{"id":953,"date":"2010-11-03T20:56:34","date_gmt":"2010-11-03T20:56:34","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=953"},"modified":"2017-11-29T14:16:41","modified_gmt":"2017-11-29T17:16:41","slug":"uma-face-contemporanea-da-barbarie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/953","title":{"rendered":"Uma face contempor\u00e2nea da barb\u00e1rie"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/3.bp.blogspot.com\/-ckh54svDyiU\/Ttlx67PMmCI\/AAAAAAAAAJw\/MYiESFtuTac\/s350\/3135.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal\/docs\/umafacecontemporaneadabarbarie.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Acesse AQUI o arquivo em &#8220;PDF&#8221;&#8230;<\/a><\/p>\n<p><strong>Serpa, 30-31 de outubro\/1\u00ba de novembro de 2010<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Uma face contempor\u00e2nea da barb\u00e1rie<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Texto da comunica\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Paulo Netto* na se\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica \u201cO agravamento da crise estrutural do capitalismo. O socialismo como alternativa \u00e0 barb\u00e1rie\u201d.<\/p>\n<p>* Professor Titular da Escola de Servi\u00e7o Social da <em>Universidade Federal do Rio de Janeiro<\/em> e da <em>Escola Nacional Florestan Fernandes<\/em>, vinculada ao <em>Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra <\/em>(MST) e membro do <em>Partido Comunista Brasileiro <\/em>(PCB).<\/p>\n<p><strong>Resumo<\/strong><\/p>\n<p>Esta comunica\u00e7\u00e3o critica a ideia de uma nova \u201cquest\u00e3o social\u201d e remete a sua problem\u00e1tica \u00e0 <em>lei geral da acumula\u00e7\u00e3o capitalista<\/em>. Depois de sinalizar as transforma\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias que configuram o tardo-capitalismo \u2013 no qual se manifesta a crise estrutural \u2013, argumenta-se que a face mais evidente da barb\u00e1rie contempor\u00e2nea (vis\u00edvel no Brasil de Lula da Silva) \u00e9 a articula\u00e7\u00e3o da <em>repress\u00e3o aos pobres<\/em> com a <em>minimiza\u00e7\u00e3o dos programas de combate \u00e0 pobreza<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Resumo<\/strong><\/p>\n<p>La presente ponencia critica la noci\u00f3n de una nueva \u201ccuesti\u00f3n social\u201d y vincula su problem\u00e1tica a <em>la leye general de la acumulaci\u00f3n capitalista<\/em>. Despu\u00e9s de se\u00f1alar los cambios societales que configuran el tardo-capitalismo \u2013 en el cual se manifiesta la crisis estructural \u2013, se argumenta que el rostro m\u00e1s evidente de la barbarie contempor\u00e1nea (visible en el Brasil de Lula da Silva) es la articulaci\u00f3n de la <em>represi\u00f3n a los pobres <\/em>con la <em>minimizaci\u00f3n de los programas de lucha contra la pobreza<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Abstract<\/strong><\/p>\n<p>This paper criticizes the idea of a new \u201csocial issue\u201d and refers it to the general law of the capitalist accumulation. After having signed the societal changes that compose the late-capitalism \u2013 in which the structural crisis express itself \u2013, it argues that the most evident trait of the contemporary barbarism (which can be seen in Lula da Silva\u2019s Brazil) is the concatenation of the <em>repression to the poor people<\/em> and the <em>minimization of programs in poverty struggle.<\/em><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Esta concisa comunica\u00e7\u00e3o, retomando e resumindo reflex\u00f5es que venho desenvolvendo h\u00e1 alguns anos, tem como hip\u00f3tese central a ideia de que o tardo-capitalismo (o capitalismo contempor\u00e2neo, resultado das transforma\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias ocorrentes desde os anos 1970 e posto no quadro da sua crise estrutural) esgotou as possibilidades civilizat\u00f3rias que Marx identificou no capitalismo do s\u00e9culo XIX e, ainda, que este exaurimento deve-se a que o est\u00e1gio atual da produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 necessariamente destrutivo (conforme o caracteriza Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros). O esgotamento em tela, que incide sobre a totalidade da vida social, manifesta-se visivelmente na barbariza\u00e7\u00e3o que se generaliza nas forma\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-sociais tardo-capitalistas.<\/p>\n<p>Entendo que uma face contempor\u00e2nea da barb\u00e1rie se expressa exatamente no trato que, nas pol\u00edticas sociais, vem sendo conferido \u00e0 \u201cquest\u00e3o social\u201d \u2013 por isto, inicio a exposi\u00e7\u00e3o referenciando-a explicitamente. Em seguida, sumario as transforma\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias que est\u00e3o na base da constitui\u00e7\u00e3o do tardo-capitalismo e, na sequ\u00eancia, procuro indicar, no marco da restaura\u00e7\u00e3o capitalista que se verificou nos \u00faltimos trinta anos, os tra\u00e7os do que considero os constitutivos dessa face contempor\u00e2nea do barbarismo. Depois, fa\u00e7o brev\u00edssimos coment\u00e1rios acerca dos dois mandatos presidenciais de Lula da Silva \u2013 num andamento t\u00e3o sint\u00e9tico quanto pol\u00eamico e de minha inteira responsabilidade pessoal. Enfim, sinalizo que a antiga escolha entre <em>socialismo ou barb\u00e1rie<\/em> \u00e9 hoje dramaticamente atual.<\/p>\n<p>Dada a natureza pr\u00f3pria de uma comunica\u00e7\u00e3o deste g\u00eanero, em muitos passos fui obrigado a simplifica\u00e7\u00f5es \u2013 que espero n\u00e3o comprometam substantivamente a argumenta\u00e7\u00e3o. E me desculpo, de antem\u00e3o, pela longa listagem bibliogr\u00e1fica, explic\u00e1vel apenas por dois motivos: 1\u00ba) continuo acreditando que uma das poucas observa\u00e7\u00f5es acertadas que Galbraith fez ao longo da vida diz respeito \u00e0s notas apostas a um texto; ele nunca as julgou excessivas, na medida em que s\u00e3o \u201cum \u00edndice expressivo do cuidado posto no estudo de um determinado assunto\u201d (J. K. Galbraith, <em>A crise econ\u00f3mica de 1929<\/em>. Lisboa: Dom Quixote, s.d., p. 29); 2\u00ba) minhas reflex\u00f5es s\u00e3o muito pouco originais; constituem, certamente, o produto de uma elabora\u00e7\u00e3o coletiva e \u00e9 sempre uma quest\u00e3o de princ\u00edpio deixar claro de onde se parte.<\/p>\n<p><strong>1<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos vinte anos, ide\u00f3logos social-democratas pretenderam ter descoberto um \u201cfen\u00f4meno novo\u201d nas sociedades dos pa\u00edses capitalistas centrais: a <em>nova pobreza<\/em> \u2013 percept\u00edvel em especial a partir da crise do <em>Welfare State<\/em>. Principalmente na Europa Ocidental, produziu-se uma larga documenta\u00e7\u00e3o sobre esta \u201cnovidade\u201d (de que \u00e9 paradigm\u00e1tica a elabora\u00e7\u00e3o de Pierre Rosanvallon) e foram postas no centro de significativos debates acad\u00eamicos as pol\u00eamicas sobre uma pretensa <em>nova <\/em>\u201cquest\u00e3o social\u201d<sup> <a href=\"#sdendnote1sym\"><sup>i<\/sup><\/a><\/sup>. Discretamente, essa documenta\u00e7\u00e3o sugeria que a <em>velha<\/em> \u201cquest\u00e3o social\u201d fora solucionada. Comecemos, pois, com esta \u00faltima para, em seguida, voltar \u00e0 pretensamente <em>nova<\/em>.<\/p>\n<p>Todas as indica\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis sugerem que a express\u00e3o \u201cquest\u00e3o social\u201d tem hist\u00f3ria recente: seu emprego data de menos de duzentos anos. Parece que come\u00e7ou a ser utilizada na terceira d\u00e9cada do s\u00e9culo XIX e foi divulgada at\u00e9 a metade daquela cent\u00faria por cr\u00edticos da sociedade e filantropos situados nos mais variados espa\u00e7os do espectro \u00eddeo-pol\u00edtico <sup><a href=\"#sdendnote2sym\"><sup>ii<\/sup><\/a><\/sup>.<\/p>\n<p>A express\u00e3o surge para dar conta do fen\u00f4meno mais evidente da hist\u00f3ria de uma Europa Ocidental que experimentava os impactos da primeira onda industrializante, iniciada na Inglaterra no \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XVIII: trata-se do fen\u00f4meno do <em>pauperismo<\/em>. Com efeito, a pauperiza\u00e7\u00e3o massiva da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora constituiu o aspecto mais imediato da instaura\u00e7\u00e3o do capitalismo em seu est\u00e1gio industrial-concorrencial e n\u00e3o por acaso engendrou uma copiosa documenta\u00e7\u00e3o <sup><a href=\"#sdendnote3sym\"><sup>iii<\/sup><\/a><\/sup>.<\/p>\n<p>Para os mais l\u00facidos observadores da \u00e9poca, independentemente da sua posi\u00e7\u00e3o \u00eddeo-pol\u00edtica, tornou-se claro que se tratava de um <em>fen\u00f4meno novo<\/em>, sem precedentes na hist\u00f3ria anterior conhecida <sup><a href=\"#sdendnote4sym\"><sup>iv<\/sup><\/a><\/sup>. Com efeito, se n\u00e3o era in\u00e9dita a desigualdade entre as v\u00e1rias camadas sociais, se vinha de muito longe a polariza\u00e7\u00e3o entre ricos e pobres, se era antiq\u00fc\u00edssima a diferente apropria\u00e7\u00e3o e frui\u00e7\u00e3o dos bens sociais, era radicalmente nova a din\u00e2mica da pobreza que ent\u00e3o se generalizava <sup><a href=\"#sdendnote5sym\"><sup>v<\/sup><\/a><\/sup>.<\/p>\n<p>Pela primeira vez na hist\u00f3ria registrada, <em>a pobreza crescia na raz\u00e3o direta em que aumentava a capacidade social de produzir riquezas<\/em>. Tanto mais a sociedade se revelava capaz de progressivamente produzir mais bens e servi\u00e7os, tanto mais aumentava o contingente dos seus membros que, al\u00e9m de n\u00e3o terem acesso efetivo a tais bens e servi\u00e7os, viam-se despossu\u00eddos at\u00e9 das condi\u00e7\u00f5es materiais de vida de que dispunham anteriormente. Se, nas formas de sociedade precedentes \u00e0 sociedade capitalista, a pobreza estava ligada a um quadro geral de escassez (quadro em largu\u00edssima medida determinado pelo n\u00edvel de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas materiais e sociais), agora ela se mostrava conectada a um quadro geral tendente a reduzir com for\u00e7a a situa\u00e7\u00e3o de escassez. Numa palavra: a pobreza acentuada e generalizada no primeiro ter\u00e7o do s\u00e9culo XIX \u2013 o pauperismo \u2013 aparecia como <em>nova<\/em> precisamente porque ela se produzia pelas mesmas condi\u00e7\u00f5es que propiciavam os supostos, no plano imediato, da sua redu\u00e7\u00e3o e, no limite, da sua supress\u00e3o. Este pauperismo marca a emerg\u00eancia imediatamente vis\u00edvel da dimens\u00e3o mais evidente da <em>moderna <\/em>barb\u00e1rie, a barb\u00e1rie capitalista <sup><a href=\"#sdendnote6sym\"><sup>vi<\/sup><\/a><\/sup>.<\/p>\n<p>A designa\u00e7\u00e3o deste pauperismo pela express\u00e3o \u201cquest\u00e3o social\u201d relaciona-se diretamente aos seus desdobramentos s\u00f3cio-pol\u00edticos. Mantivessem-se os pauperizados na condi\u00e7\u00e3o cordata de v\u00edtimas do destino, assumissem eles a <em>resigna\u00e7\u00e3o<\/em> que Comte considerava \u201ca grande virtude c\u00edvica\u201d e a hist\u00f3ria subseq\u00fcente haveria sido outra. Lamentavelmente para a ordem burguesa que se consolidava, os pauperizados n\u00e3o se conformaram com a sua situa\u00e7\u00e3o: da primeira d\u00e9cada at\u00e9 a metade do s\u00e9culo XIX, seu protesto tomou as mais diversas formas, da viol\u00eancia<em> luddista<\/em> \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o das <em>trade-unions <\/em><sup><sup>vii<\/sup><\/sup>, configurando uma amea\u00e7a real \u00e0s institui\u00e7\u00f5es sociais existentes.<\/p>\n<p>A partir da segunda metade do s\u00e9culo XIX, a express\u00e3o \u201cquest\u00e3o social\u201d deixa de ser usada indistintamente por cr\u00edticos sociais de diferenciados lugares do espectro \u00eddeo-pol\u00edtico \u2013 ela desliza, lenta, mas nitidamente, para o vocabul\u00e1rio pr\u00f3prio do pensamento conservador.<\/p>\n<p>O divisor de \u00e1guas, tamb\u00e9m aqui, \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o de 1848. De um lado, os eventos de 1848, fechando o ciclo progressista da a\u00e7\u00e3o de classe da burguesia, impedem, desde ent\u00e3o, aos intelectuais a ela vinculados (enquanto seus representantes ideol\u00f3gicos) a compreens\u00e3o dos nexos entre economia e sociedade <sup><sup>viii<\/sup><\/sup> \u2013 donde a interdi\u00e7\u00e3o da compreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre desenvolvimento capitalista e pauperiza\u00e7\u00e3o. Posta em primeiro lugar, com car\u00e1ter de urg\u00eancia, a manuten\u00e7\u00e3o e a defesa da ordem burguesa, a \u201cquest\u00e3o social\u201d perde paulatinamente sua estrutura hist\u00f3rica determinada e \u00e9 crescentemente <em>naturalizada<\/em>, tanto no \u00e2mbito do pensamento conservador laico quando no do confessional (que, ali\u00e1s, tardou at\u00e9 mesmo a reconhec\u00ea-la como pertinente).<\/p>\n<p>Entre os ide\u00f3logos conservadores laicos, as manifesta\u00e7\u00f5es da \u201cquest\u00e3o social\u201d (acentuada desigualdade econ\u00f4mico-social, desemprego, fome, doen\u00e7as, pen\u00faria, desprote\u00e7\u00e3o na velhice, desamparo frente a conjunturas econ\u00f4micas adversas etc.) passam a ser vistas como o desdobramento, na sociedade moderna (leia-se: burguesa), <em>de caracter\u00edsticas inelimin\u00e1veis de toda e qualquer ordem social<\/em>, que podem, no m\u00e1ximo, ser objeto de uma interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica limitada (preferentemente com suporte \u201ccient\u00edfico\u201d), capaz de ameniz\u00e1-las e reduzi-las atrav\u00e9s de um ide\u00e1rio <em>reformista<\/em> (aqui, o exemplo mais t\u00edpico \u00e9 oferecido por Durkheim e sua \u201cescola\u201d sociol\u00f3gica). No caso do pensamento conservador confessional, reconhece-se a gravita\u00e7\u00e3o da \u201cquest\u00e3o social\u201d e se apela para medidas s\u00f3cio-pol\u00edticas para diminuir os seus gravames, insistindo-se em que somente a sua exacerba\u00e7\u00e3o contraria a \u201cvontade divina\u201d (\u00e9 emblem\u00e1tica, aqui, a li\u00e7\u00e3o de Le\u00e3o XIII, de 1891).<\/p>\n<p>Em qualquer dos dois casos \u2013 o que, ali\u00e1s, explica a perfeita complementaridade pol\u00edtico-pr\u00e1tica dessas duas vertentes do conservadorismo \u2013, mesmo as limitadas reformas sociais poss\u00edveis est\u00e3o hipotecadas a uma <em>pr\u00e9via<\/em> <em>reforma moral do homem e da sociedade<\/em>. De fato, no \u00e2mbito do pensamento conservador, a \u201cquest\u00e3o social\u201d, numa opera\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea \u00e0 sua naturaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 convertida em objeto de <em>a\u00e7\u00e3o moralizadora<\/em>. E, em ambos os casos, o enfrentamento das suas manifesta\u00e7\u00f5es deve ser fun\u00e7\u00e3o de um programa de reformas que preserve, antes de tudo o mais, <em>a propriedade privada dos meios fundamentais de produ\u00e7\u00e3o<\/em>. Mais precisamente: o trato das manifesta\u00e7\u00f5es da \u201cquest\u00e3o social\u201d \u00e9 expressamente desvinculado de qualquer medida tendente a problematizar a ordem econ\u00f4mico-social estabelecida; trata-se de combater as manifesta\u00e7\u00f5es da \u201cquest\u00e3o social\u201d sem tocar nos fundamentos da sociedade burguesa. Tem-se aqui, obviamente, um reformismo para conservar <sup><sup>ix<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>Mas a explos\u00e3o de 1848 n\u00e3o afetou somente as express\u00f5es ideais (culturais, te\u00f3ricas, ideol\u00f3gicas) do campo burgu\u00eas. Ela feriu substantivamente as bases da cultura pol\u00edtica que cal\u00e7ava at\u00e9 ent\u00e3o o movimento dos trabalhadores: 1848, trazendo \u00e0 luz o car\u00e1ter antag\u00f4nico dos interesses das classes sociais fundamentais, acarretou a dissolu\u00e7\u00e3o do ide\u00e1rio formulado pelo utopismo (o socialismo de um Owen, por exemplo). Desta dissolu\u00e7\u00e3o resultou a clareza de que a resolu\u00e7\u00e3o efetiva do conjunto problem\u00e1tico designado pela express\u00e3o \u201cquest\u00e3o social\u201d seria fun\u00e7\u00e3o da subvers\u00e3o completa da ordem burguesa, num processo do qual estaria exclu\u00edda qualquer colabora\u00e7\u00e3o de classes <sup><sup>x<\/sup><\/sup> \u2013 uma das resultantes de 1848 foi a passagem, em n\u00edvel hist\u00f3rico-universal, do proletariado de <em>classe em si <\/em>a <em>classe para si<\/em>. As vanguardas oper\u00e1rias acederam, no seu processo de luta, \u00e0 consci\u00eancia pol\u00edtica de que a \u201cquest\u00e3o social\u201d est\u00e1 <em>necessariamente<\/em> colada \u00e0 sociedade burguesa: somente a supress\u00e3o desta conduz \u00e0 supress\u00e3o daquela. A partir da\u00ed, o pensamento revolucion\u00e1rio passou a identificar, na pr\u00f3pria express\u00e3o \u201cquest\u00e3o social\u201d, uma tergiversa\u00e7\u00e3o conservadora e a s\u00f3 empreg\u00e1-la indicando este tra\u00e7o mistificador <sup><sup>xi<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>Consci\u00eancia pol\u00edtica, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 o mesmo que consci\u00eancia te\u00f3rica \u2013 e o movimento dos trabalhadores tardaria ainda alguns anos a encontrar os instrumentos te\u00f3ricos e metodol\u00f3gicos para apreender a g\u00eanese, a constitui\u00e7\u00e3o e os processos de reprodu\u00e7\u00e3o da \u201cquest\u00e3o social\u201d.<\/p>\n<p>Se, j\u00e1 nas v\u00e9speras da eclos\u00e3o de 1848, K. Marx avan\u00e7ava no rumo daquela apreens\u00e3o \u2013 como se pode verificar nitidamente nas suas duas obras mais importantes ent\u00e3o publicadas (na <em>Mis\u00e9ria da filosofia <\/em>e, em colabora\u00e7\u00e3o com F. Engels, no <em>Manifesto do partido comunista<\/em>) \u2013, \u00e9 apenas com a publica\u00e7\u00e3o, em 1867, do livro primeiro d\u00b4<em>O capital<\/em>, que a raz\u00e3o te\u00f3rica acedeu \u00e0 compreens\u00e3o do complexo de causalidades da \u201cquest\u00e3o social\u201d. Somente com o conhecimento rigoroso do \u201cprocesso de produ\u00e7\u00e3o capitalista\u201d Marx p\u00f4de esclarecer com precis\u00e3o a din\u00e2mica da \u201cquest\u00e3o social\u201d, consistente em um complexo problem\u00e1tico muito amplo, irredut\u00edvel \u00e0 sua manifesta\u00e7\u00e3o imediata como pauperismo <sup><sup>xii<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>A descoberta e a an\u00e1lise marxianas da <em>lei geral da acumula\u00e7\u00e3o capitalista<\/em>, sintetizada no vig\u00e9simo terceiro cap\u00edtulo do livro primeiro d\u2019<em>O capital<\/em>, revela a anatomia da \u201cquest\u00e3o social\u201d, sua complexidade, seu car\u00e1ter de <em>corol\u00e1rio necess\u00e1rio<\/em> do desenvolvimento capitalista em todos os seus est\u00e1gios. O desenvolvimento capitalista produz, compulsoriamente, a \u201cquest\u00e3o social\u201d \u2013 diferentes est\u00e1gios deste desenvolvimento produzem diferentes manifesta\u00e7\u00f5es da \u201cquest\u00e3o social\u201d; esta n\u00e3o \u00e9 uma seq\u00fcela adjetiva ou transit\u00f3ria do regime do capital: sua exist\u00eancia e suas manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o indissoci\u00e1veis da din\u00e2mica espec\u00edfica do capital tornado pot\u00eancia social dominante. <em>A \u201cquest\u00e3o social\u201d \u00e9 constitutiva do capitalismo<\/em>: n\u00e3o se suprime aquela se este se conservar.