{"id":9549,"date":"2015-10-16T20:59:56","date_gmt":"2015-10-16T23:59:56","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9549"},"modified":"2015-10-22T22:34:25","modified_gmt":"2015-10-23T01:34:25","slug":"a-privatizacao-da-rda-um-exemplo-para-a-grecia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9549","title":{"rendered":"A privatiza\u00e7\u00e3o da RDA: um exemplo para a Gr\u00e9cia?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/solidaire.org\/sites\/default\/files\/styles\/solidair_news_main\/public\/images\/2015\/10\/02\/webgoodbyelenin_2.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>por Herwig Lerouge<\/p>\n<p>A maior privatiza\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria come\u00e7ou h\u00e1 25 anos. O balan\u00e7o da Treuhandanstalt, organismo da Alemanha ocidental encarregado da privatiza\u00e7\u00e3o dos bens da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3 (RDA) mostra que esta n\u00e3o \u00e9 a via a seguir\u2026<!--more--><\/p>\n<p>Desde o ultimato europeu \u00e0 Gr\u00e9cia de 13 de julho (3.\u00ba acordo financeiro entre o governo e a UE), est\u00e1 tudo \u00e0 venda na Gr\u00e9cia: ilhas, praias, hot\u00e9is, castelos, portos, aeroportos, autoestradas, caminho-de-ferro, instala\u00e7\u00f5es ol\u00edmpicas\u2026 A venda de patrim\u00f3nio p\u00fablico at\u00e9 ao fim de 2017 dever\u00e1 render 50 mil milh\u00f5es de euros, dos quais 50% devem servir para recapitalizar os bancos. Outra parte ser\u00e1 utilizada para pagar aos credores (alem\u00e3es, franceses\u2026) e o restante ser\u00e1 consagrado a investimentos ainda n\u00e3o determinados neste momento. Um agente imobili\u00e1rio su\u00ed\u00e7o de alto coturno j\u00e1 vendeu a Johny Depp a ilha de Stroggilo, perto de Samos, por 4,2 milh\u00f5es de euros, negociou o ilh\u00e9u Gaia nas ilhas j\u00f3nicas para Angelina Jolie e Brad Pitt e comprou por 15 milh\u00f5es a ilha de Aghios Thomas, perto da ilha Egina, com o multimilion\u00e1rio Warren Buffet. E a lista dos seus clientes continua a aumentar. O governo grego teve que vender os 14 aeroportos lucrativos e manter os outros 30 deficit\u00e1rios, subsidiando-os. O presidente do munic\u00edpio de Corfu n\u00e3o quer acreditar: &#8220;A nossa ilha de 120 mil habitantes recebe mais de um milh\u00e3o de turistas por ano. O nosso aeroporto \u00e9 extremamente rent\u00e1vel. Porqu\u00ea entreg\u00e1-lo em m\u00e3os estrangeiras?&#8221;<\/p>\n<p>E quem vai assumir o controlo desses aeroportos? A sociedade Fraport AG, uma empresa p\u00fablica alem\u00e3, em que a maior parte das a\u00e7\u00f5es pertence \u00e0 cidade de Frankfurt e ao estado de Hesse. O que era propriedade do estado grego vai passar a ser propriedade do estado alem\u00e3o. E os lucros realizados nesses 14 aeroportos v\u00e3o financiar os servi\u00e7os p\u00fablicos alem\u00e3es. [1]<\/p>\n<p>&#8220;A soberania da Gr\u00e9cia ficar\u00e1 extremamente reduzida&#8221;<\/p>\n<p>J\u00e1 em 2011, o presidente da Comiss\u00e3o Europeia, Jean-Claude Juncker, na \u00e9poca presidente do Eurogrupo, comparava a situa\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia \u00e0 da Alemanha de Leste, depois da reunifica\u00e7\u00e3o. Na revista alem\u00e3 Focus, explicava que &#8220;a soberania da Gr\u00e9cia ficar\u00e1 extremamente reduzida&#8221; dada &#8220;a vaga de privatiza\u00e7\u00f5es em perspetiva&#8221;, num montante de 50 mil milh\u00f5es de euros. Seria necess\u00e1rio, dizia ele, uma ag\u00eancia de privatiza\u00e7\u00f5es, pilotada por especialistas europeus e fundada &#8220;segundo o modelo da Treuhand alem\u00e3&#8221;, essa organiza\u00e7\u00e3o que tinha vendido 14 mil firmas da Alemanha de Leste, entre 1990 e 1994. Afirmava estar convencido de que as medidas tomadas &#8220;resolveriam a quest\u00e3o grega&#8221;. [2]<\/p>\n<p>O fundo de privatiza\u00e7\u00e3o de que Juncker fala e que a Alemanha exige, chama-se o TAIPED (Fundo de Desenvolvimento do Patrim\u00f3nio da Rep\u00fablica Hel\u00e9nica). Com efeito, retoma os m\u00e9todos utilizados aquando da reunifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3.<\/p>\n<p>Em 1990, h\u00e1 exatamente 25 anos, mal tinha passado um ano da queda do muro, o governo crist\u00e3o-democrata Kohl instituiu uma sociedade para organizar a privatiza\u00e7\u00e3o da economia da ex-RDA, a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3. Tal como o fundo de privatiza\u00e7\u00e3o grego, tratava-se de um organismo que tinha as m\u00e3os livres para vender rapidamente os haveres da Alemanha de Leste, fazendo assim entrar milh\u00f5es nos cofres do estado alem\u00e3o.<\/p>\n<p>1990: A grande expropria\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o da RDA<\/p>\n<p>A 9 de novembro de 1989, a queda do muro de Berlim abre o caminho \u00e0 reunifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3. Coloca-se ent\u00e3o a quest\u00e3o: como adaptar o conjunto do sistema produtivo da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3 (RDA) e integr\u00e1-lo no conjunto da economia alem\u00e3? A RDA tinha uma ind\u00fastria e uma agricultura desenvolvidas e bastante completas. O problema central era a falta de capitais para modernizar um aparelho produtivo envelhecido. Mas as empresas, a propriedade fundi\u00e1ria e o conjunto das atividades econ\u00f3micas pertenciam ao Estado, ou seja, aos cidad\u00e3os. Os militantes das ONGs na base da revolta de 1989, organizados na &#8220;Mesa Redonda central&#8221;, apresentaram ao primeiro-ministro Hans Modrow uma &#8220;proposta para formar rapidamente uma ag\u00eancia fiduci\u00e1ria (Treuhandgesellschaft, em alem\u00e3o) encarregada de salvaguardar os direitos dos cidad\u00e3os da RDA quanto \u00e0 propriedade p\u00fablica da RDA&#8221;. Consideravam que a transfer\u00eancia desses bens para o Estado seria uma &#8220;espolia\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os&#8221;. Receavam que, no caso duma &#8220;anexa\u00e7\u00e3o da RDA \u00e0 Rep\u00fablica Federal da Alemanha, a propriedade do povo perder-se-ia&#8221;, se tudo isso passasse a pertencer ao Estado alem\u00e3o. A Treuhand devia emitir a\u00e7\u00f5es imediatamente e distribui-las pelos cidad\u00e3os da RDA sob a forma de participa\u00e7\u00f5es no capital da RDA. Na verdade, uma esp\u00e9cie de &#8220;capitalismo popular&#8221;.<\/p>\n<p>O governo Modrow, uma coliga\u00e7\u00e3o de todos os partidos existentes na RDA, criou essa Treuhandanstalt, no dia 1 de mar\u00e7o de 1990.