as podem aparecer meses ou anos depois. Dois anos depois foi constatado um enfisema pulmonar. O m\u00e9dico lhe perguntou se fumava muito. E ela nunca havia acendido um cigarro.<\/p>\n<p>De pura impot\u00eancia, come\u00e7ou a fumar nesse mesmo dia. \u201cEu escolho como morrer\u201d, disse.<\/p>\n<p>Diagnosticaram uma altera\u00e7\u00e3o no seu sistema nervoso e no aparelho digestivo. E lhe deram um coquetel de medicamentos. \u201cVou terminar me matando com rem\u00e9dios. N\u00e3o quero isso\u201d, avisou.<\/p>\n<p>E o an\u00fancio da Monsanto foi a cereja do bolo. Aderiu \u00e0 segunda reuni\u00e3o de moradores, era o g\u00e9rmen do movimento. No dia seguinte, foi ver o prefeito. \u201cN\u00e3o, querida. N\u00e3o te preocupes. A empresa trar\u00e1 trabalho. Acontece que h\u00e1 pessoas que n\u00e3o querem trabalhar, e se op\u00f5em\u201d, foi a resposta que lhe deu Daniel Arzani.<br \/>\nA chave, outra vez, foi a informa\u00e7\u00e3o. Leu muito. Foi a debates. Viu document\u00e1rios. Pensou em seu filho e se decidiu: n\u00e3o queria a empresa em seu bairro.<\/p>\n<p>Contamina\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Silvia Vaca, 52 anos, \u00e9 empregada municipal, nascida e criada nas Malvinas. O primeiro aviso sobre o modelo agropecu\u00e1rio veio pelo marido. Caminhoneiro, transportador de cereais. Costumava queixar-se do cheiro da roupa quando voltava do trabalho e da forte dor de cabe\u00e7a. Silvia colocava as pe\u00e7as na m\u00e1quina de lavar e tinha de enxagu\u00e1-las duas vezes. Odor penetrante.<\/p>\n<p>O segundo veio quando a fossa s\u00e9ptica de sua casa ficou cheia. Chegou o caminh\u00e3o limpa fossa e o funcion\u00e1rio chamou a aten\u00e7\u00e3o para a aus\u00eancia de insetos e bact\u00e9rias no material org\u00e2nico coletado. Perguntou se usavam algum produto qu\u00edmico forte. Silvia pensou em voz alta e, n\u00e3o, s\u00f3 \u00e1gua sanit\u00e1ria de vez em quando.<\/p>\n<p>Terceiro aviso: a repentina pneumonia do marido. Interna\u00e7\u00e3o, depois tratamento e, em poucas horas, risco de vida. Os m\u00e9dicos a tratavam com distanciamento, perguntavam e reperguntavam. Acreditavam que ela o tinha envenenado. Voltou a sua casa, deu a m\u00e1 not\u00edcia \u00e0 fam\u00edlia. A\u00ed se deu conta. Voltou ao hospital e contou que o marido transportava cereais. Tamb\u00e9m colocava as famosas pastilhas de fosfina no caminh\u00e3o para proteg\u00ea-los dos insetos. Estava se envenenando.<\/p>\n<p>\u00daltimo aviso: seu filho, ent\u00e3o estudante de agronomia, lhe deu o document\u00e1rio \u201cO Mundo Segundo a Monsanto\u201d.<\/p>\n<p>Quando se anunciou a instala\u00e7\u00e3o, foi uma das moradoras que tiveram o sangue analisado. Confirmou o que se temia. Tinha agrot\u00f3xicos. \u201cVivo no centro do povoado, onde em teoria deveria haver menos produtos qu\u00edmicos. O que resta para quem vive diante das fumiga\u00e7\u00f5es? Estamos todos envenenados\u201d, afirma.<br \/>\nForam coisas demais. Ela se uniu \u00e0 assembleia.<\/p>\n<p>Outra vida<\/p>\n<p>Uma grande coincid\u00eancia. Todos tiveram a vida mudada.<\/p>\n<p>Soledad Escobar conta que teve discuss\u00f5es na escola (com a professora do filho, porque lhe dizia que \u201cn\u00e3o podia envolver-se\u201d), com amigos que trabalham no munic\u00edpio e com vizinhos que j\u00e1 n\u00e3o a cumprimentam.