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise de conjunto que Marx oferece n\u00b4<em>O capital<\/em> revela, luminosamente, que a \u201cquest\u00e3o social\u201d est\u00e1 elementarmente determinada pelo tra\u00e7o pr\u00f3prio e peculiar da rela\u00e7\u00e3o capital\/trabalho \u2013 a <em>explora\u00e7\u00e3o<\/em>. A explora\u00e7\u00e3o, todavia, apenas remete \u00e0 determina\u00e7\u00e3o molecular da \u201cquest\u00e3o social\u201d; na sua integralidade, longe de qualquer unicausalidade, ela implica a intercorr\u00eancia mediada de componentes hist\u00f3ricos, pol\u00edticos e culturais. Contudo, sem ferir de morte os dispositivos exploradores do regime do capital, toda luta contra as suas implica\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-econ\u00f4micas, sociais e humanas (inclusive o que se designa por \u201cquest\u00e3o social\u201d) est\u00e1 condenada a enfrentar sintomas, consequ\u00eancias e efeitos.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise marxiana fundada no car\u00e1ter explorador do regime do capital permite, muito especialmente, situar com radicalidade hist\u00f3rica a \u201cquest\u00e3o social\u201d, isto \u00e9, distingui-la das express\u00f5es sociais derivadas da escassez nas sociedades que precederam a ordem burguesa. A explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um tra\u00e7o distintivo do regime do capital (sabe-se, de fato, que formas sociais assentadas na explora\u00e7\u00e3o precederam largamente a ordem burguesa); o que \u00e9 distintivo deste regime \u00e9 que a explora\u00e7\u00e3o se efetiva no marco de contradi\u00e7\u00f5es e antagonismos que a tornam suprim\u00edvel sem a supress\u00e3o das possibilidades mediante as quais se cria exponencialmente a riqueza social. Ou seja: <em>a supress\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o do trabalho pelo capital, constitu\u00edda a ordem burguesa e altamente desenvolvidas as for\u00e7as produtivas, n\u00e3o implica \u2013 bem ao contr\u00e1rio \u2013 redu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de riquezas <\/em>(ou seja, a produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os necess\u00e1rios \u00e0 vida social, a produ\u00e7\u00e3o de valores de uso)<em>.<\/em><\/p>\n<p>Nas sociedades anteriores \u00e0 ordem burguesa, as desigualdades, as priva\u00e7\u00f5es etc. decorriam de uma escassez que o baixo n\u00edvel de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas n\u00e3o podia suprimir (e a que era correlato um componente ideal que legitimava as desigualdades, as priva\u00e7\u00f5es etc.); na ordem burguesa constitu\u00edda, decorrem de uma escassez <em>produzida socialmente<\/em>, de uma escassez que resulta necessariamente da contradi\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as produtivas (crescentemente socializadas) e as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o (que garantem a apropria\u00e7\u00e3o privada do excedente e a decis\u00e3o privada da sua destina\u00e7\u00e3o) e do car\u00e1ter mercantil que reveste obrigatoriamente os valores de uso. A \u201cquest\u00e3o social\u201d, nesta perspectiva te\u00f3rico-anal\u00edtica, n\u00e3o tem nada a ver com os desdobramentos de problemas sociais que a ordem burguesa herdou ou com tra\u00e7os invari\u00e1veis da sociedade (uma \u201cnatureza humana\u201d conclusa, dada para todo o sempre); tem a ver, exclusivamente, com a sociabilidade erguida sob o comando do capital. Por isto mesmo, a an\u00e1lise te\u00f3rica marxiana interdita qualquer ilus\u00e3o acerca do alcance das reformas no interior do capitalismo.<\/p>\n<p>Provaram-no sobejamente, j\u00e1 no marco do est\u00e1gio cl\u00e1ssico do imperialismo <sup><sup>xiii<\/sup><\/sup>, as transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-institucionais que o Estado burgu\u00eas promoveu, incorporando demandas postas pelas lutas do movimento dos trabalhadores \u00e0 din\u00e2mica pr\u00f3pria da organiza\u00e7\u00e3o monop\u00f3lica (com a instaura\u00e7\u00e3o das primeiras formas de pol\u00edticas sociais), no processo antologicamente descrito (1949) pelo liberal progressista Marshall como constitutivo da moderna <em>cidadania <\/em><sup><sup>xiv<\/sup><\/sup>. Na sequ\u00eancia da Segunda Guerra Mundial e no processo de reconstru\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social que ent\u00e3o teve curso, especialmente na Europa Ocidental, o capitalismo experimentou o que alguns economistas franceses denominaram de \u201cas tr\u00eas d\u00e9cadas gloriosas\u201d \u2013 da reconstru\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-guerra \u00e0 transi\u00e7\u00e3o dos anos 1960 aos 1970, mesmo sem erradicar as suas crises peri\u00f3dicas (c\u00edclicas), o regime do capital viveu uma larga conjuntura de crescimento econ\u00f4mico. N\u00e3o por acaso, a primeira metade dos anos 1960 assistiu \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o da sociedade capitalista \u2013 evidentemente desconsiderado o inferno da sua periferia, o ent\u00e3o chamado Terceiro Mundo \u2013 como \u201csociedade afluente\u201d, \u201csociedade de consumo\u201d etc. <sup><sup>xv<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do <em>Welfare State<\/em> na Europa N\u00f3rdica e nalguns pa\u00edses da Europa Ocidental, bem como o dinamismo da economia norte-americana (desde a Segunda Guerra, o carro-chefe do capitalismo mundial), parecia remeter para o passado a \u201cquest\u00e3o social\u201d e suas manifesta\u00e7\u00f5es \u2013 elas seriam um quase privil\u00e9gio da periferia capitalista, \u00e0s voltas com seus problemas de \u201csubdesenvolvimento\u201d. Praticamente s\u00f3 os marxistas insistiam em assinalar que as melhorias no conjunto das condi\u00e7\u00f5es de vida das massas trabalhadoras, nos pa\u00edses capitalistas centrais, n\u00e3o alteravam a ess\u00eancia exploradora do capitalismo, continuando a revelar-se atrav\u00e9s de intensos processos de pauperiza\u00e7\u00e3o relativa \u2013 apenas os marxistas e uns poucos cr\u00edticos sociais, como Michael Harrington, que tinha a coragem de investigar \u201ca pobreza, o outro lado da Am\u00e9rica\u201d <sup><sup>xvi<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>Na entrada dos anos 1970, por\u00e9m, esgotou-se a \u201conda longa expansiva\u201d da din\u00e2mica capitalista <sup><sup>xvii<\/sup><\/sup>, que garantiu mais de duas d\u00e9cadas de significativo crescimento econ\u00f4mico. \u00c0 redu\u00e7\u00e3o das taxas de lucro, condicionadas tamb\u00e9m pelo ascenso do movimento oper\u00e1rio, que alcan\u00e7ara expressivas vit\u00f3rias naqueles anos e nos imediatamente anteriores <sup><sup>xviii<\/sup><\/sup>, o capital respondeu com uma ofensiva pol\u00edtica (de in\u00edcio, basicamente repressiva \u2013 recorde-se o trato que ao movimento sindical brindaram a Senhora Tatcher e R. Reagan \u2013, depois fundamentalmente de natureza ideol\u00f3gica) e econ\u00f4mica. O que se seguiu \u00e9 conhecido (trata-se do que Rui Braga denominou de \u201crestaura\u00e7\u00e3o do capital\u201d) e j\u00e1 foi objeto de larga documenta\u00e7\u00e3o <sup><sup>xix<\/sup><\/sup>: a conjun\u00e7\u00e3o \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d\/\u201dneoliberalismo\u201d veio para demonstrar aos desavisados que o capital n\u00e3o tem nenhum \u201ccompromisso social\u201d \u2013 o seu esfor\u00e7o para romper com qualquer regula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica democr\u00e1tica, extra-mercado, da economia tem sido coroado de \u00eaxito. Erodiu-se o fundamento do <em>Welfare State<\/em> em v\u00e1rios pa\u00edses e a resultante macrosc\u00f3pico-social saltou \u00e0 vista: o capitalismo \u201cglobalizado\u201d, \u201ctransnacional\u201d, \u201cp\u00f3s-fordista\u201d, desvestiu a pele de cordeiro \u2013 e a intelectualidade acad\u00eamica, a mesma que em boa parcela considera Marx o criador de um \u201cparadigma em crise\u201d, descobriu a \u201cnova pobreza\u201d, os \u201cexclu\u00eddos\u201d etc. \u2013 em suma, descobriu a <em>nova <\/em>\u201cquest\u00e3o social\u201d.<\/p>\n<p>Esta caricatural \u201cdescoberta\u201d, nas condi\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas, condi\u00e7\u00f5es que tornam cada vez mais problem\u00e1ticas as possibilidades de quaisquer reformas progressistas no interior do regime do capital <sup><sup>xx<\/sup><\/sup>, mostra-se, a despeito da sua eventual credibilidade acad\u00eamica, com uma anemia te\u00f3rico-anal\u00edtica que somente \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0 anemia das interven\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-pol\u00edticas que prop\u00f5e como alternativas (a isto voltarei adiante). Do ponto de vista te\u00f3rico, a no\u00e7\u00e3o de \u201c<em>nova <\/em>quest\u00e3o social\u201d n\u00e3o apresenta uma s\u00f3 determina\u00e7\u00e3o que resista ao exame rigoroso na esteira da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica marxiana <sup><sup>xxi<\/sup><\/sup>; do ponto de vista s\u00f3cio-pol\u00edtico, retrocede ao n\u00edvel das utopias conservadoras do s\u00e9culo XIX, proponentes de novos \u201ccontratos sociais\u201d que restabele\u00e7am v\u00ednculos de solidariedade no marco de comunidades ilus\u00f3rias <sup><sup>xxii<\/sup><\/sup> \u2013 uma solidariedade naturalmente abstrata (<em>transclassista<\/em>) e comunidades pensadas com o inteiro apagamento dos (novos) dispositivos de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De fato, inexiste qualquer <em>nova <\/em>\u201cquest\u00e3o social\u201d. O que se deve investigar, para al\u00e9m da perman\u00eancia de manifesta\u00e7\u00f5es \u201ctradicionais\u201d da \u201cquest\u00e3o social\u201d, \u00e9 a emerg\u00eancia de <em>novas express\u00f5es <\/em>da \u201cquest\u00e3o social\u201d que \u00e9 insuprim\u00edvel sem a supress\u00e3o da ordem do capital. A din\u00e2mica societ\u00e1ria espec\u00edfica desta ordem n\u00e3o s\u00f3 p\u00f5e e rep\u00f5e os corol\u00e1rios da explora\u00e7\u00e3o que a constitui medularmente; como j\u00e1 sugeri, a cada novo est\u00e1gio do seu desenvolvimento, ela instaura express\u00f5es s\u00f3cio-pol\u00edticas diferenciadas e mais complexas, correspondentes \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o que \u00e9 a sua raz\u00e3o de ser. O verdadeiro problema te\u00f3rico consiste em determinar concretamente a rela\u00e7\u00e3o entre as express\u00f5es emergentes e as modalidades imperantes de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma tal determina\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o pode desconsiderar a forma contempor\u00e2nea que adquire a <em>lei geral da acumula\u00e7\u00e3o capitalista<\/em>, precisa levar em conta a complexa totalidade dos sistemas de media\u00e7\u00f5es em que ela se realiza. Sistemas nos quais, mesmo dado o car\u00e1ter universal e planetarizado daquela <em>lei geral<\/em>, objetivam-se particularidades culturais, geo-pol\u00edticas e nacionais que, igualmente, requerem determina\u00e7\u00e3o concreta. Se a <em>lei geral<\/em> opera independentemente de fronteiras pol\u00edticas e culturais, seus resultantes societ\u00e1rios trazem a marca da hist\u00f3ria que a concretiza. Isto significa que o desafio te\u00f3rico acima salientado envolve, ainda, a pesquisa das diferencialidades hist\u00f3rico-culturais (que entrela\u00e7am elementos de rela\u00e7\u00f5es de classe, geracionais, de g\u00eanero e de etnia constitu\u00eddos em forma\u00e7\u00f5es sociais espec\u00edficas) que se cruzam e tensionam na efetividade social. Em poucas palavras: a caracteriza\u00e7\u00e3o da \u201cquest\u00e3o social\u201d, em suas manifesta\u00e7\u00f5es j\u00e1 conhecidas e em suas express\u00f5es novas, tem de considerar as particularidades hist\u00f3rico-culturais e nacionais.<\/p>\n<p><strong>2<\/strong><\/p>\n<p>Muito especialmente, a caracteriza\u00e7\u00e3o acima mencionada tem que levar em conta as profundas transforma\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias emergentes desde a d\u00e9cada de 1970 <sup><sup>xxiii<\/sup><\/sup>, que redesenharam amplamente o perfil do capitalismo contempor\u00e2neo \u2013 est\u00e1 claro que, planetarizado, este capitalismo apresenta tra\u00e7os novos e processos in\u00e9ditos. Estas transforma\u00e7\u00f5es est\u00e3o vinculadas \u00e0s formid\u00e1veis mudan\u00e7as que ocorreram no chamado \u201cmundo do trabalho\u201d <sup><sup>xxiv<\/sup><\/sup> e que chegaram a produzir as equivocadas teses do \u201cfim da sociedade do trabalho\u201d e do \u201cdesaparecimento\u201d do proletariado como classe <sup><sup>xxv<\/sup><\/sup>, mudan\u00e7as que certamente se conectam aos impactos causados nos circuitos produtivos pela revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e t\u00e9cnica em curso desde a metade do s\u00e9culo XX (potenciada em seus desdobramentos, por exemplo, pela \u201crevolu\u00e7\u00e3o informacional\u201d e pelos avan\u00e7os da micro-eletr\u00f4nica, pelos novos passos da biologia, da f\u00edsica e da qu\u00edmica <sup><sup>xxvi<\/sup><\/sup>). Mas s\u00e3o transforma\u00e7\u00f5es que desbordam amplamente os circuitos produtivos: elas envolvem a totalidade social, configurando a <em>sociedade tardo-burguesa <\/em>que emerge da <em>restaura\u00e7\u00e3o do capital<\/em>. `<\/p>\n<p>No que toca \u00e0s exig\u00eancias imediatas do grande capital, o projeto restaurador viu-se resumido no tr\u00edplice mote da \u201cflexibiliza\u00e7\u00e3o\u201d (da produ\u00e7\u00e3o, das rela\u00e7\u00f5es de trabalho), \u201cdesregulamenta\u00e7\u00e3o\u201d (das rela\u00e7\u00f5es comerciais e dos circuitos financeiros) e da \u201cprivatiza\u00e7\u00e3o\u201d (do patrim\u00f4nio estatal) <sup><sup>xxvii<\/sup><\/sup>. Se esta \u00faltima transferiu ao grande capital parcelas expressivas de riquezas p\u00fablicas, especial mas n\u00e3o exclusivamente nos pa\u00edses perif\u00e9ricos <sup><sup>xxviii<\/sup><\/sup>, a \u201cdesregulamenta\u00e7\u00e3o\u201d liquidou as prote\u00e7\u00f5es comercial-alfandeg\u00e1rias dos Estados mais d\u00e9beis e ofereceu ao capital financeiro a mais radical liberdade de movimento, propiciando, entre outras consequ\u00eancias, os ataques especulativos contra economias nacionais <sup><sup>xxix<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>A \u201cdesregulamenta\u00e7\u00e3o\u201d e a \u201cflexibiliza\u00e7\u00e3o\u201d que o capital vem implementado hipertrofiam as atividades de natureza financeira (resultado seja da superacumula\u00e7\u00e3o, seja da especula\u00e7\u00e3o desenfreada), cada vez mais autonomizadas de controles estatais-nacionais e dotadas, gra\u00e7as \u00e0s tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o, de extraordin\u00e1ria mobilidade espa\u00e7o-temporal. Simultaneamente, a produ\u00e7\u00e3o segmentada, horizontalizada e descentralizada \u2013 a \u201cf\u00e1brica difusa\u201d \u2013, que \u00e9 fomentada em v\u00e1rios ramos, propicia uma \u201cmobilidade\u201d (ou \u201cdesterritorializa\u00e7\u00e3o\u201d) dos polos produtivos, encadeados agora em l\u00e1beis redes supranacionais, pass\u00edveis de r\u00e1pida reconvers\u00e3o. Ao mesmo tempo, os novos processos produtivos t\u00eam implicado uma extraordin\u00e1ria economia de trabalho vivo, elevando brutalmente a composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital; resultado direto na sociedade capitalista: <em>o crescimento exponencial da for\u00e7a de trabalho excedent\u00e1ria em face dos interesses do capital<\/em> \u2013 e os economistas burgueses (que se recusam a admitir que se trata do ex\u00e9rcito industrial de reserva pr\u00f3prio do tardo-capitalismo) descobrem&#8230; o \u201cdesemprego estrutural\u201d!. De fato, o chamado \u201cmercado de trabalho\u201d vem sendo radicalmente reestruturado <sup><sup>xxx<\/sup><\/sup> &#8211; e todas as \u201cinova\u00e7\u00f5es\u201d levam \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida da massa dos vendedores de for\u00e7a de trabalho: a ordem do capital \u00e9 hoje, reconhecidamente, a ordem do desemprego e da \u201cinformalidade\u201d <sup><sup>xxxi<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>A t\u00e3o celebrada \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica\u201d vincula-se, n\u00e3o por acaso, a esta \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d do capitalismo <sup><sup>xxxii<\/sup><\/sup> e \u00e0 articula\u00e7\u00e3o supranacional das grandes corpora\u00e7\u00f5es, mesmo que n\u00e3o se reduza a ambas \u2013 e vem acentuando o padr\u00e3o de competitividade intermonopolista e redesenhando o mapa pol\u00edtico-econ\u00f4mico do mundo: as grandes corpora\u00e7\u00f5es imperialistas t\u00eam conduzido processos supranacionais de integra\u00e7\u00e3o (os megablocos) que, at\u00e9 agora, n\u00e3o se mostram como espa\u00e7os livres de problemas para a concerta\u00e7\u00e3o dos interesses do grande capital (como as recentes fric\u00e7\u00f5es na Europa dita comunit\u00e1ria o est\u00e3o provando). Grande capital que, levando ao limite os hist\u00f3ricos processos de concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o, disp\u00f5e de um potencial de poder superior ao de boa parte dos Estados nacionais <sup><sup>xxxiii<\/sup><\/sup> e opera o controle estrat\u00e9gico dos recursos necess\u00e1rios \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de ponta <sup><sup>xxxiv<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>Como assinalei, as transforma\u00e7\u00f5es em curso envolvem a totalidade social. No que toca \u00e0 estratifica\u00e7\u00e3o social, verifica-se que a estrutura de classes da sociedade burguesa vem se modificando sensivelmente, inclusive com a desapari\u00e7\u00e3o de antigas classes sociais <sup><sup>xxxv<\/sup><\/sup>. Ocorrem altera\u00e7\u00f5es profundas, quer no plano econ\u00f4mico-objetivo da produ\u00e7\u00e3o\/reprodu\u00e7\u00e3o das classes e suas rela\u00e7\u00f5es, quer no plano \u00eddeo-subjetivo do reconhecimento da perten\u00e7a de classe (e sabe-se da unidade de ambos os planos na pr\u00e1tica social). No conjunto dos que vivem da venda da sua for\u00e7a de trabalho, est\u00e1 claro que a classe oper\u00e1ria que fixou a sua identidade classista (sindical e pol\u00edtico-partid\u00e1ria) enfrentando o capitalismo monopolista experimenta mudan\u00e7as significativas, afetada que \u00e9 por diferencia\u00e7\u00f5es, divis\u00f5es, cortes e recomposi\u00e7\u00f5es \u2013 refratando as novas clivagens postas por altera\u00e7\u00f5es na divis\u00e3o social e t\u00e9cnica do trabalho. Tamb\u00e9m se modificam as hierarquias e as articula\u00e7\u00f5es de camadas m\u00e9dias, \u201ctradicionais\u201d (como a pequena burguesia urbana) ou n\u00e3o <sup><sup>xxxvi<\/sup><\/sup>. Aquele conjunto, hoje mais que nunca, \u00e9 bastante heter\u00f3clito. E tamb\u00e9m h\u00e1 modifica\u00e7\u00f5es nas suas camadas situadas no que se poderia chamar de <em>r\u00e9s do ch\u00e3o<\/em> da ordem tardo-burguesa, cuja exist\u00eancia vem sendo degradada progressivamente pelo capitalismo contempor\u00e2neo: a mir\u00edade de <em>segmentos desprotegidos<\/em>, que n\u00e3o podem ser sumariamente identificados ao <em>lumpem <\/em>\u201ccl\u00e1ssico\u201d <sup><sup>xxxvii<\/sup><\/sup>. Tais segmentos compreendem universos heterog\u00eaneos, desde aposentados com pens\u00f5es miser\u00e1veis, crian\u00e7as e adolescentes sem qualquer cobertura social, migrantes e refugiados, doentes estigmatizados (recordem-se os aid\u00e9ticos pobres) at\u00e9 trabalhadores expulsos do mercado de trabalho (formal e informal).