{"id":948,"date":"2010-11-03T01:50:27","date_gmt":"2010-11-03T01:50:27","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=948"},"modified":"2010-11-03T01:50:27","modified_gmt":"2010-11-03T01:50:27","slug":"o-haiti-e-a-maldicao-branca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/948","title":{"rendered":"O Haiti e a maldi\u00e7\u00e3o branca"},"content":{"rendered":"\n<p>O Haiti foi o primeiro pa\u00eds onde se aboliu a escravid\u00e3o. Contudo, as enciclop\u00e9dias mais conhecidas e quase todos os livros de escola atribuem \u00e0 Inglaterra essa hist\u00f3rica honra. \u00c9 verdade que certo dia o imp\u00e9rio que fora campe\u00e3o mundial do tr\u00e1fico negreiro mudou de id\u00e9ia; mas a aboli\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica ocorreu em 1807, tr\u00eas anos depois da revolu\u00e7\u00e3o haitiana, e resultou t\u00e3o pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve de voltar a proibir a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. H\u00e1 dois s\u00e9culos, sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, pr\u00f3cer da liberdade e dono de escravos, advertia que o Haiti dava o mau exemplo, e dizia que se deveria \u201cconfinar a peste nessa ilha\u201d. Seu pa\u00eds o ouviu. Os Estados Unidos demoraram 60 anos para reconhecer diplomaticamente a mais livre das na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por outro lado, no Brasil chamava-se de haitianismo a desordem e a viol\u00eancia. Os donos dos bra\u00e7os negros se salvaram do haitianismo at\u00e9 1888. Nesse ano o Brasil aboliu a escravid\u00e3o. Foi o \u00faltimo pa\u00eds do mundo a faz\u00ea-lo<em><strong><em>.<\/em><\/strong><\/em><\/p>\n<p>O Haiti voltou a ser um pa\u00eds invis\u00edvel, at\u00e9 a pr\u00f3xima carnificina. Enquanto esteve nas TVs e nas p\u00e1ginas dos jornais, no in\u00edcio deste ano, os meios de comunica\u00e7\u00e3o transmitiram confus\u00e3o e viol\u00eancia e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem.<\/p>\n<p>Desde a revolu\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje, o Haiti s\u00f3 foi capaz de oferecer trag\u00e9dias. Era uma col\u00f4nia pr\u00f3spera e feliz e agora \u00e9 a na\u00e7\u00e3o mais pobre do hemisf\u00e9rio ocidental. As revolu\u00e7\u00f5es, conclu\u00edram alguns especialistas, levam ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tend\u00eancia haitiana ao fratric\u00eddio prov\u00e9m da selvagem heran\u00e7a da \u00c1frica. O mandato dos ancestrais. A maldi\u00e7\u00e3o negra, que empurra para o crime e o caos.<\/p>\n<p>Da maldi\u00e7\u00e3o branca n\u00e3o se falou.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa havia eliminado a escravid\u00e3o, mas Napole\u00e3o a ressuscitara:<\/p>\n<p>&#8211; Qual foi o regime mais pr\u00f3spero para as col\u00f4nias?<\/p>\n<p>&#8211; O anterior.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, que seja restabelecido.<\/p>\n<p>E, para substituir a escravid\u00e3o no Haiti, enviou mais de 50 navios cheios de soldados. Os negros rebelados venceram a Fran\u00e7a e conquistaram a independ\u00eancia nacional e a liberta\u00e7\u00e3o dos escravos.<\/p>\n<p>Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras planta\u00e7\u00f5es de cana-de-a\u00e7\u00facar e um pa\u00eds queimado pela guerra feroz. E herdaram \u201ca d\u00edvida francesa\u201d. A Fran\u00e7a cobrou caro a humilha\u00e7\u00e3o imposta a Napole\u00e3o Bonaparte. Rec\u00e9m-nascido, o Haiti teve de se comprometer a pagar uma indeniza\u00e7\u00e3o gigantesca, pelo preju\u00edzo causado ao se libertar. Essa expia\u00e7\u00e3o do pecado da liberdade lhe custou 150 milh\u00f5es de francos-ouro.<\/p>\n<p>O novo pa\u00eds nasceu estrangulado por essa corda presa no pesco\u00e7o: uma fortuna que atualmente equivaleria a US$ 21,7 bilh\u00f5es ou a 44 or\u00e7amentos totais do Haiti atualmente. Muito mais de um s\u00e9culo demorou para pagar a d\u00edvida, que os juros multiplicavam. Em 1938, por fim, houve e reden\u00e7\u00e3o final.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, o Haiti j\u00e1 pertencia aos brancos dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Nem Bol\u00edvar<\/p>\n<p>Em troca dessa dinheirama, a Fran\u00e7a reconheceu oficialmente a nova na\u00e7\u00e3o. Nenhum outro pa\u00eds a reconheceu. O Haiti nasceu condenado \u00e0 solid\u00e3o. Tampouco Simon Bol\u00edvar a reconheceu, embora lhe devesse tudo. Barcos, armas e soldados lhe foram dados pelo Haiti em 1816, quando Bol\u00edvar chegou \u00e0 ilha, derrotado, e pediu apoio e ajuda.<\/p>\n<p>O Haiti lhe deu tudo, com a \u00fanica condi\u00e7\u00e3o de que libertasse os escravos, uma id\u00e9ia que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o lhe havia ocorrido. Depois, o her\u00f3i venceu sua guerra de independ\u00eancia e expressou sua gratid\u00e3o enviando a Port-au-Prince uma espada de presente. Sobre reconhecimento, nem uma palavra.