<br \/>\nBeatriz Vega tinha uma livraria que tamb\u00e9m vendia v\u00e1rios outros produtos, na avenida San Mart\u00edn, a principal, e a meia quadra da prefeitura. Punha na vitrine os cartazes que convocavam para a manifesta\u00e7\u00e3o, entregava folhetos e afirma que passou a ser visada. Suas vendas come\u00e7aram a cair, o filho de um vereador amea\u00e7ou queimar o local, os clientes de sempre j\u00e1 n\u00e3o entravam. Fechou o neg\u00f3cio. \u201cA nossa vida mudou totalmente. O povoado se dividiu\u201d, resume.<\/p>\n<p>Lucas Vaca, boina clara, jaqueta de couro. Fazia dois anos que tinha retornado a seu bairro (esteve cinco anos fora), encontrou uma municipalidade nova e lhe chamou a aten\u00e7\u00e3o que, poucos quil\u00f4metros antes de chegar a Malvinas, n\u00e3o havia mais as \u00e1rvores de antigamente \u00e0 margem da Rota 88. A soja se estendia at\u00e9 a beira do acostamento.<\/p>\n<p>Cursava o secund\u00e1rio para adultos. E tamb\u00e9m recebeu a not\u00edcia pela televis\u00e3o, ao vivo. Alegrou-se pelos poss\u00edveis postos de trabalho. At\u00e9 que algu\u00e9m o alertou que nem tudo era como dizia a publicidade. Entrou na Internet, come\u00e7ou a ler, se deparou com o document\u00e1rio \u201cO Mundo Segundo a Monsanto\u201d e n\u00e3o pode acreditar. Entrou tamb\u00e9m no site da empresa. E n\u00e3o queria cair em si. \u201cPor dentro voc\u00ea diz que n\u00e3o podia ser t\u00e3o mau. Custa a acreditar. Mas quanto mais eu lia, mais me convencia de como era mau\u201d. Levava informa\u00e7\u00f5es \u00e0 escola e as professoras minimizavam suas cr\u00edticas.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a participar da Assembleia. A comprometer-se. N\u00e3o parou mais.<\/p>\n<p>Lamenta que muitos vizinhos se tenham distanciado. Mas outros se aproximaram. Com muitos conviveu na escola e at\u00e9 em bailes, mas algo os colocou em duas veredas distintas. H\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o que o impacta: \u201cN\u00e3o te olham na cara. Olham para o ch\u00e3o. Sabem que \u00e9 ruim apoiar a Monsanto. Isso \u00e9 impressionante\u201d. Lucas diz que se lembra do que lhe disse certa vez o cientista Andr\u00e9s Carrasco: olhar os corpos. Crian\u00e7as com malforma\u00e7\u00f5es, garotos jovens com c\u00e2ncer, mulheres com len\u00e7os na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Eduardo Quispe ressalta que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o de apoio \u00e0 empresa. Mas, sim, contra. \u201cAs estat\u00edsticas s\u00e3o contundentes. Um total de 90% n\u00e3o a querem. Sim, h\u00e1 pessoas que dependem do Estado, mas n\u00e3o s\u00e3o um movimento permanente nas ruas\u201d, esclarece.<\/p>\n<p>Silvia Vaca se distanciou do irm\u00e3o. Ele se tornou av\u00f4. E ela ainda n\u00e3o p\u00f4de conhecer seu sobrinho-neto. \u201cS\u00e3o fraturas que v\u00e3o ficando. Muitas fam\u00edlias brigadas. \u00c9 triste\u201d, resume. E se lembra da boa rela\u00e7\u00e3o que tinha com o prefeito, conhecem-se desde crian\u00e7as, iam a almo\u00e7os de fam\u00edlia. N\u00e3o mais.<\/p>\n<p>Vota\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Durante o primeiro ano de rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 Monsanto, a Assembleia exigiu o direito de votar sim ou n\u00e3o. Os tr\u00eas n\u00edveis de governo (municipal, provincial, nacional) se opuseram. O mesmo fez a empresa. Na atualidade, o movimento j\u00e1 n\u00e3o pede o voto. \u201cN\u00e3o se pode votar em um fato ilegal. O relat\u00f3rio de impacto ambiental deu negativo. A lei provincial de solos n\u00e3o permite que se instale aqui. A f\u00e1brica \u00e9 ilegal\u201d, esclarece Eduardo Quispe, menos de 40, bon\u00e9 com viseira e camiseta preta com o M da Monsanto e uma caveira.