<\/p>\n<p>Menos estudadas \u2013 por motivos facilmente conhecidos \u2013 s\u00e3o as classes e franjas de classes que est\u00e3o no topo da pir\u00e2mide da estratifica\u00e7\u00e3o: os grandes capitalistas e o grande patronato, seus estrategistas e executivos transnacionais, seus grandes intelectuais. De qualquer modo, \u00e9 leg\u00edtimo afirmar que, independentemente de modifica\u00e7\u00f5es e diferencia\u00e7\u00f5es internas (com novos conflitos e novas vias de ingresso em seus c\u00edrculos \u2013 de que o \u201ccaso Bill Gates\u201d \u00e9 exemplar), os portadores do grande capital v\u00eaem estruturando uma <em>oligarquia financeira global<\/em>, concentradora de um <em>enorme poderio econ\u00f4mico e pol\u00edtico<\/em>. De fato, trata-se de um microsc\u00f3pico universo pessoal <sup><sup>xxxviii<\/sup><\/sup>, que controla o conjunto das riquezas sociais e exerce uma determinante a\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria que inclusive ladeia as inst\u00e2ncias democr\u00e1tico-formais consagradas no Estado de direito <sup><sup>xxxix<\/sup><\/sup> \u2013 controle e a\u00e7\u00e3o que, como o demonstra a experi\u00eancia dos \u00faltimos anos, t\u00eam introduzido na cena p\u00fablica um componente corruptor outrora impens\u00e1vel <sup><sup>xl<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>Tais mudan\u00e7as no sistema de estratifica\u00e7\u00e3o da sociedade burguesa contempor\u00e2nea acompanham-se de altera\u00e7\u00f5es no <em>perfil demogr\u00e1fico<\/em> das popula\u00e7\u00f5es, no processo de <em>urbaniza\u00e7\u00e3o<\/em>, no crescimento das atividades de <em>servi\u00e7o<\/em>, na difus\u00e3o da <em>educa\u00e7\u00e3o formal<\/em> e nos circuitos da <em>comunica\u00e7\u00e3o social <\/em>(conduzindo ao \u00e1pice a <em>ind\u00fastria cultural<\/em> analisada pela \u201cEscola de Frankfurt\u201d). Rebatendo na estrutura da <em>fam\u00edlia <\/em><sup><sup>xli<\/sup><\/sup>, tudo isto convulsiona os padr\u00f5es da sociabilidade, para o que contribui, ainda, a emers\u00e3o de dois \u201cagentes sociais independentes\u201d (Hobsbawm): as <em>mulheres<\/em> e os <em>jovens<\/em>. As peculiares problem\u00e1ticas femininas (nem sempre inteiramente recuperadas pelos movimentos feministas), indo da opress\u00e3o no espa\u00e7o dom\u00e9stico aos mais variados tipos de subalternidade\/explora\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o p\u00fablico, irromperam pesadamente nos \u00faltimos cinco lustros. Gra\u00e7as especialmente aos empenhos das vanguardas feministas, as demandas femininas ganharam um apelo emancipat\u00f3rio que, independentemente do alcance efetivo das suas conquistas, atravessam as pr\u00e1ticas sociais como quest\u00f5es que j\u00e1 n\u00e3o podem ser ladeadas. Quanto \u00e0 juventude, que esteve na base da \u201crevolu\u00e7\u00e3o de costumes\u201d dos anos 1960, ela passou \u2013 na escala em que as rela\u00e7\u00f5es geracionais foram tamb\u00e9m grandemente redimensionadas \u2013 a constituir uma categoria social que adquiriu amplitude internacional, gerando inova\u00e7\u00f5es valorativas e rupturas com padr\u00f5es de comportamento, frequentemente incorporadas (quando n\u00e3o induzidas) pela ordem do capital.<\/p>\n<p>A din\u00e2mica cultural do capitalismo contempor\u00e2neo, o <em>tardo-capitalismo<\/em>, \u00e9 parametrada por dois vetores, de natureza econ\u00f4mico-pol\u00edtica e t\u00e9cnica: <em>a transla\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica do capital<\/em> para <em>todos <\/em>os processos do espa\u00e7o cultural (cria\u00e7\u00e3o\/produ\u00e7\u00e3o, divulga\u00e7\u00e3o, frui\u00e7\u00e3o\/consumo) e o desenvolvimento de formas culturais socializ\u00e1veis pelos <em>meios eletr\u00f4nicos<\/em> (a televis\u00e3o, o v\u00eddeo, a multim\u00eddia). Essa cultura incorpora as caracter\u00edsticas pr\u00f3prias da <em>mercadoria<\/em> no tardo-capitalismo: sua obsolesc\u00eancia programada, sua fungibilidade, sua imediaticidade reificante. Embora \u00e0 sociedade burguesa contempor\u00e2nea n\u00e3o caiba legitimamente, como vimos, a identifica\u00e7\u00e3o como uma \u201csociedade de consumo\u201d, a cultura que nela hoje se afirma \u00e9 uma <em>cultura de consumo <\/em><sup><sup>xlii<\/sup><\/sup>: ela cria a \u201csensibilidade consumidora\u201d que se abre \u00e0 devora\u00e7\u00e3o indiscriminada e equalizadora de bens materiais e ideais \u2013 e, nela, a pr\u00f3pria distin\u00e7\u00e3o entre realidade e representa\u00e7\u00f5es \u00e9 esfumada: promove-se uma <em>semiologiza\u00e7\u00e3o do real<\/em>, em que os significantes se autonomizam em face dos referentes materiais e, no limite, se entificam.<\/p>\n<p>A imediaticidade da vida social planetariamente mercantilizada \u00e9 proposta como <em>a<\/em> realidade \u2013 e, n\u00e3o por acaso, a distin\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica cl\u00e1ssica entre <em>apar\u00eancia<\/em> e <em>ess\u00eancia <\/em>\u00e9 desqualificada <sup><sup>xliii<\/sup><\/sup>. A realidade, na complexidade ontol\u00f3gica dos seus v\u00e1rios niveis, \u00e9 apreendida no ef\u00eamero, no molecular, no descont\u00ednuo, no fragment\u00e1rio, que se tornam a pedra-de-toque da nova \u201csensibilidade\u201d: o <em>dado<\/em>, na sua singularidade emp\u00edrica, desloca a totalidade e a universalidade, suspeitas de \u201ctotalitarismo\u201d.<\/p>\n<p>Sabe-se a que me refiro: \u00e0 tese segundo a qual, depois da metade do s\u00e9culo XX, pelo menos, exauriu-se o programa de Modernidade, fundado no cap\u00edtulo iluminista do projeto ilustrado, configurando-se uma <em>muta\u00e7\u00e3o sociocultural estrutural<\/em>, que implicaria a anacroniza\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de an\u00e1lise (e das suas categorias te\u00f3ricas) dos objetos socioculturais e dos projetos sociais modernos. Vale dizer: de uma parte, ter\u00edamos uma \u201ccrise de paradigmas\u201d, com a urg\u00eancia da supera\u00e7\u00e3o das \u201cmetanarrativas\u201d e das abordagens te\u00f3ricas cal\u00e7adas na categoria de totalidade; de outra, estaria colocada a alternativa de s\u00f3 pensar a micro-pol\u00edtica ou de encontrar novos referenciais para a a\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica <sup><sup>xliv<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>O que se pode designar como <em>movimento p\u00f3s-moderno <\/em>constitui um campo \u00eddeo-te\u00f3rico muito heterog\u00eaneo e, especialmente no terreno das suas inclina\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, pode-se mesmo distinguir uma teoriza\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna de <em>capitula\u00e7\u00e3o<\/em> e outra de <em>oposi\u00e7\u00e3o <\/em><sup><sup>xlv<\/sup><\/sup>. Do ponto de vista dos seus fundamentos te\u00f3rico-epistemol\u00f3gicos, por\u00e9m, o movimento \u00e9 funcional \u00e0 l\u00f3gica cultural do tardo-capitalismo <sup><sup>xlvi<\/sup><\/sup>: \u00e9-o tanto ao caucionar acriticamente as express\u00f5es imediatas da ordem burguesa contempor\u00e2nea quanto ao romper com os vetores cr\u00edticos da Modernidade (cuja racionalidade os p\u00f3s-modernos reduzem, abstrata e arbitrariamente, \u00e0 dimens\u00e3o instrumental, abrindo a via aos mais diversos irracionalismos). Mas, por esta mesma funcionalidade, a ret\u00f3rica p\u00f3s-moderna n\u00e3o \u00e9 uma intencional mistifica\u00e7\u00e3o elaborada por moedeiros falsos da academia e publicitada pela m\u00eddia a servi\u00e7o do capital. Antes, ela \u00e9 um sintoma das transforma\u00e7\u00f5es em curso na sociedade tardo-burguesa, tomadas na sua epid\u00e9rmica imediaticidade \u2013 como Eagleton observou em belo ensaio <sup><sup>xlvii<\/sup><\/sup>, o que os p\u00f3s-modernos assumem como tarefa \u201ccriadora\u201d (ou, segundo outros, \u201cdesconstrutora\u201d) corresponde \u00e0 pr\u00f3pria estrutura\u00e7\u00e3o fetichista da mercadoria e do tardo-capitalismo.<\/p>\n<p>Essa funcionalidade est\u00e1 em mar\u00e9-montante nos anos correntes porque a dissolu\u00e7\u00e3o de antigas identidades sociais (classistas), a atomiza\u00e7\u00e3o e a pulveriza\u00e7\u00e3o imediatas da vida social, as novas \u201csensibilidades\u201d produzidas pelas tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o \u2013 tudo isso, mais as transforma\u00e7\u00f5es j\u00e1 sinalizadas, erodiu os sistemas constitu\u00eddos de vincula\u00e7\u00e3o e inser\u00e7\u00e3o sociais. N\u00e3o \u00e9 um acidente, pois, que grupos, categorias e segmentos sociais se empenhem na constru\u00e7\u00e3o de \u201cnovas identidades\u201d culturais, nem que busquem, dramaticamente, estruturar suas \u201ccomunidades\u201d. A \u201ccultura global\u201d se movimenta entre a produ\u00e7\u00e3o\/divulga\u00e7\u00e3o\/consumo mercantilizados de \u201cartefatos globais\u201d e a incorpora\u00e7\u00e3o\/consagra\u00e7\u00e3o de express\u00f5es particularistas \u2013 movimenta-se entre o cosmopolitismo e o localismo\/singularismo, entre a indiferencia\u00e7\u00e3o abstrata de \u201cvalores globais\u201d e particularismos fundamentalistas. Quer no cosmopolitismo, quer no localismo\/singularismo, h\u00e1 uma n\u00edtida desqualifica\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica universalizadora: no primeiro, o privil\u00e9gio \u00e9 conferido a um individualismo de car\u00e1ter possessivo; no segundo, o \u201cdireito \u00e0 diferen\u00e7a\u201d se imp\u00f5e abstrata e arbitrariamente. Nessa cultura, parece vigorar a m\u00e1xima segundo a qual \u201cn\u00e3o h\u00e1 sociedade, s\u00f3 indiv\u00edduos\u201d <sup><sup>xlviii<\/sup><\/sup>. \u00c9 por isto que n\u00e3o se afigura exagerado observar que \u201ca revolu\u00e7\u00e3o cultural de fins do s\u00e9culo XX pode assim ser mais bem entendida como o triunfo do indiv\u00edduo sobre a sociedade, ou melhor, o rompimento dos fios que antes ligavam os seres humanos em texturas sociais\u201d <sup><sup>xlix<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es ocorrentes no plano pol\u00edtico s\u00e3o igualmente not\u00e1veis e portadoras de novas problem\u00e1ticas. Impactados pelas novas din\u00e2micas econ\u00f4micas e s\u00f3cio-culturais, sociedade civil e Estado da ordem tardo-burguesa modificam-se nas suas esferas pr\u00f3prias e nas suas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na sociedade civil, enquanto a oligarquia financeira global se movimenta de maneira crescentemente articulada, encontrando e forjando canais e institui\u00e7\u00f5es para dar forma a seus projetos, as tradicionais express\u00f5es e representa\u00e7\u00f5es das classes e camadas subalternas experimentam crises vis\u00edveis (pense-se na <em>dessindicaliza\u00e7\u00e3o<\/em> e nos impasses dos partidos pol\u00edticos democr\u00e1tico-populares e\/ou oper\u00e1rios), ao mesmo tempo em que emergem no seu espa\u00e7o \u201cnovos sujeitos coletivos\u201d, de que os chamados <em>novos movimentos sociais<\/em> s\u00e3o o sinal mais significativo. Tais movimentos, demandando <em>novos direitos<\/em> e aspirando a amplia\u00e7\u00f5es do estatuto de <em>cidadania<\/em> \u2013 que Marshall n\u00e3o imaginava coexistindo sem tens\u00f5es com a estrutura de classes \u2013, v\u00eam vitalizando a sociedade civil e renovando puls\u00f5es democr\u00e1ticas. Na medida, contudo, em que a esses movimentos, at\u00e9 agora, n\u00e3o se imbricaram inst\u00e2ncias pol\u00edticas capazes de articular e universalizar a pluralidade de interesses e motiva\u00e7\u00f5es que os enfibram, seu potencial emancipat\u00f3rio v\u00ea-se frequentemente comprometido (inclusive com a recidiva de corporativismos).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o Estado burgu\u00eas, mantendo o seu car\u00e1ter de classe, experimenta um consider\u00e1vel redimensionamento. A mudan\u00e7a mais imediata \u00e9 a diminui\u00e7\u00e3o da sua a\u00e7\u00e3o reguladora, especialmente o encolhimento de suas \u201cfun\u00e7\u00f5es legitimadoras\u201d <sup><sup>l<\/sup><\/sup>: quando o grande capital rompe o \u201cpacto\u201d que suportava o <em>Welfare State<\/em>, come\u00e7a a ocorrer a retirada das coberturas sociais p\u00fablicas e tem-se o corte nos direitos sociais \u2013 programa tatcherista que corporifica a estrat\u00e9gia do grande capital de \u201credu\u00e7\u00e3o do Estado\u201d, num processo de \u201cajuste\u201d que visa a diminuir o \u00f4nus do capital no esquema geral de reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho (e das condi\u00e7\u00f5es gerais da reprodu\u00e7\u00e3o capitalista). Entretanto, aquela redu\u00e7\u00e3o, bem definida nas palavras-de-ordem que j\u00e1 assinalei e na sua pr\u00e1tica \u2013 \u201cflexibiliza\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cdesregulamenta\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cprivatiza\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 decorre do pr\u00f3prio movimento da \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d. De uma parte, a magnitude das atividades planet\u00e1rias das corpora\u00e7\u00f5es monopolistas extrapola largamente os controles estatais, fundados na circunscri\u00e7\u00e3o nacional do Estado; de outra, dada a articula\u00e7\u00e3o privada daquelas atividades, torna-se limitada a interven\u00e7\u00e3o estatal no n\u00edvel macro-econ\u00f4mico<sup><sup>li<\/sup><\/sup>. \u00c9 evidente que o tardo-capitalismo n\u00e3o liquidou com o Estado nacional, mas \u00e9 tamb\u00e9m claro que vem operando no sentido de erodir a sua soberania \u2013 por\u00e9m, cumpre assinalar a diferencialidade desta eros\u00e3o, que atinge diversamente Estados centrais e Estados perif\u00e9ricos (ou mais d\u00e9beis) <sup><sup>lii<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>A desqualifica\u00e7\u00e3o do Estado tem sido, como \u00e9 not\u00f3rio, a pedra-de-toque do privatismo da <em>ideologia neoliberal<\/em>: a defesa do \u201cEstado m\u00ednimo\u201d pretende, fundamentalmente, \u201co Estado m\u00e1ximo para o capital\u201d <sup><sup>liii<\/sup><\/sup>; nas palavras de Przeworski, constitui um \u201cprojeto hist\u00f3rico da Direita\u201d, dirigido para \u201cliberar a acumula\u00e7\u00e3o [capitalista] de todas as cadeias impostas pela democracia\u201d <sup><sup>liv<\/sup><\/sup>. Independentemente da viabilidade pol\u00edtica de longo prazo desse projeto <sup><sup>lv<\/sup><\/sup>, h\u00e1 que constatar que ele conquistou, enquanto sataniza\u00e7\u00e3o do Estado, uma ponder\u00e1vel hegemonia: desenvolveu-se, a partir dele, uma \u201ccultura pol\u00edtica\u201d anti-estatal \u2013 e ela n\u00e3o tem sido estranha \u00e0s rela\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas entre Estado e sociedade civil nem a certas formula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que, renovando velhos equ\u00edvocos anarquistas, pretendem-se \u201cde esquerda\u201d <sup><sup>lvi<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>As corpora\u00e7\u00f5es imperialistas, o grande capital, implementam a eros\u00e3o das regula\u00e7\u00f5es estatais visando claramente \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o de direitos sociais, ao assalto ao patrim\u00f4nio e ao fundo p\u00fablicos, com a \u201cdesregulamenta\u00e7\u00e3o\u201d sendo apresentada como \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d que valoriza a \u201csociedade civil\u201d, liberando-a da tutela do \u201cEstado protetor\u201d \u2013 e h\u00e1 lugar, nessa constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, para a defesa da \u201cliberdade\u201d, da \u201ccidadania\u201d e da \u201cdemocracia\u201d. E, com freq\u00fc\u00eancia, for\u00e7as imediatamente opositivas ao grande capital t\u00eam incorporado o anti-estatismo como prioriza\u00e7\u00e3o da sociedade civil e, tamb\u00e9m, como demanda democr\u00e1tica, do que decorrem dois fen\u00f4menos: 1) a transfer\u00eancia, para a sociedade civil, a t\u00edtulo de \u201ciniciativa aut\u00f4noma\u201d, de responsabilidades antes alocadas \u00e0 a\u00e7\u00e3o estatal <sup><sup>lvii<\/sup><\/sup>; 2) a minimiza\u00e7\u00e3o das lutas democr\u00e1ticas dirigidas a afetar as institui\u00e7\u00f5es estatais. As implica\u00e7\u00f5es da incorpora\u00e7\u00e3o desse anti-estatismo pelas for\u00e7as opositivas pode significar n\u00e3o uma politiza\u00e7\u00e3o de novos espa\u00e7os sociais (ou a repolitiza\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os abandonados), mas a <em>despolitiza\u00e7\u00e3o<\/em> de demandas democr\u00e1ticas, numa quadra em que \u2013 precisamente pelas caracter\u00edsticas das pr\u00e1ticas neoliberais \u2013 as lutas pela democracia se revestem de maior import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Em pinceladas muito largas, este \u00e9 o perfil com que a sociedade tardo-burguesa se apresenta na abertura do s\u00e9culo XXI. As transforma\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias aqui assinaladas configuram uma s\u00e9rie de inequ\u00edvocas vit\u00f3rias do grande capital.<\/p>\n<p><strong>3<\/strong><\/p>\n<p>Acabei de mencionar inequ\u00edvocas vit\u00f3rias do grande capital. Do ponto de vista pol\u00edtico, medidas de \u201cajuste\u201d e \u201cflexibiliza\u00e7\u00e3o\/desregulamenta\u00e7\u00e3o\/privatiza\u00e7\u00e3o\u201d, em muitos casos, foram chanceladas por mecanismos eleitorais dotados de legitimidade formal <sup><sup>lviii<\/sup><\/sup>. Do ponto de vista \u00eddeo-cultural, contando com a mar\u00e9-montante p\u00f3s-moderna, os ganhos do capital n\u00e3o foram desprez\u00edveis \u2013 contribu\u00edram para conter e reverter os avan\u00e7os dos anos 1960 e in\u00edcios da d\u00e9cada de 1970, configurando o per\u00edodo aberto pelos anos 1980 como o de \u201cum conservadorismo cada vez mais beligerante\u201d <sup><sup>lix<\/sup><\/sup>; a proposta socialista revolucion\u00e1ria foi acantonada, posta no bivaque das velharias da Modernidade. E, do ponto de vista econ\u00f4mico, a lucratividade das grandes corpora\u00e7\u00f5es foi recuperada.<\/p>\n<p>Tais vit\u00f3rias, contudo, nada aportaram de favor\u00e1vel ou positivo \u2013 nem poderiam faz\u00ea-lo, ou n\u00e3o estar\u00edamos mais no quadro do tardo-capitalismo \u2013 \u00e0 massa dos vendedores da for\u00e7a-de-trabalho. Para al\u00e9m de n\u00e3o eliminarem o ciclo cr\u00edtico da din\u00e2mica capitalista (manifestado nas sucessivas crises abertas por aquela da Bolsa de Nova Iorque, em 1987, at\u00e9 a mais recente, de 2008) e de n\u00e3o reverteram a curva pr\u00f3pria da \u201conda longa recessiva\u201d (nos pa\u00edses da OCDE, as taxas de crescimento permanecem med\u00edocres desde 1980), tais vit\u00f3rias do capital penalizaram fortemente os trabalhadores. Custaram-lhes, em primeiro lugar, seus postos de trabalho \u2013 o desemprego, tomadas as cifras mundiais, vem em crescendo desde os anos 1980. Custaram-lhes, em segundo lugar, mediante o aumento da explora\u00e7\u00e3o, compress\u00f5es sobre os sal\u00e1rios daqueles que conseguiram manter seus empregos, derivando em ponder\u00e1vel aviltamento do padr\u00e3o de vida. Custaram-lhes, em terceiro lugar, um forte ataque aos sistemas p\u00fablicos de seguridade social. E tais custos s\u00f3 podem ser devidamente contabilizados se se faz um balan\u00e7o abrangente de mais de tr\u00eas d\u00e9cadas de \u201cflexibiliza\u00e7\u00e3o\u201d do tardo-capitalismo \u2013 e, aqui, o que se constata \u00e9 que a pauperiza\u00e7\u00e3o absoluta e a relativa, conjugadas ou n\u00e3o, <em>cresceram<\/em>, mesmo que diferencialmente, <em>para a maioria esmagadora da popula\u00e7\u00e3o do planeta<\/em> (constata\u00e7\u00f5es verific\u00e1veis at\u00e9 nos documentos do Banco Mundial a partir de 1991 e nos v\u00e1rios relat\u00f3rios do PNUD, especialmente a partir de 2005).