<\/p>\n<p>&#8220;Capitalismo popular&#8221;<\/p>\n<p>Mas, uns dias depois, a CDU da Alemanha ocidental ganha as elei\u00e7\u00f5es. A 17 de junho de 1990, a nova C\u00e2mara popular da RDA aprova a Treuhandgesetz (lei sobre a privatiza\u00e7\u00e3o e reorganiza\u00e7\u00e3o do patrim\u00f3nio do Estado). Esta lei estipula que &#8220;o patrim\u00f3nio do Estado deve ser privatizado&#8221;. Esta disposi\u00e7\u00e3o fora imposta pelo governo da Rep\u00fablica Federal Alem\u00e3 (RFA). O chanceler Kohl tinha prometido aos cidad\u00e3os da RDA, durante a campanha eleitoral, que ningu\u00e9m ficaria a perder com isso. Segundo ele, a RDA estava na fal\u00eancia, a sua economia completamente desgastada. Gra\u00e7as ao trabalho da Treuhand, ele faria da Alemanha de Leste uma &#8220;paisagem florescente&#8221; em poucos anos.<\/p>\n<p>Esta lei p\u00f5e fim aos sonhos de &#8220;capitalismo popular&#8221; dos movimentos de cidad\u00e3os que tinham contribu\u00eddo para a queda do muro. Mas os novos dirigentes pol\u00edticos e um ex\u00e9rcito de professores da Alemanha ocidental apareceram na televis\u00e3o a afirmar que a privatiza\u00e7\u00e3o da RDA iria salvar os cidad\u00e3os da cat\u00e1strofe. Com efeito, diziam eles, a economia da RDA n\u00e3o valia nada, s\u00f3 havia d\u00edvidas. Deviam mostrar-se agradecidos por n\u00e3o lhes darem t\u00edtulos de propriedade. Pelo menos, n\u00e3o seriam responsabilizados pelas d\u00edvidas. Como j\u00e1 n\u00e3o eram propriet\u00e1rios, j\u00e1 n\u00e3o era necess\u00e1rio associar os cidad\u00e3os \u00e0s opera\u00e7\u00f5es de privatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta decis\u00e3o correspondia evidentemente aos desejos do patronato da RDA que exigia uma privatiza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a e r\u00e1pida. Um dia antes da reunifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3, a 2 de outubro de 1990, o escritor G\u00fcnter Grass faz um discurso sobre &#8220;Um neg\u00f3cio de ouro, chamado RDA&#8221;. O patronato tinha uma opini\u00e3o totalmente diferente dos cidad\u00e3os sobre o valor do aparelho produtivo da RDA. Uma equipa de prospe\u00e7\u00e3o do Banco Schr\u00f6der, M\u00fcnchmeyer, Hengst &amp; Co., estava totalmente de acordo com ele. Os especialistas dizem no seu relat\u00f3rio comentado no Frankfurter Allgemeine Zeitung de 7 de fevereiro de 1990: &#8220;Os participantes nesta viagem de prospe\u00e7\u00e3o est\u00e3o entusiasmados. Tr\u00eas quartos dos participantes tinham a inten\u00e7\u00e3o firme de comprar empresas na RDA. Pensavam que, em dez anos, no m\u00e1ximo, os neg\u00f3cios seriam muito rent\u00e1veis&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A corrida ao ouro&#8221;<\/p>\n<p>A Treuhandanstalt foi pois transformada, pela lei de 17 de junho de 1990, numa ag\u00eancia de vendas a privados dos bens da ex-RDA. Rohwedder, presidente do conselho de administra\u00e7\u00e3o da Hoesch AG e membro de in\u00fameros outros conselhos de administra\u00e7\u00e3o nas maiores empresas alem\u00e3es, \u00e9 o seu primeiro presidente. Andr\u00e9 Leysen, antigo presidente da Federa\u00e7\u00e3o das Empresas da B\u00e9lgica (FEB) ser\u00e1 o \u00fanico estrangeiro a fazer parte da dire\u00e7\u00e3o da Treuhand. Quando Rohwedder \u00e9 assassinado, sucede-lhe Birgit Breuel, filha de um banqueiro e v\u00e1rias vezes ministra regional das finan\u00e7as. Assiste-se a uma verdadeira corrida ao ouro. Ind\u00fastrias, bancos, lobbyistas