<\/p>\n<p>Desde 8 de janeiro de 2014 a f\u00e1brica est\u00e1 judicialmente paralisada. E em 10 de fevereiro a prov\u00edncia rejeitou o estudo de impacto ambiental.<\/p>\n<p>Respons\u00e1veis<\/p>\n<p>Soledad Escobar enumera as culpabilidades, das maiores \u00e0s menores: prefeito, governador, presidente E lembra o exemplo de R\u00edo Cuarto, onde o prefeito vetou a instala\u00e7\u00e3o de uma esta\u00e7\u00e3o experimental da Monsanto. E n\u00e3o se esquece quando o prefeito de Malvinas prometeu que, se o relat\u00f3rio de impacto ambiental desse negativo, ele cancelaria o projeto. N\u00e3o cumpriu. \u201cEle nos enrolou\u201d, resume.<\/p>\n<p>Eli, a dona de casa, inverte a ordem. Acredita que o prefeito n\u00e3o tem capacidade para decidir pela Monsanto. Afirma que a presidente e o governador s\u00e3o os principais respons\u00e1veis. \u201cCristina lhe abriu a porta. Ela \u00e9 a principal respons\u00e1vel\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Debatem entre si. N\u00e3o h\u00e1 acordo. Coincidem em que Arzani era um morador a mais, mas j\u00e1 n\u00e3o \u00e9. Muitos o conhecem de crian\u00e7a. Dizem que tem planta\u00e7\u00f5es de soja e que seus pais morreram de c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Nas Malvinas nunca havia ocorrido uma passeata. Muito menos questionamentos ao prefeito, com mais de 15 anos no poder. Raquel e Vanessa Sartori fazem a leitura igual ao mesmo tempo. O prefeito nunca pensou que seria armada semelhante confus\u00e3o para ele. Vanina Barboza complementa: \u201cA Monsanto reconheceu que nunca havia passado por semelhante situa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Eser Quispe aponta para o prefeito: \u201cNingu\u00e9m se mete na sua casa se voc\u00ea n\u00e3o abre a porta\u201d, argumenta. Irrita-se porque ele agiu nas costas da popula\u00e7\u00e3o. Vanina Barboza, jovem estudante e porta-voz em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, garante que o prefeito n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o inteligente para trazer a Monsanto. Aponta mais para cima: \u201cCristina os traz\u201d. Recorda a primeira vez que falaram com os vereadores. Mencionavam os \u201ctransg\u00eanicos\u201d e os funcion\u00e1rios de nada sabiam.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m comenta que n\u00e3o t\u00eam educa\u00e7\u00e3o. Silvia Vaca relativiza. \u201cA presidenta e o governador s\u00e3o instru\u00eddos e abra\u00e7am a Monsanto. Muitos camponeses e ind\u00edgenas n\u00e3o t\u00eam talvez educa\u00e7\u00e3o formal, mas sabem o que \u00e9 o modelo agropecu\u00e1rio e defendem a vida.\u201d<\/p>\n<p>O modelo<\/p>\n<p>Vanesa Sartori explica com paci\u00eancia professoral que a Monsanto quer fazer sua maior f\u00e1brica de milho transg\u00eanico em seu bairro, a 800 metros da escola e perto das casas. Para biocombust\u00edvel, n\u00e3o para comida, e utilizar\u00e1 milh\u00f5es de litros de \u00e1gua e pesticidas. Destaca que a empresa e o munic\u00edpio est\u00e3o contrariando leis que pro\u00edbem a instala\u00e7\u00e3o, enfatiza que o interesse da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 violado. Arremata: \u201cPromete trabalho e progresso, mas \u00e9 falso\u201d.<\/p>\n<p>Ariel Becerra p\u00f5e \u00eanfase na sa\u00fade. Alerta que j\u00e1 s\u00e3o uma localidade empesteada com agrot\u00f3xicos. E com a Monsanto as consequ\u00eancias podem ser multiplicadas.