<\/p>\n<p>Os trabalhadores, como o demonstra uma experi\u00eancia hist\u00f3rica bissecular, n\u00e3o caminham bovinamente para o matadouro. Acuados e postos na defensiva por uma complexa conjuga\u00e7\u00e3o de processos de que n\u00e3o tiveram o controle (desde as transforma\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias referidas ao colapso do \u201csocialismo real\u201d), encontraram for\u00e7as para uma <em>resist\u00eancia <\/em>pontuada por a\u00e7\u00f5es de natureza dominantemente molecular, mas com epis\u00f3dios massivos \u2013 esta n\u00e3o \u00e9 oportunidade para sequer registrar esta resist\u00eancia; cabe, aqui, t\u00e3o somente pontuar que as <em>lutas sociais<\/em>, ainda que defensivas, marcaram e marcam a presen\u00e7a dos trabalhadores na contra-corrente pol\u00edtica do per\u00edodo em tela <sup><sup>lx<\/sup><\/sup>. E por uma raz\u00e3o clar\u00edssima: a \u201cflexibiliza\u00e7\u00e3o\u201d do tardo-capitalismo, levando a massa dos trabalhadores \u00e0 defensiva e penalizando duramente a esmagadora maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial, n\u00e3o resolveu <em>nenhum dos problemas fundamentais postos pela ordem do capital<\/em>. Mais ainda: diante da magnitude hoje alcan\u00e7ada por estes problemas \u2013 e expressa em tr\u00eas ordens de fen\u00f4menos: \u201co crescente alargamento da dist\u00e2ncia entre o mundo rico e o pobre [&#8230;]; a ascens\u00e3o do racismo e da xenofobia; e a crise ecol\u00f3gica, que nos afetar\u00e1 a todos\u201d <sup><sup>lxi<\/sup><\/sup> \u2013, todas as indica\u00e7\u00f5es sugerem que o tardo-capitalismo oferecer\u00e1 respostas dominantemente <em>regressivas<\/em>, operando na dire\u00e7\u00e3o de um novo barbarismo, de que as formas contempor\u00e2neas de <em>apartheid<\/em> social s\u00e3o j\u00e1 suficientemente n\u00edtidas. Tais respostas, todavia, retroagem sobre a \u201cordem da reprodu\u00e7\u00e3o sociometab\u00f3lica do capital\u201d, afetando a viabilidade da reprodu\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio tardo-capitalismo e trazem \u00e0 superf\u00edcie \u201ca ativa\u00e7\u00e3o dos limites absolutos do capital\u201d <sup><sup>lxii<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese<em>, nos \u00faltimos quarenta anos, o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista experimentou transforma\u00e7\u00f5es de monta<\/em>, que se refratam distintamente nas diversas forma\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-sociais em que se concretiza e que exigem instrumentos anal\u00edticos e heur\u00edsticos mais refinados. Ainda que se registrem pol\u00eamicas acerca da natureza e das complexas implica\u00e7\u00f5es dessas transforma\u00e7\u00f5es, bem como do ritmo em que levam o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista a aproximar-se dos seus limites estruturais, duas infer\u00eancias parecem-me inquestion\u00e1veis:<\/p>\n<p>1\u00aa. <em>nenhuma<\/em> dessas transforma\u00e7\u00f5es modificou a ess\u00eancia exploradora da rela\u00e7\u00e3o capital\/trabalho; pelo contr\u00e1rio, tal ess\u00eancia, conclusivamente planetarizada e universalizada, exponencia-se a cada dia;<\/p>\n<p>2\u00aa. a ordem do capital esgotou completamente as suas potencialidades progressistas, constituindo-se, contemporaneamente, em vetor de <em>travagem e revers\u00e3o<\/em> de todas as conquistas civilizat\u00f3rias.<\/p>\n<p>A primeira infer\u00eancia revela-se mediante v\u00e1rios indicadores: as <em>jornadas de trabalho prolongadas<\/em> para aqueles que conservam seus empregos (extens\u00e3o que envolve todos os setores de atividades econ\u00f4micas \u2013 para retomar a superficial e conhecida tipologia dos \u201csetores econ\u00f4micos\u201d de Colin Clark: o \u201cprim\u00e1rio\u201d, o \u201csecund\u00e1rio\u201d e o \u201cterci\u00e1rio\u201d), a <em>intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho<\/em> (tamb\u00e9m nos tr\u00eas \u201csetores\u201d), a enorme defasagem entre o crescimento das rendas capitalistas e o crescimento da massa salarial etc., resultando na extra\u00e7\u00e3o articulada de mais-valia absoluta e relativa e na recupera\u00e7\u00e3o de formas de trabalho t\u00edpicas dos primeiros momentos da instaura\u00e7\u00e3o do capitalismo (trabalho a domic\u00edlio) e, mesmo, em formas de trabalho for\u00e7ado e, em casos extremos, mas n\u00e3o t\u00e3o excepcionais, escravo <sup><sup>lxiii<\/sup><\/sup>. A constata\u00e7\u00e3o mais \u00f3bvia desse incremento da explora\u00e7\u00e3o aparece, em todos os quadrantes do mundo, nos mal-chamados fen\u00f4menos de \u201cexclus\u00e3o social\u201d <sup><sup>lxiv<\/sup><\/sup>. Mas \u00e9 a segunda infer\u00eancia que me interessa aqui, posto que express\u00e3o da <em>barb\u00e1rie<\/em> tardo-capitalista.<\/p>\n<p>As concretas possibilidades civilizat\u00f3rias da ordem do capital sempre estiveram presentes nas an\u00e1lises de Marx (e de Engels) \u2013 e a expl\u00edcita determina\u00e7\u00e3o de tais possibilidades aparece com nitidez ao longo de toda a sua obra, dos <em>Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos de 1884<\/em>, passando pela <em>Mis\u00e9ria da filosofia <\/em>e pelo <em>Discurso sobre o problema do livre-c\u00e2mbio<\/em>, aos \u00faltimos textos aut\u00f3grafos. A gigantesca transforma\u00e7\u00e3o do mundo operada pela burguesia revolucion\u00e1ria \u00e9 objeto de um trato em tom quase eleg\u00edaco no <em>Manifesto do partido comunista<\/em>; a instaura\u00e7\u00e3o do capitalismo abre um extraordin\u00e1rio horizonte de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, que permite a otimiza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o sociedade\/natureza; a cria\u00e7\u00e3o do mercado mundial instaura a alternativa do g\u00eanero humano tomar consci\u00eancia da sua unidade; viabiliza-se uma literatura universal; realiza-se a emancipa\u00e7\u00e3o <em>pol\u00edtica<\/em> dos homens e a ordem burguesa engendra a sua nega\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a possibilidade concreta da sua supera\u00e7\u00e3o, da supera\u00e7\u00e3o da <em>pr\u00e9-hist\u00f3ria<\/em> da humanidade, mediante o protagonismo de uma de suas cria\u00e7\u00f5es \u2013 o proletariado \u2013 na revolu\u00e7\u00e3o que abre o passo \u00e0 sociedade fundada \u201cna livre associa\u00e7\u00e3o de livres produtores\u201d, \u201conde o livre desenvolvimento de cada um \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para o livre desenvolvimento de todos\u201d.<\/p>\n<p>Mas as possibilidades civilizat\u00f3rias da ordem do capital \u2013 como \u00e9 pr\u00f3prio destas possibilidades em <em>toda organiza\u00e7\u00e3o societ\u00e1ria embasada na exist\u00eancia de classes sociais<\/em> \u2013 foram apreendidas por Marx na sua contraditoriedade dial\u00e9tica: <em>a \u201cmiss\u00e3o civilizat\u00f3ria\u201d da burguesia realizou-se, ela mesma, por meios b\u00e1rbaros<\/em>. A an\u00e1lise da <em>acumula\u00e7\u00e3o primitiva<\/em> est\u00e1 longe de ser a mais exemplar das elabora\u00e7\u00f5es de Marx sobre a inextrinc\u00e1vel dial\u00e9tica civiliza\u00e7\u00e3o\/barb\u00e1rie que se processa no marco da ordem do capital \u2013 basta evocar outras passagens d\u2019<em>O capital<\/em> ou dos c\u00e9lebres manuscritos de 1857\/1858, os <em>Gr\u00fcndrisse<\/em>&#8230;, para documentar que, na vis\u00e3o marxiana, desenvolvimento capitalista \u00e9 avan\u00e7o civilizat\u00f3rio fundado na barb\u00e1rie <sup><sup>lxv<\/sup><\/sup>, verific\u00e1vel <em>inclusive no tocante \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da natureza <\/em><sup><sup>lxvi<\/sup><\/sup>. E se o otimismo revolucion\u00e1rio de Marx \u2013 nada ut\u00f3pico, antes embasado na sua apaixonada convic\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-pol\u00edtica do \u00eaxito do protagonismo revolucion\u00e1rio do proletariado \u2013 levou-o sempre a apostar na solu\u00e7\u00e3o positiva que a humanidade encontraria na ultrapassagem da sociedade burguesa, nem por isto est\u00e1 descartada a possibilidade da vit\u00f3ria da barb\u00e1rie <sup><sup>lxvii<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>Ora, o que a mim me parece \u00e9 que <em>o \u00faltimo ter\u00e7o do s\u00e9culo XX assinala o exaurimento das possibilidades civilizat\u00f3rias da ordem do capital<\/em>. Em <em>todos<\/em> os n\u00edveis da vida social, a ordem tardia do capital n\u00e3o tem mais condi\u00e7\u00f5es de propiciar quaisquer alternativas progressistas para a massa dos trabalhadores (num sentido mais geral, para a massa dos que s\u00f3 disp\u00f5em da sua for\u00e7a de trabalho) e para a humanidade. O fundamento \u00faltimo desta verdadeira muta\u00e7\u00e3o na din\u00e2mica do capital reside no que o Prof. M\u00e9sz\u00e1ros vem caracterizando como a especificidade do tardo-capitalismo: a <em>produ\u00e7\u00e3o destrutiva<\/em>, que presentifica a <em>crise estrutural do capital<\/em> <sup><sup>lxviii<\/sup><\/sup>. Todos os fen\u00f4menos e processos em curso na ordem do capital nos \u00faltimos vinte e cinco anos, atrav\u00e9s de complexas redes e sistemas de media\u00e7\u00e3o \u2013 que exigem investiga\u00e7\u00f5es determinadas e concretas para a sua identifica\u00e7\u00e3o e a compreens\u00e3o da sua complicada articula\u00e7\u00e3o \u2013, est\u00e3o vinculados a esta transforma\u00e7\u00e3o substantiva. Eles afetam a totalidade das inst\u00e2ncias constitutivas da vida social em escala planet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Consequentemente, \u00e9 largo o leque de fen\u00f4menos contempor\u00e2neos que indicam o exaurimento das possibilidades civilizat\u00f3rias da ordem tardia do capital \u2013 ou, para diz\u00ea-lo de outro modo, para atestar que esta ordem s\u00f3 tem a oferecer, contemporaneamente, solu\u00e7\u00f5es barbarizantes para a vida social <sup><sup>lxix<\/sup><\/sup>. Poder-se-iam arrolar v\u00e1rios desses fen\u00f4menos, da <em>financeiriza\u00e7\u00e3o especulativa e parasit\u00e1ria<\/em> do tardo-capitalismo e sua economia do <em>desperd\u00edcio <\/em>e da <em>obsolesc\u00eancia programada<\/em>, passando pelas tentativas de centraliza\u00e7\u00e3o monopolista da <em>biodiversidade <\/em>e pelos <em>crimes ambientais <\/em><sup><sup>lxx<\/sup><\/sup> e alcan\u00e7ando a esfera da <em>cultura<\/em> \u2013 aqui, jamais a <em>decad\u00eancia ideol\u00f3gica <\/em>atingiu tal grau de profundidade <sup><sup>lxxi<\/sup><\/sup> e a manipula\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias pela m\u00eddia atingiu tal magnitude (com todas as suas consequ\u00eancias no plano pol\u00edtico imediato). Limitar-me-ei a duas alus\u00f5es, que nos remetem \u00e0 forma do enfrentamento contempor\u00e2neo da (velha e de suas novas express\u00f5es) \u201cquest\u00e3o social\u201d.<\/p>\n<p>Sabe-se que a guerra foi, ao longo de todo o s\u00e9culo XX, uma resposta auto-reprodutiva do capitalismo. Al\u00e9m de a guerra operar como uma sa\u00edda provis\u00f3ria para as suas crises, mediante a destrui\u00e7\u00e3o massiva de for\u00e7as produtivas, as atividades econ\u00f4micas ligadas \u00e0 guerra \u2013 a <em>ind\u00fastria b\u00e9lica <\/em>\u2013 sempre constitu\u00edram um elemento dinamizador da economia capitalista (como o demonstraram, a seu tempo, in\u00fameros estudiosos marxistas <sup><sup>lxxii<\/sup><\/sup>), sem o qual as taxas de ociosidade industrial seriam insuport\u00e1veis e o desemprego alcan\u00e7aria cifras alt\u00edssimas. No tardo-capitalismo (ou, para usar da excelente met\u00e1fora de Samir Amin, no \u201ccapitalismo senil\u201d), esta funcionalidade n\u00e3o s\u00f3 se mant\u00e9m, mas se acentua, inclusive porque, na verifica\u00e7\u00e3o de Chossudovski, \u201ca guerra e a globaliza\u00e7\u00e3o caminham juntas\u201d <sup><sup>lxxiii<\/sup><\/sup>. Entretanto, se a guerra, como tal, apresentou-se no s\u00e9culo XX como um fen\u00f4meno que excedeu completamente o teatro e o \u00e2mbito dos <em>combates<\/em>, envolvendo muito mais para al\u00e9m deles <sup><sup>lxxiv<\/sup><\/sup>, o que agora se verifica \u00e9 que o belicismo passa a incluir as pol\u00edticas de <em>seguran\u00e7a p\u00fablica <\/em>em per\u00edodos de paz formal e se estende como <em>neg\u00f3cio capitalista privado <\/em>\u00e0 vida na paz e na guerra <sup><sup>lxxv<\/sup><\/sup>, configurando a emerg\u00eancia da <em>militariza\u00e7\u00e3o da vida social<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 que, no marco do que L. Wacquant observou como sendo a substitui\u00e7\u00e3o do \u201cEstado de bem-estar social\u201d pelo \u201cEstado penal\u201d <sup><sup>lxxvi<\/sup><\/sup>, a repress\u00e3o estatal se generaliza sobre as \u201cclasses perigosas\u201d, ao mesmo tempo em que avulta a utiliza\u00e7\u00e3o das \u201cempresas de seguran\u00e7a\u201d e de \u201cvigil\u00e2ncia\u201d privadas \u2013 assim como a produ\u00e7\u00e3o industrial, de alta tecnologia, vinculada a estes \u201cnovos neg\u00f3cios\u201d (e n\u00e3o se esque\u00e7a do processo de privatiza\u00e7\u00e3o dos estabelecimentos penais). Tais empresas crescem 300% ao ano, desde 2001 \u2013 a maioria delas nos Estados Unidos <sup><sup>lxxvii<\/sup><\/sup>. A repress\u00e3o deixou de ser uma excepcionalidade \u2013 vem se tornando um estado de guerra <em>permanente<\/em>, dirigido aos pobres, aos \u201cdesempregados estruturais\u201d, aos \u201ctrabalhadores informais\u201d, estado de guerra que se instala progressivamente nos pa\u00edses centrais e nos pa\u00edses perif\u00e9ricos: na lista dos pa\u00edses que atualmente possuem a maior quantidade de encarcerados no mundo, os quatro primeiros s\u00e3o os Estados Unidos, a China, a R\u00fassia e o Brasil. Trata-se, por\u00e9m, de um <em>estado de guerra <\/em>permanente, cuja natureza se exprime menos no encarceramento massivo que no <em>exterm\u00ednio<\/em> executado em nome da lei \u2013 no Brasil, por exemplo, entre 1979 e 2008, morreram, em confronto com representantes da lei, <em>quase 1 milh\u00e3o de pessoas<\/em>, n\u00famero que pode ser comparado ao de pa\u00edses expressamente em guerra, como Angola, que demorou 27 anos para chegar a cifra semelhante <sup><sup>lxxviii<\/sup><\/sup>. Em poucas palavras: crescentemente, <em>parece<\/em> que s\u00f3 a hipertrofia da dimens\u00e3o\/a\u00e7\u00e3o repressiva do Estado burgu\u00eas pode dar conta da <em>popula\u00e7\u00e3o excedent\u00e1ria <\/em>em face das necessidades do capital(Marx). Mas esta \u00e9 apenas uma apar\u00eancia.<\/p>\n<p>De fato, \u00e0 hipertrofia da dimens\u00e3o\/a\u00e7\u00e3o repressiva do Estado burgu\u00eas conjuga-se outra dimens\u00e3o, coesiva e legitimadora: o <em>novo assistencialismo<\/em>, a <em>nova filantropia<\/em> que satura as v\u00e1rias iniciativas \u2013 estatais e privadas, mediante as chamadas \u201cparcerias p\u00fablico-privado\u201d \u2013 que configuram as pol\u00edticas sociais implementadas desde os anos 1980\/1990 para enfrentar o quadro da pauperiza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, isto \u00e9, da \u201cquest\u00e3o social\u201d, \u201cnova\u201d e\/ou \u201cvelha\u201d <sup><sup>lxxix<\/sup><\/sup>. J\u00e1 n\u00e3o se est\u00e1 diante da tradicional filantropia (de base confessional e\/ou laica) que marcou os modelos de assist\u00eancia social que emergiram no s\u00e9culo XIX nem, muito menos, diante dos programas protetores ou de promo\u00e7\u00e3o social que vieram a institucionalizar-se a partir do Estado de bem-estar social. A pol\u00edtica social dirigida aos agora qualificados como <em>exclu\u00eddos<\/em> se perfila, reivindicando-se como inscrita no dom\u00ednio dos <em>direitos<\/em>, enquanto espec\u00edfica do tardo-capitalismo: n\u00e3o tem nem mesmo a formal pretens\u00e3o de erradicar a pobreza, mas de enfrentar apenas a pen\u00faria mais extrema, a indig\u00eancia \u2013 conforme seu pr\u00f3prio discurso, pretende confrontar-se com a <em>pobreza absoluta<\/em> (vale dizer, a mis\u00e9ria). O <em>minimalismo <\/em>desta proposi\u00e7\u00e3o \u2013 gritante se comparado aos objetivos, ali\u00e1s nunca alcan\u00e7ados, dos programas de prote\u00e7\u00e3o\/promo\u00e7\u00e3o social elaborados e implementados no per\u00edodo das \u201ctr\u00eas d\u00e9cadas gloriosas\u201d atr\u00e1s referidas \u2013 pode ser apreciado na \u201cDeclara\u00e7\u00e3o do Mil\u00eanio\u201d (2000), consensuada na <em>Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/em>: atrav\u00e9s dos \u201cobjetivos de desenvolvimento do mil\u00eanio\u201d, h\u00e1 a proposta\/promessa de \u201clibertar os nossos semelhantes, homens, mulheres e crian\u00e7as, das condi\u00e7\u00f5es abjetas e desumanas da<em> extrema pobreza<\/em>\u201d (it\u00e1licos meus); mais precisamente, a proposta \u00e9, em 15 anos (ou seja, at\u00e9 2015), <em>reduzir a extrema pobreza pela metade<\/em> \u2013 este \u00e9 o primeiro objetivo do desenvolvimento do mil\u00eanio: <em>reduzir pela metade a percentagem de pessoas que vivem com menos de um d\u00f3lar por dia<\/em> <sup><sup>lxxx<\/sup><\/sup>. Apesar deste espantoso minimalismo frente a uma \u201cquest\u00e3o social\u201d maximizada, os v\u00e1rios relat\u00f3rios sobre o \u201cdesenvolvimento humano\u201d, regularmente preparados pelo PNUD, ainda que enfatizem \u201cganhos\u201d deste programa, deixam claro que seus objetivos \u2013 reitere-se: minimalistas \u2013 dificilmente ser\u00e3o alcan\u00e7ados.<\/p>\n<p>Pois \u00e9 precisamente este minimalismo que tem factualmente caracterizado os v\u00e1rios programas que, por via de transfer\u00eancias de renda \u2013 \u201cprogramas de rendas m\u00ednimas\u201d \u2013, t\u00eam sido implementados em alguns pa\u00edses capitalistas centrais e em muitos pa\u00edses perif\u00e9ricos. A experi\u00eancia de mais de uma d\u00e9cada, especialmente na Am\u00e9rica Latina <sup><sup>lxxxi<\/sup><\/sup>, \u00e9 muito pouco promissora: na medida em que n\u00e3o se conjugam efetivamente com transforma\u00e7\u00f5es estruturais (e esta \u00e9 uma das condi\u00e7\u00f5es <em>pol\u00edticas<\/em> para que o tardo-capitalismo os suporte), eles acabam por cronificar-se como programas emergenciais e basicamente assistencialistas.<\/p>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o org\u00e2nica de repress\u00e3o \u00e0s \u201cclasses perigosas\u201d e assistencializa\u00e7\u00e3o minimalista das pol\u00edticas sociais dirigidas ao enfrentamento da \u201cquest\u00e3o social\u201d constitui uma face contempor\u00e2nea da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p><strong>4<\/strong><\/p>\n<p>Vale, a esta altura, quase como um par\u00eantese, uma breve remiss\u00e3o ao Brasil \u2013 pois meu pa\u00eds \u00e9 um verdadeiro laborat\u00f3rio para uma an\u00e1lise da imbrica\u00e7\u00e3o entre <em>militariza\u00e7\u00e3o da vida social<\/em> e <em>novo assistencialismo<\/em>. Esta, naturalmente, n\u00e3o \u00e9 a oportunidade para tal an\u00e1lise, mas oferecerei uns poucos elementos, ilustrativos e pol\u00eamicos, daquela imbrica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No momento em que redijo esta comunica\u00e7\u00e3o, o Presidente Lula da Silva tem, segundo os institutos de pesquisa, 78% de aprova\u00e7\u00e3o popular. N\u00e3o \u00e9 somente seu par norte-americano, Barak Obama, que o considera <em>o cara<\/em> \u2013 tamb\u00e9m a chamada \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d brasileira considera-o assim. N\u00e3o h\u00e1 exagero em afirmar que, comparado a todos os Presidentes da Rep\u00fablica brasileiros anteriores (desde 1889), Lula da Silva \u00e9 aquele que, no exerc\u00edcio do cargo, mais foi aclamado pela popula\u00e7\u00e3o e, ainda, mais foi reconhecido no exterior \u2013 e, no exterior, tamb\u00e9m visto como um homem de esquerda.