precipitam-se para o leste, na aus\u00eancia de qualquer quadro legal. O primeiro a chegar \u00e9 o primeiro a ser servido. Isto passa-se t\u00e3o depressa que, numa visita \u00e0 B\u00e9lgica, Birgit Breuel podia anunciar, no fim de 1992, que em breve &#8220;o papel do seu organismo se limitaria a manter o respeito pelos compromissos assumidos pelos compradores ocidentais, em termos de investimentos e de manuten\u00e7\u00e3o do emprego&#8221;. [3]<\/p>\n<p>Estava previsto que a Treuhand vendesse o patrim\u00f3nio p\u00fablico com um benef\u00edcio, mas fechou as contas com um d\u00e9fice enorme de 270 mil milh\u00f5es de marcos (118 400 milh\u00f5es de euros). Um pouco antes do fim da Treuhand, em finais de 1994, \u00e9 a hora do balan\u00e7o: &#8220;Quando come\u00e7\u00e1mos, t\u00ednhamos que fazer um diagn\u00f3stico de cerca de 8500 empresas. Hoje, depois de reestrutura\u00e7\u00f5es importantes, a nossa carteira subiu para umas 13 mil empresas. At\u00e9 hoje, privatiz\u00e1mos 12 .300 empresas e partes de empresas; fech\u00e1mos 2500. H\u00e1 mil em vias de privatiza\u00e7\u00e3o. Falta, pois, privatizar 800 empresas&#8221;. [4]<\/p>\n<p>Privatiza\u00e7\u00e3o, privatiza\u00e7\u00e3o, privatiza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A privatiza\u00e7\u00e3o era a prioridade absoluta. Nunca a Treuhand encarou a possibilidade de sanear empresas para torn\u00e1-las empresas p\u00fablicas eficazes. A Treuhand Anstalt 1 liquidou 30% das empresas e ofereceu as restantes por um marco simb\u00f3lico a sociedades e a especuladores da Alemanha ocidental. Na agricultura, a grande expropria\u00e7\u00e3o teve lugar entre 1990 e 1992. Atualmente, os camponeses est\u00e3o reduzidos a comprar ou alugar as suas terras. 87% das empresas privatizadas foram vendidas a grupos da Alemanha ocidental. No melhor dos casos, tornaram-se filiais de empresas da Alemanha ocidental. Em muitos outros casos, os alem\u00e3es ocidentais compraram-nas a baixo pre\u00e7o para as fechar e eliminar assim a concorr\u00eancia ou para especular com os terrenos ou os edif\u00edcios.<\/p>\n<p>As grandes siderurgias de Brandenburgo est\u00e3o totalmente destru\u00eddas. A f\u00e1brica de tratores da mesma cidade e a fia\u00e7\u00e3o de l\u00e3 j\u00e1 n\u00e3o existem. Os 5000 trabalhadores da Pentacon Dresden j\u00e1 n\u00e3o produzem m\u00e1quinas fotogr\u00e1ficas. J\u00e1 n\u00e3o se constroem cami\u00f5es. A Krupp Stahl comprou, com subs\u00eddios do Estado, a laminagem de Oranienburgo e paralisou-a em 1993. A f\u00e1brica berlinense de instala\u00e7\u00f5es de aquecimento, que empregava 1850 trabalhadores, e era grande exportadora de centrais el\u00e9tricas, foi \u00e0 fal\u00eancia em 1993.<\/p>\n<p>Mesmo empresas modernas, como a mina de pot\u00e1ssio de Bischofferode, est\u00e3o fechadas e os trabalhadores despedidos porque a BASF queria eliminar a concorr\u00eancia da Alemanha de Leste. Com frequ\u00eancia, s\u00f3 pediram um marco simb\u00f3lico por grandes empresas e, al\u00e9m disso, ainda reembolsaram os novos chefes das empresas pelos alegados custos de saneamento de locais contaminados e deram-lhes ajudas para investimentos e compensa\u00e7\u00f5es pelas perdas sofridas. In\u00fameros compradores foram dispensados dos controlos de rotina normais em quest\u00f5es de com\u00e9rcio e de pessoal.