<\/p>\n<p>Na realidade, as col\u00f4nias espanholas que passaram a ser pa\u00edses independentes continuavam tendo escravos, embora algumas tamb\u00e9m tivessem leis que os proibia. Bol\u00edvar decretou a sua em 1821, mas, na realidade, n\u00e3o se deu por inteirada. Trinta anos depois, em 1851, a Col\u00f4mbia aboliu a escravid\u00e3o, e a Venezuela em 1854.<\/p>\n<p>Em 1915, os fuzileiros navais desembarcaram no Haiti. Ficaram 19 anos. A primeira coisa que fizeram foi ocupar a alf\u00e2ndega e o escrit\u00f3rio de arrecada\u00e7\u00e3o de impostos. O ex\u00e9rcito de ocupa\u00e7\u00e3o reteve o sal\u00e1rio do presidente haitiano at\u00e9 que este assinasse a liquida\u00e7\u00e3o do Banco da Na\u00e7\u00e3o, que se converteu em sucursal do City Bank de Nova York.<\/p>\n<p>O presidente e todos os demais negros tinham a entrada proibida nos hot\u00e9is, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes n\u00e3o se atreveram a restabelecer a escravid\u00e3o, mas impuseram o trabalho for\u00e7ado para as obras p\u00fablicas.<\/p>\n<p>E mataram muito. N\u00e3o foi f\u00e1cil apagar os fogos da resist\u00eancia. O chefe guerrilheiro Charlemagne P\u00e9ralte, pregado em cruz contra uma porta, foi exibido, para esc\u00e1rnio, em pra\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o civilizadora terminou em 1934. Os ocupantes se retiraram deixando no pa\u00eds uma Guarda Nacional, fabricada por eles, para exterminar qualquer poss\u00edvel assomo de democracia. O mesmo fizeram na Nicar\u00e1gua e na Rep\u00fablica Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e Trujillo.<\/p>\n<p>E, assim, de ditadura em ditadura, de promessa em trai\u00e7\u00e3o, foram somando-se as desventuras e os anos. Aristide, o cura rebelde, chegou \u00e0 presid\u00eancia em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrub\u00e1-lo, o levou, o submeteu a tratamento e, uma vez reciclado, o devolveu, nos bra\u00e7os dos fuzileiros navais, \u00e0 Presid\u00eancia. E novamente ajudou a derrub\u00e1-lo, neste ano de 2004, e outra vez houve matan\u00e7a. E de novo os fuzileiros, que sempre regressam, como a gripe.<\/p>\n<p>Entretanto, os especialistas internacionais s\u00e3o muito mais devastadores do que as tropas invasoras. Pa\u00eds submisso \u00e0s ordens do Banco Mundial e do Fundo Monet\u00e1rio, o Haiti havia obedecido suas instru\u00e7\u00f5es sem pestanejar. Eles o pagaram negando-lhe o p\u00e3o e o sal.<\/p>\n<p>N\u00e1ufragos an\u00f4nimos<\/p>\n<p>Teve seus cr\u00e9ditos congelados, apesar de ter desmantelado o Estado e liquidado todas as tarifas alfandeg\u00e1rias e subs\u00eddios que protegiam a produ\u00e7\u00e3o nacional. Os camponeses plantadores de arroz, que eram a maioria, se converteram em mendigos ou emigrantes em balsas. Muitos foram e continuam indo parar nas profundezas do Mar do Caribe, mas esses n\u00e1ufragos n\u00e3o s\u00e3o cubanos e raras vezes aparecem nos jornais.<\/p>\n<p>Agora, o Haiti importa todo seu arroz dos Estados Unidos, onde os especialistas internacionais, que \u00e9 um pessoal bastante distra\u00eddo, se esquecem de proibir as tarifas alfandeg\u00e1rias e os subs\u00eddios que protegem a produ\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Na fronteira onde termina a Rep\u00fablica Dominicana e come\u00e7a o Haiti, h\u00e1 um cartaz que adverte: o mau passo.<\/p>\n<p>Do outro lado est\u00e1 o inferno negro. Sangue e fome, mis\u00e9ria, pestes\u2026<\/p>\n<p>Nesse inferno t\u00e3o temido, todos s\u00e3o escultores. Os haitianos t\u00eam o costume de recolher latas e ferro velho e, com antiga maestria, recortando e martelando, suas m\u00e3os criam maravilhas que s\u00e3o oferecidas nos mercados populares.<\/p>\n<p>O Haiti \u00e9 um pa\u00eds jogado no lixo, por eterno castigo \u00e0 sua dignidade. Ali jaz, como se fosse sucata. Espera as m\u00e3os de sua gente.<\/p>\n<p><strong><strong>*Eduardo Galeano \u00e9 escritor e jornalista uruguaio, autor de As Veias Abertas da Am\u00e9rica Latina e Mem\u00f3rias do Fogo.<\/strong><\/strong><\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.irdeb.ba.gov.br\/evolucaohiphop\/?p=1356<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: irdeb.ba.gov.br\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor Eduardo Galeano*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/948\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[55],"tags":[],"class_list":["post-948","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c66-haiti"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-fi","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/948","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=948"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/948\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=948"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=948"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=948"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}