<\/p>\n<p>O verdadeiro <em>charme <\/em>que envolve a figura de Lula da Silva entre os c\u00edrculos de esquerda no exterior do Brasil n\u00e3o \u00e9 gratuito: de uma parte, resulta de uma trajet\u00f3ria iniciada nos estertores da ditadura (1964-1985), no curso da qual o jovem l\u00edder sindical fundou um partido (o <em>Partido dos Trabalhadores<\/em>, o PT)com ra\u00edzes oper\u00e1rias, tornou-o um partido de massas (numa conjuntura em que, em todo o mundo, organiza\u00e7\u00f5es semelhantes entravam em crise) e, com um discurso vaga e aparentemente anticapitalista, chegou \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. De outra parte, resulta da firme oposi\u00e7\u00e3o que manteve \u00e0s propostas neoliberais conduzidas pelos dois governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e da pol\u00edtica externa independente que veio sustentando desde 2003 <sup><sup>lxxxii<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>De fato, por\u00e9m, o partido criado por Lula da Silva na abertura dos anos 1980 tem pouco a ver com o PT da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI \u2013 como o demonstram as mudan\u00e7as na sua base social de apoio e as divis\u00f5es internas que sofreu. Da sua funda\u00e7\u00e3o \u00e0 sua chegada ao governo central, o PT experimentou um verdadeiro processo de <em>transformismo <\/em><sup><sup>lxxxiii<\/sup><\/sup>, de que decorreram, inclusive, defec\u00e7\u00f5es de grupos e personalidades de consider\u00e1vel influ\u00eancia, especialmente intelectuais <sup><sup>lxxxiv<\/sup><\/sup>. A caracteriza\u00e7\u00e3o de Lula da Silva e da dire\u00e7\u00e3o do seu partido como sendo \u201cde esquerda\u201d s\u00f3 tem sentido, atualmente, para a direita e as elites burguesas brasileiras (que cultivam para com ambos, Lula da Silva e seu partido, um aut\u00eantico \u00f3dio de classe) e para aqueles analistas que ainda situam no espectro da esquerda contempor\u00e2nea as express\u00f5es da social-democracia tardia e <em>possibilista<\/em> (que, em contextos diferentes, tiveram representatividade em figuras como M\u00e1rio Soares, Felipe Gonz\u00e1lez, Tony Blair <em>et alii<\/em>).<\/p>\n<p>Com efeito, durante seu primeiro mandato (2003-2007), Lula da Silva deu plena continuidade \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o macro-econ\u00f4mica implantada por Fernando Henrique Cardoso e seu <em>Partido da Social-Democracia Brasileira<\/em>\/PSDB \u2013 entregando, por exemplo, a dire\u00e7\u00e3o do Banco Central a um ex-servidor do Bank of Boston (homem, portanto, inteiramente confi\u00e1vel ao \u201cmercado\u201d e aos \u201cinvestidores\u201d) e implementando a <em>Lei de Responsabilidade Fiscal<\/em>, exigida por institui\u00e7\u00f5es como o FMI e o Banco Mundial <sup><sup>lxxxv<\/sup><\/sup>. Se n\u00e3o avan\u00e7ou nas privatiza\u00e7\u00f5es \u2013 processo escandaloso sob a presid\u00eancia de Cardoso \u2013, conduziu a n\u00edvel mais profundo a reforma previdenci\u00e1ria, que Cardoso n\u00e3o p\u00f4de levar a cabo precisamente pela oposi\u00e7\u00e3o parlamentar antes comandada pelo PT. Governando com uma base parlamentar extremamente ampla (uma coaliz\u00e3o que agrupa interesses pol\u00edticos francamente fisiol\u00f3gicos e oportunistas), o primeiro mandato de Lula da Silva praticamente imobilizou a oposi\u00e7\u00e3o (liderada pelo PSDB) na medida mesma em que roubou-lhe o programa econ\u00f4mico-social, que, naturalmente, envolvia o rigoroso pagamento da d\u00edvida p\u00fablica (externa e interna). H\u00e1 que notar, por\u00e9m, uma diferen\u00e7a pol\u00edtica importante, e que n\u00e3o pode ser menosprezada, entre Lula da Silva e seu predecessor \u2013 a sua rela\u00e7\u00e3o com os movimentos sociais: aqueles que Lula da Silva n\u00e3o conseguiu cooptar para seu governo (e Lula da Silva demonstrou-se um mestre na integra\u00e7\u00e3o de opositores ao aparato governamental) n\u00e3o foram criminalizados, ainda que setores da coaliz\u00e3o governamental pressionassem para tanto.<\/p>\n<p>Reeleito em 2006, Lula da Silva, sem ferir a macro-orienta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que vinha desde 1995 e que prolongou e aprofundou em seu primeiro mandato <sup><sup>lxxxvi<\/sup><\/sup>, introduziu-lhe um diferencial, que inaugura uma esp\u00e9cie de neoliberalismo <em>soft<\/em>,que o Professor Marcelo Braz, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, chama de \u201cnovo desenvolvimentismo\u201d, vis\u00edvel a partir de 2007\/2008: atrav\u00e9s do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES), o governo federal passou bancar um forte processo de centraliza\u00e7\u00e3o\/concentra\u00e7\u00e3o de capital, oferecendo vultosos recursos financeiros a grandes grupos capitalistas para investimentos no pa\u00eds e no exterior (garantindo, inclusive, not\u00e1vel expans\u00e3o de corpora\u00e7\u00f5es brasileiras que j\u00e1 operavam no estrangeiro <sup><sup>lxxxvii<\/sup><\/sup>). E, no plano interno, atrav\u00e9s de iniciativas como o <em>Plano de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento <\/em>(PAC), reverteu-se a curva descendente (que vinha do primeiro governo Cardoso) do crescimento econ\u00f4mico at\u00e9 ent\u00e3o verific\u00e1vel, malgrado os impactos da crise internacional de 2008, que se manifestaram no pa\u00eds no ano seguinte.<\/p>\n<p>Mantidos tais par\u00e2metros, n\u00e3o pode surpreender que, nos oito anos da presid\u00eancia de Lula da Silva, o sistema banc\u00e1rio brasileiro tenha registrado seus mais altos ganhos, que o agro-neg\u00f3cio (\u201cagro-business\u201d) tenha se convertido no modelo do desenvolvimento agr\u00edcola brasileiro <sup><sup>lxxxviii<\/sup><\/sup>, que a Bolsa de Valores tenha experimentado o que a grande m\u00eddia designou como uma \u201cera de ouro\u201d (a Bolsa de Valores de S\u00e3o Paulo\/BOVESPA subiu 523% em oito anos, com o maior ganho entre os 12 principais mercados do mundo), que os possuidores (os rentistas, nacionais e estrangeiros) de t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica tenham recebido pontualmente os maiores juros em vigor no mundo e que as ag\u00eancias internacionais que avaliam pa\u00edses \u201cseguros para investimentos\u201d lhe tenham conferido \u201cboas notas\u201d e que economistas a servi\u00e7o do grande capital (nacional e transnacional) considerem que o trip\u00e9 da economia brasileira \u2013 precisamente a f\u00f3rmula defendida pelo FMI e o Banco Mundial: <em>o super\u00e1vit prim\u00e1rio para o pagamento de juros, as metas da infla\u00e7\u00e3o e o c\u00e2mbio flutuante<\/em> \u2013 est\u00e1 \u201cconsolidado\u201d. Igualmente, n\u00e3o pode surpreender o apoio massivo das camadas populares: houve uma discreta recupera\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo e, nos \u00faltimos tr\u00eas anos, uma amplia\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito que estimulou fortemente o mercado interno, ademais de uma pol\u00edtica assistencialista que nenhum dos seus opositores admite mudar (seja por seu baixo custo, seja pelo grau de legitima\u00e7\u00e3o que tem conferido ao governo). Em suma: n\u00e3o pode surpreender a exist\u00eancia, hoje, no Brasil, de algo como o <em>lulismo<\/em>.<\/p>\n<p>A mencionada pol\u00edtica assistencialista, exemplo do minimalismo a que j\u00e1 me referi, est\u00e1 configurada (ainda que n\u00e3o se esgote nele <sup><sup>lxxxix<\/sup><\/sup>) no <em>Programa Bolsa Fam\u00edlia<\/em>, que constitui a marca registrada dos governos Lula da Silva e \u00e9 amplamente publicitada tamb\u00e9m no exterior. O programa, criado em outubro de 2003 e regulamentado em setembro de 2004, unifica os procedimentos de gest\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o de transfer\u00eancia de renda com condicionalidades e dirige-se a fam\u00edlias \u201cem situa\u00e7\u00e3o de pobreza\u201d (renda mensal <em>per capita<\/em> de U$ 30,77 a U$ 61,53) e de \u201cextrema pobreza\u201d (renda mensal <em>per capita<\/em> at\u00e9 U$ 30,76). Trata-se de um programa cujo custo, comparado ao conjunto or\u00e7ament\u00e1rio da Uni\u00e3o, \u00e9 muito baixo: <em>em 2009, n\u00e3o passou da casa dos 12,4 bilh\u00f5es de reais \u2013 enquanto, por exemplo, as despesas com o servi\u00e7o da d\u00edvida (juros mais amortiza\u00e7\u00f5es, exclusive o refinanciamento) consumiram 380 bilh\u00f5es de reais<\/em> <sup><sup>xc<\/sup><\/sup>. Envolve quase 13 milh\u00f5es de fam\u00edlias (urbanas e rurais) e seu impacto sobre os assistidos \u00e9 real: mitiga-lhes a indig\u00eancia e lhes garante ao menos a reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. Mas o seu impacto e o do conjunto das pol\u00edticas econ\u00f4mica e social dos governos Lula da Silva sobre a desigualdade social \u00e9 m\u00ednimo: a desigualdade decresce muito lentamente no pa\u00eds \u2013 de 2001 a 2008, o \u00edndice de Gini evoluiu de 0,594 para 0,544. De fato, a concentra\u00e7\u00e3o da renda no Brasil \u2013 impressionante sob todos os pontos de vista \u2013 decorre da concentra\u00e7\u00e3o da propriedade e da concentra\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico; qualquer estrat\u00e9gia s\u00e9ria para desconcentrar a renda tem que enfrentar a concentra\u00e7\u00e3o da propriedade e do poder e este enfrentamento est\u00e1 completamente fora dos projetos e das pr\u00e1ticas de Lula da Silva.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 incontest\u00e1vel a satisfa\u00e7\u00e3o dos setores majorit\u00e1rios da sociedade brasileira com os dois governos Lula da Silva. Nenhum observador atento da realidade do Brasil pode negar que o apoio a Lula da Silva envolve a oligarquia financeira nacional e transnacional, boa parte das camadas m\u00e9dias urbanas, os trabalhadores organizados na <em>Central \u00danica dos Trabalhadores<\/em> (a CUT, controlada pelo PT) e os fam\u00e9licos desorganizados que se beneficiam do assistencialismo governamental. No caso das oligarquias financeiras e os ricos, compreende-se o contentamento: nunca ganharam tanto (exceto nos tempos da ditadura, especialmente entre 1969 e 1975) como nos anos Lula da Silva. Para a massa trabalhadora (e mesmo para o contingente de \u201cinformais\u201d e desempregados), al\u00e9m das pequenas, mas efetivas, melhoras nas suas condi\u00e7\u00f5es de vida, conta \u2013 e num pa\u00eds de tradi\u00e7\u00f5es fortemente elitistas e olig\u00e1rquicas como o Brasil \u2013 o significado simb\u00f3lico de um ex-trabalhador na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica (significado que Lula da Silva manipula com invulgar compet\u00eancia). Tudo indica que o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais, a realizar-se dentro de pouco, consagrar\u00e1 a candidata que Lula da Silva imp\u00f4s a seu partido, a ex-ministra Dilma Roussef.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, foi uma surpresa o resultado eleitoral do primeiro turno \u2013 a coliga\u00e7\u00e3o conservadora-direitista que sustenta a candidatura de Jos\u00e9 Serra s\u00f3 vai \u00e0 segunda volta pela espantosa press\u00e3o e unanimidade da grande m\u00eddia, que conduziu contra Lula da Silva e sua candidata uma campanha de desinforma\u00e7\u00e3o e at\u00e9 de mentiras como poucas vezes se tem visto no pa\u00eds. Esta campanha revela a ambig\u00fcidade dos segmentos capitalistas em face de Lula da Silva: do ponto de vista estritamente econ\u00f4mico, seus interesses foram muito bem preservados nos oito anos de mandato do Presidente; mas seu desprezo pelas massas que se identificam com ele \u2013 express\u00e3o de um \u00f3dio de classe dificilmente ocult\u00e1vel \u2013 leva-os aos bra\u00e7os de uma proposta pol\u00edtica (a encarnada em Jos\u00e9 Serra, homem do PSDB) bastante diferente, ainda que, no plano econ\u00f4mico, pouco diversa da que ter\u00e1 continuidade com Dilma Roussef, se eleita. Ali\u00e1s, o processo eleitoral \u2013 das mais despolitizados dos \u00faltimos anos \u2013 mostrou o quanto as concep\u00e7\u00f5es macro-econ\u00f4micas dos dois candidatos se aproximam.<\/p>\n<p>Mas a campanha refletiu o clima triunfalista e baluartista que Lula da Silva conseguiu instaurar no pa\u00eds: <em>nenhum dos grandes problemas nacionais foi objeto de debate<\/em>. Nem mesmo as efetivas debilidades e in\u00e9pcias dos governos Lula da Silva foram trazidas \u00e0 luz pelos seus oponentes burgueses \u2013 somente os partidos realmente de esquerda (Partido Comunista Brasileiro\/PCB, Partido Socialismo e Liberdade\/P-SOL e Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado\/PSTU) afloraram a problem\u00e1tica brasileira, mas com m\u00ednima repercuss\u00e3o entre o eleitorado <sup><sup>xci<\/sup><\/sup>. N\u00e3o se enfrentou, por exemplo, o fato de 20,3% da popula\u00e7\u00e3o brasileira permanecer v\u00edtima do analfabetismo funcional e de apenas 37,9% dos brasileiros entre 18 e 24 anos terem 11 anos de escolaridade; de a infra-estrutura do pa\u00eds (portos, aeroportos e estradas \u2013 estas, 58,8% em estado regular, ruim ou p\u00e9ssimo) estar pr\u00f3xima do colapso; de somente 62,6% dos domic\u00edlios urbanos <sup><sup>xcii<\/sup><\/sup> terem, ao mesmo tempo, abastecimento de \u00e1gua, rede coletora de esgoto e coleta de lixo direta; de a aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria \u00e0 sa\u00fade s\u00f3 cobrir 40% da popula\u00e7\u00e3o e de o or\u00e7amento p\u00fablico para a sa\u00fade equivaler anualmente a 3,7% do PIB (percentual inferior ao de pa\u00edses como Argentina, Uruguai, Chile, Costa Rica e Panam\u00e1); de o sistema tribut\u00e1rio permanecer um dos mais regressivos do mundo, com mais de 40% da carga tribut\u00e1ria total sendo extra\u00edda da popula\u00e7\u00e3o com renda menor que dois sal\u00e1rios m\u00ednimos&#8230; <sup><sup>xciii<\/sup><\/sup>. Evidentemente, esta problem\u00e1tica, enquanto tal, n\u00e3o pode ser sumariamente debitada aos dois governos de Lula da Silva, porquanto sinaliza processos hipotecados \u00e0 heran\u00e7a da ditadura \u2013 entretanto, a in\u00e9pcia e a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos seus governos t\u00eam responsabilidade no seu estado atual <sup><sup>xciv<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a quest\u00e3o da <em>seguran\u00e7a p\u00fablica<\/em> n\u00e3o foi objeto de debate s\u00e9rio, dada a despolitiza\u00e7\u00e3o de que enfermou a campanha eleitoral. Se, nela, o minimalismo assistencial foi um dos carros-chefe do triunfalismo e do baluartismo oficiais, a discuss\u00e3o da militariza\u00e7\u00e3o da vida social foi apenas perfunctoriamente mencionada <sup><sup>xcv<\/sup><\/sup>, ainda que <em>lulistas <\/em>e oposi\u00e7\u00e3o tenham insistido na necessidade de instrumentos fortes para garantir a \u201cpaz\u201d. Mas o estado de <em>guerra permanente<\/em> e o <em>exterm\u00ednio<\/em> anteriormente mencionados j\u00e1 se instalaram nas principais metr\u00f3poles do pa\u00eds <sup><sup>xcvi<\/sup><\/sup> (nas regi\u00f5es mais afastadas e interioranas, ainda \u00e9 a tradicional <em>jagun\u00e7ada <\/em>e os \u201csindicatos do crime\u201d que executam pobres e marginais), assim como o cresce o <em>encarceramento<\/em> \u2013 dados do <em>Departamento Penitenci\u00e1rio Nacional<\/em> indicam 140.000 encarcerados em 1995, 361.500 em 2005 e, no primeiro semestre de 2009, 469.807 (encarcerados em condi\u00e7\u00f5es geralmente infra-humanas, que provocam freq\u00fcentes motins de inaudita viol\u00eancia).<\/p>\n<p>O Rio de Janeiro \u2013 onde atualmente o \u00edndice de mortes por viol\u00eancia \u00e9 muito alto: 50 por 100.000 habitantes (dados dos Estados Unidos apontam para 6 mortes por 100.000 habitantes) \u2013 \u00e9 exemplar no que toca \u00e0 guerra permanente e ao exterm\u00ednio. Quanto \u00e0 primeira, tornou-se emblem\u00e1tica a atua\u00e7\u00e3o do <em>Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Especiais<\/em>\/BOPE da Pol\u00edcia Militar do Estado do Rio de Janeiro, tropa de elite que opera nas favelas com extrema brutalidade <sup><sup>xcvii<\/sup><\/sup>; quanto ao segundo, basta assinalar que, conforme estudos de In\u00e1cio Cano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, as pol\u00edcias civil e militar do Rio de Janeiro mataram, entre janeiro de 1998 e setembro de 2009, 10.216 pessoas (o que d\u00e1 uma <em>m\u00e9dia de 2,4 mortos\/dia<\/em>). O crescimento da a\u00e7\u00e3o exterminadora pode ser verificado se se compara, como o fez a pesquisadora Ana Paula Miranda, a rela\u00e7\u00e3o de presos em flagrante pela pol\u00edcia com os mortos \u201cem caso de resist\u00eancia\u201d: 2000: 75,4 <em>x <\/em>1; 2001: 58,2 <em>x <\/em>1; 2002: 27,5 <em>x <\/em>1; 2003: 20,4 <em>x <\/em>1; 2004: 21,8 <em>x <\/em>1; 2005: 16,7 <em>x <\/em>1; 2006: 17,3 <em>x <\/em>1; 2007: 12,2 <em>x <\/em>1; 2008: 15,2 <em>x <\/em>1<sup><sup>xcviii<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>Desde 2008, uma nova pol\u00edtica de seguran\u00e7a vem sendo implementada: a que desloca a militariza\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio do <em>confronto direto<\/em> para a <em>ocupa\u00e7\u00e3o territorial<\/em>; \u00e1reas onde vivem popula\u00e7\u00f5es trabalhadoras de baixa e baix\u00edssima renda (favelas, \u201ccomunidades\u201d), exploradas e oprimidas por quadrilhas ou mil\u00edcias (frequentemente organizadas e comandadas por policiais), s\u00e3o ocupadas por <em>unidades de pol\u00edcia pacificadora<\/em>\/UPPs, que levam a \u201clei\u201d e a \u201cordem\u201d \u00e0queles locais. Ainda em experimenta\u00e7\u00e3o, esta estrat\u00e9gia est\u00e1 ligada diretamente a interesses econ\u00f4micos de valoriza\u00e7\u00e3o\/especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria <sup><sup>xcix<\/sup><\/sup> e tem sido saudada ardentemente por camadas m\u00e9dias e, inclusive, pelos pr\u00f3prios moradores desses locais \u2013 que, todavia, j\u00e1 come\u00e7am a sentir as primeiras consequ\u00eancias dos verdadeiros guetos em que se est\u00e3o convertendo as \u00e1reas ocupadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode generalizar para o Brasil o quadro pr\u00f3prio do Rio de Janeiro (ainda que a candidata de Lula da Silva, como observei, tenha explicitado em sua campanha que pretende promover a expans\u00e3o desta pol\u00edtica). Mas \u00e9 bastante prov\u00e1vel que as tend\u00eancias pr\u00f3prias a esta pol\u00edtica de seguran\u00e7a sirvam como padr\u00e3o nos pr\u00f3ximos anos. E mesmo que n\u00e3o se afirmem completamente, \u00e9 fato que, tamb\u00e9m no Brasil, o minimalismo assistencialista d\u00e1 o bra\u00e7o \u00e0 repress\u00e3o extra-econ\u00f4mica \u00e0s camadas pauperizadas.<\/p>\n<p><strong>A alternativa<\/strong><\/p>\n<p>Voltemos ao nosso tema central.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o b\u00e1rbara inscreve-se no fundamento do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista desde a sua g\u00eanese, mas combinou-se em escala diferencial, ao longo da explicita\u00e7\u00e3o das suas possibilidades, com a dimens\u00e3o civilizat\u00f3ria de que era originalmente portador. Quando tais possibilidades se explicitam plenamente \u2013 vale dizer, quando o sistema subsumido totalmente ao capital chega \u00e0 sua curva descendente e objetiva a sua crise estrutural, expressando-se na efetividade do tardo-capitalismo \u2013, a dimens\u00e3o civilizat\u00f3ria se esgota e o sistema se revela como barb\u00e1rie, <em>torna-se<\/em> b\u00e1rbaro. Este \u00e9 o est\u00e1gio atual da ordem do capital.