<\/p>\n<p>A agricultura assegurava o abastecimento de base de todos os habitantes da RDA. Depois da uni\u00e3o monet\u00e1ria (a 1 de junho de 1990, o marco alem\u00e3o tornou-se na moeda oficial), as cadeias de grande distribui\u00e7\u00e3o da Alemanha ocidental eliminaram do mercado os produtos agr\u00edcolas da Alemanha oriental. Os cultivadores passaram a receber apenas metade ou mesmo um ter\u00e7o do antigo pre\u00e7o dos seus produtos. Muitos agricultores perderam o seu trabalho ou desistiram: dos 850 mil agricultores da RDA, s\u00f3 restam 170 mil. A superf\u00edcie cultiv\u00e1vel diminuiu em 20%, o gado diminuiu em 50% para os bovinos, em 65% para os su\u00ednos e em 70% para os ovinos.<\/p>\n<p>Maior destrui\u00e7\u00e3o das riquezas sociais<\/p>\n<p>Os bancos ocidentais puderam comprar os bancos p\u00fablicos da RDA pela quantia rid\u00edcula de 412 milh\u00f5es de euros. Em contrapartida, ficaram com os t\u00edtulos de d\u00edvida das empresas, do imobili\u00e1rio (10 mil milh\u00f5es) e das cooperativas agr\u00edcolas (4 mil milh\u00f5es). O Deutsche Bank arrebatou dois ter\u00e7os das filiais do Banco Nacional da RDA.<\/p>\n<p>Resultado: a maior destrui\u00e7\u00e3o de riquezas sociais jamais vista em tempo de paz. A 19 de outubro de 1990, Rohwedder, o presidente da Treuhand, calculava o valor dos bens a privatizar em 300 mil milh\u00f5es de euros. Quando a Treuhand fechou a porta em 1994, apresentava um balan\u00e7o negativo de 128 mil milh\u00f5es de euros. Foram destru\u00eddos mais de 400 mil milh\u00f5es de euros. No final de 1991, a ind\u00fastria de leste j\u00e1 s\u00f3 produzia um ter\u00e7o da sua produ\u00e7\u00e3o anterior a 1989.<\/p>\n<p>As exporta\u00e7\u00f5es entraram em queda e ficaram reduzidas \u00e0 metade em dois anos, sobretudo para os pa\u00edses da Europa de leste e para a URSS. Mas n\u00e3o se perderam para toda a gente. As exporta\u00e7\u00f5es das empresas da Alemanha ocidental para essas regi\u00f5es quase duplicaram.<\/p>\n<p>Um deserto social<\/p>\n<p>Em dois anos, de 1989 a 1991, o Produto Interno Bruto (PIB) caiu em 44% e a produ\u00e7\u00e3o industrial em 65%. O n\u00famero de pessoas ativas caiu de 8,9 milh\u00f5es para 6,8 milh\u00f5es no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>Em m\u00e9dia, a taxa de crescimento foi de 1% entre 1990 e 2004. Em 1959, o PIB por habitante no leste era metade do da Alemanha ocidental. Em 1991, passou para um ter\u00e7o Em 2009, 20 anos depois, continua em dois ter\u00e7os.<\/p>\n<p>Muitas vezes, em situa\u00e7\u00f5es de monop\u00f3lio, os novos propriet\u00e1rios licenciam maci\u00e7amente e fazem chantagem com o Estado, exigindo subs\u00eddios para investir. Um diretor da Treuhand explicaria mais tarde que &#8220;nenhum grande banco alem\u00e3o arriscou um marco. Foi tudo garantido pelo Estado, pelo conjunto dos cidad\u00e3os&#8221;. Uma outra nota no seu jornal: &#8220;Ningu\u00e9m se rala, ningu\u00e9m tem escr\u00fapulos em esvaziar os cofres do Estado, porque \u00e9 disso que se trata realmente&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m o Estado que vai financiar a renova\u00e7\u00e3o do aparelho produtivo e fechar as empresas menos rent\u00e1veis, as que n\u00e3o encontraram comprador.