<\/p>\n<p>Eduardo Quispe fala aos habitantes das grandes cidades. Pede-lhes que n\u00e3o se deixem enganar pelo verde da soja, explica que antes tudo era mata, e desapareceu. \u201cChamam de progresso, mas os lucros s\u00e3o privados e nos territ\u00f3rios ficam a doen\u00e7a e a devasta\u00e7\u00e3o\u201d. Afirma que \u00e9 poss\u00edvel outro modelo, de soberania alimentar, alimentos saud\u00e1veis para a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Futuro<\/p>\n<p>Sem consenso social e em ano de elei\u00e7\u00f5es, a Monsanto n\u00e3o p\u00f4de avan\u00e7ar durante 2015. Mas n\u00e3o se foi. J\u00e1 deixou vir \u00e0 tona que em dezembro apresentar\u00e1 um novo estudo ambiental. Quer construir em 2016. A empresa continua presente no bairro, com processos de sedu\u00e7\u00e3o e promessas. Eli Leir\u00eda denuncia que a Monsanto compra apoios. Dois exemplos: doou o gerador para a cooperativa de eletricidade. Custou 60 mil pesos (R$ 26.400) e fizeram propaganda disso at\u00e9 no boleto que chega nas casas. A Monsanto financia oficinas e cursos em escolas da zona. Tamb\u00e9m na igreja adventista.<\/p>\n<p>Leir\u00eda sonha que seu filho continue morando em Malvinas. Diz que a\u00ed est\u00e3o suas ra\u00edzes e que \u00e9 injusto que por causa de uma empresa tenham de partir. Faustina Quispe (m\u00e3e de Eduardo e Ester), mulher idosa, contrap\u00f5e: \u201cSe a Monsanto se instalar, n\u00e3o h\u00e1 futuro\u201d.<\/p>\n<p>Marcos Romero \u00e9 nascido e criado em Malvinas. Est\u00e1 casado com Solead Escobar, tamb\u00e9m integrante da Assembleia. T\u00eam quatro filhos que v\u00e3o a \u201cLa Candelaria\u201d (escola perto da f\u00e1brica em quest\u00e3o). Quase n\u00e3o falou durante a entrevista em grupo. Recorda que via em outras cidades pessoas que protestavam e bloqueavam estradas, e observava isso com uma mistura de preconceito e desinteresse. At\u00e9 que se desatou o caso da Monsanto. \u201cAgora nos atingiu. J\u00e1 nos deram golpes e balas de borracha. N\u00e3o me importo. Vou deixar a vida pelos meus filhos. Ela (Soledad) j\u00e1 sabe\u201d, afirma. Sua esposa chora.<\/p>\n<p>Lucas Vaca tem um olhar otimista. \u201cEstamos fazendo o futuro todos os dias, lutando na rua, n\u00e3o permitindo que a f\u00e1brica se instale.\u201d Eduardo Quispe vai al\u00e9m: \u201cOs moradores est\u00e3o convencidos. A Monsanto n\u00e3o tem chance conosco\u201d.<\/p>\n<p>Ester Quispe avisa que continuar\u00e3o trabalhando no bairro, informando os moradores. N\u00e3o baixar\u00e3o a guarda. Continuam se reunindo todas as quartas-feiras e lembra da bandeira presente nas marchas: \u201cN\u00e3o \u00e0 Monsanto em C\u00f3rdoba e na Am\u00e9rica Latina\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cChamam de progresso, mas os lucros s\u00e3o privados e nos territ\u00f3rios ficam a doen\u00e7a e a devasta\u00e7\u00e3o\u201d, diz um dos moradores; \u201cJ\u00e1 nos \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9457\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-9457","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c68-argentina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2sx","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9457","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9457"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9457\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9457"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9457"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9457"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}