<\/p>\n<p>A barb\u00e1rie capitalista \u00e9 omnilateral e polifac\u00e9tica \u2013 e \u00e9 ub\u00edqua: cont\u00e9m-se no arsenal termo-nuclear que pode aniquilar repentinamente todas as formas de vida sobre o planeta tanto quanto na lenta e cotidiana contamina\u00e7\u00e3o\/destrui\u00e7\u00e3o dos recursos h\u00eddricos, que pode igualmente inviabilizar a vida sobre a terra. Uma das suas m\u00faltiplas faces contempor\u00e2neas \u00e9 o <em>trato pol\u00edtico-institucional<\/em> que confere \u00e0s massas excedent\u00e1rias aos interesses imediatos do capital \u2013 trato consistente na articula\u00e7\u00e3o entre viol\u00eancia extra-econ\u00f4mica permanente e assistencialismo minimalista.<\/p>\n<p>Neste trato, estamos confrontados com processos e fen\u00f4menos qualitativamente diversos quer da combina\u00e7\u00e3o de borduna policial e confinamento dos pobres (recorde-se o capitalismo ingl\u00eas vitoriano e as suas <em>work houses<\/em>), quer dos programas de promo\u00e7\u00e3o\/integra\u00e7\u00e3o social do Estado de bem estar social. O que se tem \u00e9 a <em>administra\u00e7\u00e3o tardo-capitalista da mis\u00e9ria<\/em> \u2013 com seus meios pr\u00f3prios, instrumentos <em>high-tech<\/em> e o ex\u00e9rcito de especialistas e operadores (com destaque para cientistas e tecn\u00f3logos). Uma amostra do que ser\u00e1 o futuro \u2013 <em>se houver futuro<\/em> \u2013 imediato do tardo-capitalismo.<\/p>\n<p>A humanidade, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 irremissivelmente condenada a sucumbir \u00e0 barb\u00e1rie. Ela <em>pode<\/em> superar a barb\u00e1rie \u2013 e disp\u00f5e de uma \u00fanica via neste sentido: a supera\u00e7\u00e3o das formas de sociabilidade fundadas no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, a ultrapassagem das organiza\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias assentadas na propriedade privada dos meios fundamentais de produ\u00e7\u00e3o e na decis\u00e3o privada da aloca\u00e7\u00e3o do excedente econ\u00f4mico. Para n\u00e3o nos alongarmos, rep\u00f5e-se agora como atual, <em>e de modo dramaticamente atual<\/em>, a op\u00e7\u00e3o expressa na antiga f\u00f3rmula \u2013 socialismo ou barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Se a barb\u00e1rie \u00e9 a perspectiva <em>real e imediata<\/em>, o socialismo \u00e9 uma <em>alternativa poss\u00edvel<\/em> \u2013 e o poss\u00edvel \u00e9 tamb\u00e9m constitutivo do real, tem ra\u00edzes na realidade. O estoque de conhecimentos e a massa cr\u00edtica acumulados n\u00e3o s\u00e3o puros instrumentos da domina\u00e7\u00e3o do capital \u2013 podem ser mobilizados para a sua ultrapassagem. A barb\u00e1rie constrange, ret\u00e9m e reverte as for\u00e7as sociais que, no <em>mundo do trabalho <\/em>e no <em>mundo da cultura<\/em>, constituem objetivamente a nega\u00e7\u00e3o da ordem tardo-capitalista \u2013 mas n\u00e3o suprime tais for\u00e7as. Nestes dois n\u00edveis \u2013 conhecimento e for\u00e7a social \u2013 radicam a possibilidade do socialismo.<\/p>\n<p>Como articul\u00e1-los enquanto nega\u00e7\u00e3o da ordem e vetor criativo de uma outra ordem \u00e9 o <em>problema central (te\u00f3rico-pol\u00edtico e, pois, igualmente pr\u00e1tico) <\/em>do tempo presente e aqui n\u00e3o cabe mais que assinal\u00e1-lo. Seu equacionamento depende de uma tr\u00edplice e sincronizada opera\u00e7\u00e3o: a) <em>a renova\u00e7\u00e3o e o enriquecimento do nosso arsenal heur\u00edstico<\/em> \u2013 de fato, como queria o velho Luk\u00e1cs, um \u201crenascimento do marxismo\u201d, expurgado da heran\u00e7a stalinista e livre do doutrinarismo; b) <em>a constru\u00e7\u00e3o de uma nova forma-partido<\/em>, capaz de articular as for\u00e7as sociais (do trabalho e da cultura) com o n\u00facleo duro do proletariado contempor\u00e2neo \u2013 qualquer que seja o processo de supera\u00e7\u00e3o da ordem da barb\u00e1rie, ele n\u00e3o dispensar\u00e1 o protagonismo organizado deste proletariado; c) <em>a expressa ren\u00fancia a propor o socialismo como uma ordem transicional que, sem burguesia, reitera tra\u00e7os do mundo burgu\u00eas<\/em> (produtivismo, intimismo etc.) \u2013 a transi\u00e7\u00e3o socialista significa a instaura\u00e7\u00e3o de um novo estilo de vida social.<\/p>\n<p>Sem a realiza\u00e7\u00e3o desta tr\u00edplice opera\u00e7\u00e3o, caberia, como j\u00e1 fez algu\u00e9m, alterar a antiga formula\u00e7\u00e3o: j\u00e1 n\u00e3o dir\u00edamos <em>socialismo ou barb\u00e1rie<\/em> \u2013 dir\u00edamos <em>socialismo ou barb\u00e1rie, se tivermos sorte<\/em>.<\/p>\n<p>i. Cf. , por exemplo, P. Rosanvallon, <em>La nouvelle question sociale<\/em>. Paris: Seuil, 1995 e J.-P. Fitoussi e P. Rosanvallon, <em>Le nouvel \u00e2ge des in\u00e9galites<\/em>. Paris: Seuil, 1996.<\/p>\n<p>ii. Desde um legitimista franc\u00eas como Armand de Melun a um jovem revolucion\u00e1rio alem\u00e3o como F. Engels (cf. <em>A situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora na Inglaterra<\/em>. S. Paulo: Boitempo, 2010). Sintomaticamente, a express\u00e3o \u201cquest\u00e3o social\u201d surge quase ao mesmo tempo em que aparece, no vocabul\u00e1rio pol\u00edtico, a palavra <em>socialismo<\/em>.<\/p>\n<p>iii. O texto de Engels, referido na nota anterior, \u00e9 apenas um exemplo de uma larga bibliografia, na qual concorreram, como j\u00e1 sugeri, autores de posi\u00e7\u00f5es \u00eddeo-pol\u00edticas as mais diversas (Gaskell, Villerm\u00e9, Ducp\u00e9tiaux e Buret). At\u00e9 mesmo um conservador como A. de Tocqueville ocupou-se do problema, na sua <em>M\u00e9moire sur le paup\u00e9risme<\/em>, apresentada \u00e0 Academia de Cherbourg, em 1835.<\/p>\n<p>iv. No seu ensaio <em>As metamorfoses das quest\u00e3o social. Uma cr\u00f4nica do sal\u00e1rio<\/em> (Petr\u00f3polis: Vozes, 1998, p. 284), Robert Castel assinala que autores como E. Buret e A. de Villeneuve-Bargemont tinham consci\u00eancia da novidade do pauperismo em quest\u00e3o, cabendo mesmo a sua caracteriza\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca como uma <em>nova pobreza<\/em>.<\/p>\n<p>v. Dados quantitativos do pauperismo europeu est\u00e3o dispon\u00edveis tanto em obras estritamente hist\u00f3ricas (cf., por exemplo, E. J. Hobsbawm, <em>A era das revolu\u00e7\u00f5es. 1789-1848<\/em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988 ou, especificamente para a Inglaterra, E. P. Thompson, <em>A forma\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria inglesa<\/em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, I-II-III, 1987) quanto em textos de natureza sociol\u00f3gica (cf. o citado trabalho de R. Castel). Releva notar que, no s\u00e9culo XX, muito antes do interesse acad\u00eamico \u201cdescobrir\u201d os \u201cexclu\u00eddos\u201d, foi um marxista norte-americano quem dedicou especial aten\u00e7\u00e3o ao pauperismo (cf. a obra, originalmente publicada em 1937, de Leo Huberman, <em>Hist\u00f3ria da riqueza do homem<\/em>. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986).<\/p>\n<p>vi. Para sermos rigorosos, a <em>moderna <\/em>barb\u00e1rie \u2013 isto \u00e9, a barb\u00e1rie pr\u00f3pria da ordem do capital \u2013 j\u00e1 se manifestara, originariamente, no processo do que Marx caracterizou como <em>acumula\u00e7\u00e3o primitiva<\/em>.<\/p>\n<p>vii. Uma s\u00edntese bastante did\u00e1tica da hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio encontra-se em W. Abendroth, <em>A hist\u00f3ria social do movimento trabalhista europeu <\/em>(Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977). Vale recorrer ainda a G. D. H. Cole, <em>Historia del pensamiento socialista<\/em>. M\u00e9xico: Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, I-VIII, 1974.<\/p>\n<p>viii. Cf. G. Luk\u00e1cs, <em>El asalto a la raz\u00f3n<\/em>. Barcelona-M\u00e9xico: Grijalbo, 1968, pp. 471-473.<\/p>\n<p>ix. N\u00e3o se deve confundir o pensamento conservador, que ganha densidade e expans\u00e3o ap\u00f3s 1848, com o reacionarismo. Se, para este, a alternativa \u00e0s mazelas da ordem burguesa consiste na restaura\u00e7\u00e3o do Antigo Regime, o que \u00e9 pr\u00f3prio ao pensamento conservador \u00e9 o reformismo, no interior \u2013 e sem feri-las \u2013 das institui\u00e7\u00f5es fundantes do mundo do capital.<\/p>\n<p>x. Para que se tenha uma no\u00e7\u00e3o das ilus\u00f5es do utopismo, recorde-se que um de seus mais dotados e conseq\u00fcentes representantes, o j\u00e1 mencionado Robert Owen, preparou um memorial dirigido a todos \u201cos republicanos vermelhos, comunistas e socialistas da Europa\u201d, enviado tanto ao Governo Provis\u00f3rio franc\u00eas de 1848 quanto&#8230; \u00e0 \u201cRainha Vit\u00f3ria e seus conselheiros respons\u00e1veis\u201d!<\/p>\n<p>xi. Da\u00ed, pois, as aspas que utilizo sempre que a emprego.<\/p>\n<p>xii. \u00c9 de notar que, tanto na <em>Mis\u00e9ria da filosofia <\/em>quanto no <em>Manifesto do partido comunista<\/em>, Marx prognostica que o desenvolvimento do capitalismo implica em pauperiza\u00e7\u00e3o absoluta da massa prolet\u00e1ria. N\u00b4<em>O capital<\/em> ele distingue nitidamente os mecanismos de pauperiza\u00e7\u00e3o <em>absoluta<\/em> e <em>relativa<\/em>.<\/p>\n<p>xiii. Levo em conta, aqui, a cronologia que Mandel estabelece para o per\u00edodo imperialista: para ele, o seu est\u00e1gio \u201ccl\u00e1ssico\u201d situa-se, aproximadamente, entre 1890 e 1940 (cf. Ernst Mandel, <em>O capitalismo tardio<\/em>. S. Paulo: Abril Cultural, 1982, p. 380).<\/p>\n<p>xiv. Cf. T. H. Marshall, <em>Citizenship and social class<\/em>. London: Pluto Press, 1992.<\/p>\n<p>xv. Tratava-se, obviamente, de uma caracteriza\u00e7\u00e3o falseadora, ideol\u00f3gica; na cr\u00edtica a esta vis\u00e3o apolog\u00e9tica, Lefebvre cunhou a express\u00e3o \u201csociedade burocr\u00e1tica de consumo dirigido\u201d (cf. H. Lefebvre, <em>La vie quotidienne dans le monde moderne<\/em>. Paris: Gallimard, 1968).<\/p>\n<p>xvi. Cf. Michael Harrington, <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/The_Other_America\"><em>The Other America: Poverty in the United States<\/em><\/a><em>.<\/em> New York: Macmillan, 1962.<\/p>\n<p>xvii. Cf. Ernst Mandel, <em>O capitalismo tardio<\/em>, ed. cit., cap. 4 e ainda <em>A crise do capital. Os fatos e sua interpreta\u00e7\u00e3o marxista<\/em>. S. Paulo\/Campinas: Ensaio\/UNICAMP, 1990.<\/p>\n<p>xviii. Cf., por exemplo, o ensaio de Vicente Navarro <em>in <\/em>Asa Cristina Laurell, org., <em>Estado e pol\u00edticas sociais no neoliberalismo<\/em>. S. Paulo: Cortez\/CEDEC, 1995.<\/p>\n<p>xix. Para as quest\u00f5es sinalizadas a seguir, cf., entre outros: Suzanne de Brunhoff, <em>L\u00b4heure du march\u00e9<\/em>. Paris, PUF, 1986; David Harvey, <em>The Condition of Postmodernity<\/em>. Oxford: Basil Blackwell, 1989; <em>idem<\/em>, <em>O novo imperialismo<\/em>. S. Paulo: Loyola, 2004; <em>idem<\/em>, <em>A brief history of neoliberalism<\/em>. Oxford: Oxford University Press, 2005; Fran\u00e7ois Chesnais, <em>La mondialisation du capital<\/em>. Paris: Syros, 1994; <em>idem<\/em>, org., <em>A mund<\/em><em>ializa\u00e7\u00e3o financeira<\/em>. S. Paulo: Xam\u00e3, 1998;Jos\u00e9 Paulo Netto, <em>Crise do socialismo e ofensiva neoliberal<\/em>. S. Paulo: Cortez, 1995; Emir Sader e Pablo Gentilli, orgs., <em>O p\u00f3s-neoliberalismo<\/em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995; Michel Husson, <em>Mis\u00e8re du capital<\/em>. Paris: Syros, 1996; Viviane Forrester, <em>L\u00b4horreur \u00e9conomique<\/em>. Paris: Fayard, 1996;Oswaldo Coggiola, org., <em>Globaliza\u00e7\u00e3o e socialismo<\/em>. S. Paulo: Xam\u00e3, 1997; Francisco J. Teixeira e Manfredo A. Oliveira, orgs., <em>Neoliberalismo e reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva<\/em>. S. Paulo: Cortez\/UECE, 1998; Hans-Peter Martin e Harald Schumann, <em>A armadilha da globaliza\u00e7\u00e3o<\/em>. Lisboa: Terramar, 1998; Michel Chossudowsky, <em>A globaliza\u00e7\u00e3o da pobreza<\/em>. S. Paulo: Moderna, 1999; Keith Dixon, <em>Os evangelistas do mercado<\/em>. Oeiras: Celta, 1999;James Petras, <em>Neoliberalismo: Am\u00e9rica Latina, Estados Unidos e Europa<\/em>. Blumenau: FURB, 1999; Edmilson Costa, <em>A globaliza\u00e7\u00e3o e o capitalismo contempor\u00e2neo<\/em>. S. Paulo: Express\u00e3o Popular, 2008.<\/p>\n<p>xx. Uma das caracter\u00edsticas da cultura pol\u00edtica contempor\u00e2nea, hegem\u00f4nica e conservadora, \u00e9 a radical ressignifica\u00e7\u00e3o de termos e express\u00f5es que trazem consigo uma carga hist\u00f3rica precisa \u2013 \u00e9 o caso da palavra \u201creforma\u201d, que, ao longo do s\u00e9culo XX, sinalizou alguma amplia\u00e7\u00e3o ou instaura\u00e7\u00e3o de direitos. O l\u00e9xico pol\u00edtico da era neoliberal ressemantizou a palavra, utilizando-a para <em>denotar<\/em>, na realidade, o recorte ou a supress\u00e3o de direitos \u2013 veja-se o caso das \u201creformas\u201d nos regimes previdenci\u00e1rios; aqui, o que de fato temos s\u00e3o <em>contra-<\/em>reformas.<\/p>\n<p>xxi. J\u00e1 s\u00e3o in\u00fameros os estudos que explicitam a nulidade te\u00f3rica desta no\u00e7\u00e3o; uma abordagem cr\u00edtica, apoiada nas ideias de Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros, \u00e9 oferecida por Edlene Pimentel, <em>Uma \u201cnova quest\u00e3o social\u201d?<\/em>. Macei\u00f3: UFAL, 2007.<\/p>\n<p>xxii. \u00c9 curioso como intelectuais de porte, subjetivamente honestos, t\u00eam capitulado diante de utopias regressivas \u2013 no Brasil, o caso mais emblem\u00e1tico \u00e9 o do Professor Paul Singer, que se tornou o ide\u00f3logo da chamada \u201ceconomia solid\u00e1ria\u201d. Os espantosos limites dos projetos de \u201ceconomia solid\u00e1ria\u201d j\u00e1 foram objeto de justa e dura cr\u00edtica; cf., por exemplo, Maria Teresa Menezes, <em>Economia solid\u00e1ria: elementos para uma cr\u00edtica marxista<\/em>. Rio de Janeiro: Gramma, 2007.<\/p>\n<p>xxiii. Uma s\u00edntese destas transforma\u00e7\u00f5es encontra-se em Jos\u00e9 Paulo Netto, \u201cTransforma\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias e Servi\u00e7o Social\u201d, <em>in Servi\u00e7o Social &amp; Sociedade<\/em>. S. Paulo: Cortez, n\u00ba 50, ano XVII, abril de 1996 e em Jos\u00e9 Paulo Netto e Marcelo Braz, <em>Economia pol\u00edtica. Uma introdu\u00e7\u00e3o cr\u00edtica<\/em>. S. Paulo: Cortez, 2006. Nos par\u00e1grafos seguintes, resumirei a argumenta\u00e7\u00e3o contida nestas duas fontes.<\/p>\n<p>xxiv. Sobre tais mudan\u00e7as, cf., al\u00e9m de textos citados na nota 19, os trabalhos de Ricardo Antunes, especialmente <em>Os sentidos do trabalho<\/em>. S. Paulo: Boitempo, 1999 e tamb\u00e9m Giovanni Alves, <em>O novo (e prec\u00e1rio) mundo do trabalho<\/em>. S. Paulo: Boitempo, 2000; para refer\u00eancias espec\u00edficas ao Brasil, cf. Carlos Alonso B. Oliveira <em>et alii<\/em>, orgs., <em>Crise e trabalho no Brasil<\/em>. S. Paulo: Scritta, 1996;Ricardo Antunes, org., <em>Riqueza e mis\u00e9ria do trabalho no Brasil<\/em>. S. Paulo: Boitempo, 2006; Jos\u00e9 Ricardo Tauile, <em>Trabalho, autogest\u00e3o e desenvolvimento<\/em>. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009 e Edv\u00e2nia Louren\u00e7o <em>et alii<\/em>, orgs., <em>O avesso do trabalho II: trabalho, precariza\u00e7\u00e3o e sa\u00fade do trabalhador<\/em>. S. Paulo: Express\u00e3o Popular, 2010.<\/p>\n<p>xxv. Uma cr\u00edtica radical \u00e0s concep\u00e7\u00f5es acerca do fim da \u201csociedade do trabalho\u201d e sobre o \u201cdesaparecimento\u201d do proletariado encontra-se em S\u00e9rgio Lessa, <em>Trabalho e proletariado no capitalismo contempor\u00e2neo<\/em>. S. Paulo: Cortez, 2007. Veja-se, ainda, F. Teixeira e Celso Frederico, <em>Marx no s\u00e9culo XXI<\/em>. S. Paulo: Cortez, 2008.<\/p>\n<p>xxvi. Do ponto de vista te\u00f3rico, sobre as complexas rela\u00e7\u00f5es entre ci\u00eancia, tecnologia e produ\u00e7\u00e3o, cf. K. Marx, <em>Capitale e tecnologia<\/em>. Roma: Riuniti, 1980; Enrique Dussel, <em>Hacia un Marx desconocido. Un coment\u00e1rio a los \u201cManuscritos del 61-63\u201d<\/em>. M\u00e9xico: Siglo XXI, 1988;Daniel Romero, <em>Marx e a t\u00e9cnica. Um estudo dos manuscritos de 1861-1863<\/em>. S. Paulo: Express\u00e3o Popular, 2007; Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros, <em>O poder da ideologia<\/em>. S. Paulo: Boitempo, 2004. Do ponto de vista hist\u00f3rico, ainda \u00e9 refer\u00eancia a obra de J. D. Bernal, <em>Science in History<\/em>. London: C. A. Watts, 1964. Acerca da revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e t\u00e9cnica e da revolu\u00e7\u00e3o informacional, cf. Radovan Richta, ed., <em>La civilisation au carrefour<\/em>. Paris: Anthropos, 1968 e Jean Lojkine, <em>A revolu\u00e7\u00e3o informacional<\/em>. S. Paulo: Cortez, 1995. Ver tamb\u00e9m, entre uma profusa documenta\u00e7\u00e3o, apenas a t\u00edtulo de ilustra\u00e7\u00e3o: Tom Forester, ed., <em>The Microeletronics Revolution<\/em>. Cambridge (Mass.): The MIT Press, 1982; Theot\u00f4nio dos Santos, <em>Revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfico-t\u00e9cnica e capitalismo contempor\u00e2neo<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1983; Ren\u00e9 Dreifuss, <em>A \u00e9poca das perplexidades<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1996;Michio Kaku, <em>Vis\u00f5es do futuro: como a ci\u00eancia revolucionar\u00e1 o s\u00e9culo XXI<\/em>. Rio de Janeiro: Rocco, 2001; Mihail C. Roco &amp; William S. Sims, <em>Converging Technologies for improving human performance: nanotechnology, biotechnologie, information technology and cognitive science<\/em>. NSF-DOC Report, June 2002. Arlington VA, USA; Laymert Garcia dos Santos, <em>Politizar as novas tecnologias: o impacto s\u00f3cio-t\u00e9cnico das novas tecnologias<\/em>. S. Paulo: Ed. 34, 2003; E. Mayr, <em>Biologia. Ci\u00eancia \u00fanica. <\/em>S. Paulo: Cia. das Letras, 2005; Paulo Roberto Martins, org., <em>Nanotecnologia, sociedade e meio ambiente<\/em>. S. Paulo: Xam\u00e3, 2006; David Gross, \u201cO futuro da f\u00edsica\u201d. <em>Revista USP<\/em>. S. Paulo: USP, n\u00ba 76, 2008; Michel Paty, <em>A f\u00edsica do s\u00e9culo XX<\/em>. S. Paulo: Ideias e Letras, 2009. Um painel interessante da rela\u00e7\u00e3o entre inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e capitalismo contempor\u00e2neo encontra-se em Helena M. M. Lastres <em>et alii<\/em>, orgs., <em>Conhecimento, sistemas de inova\u00e7\u00e3o e desenvolvimento<\/em>. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2005.<\/p>\n<p>xxvii. A cartilha da restaura\u00e7\u00e3o capitalista, com a inevit\u00e1vel receita do \u201cajuste fiscal\u201d embutida na recomenda\u00e7\u00e3o da \u201creforma do Estado\u201d, foi sintetizada, para a Am\u00e9rica Latina, no tristemente c\u00e9lebre \u201cConsenso de Washington\u201d (1989), cujo principal ide\u00f3logo foi <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/John_Williamson\">John Williamson<\/a>. Elementos cr\u00edticos ao \u201cConsenso de Washington\u201d encontram-se em Paulo Nogueira Batista, \u201cO consenso de Washington: a vis\u00e3o neoliberal dos problemas latino-americanos\u201d, <em>in <\/em>Barbosa Lima Sobrinho <em>et alii<\/em>. <em>Em defesa do interesse nacional. Desinforma\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico<\/em>. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1994. Para uma cr\u00edtica \u00e0s \u201cpol\u00edticas de ajuste\u201d, cf. Laura Tavares Ribeiro, <em>Ajuste neoliberal e desajuste social na Am\u00e9rica Latina<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2001. No Brasil, foram os dois governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) que aplicaram coerentemente o receitu\u00e1rio do \u201cConsenso de Washington\u201d; uma s\u00edntese de seus resultados encontra-se em Ivo Lesbaupin, org., <em>O desmonte da na\u00e7\u00e3o: balan\u00e7o do governo FHC<\/em>. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 1999 e em Ivo Lesbaupin e Adhemar Mineiro, <em>O desmonte da na\u00e7\u00e3o em dados<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2002.<\/p>\n<p>xxviii. Para uma resenha das privatiza\u00e7\u00f5es no subcontinente latino-americano, cf. James Petras e Henri Veltmeyer, orgs., <em>Las privatizaciones y la desnacionalizaci\u00f3n de Am\u00e9rica Latina<\/em>. Buenos Aires: Proteo, 2004; especificamente sobre o Brasil, cf. Aloysio Biondi, <em>O Brasil privatizado: um balan\u00e7o do desmonte do Estado <\/em>e <em>O Brasil privatizado II: o assalto das privatiza\u00e7\u00f5es continua <\/em>(ambos publicados em S. Paulo: Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 2003).<\/p>\n<p>xxix. Sobre este ponto, cf. o breve e sugestivo artigo, de maio de 2000, de M. Chossudovski, \u201cA guerra financeira\u201d, dispon\u00edvel em http:\/resistir.info\/chossudovski\/guerra_financeira. html.<\/p>\n<p>xxx. Lapidares nota\u00e7\u00f5es acerca da constitui\u00e7\u00e3o deste \u201cnovo mercado de trabalho\u201d encontram-se em David Harvey, <em>The Condition of Postmodernity<\/em>, ed. cit.<\/p>\n<p>xxxi. Para refer\u00eancias insuspeitas, dado o ponto de vista de classe que expressam, cf. as preocupa\u00e7\u00f5es sobre o desemprego do chamado \u201cGrupo de Lisboa\u201d (ver o seu <em>Limites \u00e0 competi\u00e7\u00e3o<\/em>. Lisboa: Europa-Am\u00e9rica, 1994) e Jeremy Rifkin, <em>O fim dos empregos<\/em>. S. Paulo: Makron Books, 1995.<\/p>\n<p>xxxii. Quanto a esta financeiriza\u00e7\u00e3o, um analista norte-americano observou que ela \u201cfoi em tudo espetacular por seu estilo especulativo e predat\u00f3rio. Valoriza\u00e7\u00f5es fraudulentas de a\u00e7\u00f5es, falsos esquemas de enriquecimento imediato, a destrui\u00e7\u00e3o estruturada de ativos por meio da infla\u00e7\u00e3o, a dilapida\u00e7\u00e3o de ativos mediante fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es e a promo\u00e7\u00e3o de n\u00edveis de encargos de d\u00edvidas que reduzem popula\u00e7\u00f5es inteiras, mesmo nos pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados, a prisioneiros da d\u00edvida, para n\u00e3o dizer nada da fraude corporativa e do desvio de fundos [&#8230;] decorrente de manipula\u00e7\u00f5es do cr\u00e9dito e das a\u00e7\u00f5es \u2014 tudo isso s\u00e3o caracter\u00edsticas centrais da face do capitalismo contempor\u00e2neo\u201d (D. Harvey, <em>O novo imperialismo<\/em>,ed. cit., p. 123).<\/p>\n<p>xxxiii. Em 2002, arguto analista argentino constatava que \u201capenas duzentas megacorpora\u00e7\u00f5es transnacionais, 96% delas com suas matrizes em apenas oito pa\u00edses, t\u00eam um volume combinado de vendas que supera o PIB de todos os pa\u00edses do globo (exceto os nove maiores!)\u201d (At\u00edlio Bor\u00f3n, <em>Imperio &amp; Imperialismo<\/em>. Buenos Aires: Clacso, 2002, p. 150-151).<\/p>\n<p>xxxiv. Dados reunidos em mat\u00e9ria do <em>Brasil de Fato<\/em> (S\u00e3o Paulo, ano 4, n\u00ba. 160, mar\u00e7o\/ 2006) mostram que <em>grupos de monop\u00f3lios<\/em> comandam, em escala mundial, os seguintes setores: <em>biotecnologia<\/em> (Amgen, Monsanto, Genentech, Serono, Biogen Idec, Genzyme, Applied Byosistems, Chiron, Gilead Sciences, Medimmune); <em>produtos veterin\u00e1rios<\/em> (Pfizer, Merial, Intervet, DSM, Bayer, BASF, Fort Dodge, Elanco, Schering-Plough, Novartis); <em>sementes<\/em> (Monsanto, DuPont, Syngenta, KWS Ag, Land O\u00b4Lakes, Sakata, Bayer, Taikki, DLF Trifolium); <em>agrot\u00f3xicos<\/em> (Bayer, Syngenta, BASF, Dow, Monsanto, DuPont, Koor, Sumitomo, Nufarm, Arysta); <em>produtos farmac\u00eauticos<\/em> (Pfizer, Glaxo Smith Kline, Johnson &amp; Johnson, Merck, Astra Zeneca, Hoffman-La Roche, Novartis, Bristol-Meyers Squibb, Wyeth); <em>alimentos e bebidas <\/em>(Nestl\u00e9, Archer Daniel Midlands, Altria, Pepsico, Unilever, Tyson Foods, Cargill, Coca-Cola, Mars, Danone). A mesma concentra\u00e7\u00e3o verifica-se no circuito de distribui\u00e7\u00e3o, com redes comerciais de amplitude mundial, onde os grupos dominantes s\u00e3o: Wal-Mart, Carrefour, Metro AG, Ahold, Tesco, Kroger, Costco, ITM Enterprises, Albetson\u00b4s e Edeka Zentrale. Os movimentos de concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o do capital revelaram-se intens\u00edssimos nos \u00faltimos trinta anos <em>em todos os ramos e setores econ\u00f4micos<\/em>, envolvendo a produ\u00e7\u00e3o, a circula\u00e7\u00e3o e atividades relativas \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o social; para dados gerais, consulte-se Chesnais (<em>op. cit.<\/em>) e, para espec\u00edficos, D. Moraes (<em>Planeta m\u00eddia<\/em>. Campo Grande: Letra Livre,1998) sobre m\u00eddia, entretenimento e publicidade e R. A. Dreifuss (<em>A \u00e9poca das perplexidades, <\/em>ed. cit.) sobre finan\u00e7as, ind\u00fastria da inform\u00e1tica, telecomunica\u00e7\u00f5es e equipamentos aeron\u00e1uticos. Dois exemplos desses movimentos: na ind\u00fastria automobil\u00edstica, as 50 empresas que existiam no mundo, em 1964, em meados dos anos 1990 n\u00e3o eram mais que 20 (das europ\u00e9ias, que eram cerca de 40, s\u00f3 restaram 7); na passagem do s\u00e9culo XX ao XXI, menos de 300 bancos (e corretoras de t\u00edtulos e a\u00e7\u00f5es) controlavam as finan\u00e7as internacionais.<\/p>\n<p>xxxv. Um dos maiores historiadores marxistas constatava, no fim do s\u00e9culo XX, que \u201ca mudan\u00e7a social mais impressionante e de mais longo alcance da segunda metade deste s\u00e9culo, e que nos isola para sempre do passado, \u00e9 a morte do campesinato\u201d (E. J. Hobsbawm, <em> Era dos extremos. O breve s\u00e9culo XX. 1914-1991<\/em>. S. Paulo: Cia. das Letras, 1995, p. 284).<\/p>\n<p>xxxvi. Cf., como exemplos de documenta\u00e7\u00e3o j\u00e1 produzida sobre este ponto, Jean Lojkine, <em>L\u00b4adieu \u00e0 la classe moyenne<\/em>. Paris: La Dispute, 2005 e Jean Lojkine, Pierre Cours-Salies e Michel Vakaloulis, orgs., <em>Nouvelles luttes de classes<\/em>. Paris: PUF, 2006.<\/p>\n<p>xxxvii. O pr\u00f3prio <em>lumpem <\/em>se metamorfoseia no tardo-capitalismo \u2013 pense-se, por exemplo, na \u201corganiza\u00e7\u00e3o empresarial\u201d de atividades il\u00edcitas e\/ou criminosas, bem como a sua intera\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea com o mundo da \u201ceconomia formal\u201d.<\/p>\n<p>xxxviii. Atente-se para um dado aleat\u00f3rio, oferecido pelo PNUD para o ano de 2004: os 500 indiv\u00edduos mais ricos do mundo tinham um rendimento conjunto maior que o rendimento dos 416 milh\u00f5es de pessoas mais pobres (PNUD, <em>Relat\u00f3rio do desenvolvimento humano 2005<\/em>. Lisboa: Ana Paula Faria Ed., 2005, p. 21). Ou, como escrevia, ainda em 1999, um estudioso brasileiro: \u201cA concentra\u00e7\u00e3o [da riqueza] chegou ao ponto de o patrim\u00f4nio conjunto dos raros 447 bilion\u00e1rios que h\u00e1 no mundo ser equivalente \u00e0 renda somada da metade mais pobre da popula\u00e7\u00e3o mundial \u2013 cerca de 2,8 bilh\u00f5es de pessoas\u201d (Alex F. Mello, <em>Marx e a globaliza\u00e7\u00e3o<\/em>. S. Paulo: Boitempo, 1999, p. 260). Dados mais recentes indicam que \u201cos dois 2% adultos mais ricos do mundo possuem a metade da riqueza global, enquanto a parcela correspondente a apenas 1% da popula\u00e7\u00e3o adulta det\u00e9m 40% dos ativos mundiais. Em contrapartida, a metade mais pobre da popula\u00e7\u00e3o adulta s\u00f3 possui 1% da riqueza global\u201d (E. Costa, <em>A globaliza\u00e7\u00e3o e o capitalismo contempor\u00e2neo<\/em>. Ed. cit., p. 109).<\/p>\n<p>xxxix. Eis o que h\u00e1 poucos anos escrevia uma cientista pol\u00edtico: \u201c[&#8230;] Esses homens [&#8230;], os mais influentes do planeta, possuidores de poderes jamais vistos na hist\u00f3ria da humanidade, se encontram regularmente em centros de confer\u00eancias virtuais e em \u2018espa\u00e7os\u2019 privilegiados de articula\u00e7\u00e3o, seguros e afastados do \u2018olho p\u00fablico\u2019. [&#8230;] Com uma vis\u00e3o global e refer\u00eancias mentais supranacionais, as novas elites org\u00e2nicas agem transnacionalmente [&#8230;], contornam Estados nacionais e governos, reafirmando a autonomia pol\u00edtica das corpora\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas e contribuindo para a forma\u00e7\u00e3o do \u2018pensamento \u00fanico\u2019. [Este tipo de articula\u00e7\u00e3o] viabiliza e perpetua o segredo pol\u00edtico-estrat\u00e9gico, subtraindo as quest\u00f5es vitais do olhar p\u00fablico. [&#8230;] Por outro lado, muitos dos tradicionais locais de representa\u00e7\u00e3o e agrega\u00e7\u00e3o de demandas sociais (congressos, parlamentos, governos estaduais, autarquias estatais, associa\u00e7\u00f5es e inst\u00e2ncias pol\u00edticas diversas) se mostram ineficazes, enquanto os mecanismos e as pr\u00e1ticas convencionais da pol\u00edtica passam a ser vistos como inadequados\u201d (Ren\u00e9 A. Dreifuss, <em>A \u00e9poca das perplexidades<\/em>, ed. cit., pp. 175-176).<\/p>\n<p>xl. A corrup\u00e7\u00e3o que caracteriza a a\u00e7\u00e3o dos grupos monopolistas e seus serventu\u00e1rios pol\u00edticos \u00e9 tamb\u00e9m \u201cglobalizada\u201d: envolve figur\u00f5es de todos os quadrantes. A lista de esc\u00e2ndalos \u00e9 infinita \u2013 recordemos alguns dos que mais repercutiram, nomeando seus protagonistas: Anthony Gebauer (<em>lobbista<\/em> norte-americano), Bernard Trapie (empres\u00e1rio e ex-ministro franc\u00eas), Roh Tae Woo (ex-presidente da Coreia do Sul), Pierre Suard (ex-presidente executivo da Alcatel Alsthom), Paolo Berlusconi (irm\u00e3o do <em>capo<\/em> italiano), Willy Claes (ex-secret\u00e1rio-geral da NATO), Toschio Yamaguchi (ex-ministro japon\u00eas), Thorstein Moland (ex-presidente do Banco Central da Noruega).<\/p>\n<p>xli Cf. G\u00f6ran Therborn, <em>Between Sex and Power: Family in the World, 1900-2000<\/em>. London: Routledge, 2004.<\/p>\n<p>xlii. Sobre este aspecto, cf. M. Featherstone, <em>Cultura de consumo e p\u00f3s-modernismo<\/em>. S. Paulo: Studio Nobel, 1995.<\/p>\n<p>xliii. Conhecido pensador portugu\u00eas considera a distin\u00e7\u00e3o apar\u00eancia\/ess\u00eancia um dos suportes do \u201cepistemic\u00eddio\u201d, chega a vincul\u00e1-la ao \u201ceurocentrismo\u201d e afirma expressamente que o paradigma cient\u00edfico p\u00f3s-moderno \u201csuspeita da distin\u00e7\u00e3o entre apar\u00eancia e ess\u00eancia\u201d (cf. Boaventura de Sousa Santos, <em>Pela m\u00e3o de Alice<\/em>. S. Paulo: Cortez, 1995, p. 331). Em obra posterior (<em>A cr\u00edtica da raz\u00e3o indolente. Contra o desperd\u00edcio da experi\u00eancia<\/em>. S. Paulo: Cortez, 2000, parte I, cap. 1), o mesmo autor aprofunda a sua concep\u00e7\u00e3o \u2013 coerentemente com as ideias antes avan\u00e7adas \u2013 da epistemologia p\u00f3s-moderna.<\/p>\n<p>xliv. Cf. Jean-Fran\u00e7ois Lyotard, <em>La condition post-moderne<\/em>. Paris: Minuit, 1979 e Boaventura de Sousa Santos, <em>Introdu\u00e7\u00e3o a uma ci\u00eancia p\u00f3s-moderna<\/em>. Porto: Afrontamento, 1989 e <em>Pela m\u00e3o de Alice<\/em>, ed. cit.<\/p>\n<p>xlv .Cf. J. Habermas, <em>in <\/em>H. Foster, ed., <em>The Anti-Aesthetic<\/em>. Washington: Bay Press, 1984; H. Foster, <em>in <\/em>Josep Pic\u00f3, org., <em>Modernidad y postmodernidad<\/em>. Madrid: Alianza, 1988 e A. Huyssen, <em>in <\/em>Helo\u00edsa Buarque de Hollanda, org., <em>P\u00f3s-modernismo e pol\u00edtica<\/em>. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.<\/p>\n<p>xlvi. Ainda que n\u00e3o seja inteiramente satisfat\u00f3ria a t\u00e3o citada an\u00e1lise desta funcionalidade por F. Jameson, \u201cPostmodernism, or the cultural logic of late capitalism\u201d. <em>New Left Review<\/em>. London: NLB, n\u00ba 146, 1984.<\/p>\n<p>xlvii. Cf. \u201cDa <em>polis<\/em> ao p\u00f3s-modernismo\u201d, <em>in <\/em>Terry Eagleton, <em>A ideologia da est\u00e9tica<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. O marxista ingl\u00eas tematizou especificamente o p\u00f3s-modernismo em outro livro: <em>As ilus\u00f5es do p\u00f3s-modernismo<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.<\/p>\n<p>xlviii. A frase, como se sabe, \u00e9 da Senhora Tatcher.<\/p>\n<p>xlix. E. J. Hobsbawm, <em>Era dos extremos<\/em>, ed. cit., p. 238.<\/p>\n<p>l. Tais como formuladas por J. O\u2019Connor, <em>USA: a crise do Estado capitalista<\/em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.<\/p>\n<p>li. Atesta-o, por exemplo, o fluxo planet\u00e1rio de capital meamente especulativo, que n\u00e3o \u00e9 controlado por nenhuma autoridade monet\u00e1ria. Recorda Harvey (<em>The postmodern condition<\/em>, ed. cit.): \u201c[&#8230;] A partir de 1973, o sistema financeiro mundial conseguiu [&#8230;] fugir de todo controle coletivo, mesmo nos Estados capitalistas mais poderosos\u201d; o mesmo autor estima que, em 1987, o mercado financeiro, \u201csem o controle de nenhum governo nacional\u201d, movimentou quase 2 trilh\u00f5es de d\u00f3lares. A mais recente crise financeira, que eclodiu em 2008, mostrou a interven\u00e7\u00e3o estatal operando apenas <em>post festum<\/em> e com d\u00e9bil articula\u00e7\u00e3o supra-nacional.<\/p>\n<p>lii. \u201cO mundo mais conveniente para os gigantes multinacionais \u00e9 aquele povoado por Estados-an\u00f5es, ou sem Estado algum\u201d (Hobsbawm, <em>Era dos extremos<\/em>, ed. cit., p. 276).<\/p>\n<p>liii. Jos\u00e9 Paulo Netto, <em>Crise do socialismo e ofensiva neoliberal,<\/em> ed. cit., p. 81.<\/p>\n<p>liv. A. Przeworski, <em>Capitalismo e social-democracia<\/em>. S. Paulo: Cia das Letras, 1991, p. 258.<\/p>\n<p>lv. Para aprecia\u00e7\u00f5es diversas dessa viabilidade, cf. A. J. Avel\u00e3s Nunes, <em>O keynesianismo e a contra-revolu\u00e7\u00e3o monetarista<\/em>. Coimbra: Separata do Boletim de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da Universidade de Coimbra, 1991, pp. 510-520; Jos\u00e9 Paulo Netto, <em>Crise do socialismo e ofensiva neoliberal,<\/em> ed. cit., pp. 50-56, 81-85 e P. Anderson, <em>in <\/em>Emir Sader e Pablo Getilli, orgs., <em>P\u00f3s-neoliberalismo. As pol\u00edticas sociais e o Estado democr\u00e1tico<\/em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995, pp. 22-23.<\/p>\n<p>lvi. Cf., por exemplo, John Holloway, <em>Change the World Without Taking Power: The Meaning of Revolution Today<\/em>. London: Pluto Press, 2002.<\/p>\n<p>lvii. Neste aspecto, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o mencionar o papel desempenhado pela vaga das chamadas <em>organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais<\/em>, as ONGs, que, objetivamente, contribuem para desonerar o Estado das suas responsabilidades p\u00fablicas. Para a an\u00e1lise da compatibilidade da \u201cideologia do <em>onguismo<\/em>\u201d com as propostas neoliberais de minimiza\u00e7\u00e3o do Estado, cf. Carlos Monta\u00f1o, <em>Terceiro setor e quest\u00e3o social<\/em>. S. Paulo: Cortez, 2002; quanto \u00e0 fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das ONGs, cf. James Petras, <em>Neoliberalismo: Am\u00e9rica Latina, Estados Unidos e Europa<\/em>. Ed. cit., cap. 3 e <em>Neoliberalismo en Am\u00e9rica Latina. La izquierda devuelve el golpe<\/em>. Rosario: Homo Sapiens, 1997, pp. 50-54. Veja-se ainda Virg\u00ednia Fontes, <em>O Brasil e o capital-imperialismo<\/em>. Rio de Janeiro: Fiocruz\/UFRJ, 2010, cap. 5.<\/p>\n<p>lviii. Cf. P. Anderson, <em>in <\/em>Sader e Gentilli, orgs., <em>op. cit.<\/em><\/p>\n<p>lix. Cf. A. Cueva, org., <em>Tempos conservadores. A direitiza\u00e7\u00e3o no Ocidente e na Am\u00e9rica Latina<\/em>. S. Paulo: Hucitec, 1989, p. 11. E arguto analista, afirmando que \u201co p\u00f3s-modernismo, de trav\u00e9s, vem refor\u00e7ar o coro da apologia neoliberal das qualidades divinas do mercado\u201d, n\u00e3o tem d\u00favidas de que, \u201ca despeito de certas manifesta\u00e7\u00f5es e inten\u00e7\u00f5es contestat\u00f3rias e radicais da esquerda p\u00f3s-moderna, o p\u00f3s-modernismo torna-se caudat\u00e1rio do movimento de consolida\u00e7\u00e3o da hegemonia do pensamento conservador\u201d (J. E. Evangelista, <em>Teoria social p\u00f3s-moderna<\/em>. Porto Alegre: Sulina, 2007, p.179).<\/p>\n<p>lx. Como se pode comprovar com o recurso a m\u00eddias alternativas e a centros de documenta\u00e7\u00e3o credibilizados \u2013 de que \u00e9 exemplo, dentre v\u00e1rios, o <em>Centre Tricontinental<\/em> (Louvain-la-Neuve, B\u00e9lgica), com suas publica\u00e7\u00f5es (<em>Mondialisations des r\u00e9sistences<\/em>, <em>\u00c9tat des r\u00e9sistences dans le Sud<\/em>).<\/p>\n<p>lxi. E. J. Hobsbawm, <em>in <\/em>R. Blackburn, org., <em>Depois da queda. O fracasso do comunismo e o futuro do socialismo<\/em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p. p. 104).<\/p>\n<p>lxii. Cf. I. M\u00e9sz\u00e1ros, <em>Beyond Capital<\/em>. London: Merlin Press, 1995, I, 5.<\/p>\n<p>lxiii. A documenta\u00e7\u00e3o sobre as condi\u00e7\u00f5es atuais da explora\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 enorme; parte das fontes citadas nas notas 19 e 24, <em>supra<\/em>, d\u00e1 alguma conta delas e pode ser ampliada em Pierre Salama, <em>Pobreza e explora\u00e7\u00e3o do trabalho na Am\u00e9rica Latina<\/em>. S. Paulo: Boitempo, 1999; Juan Chingo, \u201cCrisis y contradicciones del capitalismo del siglo XXI\u201d, <em>in <\/em> <em>Estrategia Internacional<\/em>. Buenos Aires: LEI\/QI, n\u00ba 24, dic. 2007\/en. 2008 e S\u00e9rgio Prieb, \u201cAs novas configura\u00e7\u00f5es do trabalho diante da crise\u201d, <em>in Novos temas<\/em>. Salvador\/S.Paulo: Quarteto\/Instituto Caio Prado Jr., set.-mar\u00e7o de 2010-2011, vol. 2, n\u00ba 2. No que toca \u00e0s v\u00e1rias formas do trabalho for\u00e7ado contempor\u00e2neo, at\u00e9 mesmo a OIT tem se ocupado, em diversos documentos, da sua constata\u00e7\u00e3o. No Brasil, onde \u00e9 indiscut\u00edvel a incid\u00eancia do trabalho for\u00e7ado, h\u00e1 in\u00fameras fontes que atestam a sua vig\u00eancia, especialmente, mas n\u00e3o exclusivamente, no campo: cf., por exemplo, Gelba C. Cerqueira <em>et alii<\/em>, orgs., <em>Trabalho escravo contempor\u00e2neo no Brasil<\/em>. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2008; obra de refer\u00eancia, neste dom\u00ednio, \u00e9 constitu\u00edda pelos estudos de Ricardo Rezende Figueira, autor de <em>Pisando na pr\u00f3pria sombra: a escravid\u00e3o por d\u00edvida no Brasil contempor\u00e2neo<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2004.<\/p>\n<p>lxiv. Cf. M\u00e1rcio Pochmann <em>et alii<\/em>, orgs., <em>Atlas da exclus\u00e3o social. Vol. 4: A exclus\u00e3o no mundo<\/em>. S. Paulo: Cortez, 2004.