<\/p>\n<p>Havia quatro milh\u00f5es de alem\u00e3es assalariados em empresas passadas para o rol da Treuhand em 1990. Quando este organismo fechou em 1994, s\u00f3 restava um milh\u00e3o e meio de empregos. As empresas privatizadas tinham prometido retomar um milh\u00e3o e meio. Mas at\u00e9 Birgit Breuel reconhece em 1994 que, pelo menos, 20% dos investidores, n\u00e3o cumpriram esse compromisso, que havia adquirentes que tinham comprado empresas para se verem livres delas e especular com o imobili\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mesmo que as empresas tivessem retomado esse milh\u00e3o e meio de trabalhadores, conforme prometido, a Treuhand teria destru\u00eddo 2,5 milh\u00f5es de empregos.<\/p>\n<p>Os empregos a tempo inteiro, est\u00e1veis, foram substitu\u00eddos, em grande parte, por empregos a tempo parcial e tempor\u00e1rios. Em 2008, a ex-RDA tinha um sexto da popula\u00e7\u00e3o alem\u00e3, mas metade dos alem\u00e3es desempregados.<\/p>\n<p>Entre 1989 e 2006, emigraram 4,1 milh\u00f5es de alem\u00e3es do leste. Sobretudo nas antigas cidades industriais, calcula-se em 1,3 milh\u00f5es o n\u00famero de casas n\u00e3o ocupadas. A solu\u00e7\u00e3o: demoli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No final das contas, foram os cidad\u00e3os que suportaram o peso da reunifica\u00e7\u00e3o. A fal\u00eancia da Treuhand e da sua ideologia de &#8220;terapia de choque&#8221; est\u00e1 pr\u00f3xima. A 1 de janeiro de 1995, desaparece deixando uma montanha de d\u00edvidas \u00e0 Alemanha reunificada.<\/p>\n<p>Ainda hoje, subsistem in\u00fameras disparidades entre a ex-RDA e a Alemanha ocidental (ex-RFA). (Ver mapa)<\/p>\n<p>Mant\u00eam-se algumas conquistas<\/p>\n<p>A maior parte dos habitantes da ex-RDA s\u00f3 dispunham, em 2012, de um rendimento inferior a 17.800 euros por pessoa. A maior parte dos alem\u00e3es do ocidente atinge somas que podem ir at\u00e9 aos 23.700 euros, ou mesmo 26.700.<\/p>\n<p>Em 2013, o PIB por habitante (com exce\u00e7\u00e3o de Berlim) era 50% superior ao dos alem\u00e3es orientais. Nos anos 2000, o desemprego baixou globalmente em toda a Alemanha mas as diferen\u00e7as n\u00e3o foram reduzidas entre alem\u00e3es ocidentais e orientais. Quando o desemprego passa, entre 2006 e 2014, de 10 para 6% da popula\u00e7\u00e3o ativa no antigo territ\u00f3rio da RFA, passa de 20 para 12% na ex-RDA.<\/p>\n<p>Em contrapartida, determinadas conquistas sociais da ex-RDA tamb\u00e9m se mant\u00eam. Os alem\u00e3es de leste continuam a ter melhores cuidados para os seus filhos. H\u00e1 zonas em que 63% das crian\u00e7as (com 2 anos ou menos) frequentam creches ou outras institui\u00e7\u00f5es desse tipo, herdadas da ex-RDA. No ocidente, esta taxa cai com frequ\u00eancia abaixo dos 25%.<\/p>\n<p>Corrup\u00e7\u00e3o e crimes<\/p>\n<p>Por um marco simb\u00f3lico, especuladores de todos os tipos puderam realizar a aquisi\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios ou terrenos de empresas bem situadas em Berlim ou noutros locais, que revenderam pouco tempo depois a alto pre\u00e7o. O antigo chefe do departamento jur\u00eddico da Treuhand explicava, j\u00e1 em setembro de 1992, que o total dos preju\u00edzos infligidos \u00e0 Treuhand por vigarices de todo o tipo &#8220;podia ser razoavelmente calculado em mais de 4,3 mil milh\u00f5es de marcos&#8221;. [5]<\/p>\n<p>Foi por isso que a Treuhand, que alegadamente devia autofinanciar-se \u2013 as receitas das privatiza\u00e7\u00f5es deviam permitir amortizar os custos da reestrutura\u00e7\u00e3o \u2013 acabou com um d\u00e9fice de 140 mil milh\u00f5es de euros.<\/p>\n<p>A vontade de atribuir uma parte dos custos da anexa\u00e7\u00e3o aos regimes sociais (seguran\u00e7a social, reformas, desemprego) conduziu rapidamente a uma crise dessas tesourarias e a medidas de restri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um par\u00e1grafo da lei atribui impunidade aos dirigentes da Treuhand na gest\u00e3o dos seus neg\u00f3cios. O ministro das Finan\u00e7as da \u00e9poca, Theo Waigel, atribuiu-lhes &#8220;a possibilidade de n\u00e3o respeitar a prud\u00eancia habitual da gest\u00e3o de neg\u00f3cios&#8221;. Era preciso agir depressa. Isso levou a que a Treuhand agisse num clima de esc\u00e2ndalos, de corrup\u00e7\u00e3o, de chantagem, quase sempre impunemente. As transa\u00e7\u00f5es da Treuhand alimentaram &#8220;sacos azuis&#8221; do partido CDU de Kohl. Houve o dossi\u00ea Elf-Leuna. Os dirigentes da Siemens, da H\u00f6echst, da Daimler et de outros Thyssen, representados na qualidade de &#8220;especialistas&#8221; junto da dire\u00e7\u00e3o do organismo, puderam repartir a muito bom pre\u00e7o os melhores bocados do bolo da Alemanha de leste.<\/p>\n<p>A RDA estava em fal\u00eancia em 1989?<\/p>\n<p>Ainda hoje, para muitos alem\u00e3es ocidentais, a ex-RDA \u00e9 sin\u00f3nimo de ditadura, de fal\u00eancia econ\u00f3mica. Tratar-se-ia de um pa\u00eds que s\u00f3 sobreviveu gra\u00e7as \u00e0s transfer\u00eancias financeiras do ocidente, \u00e0 custa dos contribuintes da Alemanha ocidental.<\/p>\n<p>O fecho de empresas depois da reunifica\u00e7\u00e3o \u00e9 considerado no ocidente como a consequ\u00eancia da m\u00e1 gest\u00e3o da RDA.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que havia muita coisa arcaica que devia ser modernizada e, em compara\u00e7\u00e3o com a Alemanha ocidental, a produtividade era fraca, mas n\u00e3o se pode falar de fal\u00eancia.<\/p>\n<p>Segundo o relat\u00f3rio da Bundesbank, de agosto de 1999, a RDA dispunha em 1989 de reservas monet\u00e1rias de 29 mil milh\u00f5es de marcos alem\u00e3es. Este montante cobria 59% da d\u00edvida externa. A d\u00edvida por habitante era de cerca de 7000 marcos alem\u00e3es. Isso n\u00e3o representava sequer 50% da d\u00edvida da Alemanha ocidental, que era de 15 mil marcos alem\u00e3es por habitante. Com um produto interno bruto de mais de 16 mil marcos alem\u00e3es por habitante, a RDA situava-se em 1988 no 9\u00ba lugar dos pa\u00edses da comunidade europeia, a seguir \u00e0 Inglaterra, mas antes da Espanha. Em mat\u00e9ria de exporta\u00e7\u00e3o (para 90% dos produtos da ind\u00fastria) a RDA estava em 16.\u00ba lugar na Europa. [6]<\/p>\n<p>Detlev Rohwedder, o primeiro presidente da Treuhand, avaliou o capital da RDA em 600 mil milh\u00f5es de marcos alem\u00e3es.<\/p>\n<p>Foi a uni\u00e3o monet\u00e1ria, demasiado r\u00e1pida, que deu o golpe de miseric\u00f3rdia \u00e0 economia da ex-RDA. De um dia para o outro, decretou-se que um marco do leste valia um marco do ocidente, sem qualquer transi\u00e7\u00e3o. A taxa em vigor era de 4,44 para 1. O presidente da \u00e9poca do Banco Central alem\u00e3o disse: &#8220;Foi um rem\u00e9dio de cavalo, nenhuma economia teria sobrevivido&#8221;.