<\/p>\n<p>lxv. Num ensaio de 1938 (\u201cMarx e o problema da decad\u00eancia ideol\u00f3gica\u201d), o maior fil\u00f3sofo marxista do s\u00e9culo XX anotava que \u201ca contraditoriedade do progresso \u00e9 um problema geral do desenvolvimento da <em>sociedade dividida em classes<\/em>\u201d (G. Luk\u00e1cs, <em>Marxismo e teoria da literatura<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1968; it\u00e1licos meus); mais ou menos \u00e0 mesma \u00e9poca, Luk\u00e1cs observava que, na \u00f3tica de Marx, diferentes forma\u00e7\u00f5es sociais experimentaram o progresso (desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, domina\u00e7\u00e3o da natureza pela sociedade) de modo contradit\u00f3rio: \u201ca domina\u00e7\u00e3o exercida sobre a natureza implicou a domina\u00e7\u00e3o dos homens sobre os homens, a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o\u201d (G. Luk\u00e1cs, <em>\u00c9crits de Moscou<\/em>. Paris: \u00c9d. Sociales, 1974, p. 181) \u2013 em suma, o progresso, para Marx (ali\u00e1s, seguindo a trilha aberta por Hegel), <em>nada tem a ver com o evolucionismo linear e necessariamente ascendente dos positivistas<\/em>.<\/p>\n<p>lxvi. Cf. Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros, <em>A necessidade do controle social<\/em>. S. Paulo: Ensaio, 1987, pp. 19-24;John B. Foster, <em>Marx\u2019s Ecology: Materialism and Nature<\/em>. New York: Monthly Review Press, 2000; Carlos Frederico B. Loureiro, org., <em>A quest\u00e3o ambiental no pensamento cr\u00edtico<\/em>. Rio de Janeiro: Quartet, 2007; veja-se, ainda, Elmar Altvater, \u201cExiste um marxismo ecol\u00f3gico?\u201d, <em>in <\/em>A. Bor\u00f3n, J. Amadeo e S. Gonz\u00e1lez, orgs., <em>A teoria marxista hoje. Problemas e perspectivas<\/em>. Buenos Aires\/S. Paulo: CLACSO\/Express\u00e3o Popular, 2007.<\/p>\n<p>lxvii. Esta problem\u00e1tica \u00e9 altamente pol\u00eamica e n\u00e3o pode ser desenvolvida neste espa\u00e7o; remeto apenas ao final do segundo par\u00e1grafo do <em>Manifesto do partido comunista<\/em>, onde se l\u00ea que as lutas de classes acabaram sempre \u201ccom uma transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de toda a sociedade <em>ou com o decl\u00ednio comum das classes em conflito<\/em>\u201d (K. Marx e F. Engels, <em>Manifesto do partido comunista<\/em>. Lisboa: Avante!, 1975, p. 59; it\u00e1licos meus; para um confronto com o original alem\u00e3o, veja-se K. Marx-F. Engels, <em>Werke<\/em>. Berlin: Dietz Verlag, vol. 4, 1959, p. 462).<\/p>\n<p>lxviii. Cf. especialmente Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros, <em>Beyond Capital<\/em>, ed. cit., e <em>A crise estrutural do capital<\/em>. S. Paulo: Boitempo, 2009.<\/p>\n<p>lxix. Autor que tem explorado intensivamente os vetores da barbariza\u00e7\u00e3o da vida social \u00e9 Robert Kurz \u2013 ainda que n\u00e3o se subscrevam as suas bases te\u00f3ricas e as suas conclus\u00f5es (e este \u00e9 o meu caso), trata-se de pensador que tem produzido obras instigantes. No Brasil, h\u00e1 rebatimentos de suas ideias nos expressivos trabalhos de Marildo Menegat (<em>Depois do fim do mundo: a crise da modernidade e a barb\u00e1rie<\/em>. Rio de Janeiro: Relume-Dumar\u00e1, 2003; <em>O olho da barb\u00e1rie<\/em>. S. Paulo: Express\u00e3o Popular, 2006).<\/p>\n<p>lxx. Cf., entre outras fontes, Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros, <em>Beyond Capital<\/em>, ed. cit. e <em>O poder da ideologia<\/em>. S. Paulo: Boitempo, 2004; Samir Amin, <em>Au-del\u00e0 du capitalisme s\u00e9nile<\/em>. Paris: PUF, 2001; David Harvey, <em>O novo imperialismo<\/em>, ed. cit.; Felipe Melo da Silva Brito, <em>Acumula\u00e7\u00e3o (democr\u00e1tica) de escombros<\/em>. Tese de doutoramento no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social. Rio de Janeiro: ESS\/UFRJ, m\u00edmeo, 2010; Andr\u00e9 Villar Gomez, <em>Revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e capitalismo: t\u00f3picos sobre a destrui\u00e7\u00e3o e a cria\u00e7\u00e3o de uma outra natureza<\/em>. Tese de doutoramento no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social. Rio de Janeiro: ESS\/UFRJ, m\u00edmeo, 2010.<\/p>\n<p>lxxi. \u00c9 expressivo como personalidades significativas da intelectualidade t\u00eam reagido \u00e0s interven\u00e7\u00f5es belicistas do gendarme mundial norte-americano: em face da Guerra do Golfo (1991), lembrem-se as posi\u00e7\u00f5es de Jean Braudrillard (cf. Christopher Norris, <em>Uncritical theory: postmodernism, intellectuals and the Gulf War<\/em>. London: Lawrence &amp; Wishart, 1992) ou do conhecido jurista e te\u00f3rico pol\u00edtico Norberto Bobbio, que a declarou um \u201cguerra justa\u201d \u2013 e n\u00e3o poucos respeit\u00e1veis autores, como Jurgen Habermas, Axel Honneth e Michael Walzer, acompanharam o posicionamento do ilustre italiano (cf. Paulo E. Arantes, <em>Extin\u00e7\u00e3o<\/em>. S. Paulo: Boitempo, 2007, pp. 31-32).<\/p>\n<p>lxxii. Cf., entre outros, Paul A. Baran e Paul M. Sweezy, <em>Monopoly Capital<\/em>. New York: Monthly Review Press, 1966 e Victor Perlo, <em>Militarismo e ind\u00fastria<\/em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1969.<\/p>\n<p>lxxiii. Michel Chossudovski, <em>Guerra e globaliza\u00e7\u00e3o: antes e depois do 11 de setembro de 2001<\/em>. S. Paulo: Express\u00e3o Popular, 2004, p. 169.<\/p>\n<p>lxxiv. \u201cNa Primeira Guerra Mundial, cerca de 5% dos mortos eram civis; na Segunda Guerra Mundial, este n\u00famero elevou-se a 66%. [&#8230;] Estima-se em 80 a 90% o n\u00famero de civis mortos nas guerras atuais\u201d (Felipe Melo da Silva Brito, <em>op. cit<\/em>., p. 46).<\/p>\n<p>lxxv. A \u201cseguran\u00e7a privada\u201d opera nas \u00e1reas formalmente conflagradas: \u201cEm abril de 2007, o Departamento de Defesa [norte-americano] declarou que aproximadamente 129 mil homens de diversas nacionalidades trabalhavam em servi\u00e7os de seguran\u00e7a no Iraque. O n\u00famero \u00e9 quase o mesmo de militares norte-americanos, antes do refor\u00e7o de 30 mil homens, anunciado em janeiro deste mesmo ano\u201d (Felipe Melo da Silva Brito, <em>op. cit.<\/em>, p. 56).<\/p>\n<p>lxxvi. Cf. L. Wacquant, <em>Punir os pobres: a nova gest\u00e3o da pobreza nos Estados Unidos<\/em>. Rio de Janeiro: Revan\/Instituto Carioca de Criminologia, 2002 e tamb\u00e9m, do mesmo autor, <em>As pris\u00f5es da mis\u00e9ria<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.<\/p>\n<p>lxxvii. Na entrada da d\u00e9cada de 1990, nos Estados Unidos, \u201cum estudo do <em>National Institute of Justice<\/em> destacou que a seguran\u00e7a privada tornou-se o \u2018principal meio de prote\u00e7\u00e3o da Na\u00e7\u00e3o\u2019, superando a seguran\u00e7a p\u00fablica em 73%. O gasto anual em seguran\u00e7a privada foi estimado em U$ 52 bilh\u00f5es e o n\u00famero de formalmente empregados foi de 1,5 milh\u00e3o de pessoas. No que tange \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica, o gasto estimado foi de U$ 30 bilh\u00f5es por ano, com uma for\u00e7a de trabalho de aproximadamente 600 mil pessoas\u201d (Felipe Melo da Silva Brito, <em>op. cit.<\/em>, p. 57).<\/p>\n<p>lxxviii. Cf., para as fontes destes n\u00fameros, Felipe Melo da Silva Brito, <em>op. cit.<\/em>, p. 21.<\/p>\n<p>lxxix. \u00c9 larga a documenta\u00e7\u00e3o acerca das pol\u00edticas sociais; na bibliografia brasileira, cf., entre outras fontes, Elaine R. Behring e Ivanete Boschetti, <em>Pol\u00edtica social. Fundamentos e hist\u00f3ria<\/em>. S. Paulo: Cortez, 2006; Ivanete Boschetti <em>et alii<\/em>, orgs., <em>Pol\u00edtica social no capitalismo. Tend\u00eancias contempor\u00e2neas<\/em>. S. Paulo: Cortez, 2008 e Jos\u00e9 Paulo Netto, <em>Capitalismo monopolista e Servi\u00e7o Social<\/em>. S. Paulo: Cortez, 2009. A participa\u00e7\u00e3o empresarial na <em>nova<\/em> filantropia, revestida com o verniz da \u201cresponsabilidade social das empresas\u201d, foi analisada por Monica de Jesus Cesar em <em>\u201cEmpresa cidad\u00e3\u201d. Uma estrat\u00e9gia de hegemonia<\/em>. S. Paulo: Cortez, 2008.<\/p>\n<p>lxxx .Tratei da insufici\u00eancia deste \u201cobjetivo do mil\u00eanio\u201d em \u201cDesigualdade, pobreza e Servi\u00e7o Social\u201d, <em>in Em pauta. Teoria social e realidade contempor\u00e2nea<\/em>. Rio de Janeiro: Revan\/UERJ, n\u00ba 19, 2007.<\/p>\n<p>lxxxi Para uma vis\u00e3o informada desses programas na Am\u00e9rica Latina, cf. o sint\u00e9tico estudo de Rosa Helena Stein, \u201cConfigura\u00e7\u00e3o recente dos programas de transfer\u00eancia de renda na Am\u00e9rica Latina: focaliza\u00e7\u00e3o e condicionalidade\u201d, <em>in <\/em>Ivanete Boschetti <em>et alii<\/em>, orgs., <em>Pol\u00edtica social no capitalismo. Tend\u00eancias contempor\u00e2neas<\/em>, ed. cit., p. 196 e ss.<\/p>\n<p>lxxxii. Pol\u00edtica externa que n\u00e3o se submeteu aos ditames de Washington e que apoiou os governos anti-imperialistas e progressistas na Am\u00e9rica Latina (Venezuela, Bol\u00edvia, Equador). Mas os cr\u00edticos de Lula da Silva, neste aspecto, t\u00eam severas reservas \u00e0 presen\u00e7a de tropas brasileiras no Haiti.<\/p>\n<p>lxxxiii. Sobre este ponto, destaca-se o excelente estudo de Mauro Lu\u00eds Iasi, <em>As metamorfoses da consci\u00eancia de classe. O PT entre a nega\u00e7\u00e3o e o consentimento<\/em>. S. Paulo: Express\u00e3o Popular, 2006; para uma an\u00e1lise que esclarece o transformismo no campo das concep\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas sindicais do PT, cf. Paulo S. Tumolo, <em>Da contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 conforma\u00e7\u00e3o: a forma\u00e7\u00e3o sindical da CUT e a reestrutura\u00e7\u00e3o capitalista<\/em>. Campinas: UNICAMP, 2002.<\/p>\n<p>lxxxiv. Do PT sa\u00edram grupamentos trotskistas (um deles, ali\u00e1s, constituiu depois o <em>Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado<\/em>\/PSTU) e socialistas (que acabaram por fundar o <em>Partido Socialismo e Liberdade<\/em>\/P-Sol) e, especialmente, influentes nomes da intelectualidade brasileira, inclusive da academia (Lauro Campos, Francisco de Oliveira, Pl\u00ednio de Arruda Sampaio, Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder, Jo\u00e3o Ant\u00f4nio de Paula, Ricardo Antunes, Mauro Iasi, entre outros).<\/p>\n<p>lxxxv. Cf. Leda Maria Paulani, \u201cCapitalismo financeiro, estado de emerg\u00eancia econ\u00f4mico e hegemonia \u00e0s avessas\u201d, <em>in<\/em> Francisco de Oliveira <em>et alii<\/em>, orgs., <em>Hegemonia \u00e0s avessas<\/em>. S. Paulo: Boitempo, 2010.<\/p>\n<p>lxxxvi. Uma an\u00e1lise rigorosa do primeiro governo de Lula da Silva, que esclarece esta afirma\u00e7\u00e3o contundente, encontra-se dispon\u00edvel em L. Filgueiras e R. Gon\u00e7alves, <em>A economia pol\u00edtica do Governo Lula<\/em>. Rio de Janeiro: Contraponto, 2007.<\/p>\n<p>lxxxvii. Cf. Virg\u00ednia Fontes, <em>op. cit.<\/em>, cap. 6.<\/p>\n<p>lxxxviii. Contra o qual, frontalmente, coloca-se o mais importante e articulado movimento social brasileiro, o <em>Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra<\/em>\/MST.<\/p>\n<p>lxxxix. H\u00e1 um suporte assistencial que extrapola o <em>Bolsa-Fam\u00edlia<\/em>: trata-se do <em>Benef\u00edcio de capacita\u00e7\u00e3o continuada<\/em>, criado muito antes dos governos Lula da Silva, quando da aprova\u00e7\u00e3o da <em>Lei Org\u00e2nica da Assist\u00eancia Social <\/em>(1993) e regulamentado em 1995. Seu car\u00e1ter minimalista \u00e9 igualmente \u00f3bvio: garante 1 sal\u00e1rio m\u00ednimo a cerca de 3 milh\u00f5es de idosos (65 anos ou mais) e pessoas com defici\u00eancia, incapacitados para o trabalho e com renda <em>per capita<\/em> familar inferior a \u00bc do sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p>xc. Considerando todos os t\u00edtulos emitidos pelo Tesouro, a d\u00edvida interna brasileira, em 2009, superava 2 trilh\u00f5es de reais; a d\u00edvida externa, em 2009, chegava a U$ 282 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>xci Um balan\u00e7o geral dos governos Lula da Silva, na \u00f3tica dos comunistas, est\u00e1 resumido nos seguintes par\u00e1grafos (documento oficial do Partido Comunista Brasileiro, dispon\u00edvel no <em>site<\/em> do PCB):<\/p>\n<p>\u201cLula promove a integra\u00e7\u00e3o da economia brasileira ao mercado internacional tendo como papel-chave a exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas e produtos agr\u00edcolas, a importa\u00e7\u00e3o de capitais e a conquista de \u201cnichos\u201d nestes mercados \u2013 e, em alguns outros, bem demarcados, de produtos industriais \u2013 com a cria\u00e7\u00e3o de grandes empresas transnacionais lastreadas em capital brasileiro. No plano pol\u00edtico, Lula vem ocupando um espa\u00e7o de alguma independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses capitalistas desenvolvidos, como no caso da Am\u00e9rica Latina, adotando posi\u00e7\u00f5es que at\u00e9 podem, eventualmente, contrapor-se aos interesses dos EUA e seus aliados, mas que, na ess\u00eancia, significam a defesa dos interesses dos grupos econ\u00f4micos brasileiros no exterior.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo Lula tem se baseado na oferta de apoio irrestrito aos interesses dos grandes bancos e empresas industriais, brasileiras ou estrangeiras, n\u00e3o faltando concess\u00f5es a grupos madeireiros ou apoio financeiro a bancos e empresas industriais em dificuldade, em meio \u00e0 crise econ\u00f4mica, como foi o caso do grupo Votorantim.<\/p>\n<p>O crescimento, t\u00edmido, da economia brasileira, nos \u00faltimos anos, se deu basicamente \u00e0s custas da expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola, das divisas provenientes da exporta\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios e produtos agr\u00edcolas, do impacto do crescimento da atividade de explora\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo no mar e do efeito de uma demanda interna de equipamentos e bens de consumo dur\u00e1veis, fomentada com uma pol\u00edtica de cr\u00e9dito ao consumidor \u2013 uma pol\u00edtica praticamente ausente, at\u00e9 recentemente, no Brasil \u2013 que tem um perfil de autossustenta\u00e7\u00e3o que, mesmo com uma escala limitada, gerou uma relativa expans\u00e3o das camadas m\u00e9dias.<\/p>\n<p>Lula acena com algumas medidas de fortalecimento do Estado, como no projeto do regime de partilha para a explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo da camada pr\u00e9-sal e na retomada de algumas empresas estatais como a Brasil Telecom. Ao mesmo tempo, mant\u00e9m o programa de bolsas-fam\u00edlia (criado no governo FHC, a partir de sugest\u00e3o do Banco Mundial) e adota outras medidas de car\u00e1ter assistencialista.<\/p>\n<p>No entanto, o quadro geral da distribui\u00e7\u00e3o de renda no pa\u00eds alterou-se muito pouco, sendo alarmante o n\u00famero de resid\u00eancias prec\u00e1rias e sem saneamento b\u00e1sico (mais de 50%) e situadas em \u00e1reas desprovidas de infraestrutura urbana, o elevado patamar de desemprego, a alta incid\u00eancia de verminoses e doen\u00e7as decorrentes da subnutri\u00e7\u00e3o e outras que j\u00e1 haviam sido erradicadas, a total falta de prote\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria aos trabalhadores, a insufici\u00eancia e fragilidade dos sistemas p\u00fablicos de sa\u00fade de educa\u00e7\u00e3o, de transportes e outras \u00e1reas de interesse social\u201d.<\/p>\n<p>xcii. Observe-se que, segundo estimativas referentes a 2010, a popula\u00e7\u00e3o brasileira gira em torno de 193 milh\u00f5es de pessoas, das quais cerca de 155 milh\u00f5es vivem em cidades.<\/p>\n<p>xciii. Dados referentes a 2009, recolhidos pelo IBGE (institui\u00e7\u00e3o governamental) e reportados em <em>O Globo<\/em>. Rio de Janeiro, edi\u00e7\u00e3o de 3 de outubro de 2010.<\/p>\n<p>xciv. Quanto \u00e0 in\u00e9pcia, s\u00e3o conhecidos os in\u00fameros casos de n\u00e3o aplica\u00e7\u00e3o de recursos or\u00e7ament\u00e1rios; quanto \u00e0 dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, observe-se, como exemplo, que os governos Lula da Silva, no tocante a projetos de reforma agr\u00e1ria, promoveram <em>menos<\/em> assentamentos que os governos de Fernando Henrique Cardoso.<\/p>\n<p>xcv Cumpre observar, neste aspecto, que a repress\u00e3o policial militarizada n\u00e3o \u00e9 exercida, no Brasil, pelo Executivo federal \u2013 constitucionalmente, ela cabe aos estados componentes da Federa\u00e7\u00e3o. Assim, <em>diretamente<\/em>, aos dois governos Lula da Silva n\u00e3o pode ser creditada a tend\u00eancia \u00e0 militariza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica. Mas ficou clara a op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, neste dom\u00ednio, de Lula da Silva, quando n\u00e3o s\u00f3 elogiou as <em>unidades de pol\u00edcia pacificadora <\/em>(cf. <em>infra<\/em>, no corpo do texto) implantadas no estado do Rio de Janeiro pelo seu aliado, o governador S\u00e9rgio Cabral Filho, mas quando ele e sua candidata Dilma Roussef comprometeram-se a generalizar este modelo.<\/p>\n<p>xcvi Assim como o \u201cneg\u00f3cio\u201d da seguran\u00e7a privada \u2013 veja-se a seguinte nota, extra\u00edda do <em>Jornal do Com\u00e9rcio<\/em>, de Porto Alegre, edi\u00e7\u00e3o de 26 de outubro de 2010:<\/p>\n<p>\u201cDe acordo com informa\u00e7\u00f5es da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Empresas de Seguran\u00e7a e Vigil\u00e2ncia (Abrevis), existem hoje no Brasil 1.491 empresas registradas que executam esse tipo de servi\u00e7o. Elas empregam 477 mil vigilantes, n\u00famero maior do que os 411.900 policiais militares estimados pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a em todos os estados brasileiros.<\/p>\n<p>Esse &#8220;ex\u00e9rcito&#8221; da seguran\u00e7a privada tamb\u00e9m supera o efetivo total das For\u00e7as Armadas, que \u00e9 de 320.400 homens. Apenas no Rio Grande do Sul, est\u00e3o em opera\u00e7\u00e3o 125 empresas de seguran\u00e7a privada, empregando 30.635 vigilantes.<\/p>\n<p>No entanto, segundo dados da Coordena\u00e7\u00e3o de Controle da Seguran\u00e7a Privada da Pol\u00edcia Federal, existem outros 1,1 milh\u00e3o de vigilantes cadastrados, mas n\u00e3o ativos. Se o n\u00famero total for levado em considera\u00e7\u00e3o, o contingente de homens da seguran\u00e7a privada no Brasil supera o da Pol\u00edcia Militar e das For\u00e7as Armadas juntas.<\/p>\n<p>Essas estat\u00edsticas refletem o tamanho do mercado da seguran\u00e7a privada, que j\u00e1 \u00e9 um dos maiores e mais lucrativos do Pa\u00eds. O faturamento previsto para as empresas deste setor em 2010 \u00e9 de R$ 15 bilh\u00f5es, e o crescimento anual \u00e9 de cerca de 14%\u201d.<\/p>\n<p>xcvii Tema do filme \u201cTropa de elite\u201d (Brasil, 2007), dirigido por Jos\u00e9 Padilha.<\/p>\n<p>xcviii Cf. Felipe Melo da Silva Brito, <em>op. cit.<\/em>, p. 22.<\/p>\n<p>xcix Interesses especialmente ativados e potenciados em raz\u00e3o das interven\u00e7\u00f5es urbanas exigidas para realiza\u00e7\u00e3o da Copa do Mundo\/FIFA (2014) e, sobretudo, para que a cidade sedie os Jogos Ol\u00edmpicos de 2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nIII Encontro Internacional \u201cCiviliza\u00e7\u00e3o ou Barb\u00e1rie\u201d\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/953\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[89],"tags":[],"class_list":["post-953","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c102-civilizacao-ou-barbarie"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-fn","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/953","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=953"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/953\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=953"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=953"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=953"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}