<\/p>\n<p>Num s\u00f3 dia, as empresas de leste perderam os mercados da Alemanha ocidental e da Europa de leste. At\u00e9 a\u00ed, o com\u00e9rcio com os pa\u00edses de leste era regularizado em rublos. Mas, com o marco alem\u00e3o, os produtos da RDA tornaram-se t\u00e3o caros que deixaram de ser competitivos. 70% das empresas foram \u00e0 fal\u00eancia, o que provocou a supress\u00e3o de 2 a 2,5 milh\u00f5es de postos de trabalho, o equivalente a uma taxa de desemprego de 30%.<\/p>\n<p>Disse-se na imprensa que foram injetados nos novos alem\u00e3es um milh\u00e3o de milh\u00f5es de marcos alem\u00e3es, desde 1990. Na realidade, tratou-se de 400 mil milh\u00f5es.<\/p>\n<p>E, tal como com a Gr\u00e9cia, este dinheiro voltou a ser encaixado pelos acionistas das grandes multinacionais do ocidente. A anexa\u00e7\u00e3o da RDA e dos seus mercados anteriores a 1989 abriu-lhes um mercado de mais de 16 milh\u00f5es de novos consumidores, unicamente na Alemanha de Leste. Os bancos apoderaram-se do mercado, os Lidl e outros Aldi apoderaram-se do abastecimento de bens de consumo. A concorr\u00eancia foi adquirida e eliminada pelo encerramento de empresas. A constru\u00e7\u00e3o de estradas e de edif\u00edcios, a reabilita\u00e7\u00e3o de cidades inteiras e a cria\u00e7\u00e3o de novas ind\u00fastrias, segundo o primeiro-ministro de Mecklemburgo-Pomer\u00e2nia Ocidental, Harald Ringstorff, &#8220;beneficiaram em 80% as empresas da Alemanha ocidental&#8221;. A economia da Alemanha ocidental, em especial entre 1990 e 1992, beneficiou enormemente com a reunifica\u00e7\u00e3o. Registou uma taxa de crescimento de 4% e uma progress\u00e3o do n\u00famero de empregos de quase 1,8 milh\u00e3o.<\/p>\n<p>Como de costume, foram os trabalhadores do leste e do ocidente que pagaram e os acionistas que encaixaram. Com a ajuda dos seus amigos no governo, evidentemente,<\/p>\n<hr \/>\n<p>[1] ARD, Milliarden-Deals mit Griechenland: Wer sind die Profiteure der Privatisierung?, 23 juillet 2015<br \/>\n[2] Le Monde, Para Juncker, a Gr\u00e9cia ter\u00e1 que resignar-se a perder uma grande parte da sua soberania, 3 de julho 2011.<br \/>\n[3] Le Soir, 31\/10\/1992<br \/>\n[4] Os dados que se seguem constam no livro de Vladimiro Giacch\u00e9: Anschlu\u00df \u2013 Die deutsche Vereinigung und die Zukunft Europas. Laika-Verlag, Hamburg 2014<br \/>\n[5] Frankfurter Allgemeine Zeitung , 7\/9\/1992.<br \/>\n[6] Siegfried Wenzel. Was war die DDR wert? Und wo ist dieser Wert geblieben? Versuch einer Abschlussbilanz. 7. Auflage, 2006, ISBN 3-360-00940-1<\/p>\n<p><b>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/solidaire.org\/articles\/la-privatisation-de-la-rda-un-exemple-pour-la-grece\" target=\"_blank\">solidaire.org\/articles\/la-<wbr \/>privatisation-de-la-rda-un-<wbr \/>exemple-pour-la-grece<\/a> . Tradu\u00e7\u00e3o de Margarida Ferreira. <\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-large;\"><br \/>\n<b>Este artigo encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/b><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Herwig Lerouge A maior privatiza\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria come\u00e7ou h\u00e1 25 anos. 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