{"id":9569,"date":"2015-10-18T12:18:09","date_gmt":"2015-10-18T15:18:09","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9569"},"modified":"2015-10-22T22:36:39","modified_gmt":"2015-10-23T01:36:39","slug":"o-brasil-esta-parado-mas-os-bancos-continuam-lucrando-entrevista-com-maria-lucia-fattorelli","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9569","title":{"rendered":"O Brasil est\u00e1 parado, mas os bancos continuam lucrando &#8211; entrevista com Maria Lucia Fattorelli"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/3.bp.blogspot.com\/-CE6T-zGaSiY\/Tqww3QPoR0I\/AAAAAAAAK3Q\/7uGmzNGWL2Y\/s1600\/DILMA%2BE%2BOS%2BBANQUEIROS.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Escrito por Gabriel Brito e Paulo Silva Junior, da Reda\u00e7\u00e3o de Correio da Cidadania<\/p>\n<p>Continua a crise generalizada do governo de Dilma Rousseff, que acumula reveses em todas as frentes e sangra politicamente, atado por um Congresso abduzido pelo interesse privado h\u00e1 muito tempo. Para falar de tamanha crise, que agora registra o maior \u00edndice de desemprego desde 2010, conversamos com e economista Maria Lucia Fattorelli, que aproveitou para contar seu trabalho de auditoria sobre a d\u00edvida grega, \u00f3timo exemplo do rumo que podemos ver o Brasil tomar.<!--more--><\/p>\n<p>\u201cO pa\u00eds n\u00e3o recebe dinheiro, mas sim papeis. E tem de reembolsar a troika em dinheiro. De que forma? Aumentando impostos e cortando sal\u00e1rios, aposentadorias, pens\u00f5es, al\u00e9m de privatizar patrim\u00f4nio. Um verdadeiro caos econ\u00f4mico e social, pois com tais redu\u00e7\u00f5es e cortes o desemprego \u00e9 brutal, atinge mais de 60% dos jovens e todas as outras faixas em 30%. Os que mantiveram seus empregos sofreram redu\u00e7\u00e3o forte nos sal\u00e1rios. O PIB encolheu 22% de 2010 pra c\u00e1. O or\u00e7amento reduziu-se em mais de 40 bilh\u00f5es de euros, cifra elevad\u00edssima na economia grega\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Trazendo a discuss\u00e3o para o Brasil, Maria Lucia v\u00ea um quadro devastador, capaz de devolver milh\u00f5es de brasileiro aos nada saudosos patamares de mis\u00e9ria. Sempre fazendo quest\u00e3o de desqualificar o \u201ceconom\u00eas\u201d, a auditora fiscal exp\u00f5e toda a espiral negativa determinada pelas pol\u00edticas de ajuste fiscal, que anulam todas as possibilidades de rea\u00e7\u00e3o da economia. E, diante da imensa perda de credibilidade do governo, n\u00e3o enxerga muita luz no fim do t\u00fanel.<\/p>\n<p>\u201cNada das pautas estruturais foi objeto de enfrentamento. O que se fez foi pol\u00edtica perif\u00e9rica, a exemplo do Bolsa Fam\u00edlia e do programa Minha Casa Minha Vida. O atual momento do governo resulta do fracasso de todas as suas pol\u00edticas. Tivessem sido enfrentadas as pautas estruturais, n\u00e3o passar\u00edamos hoje pelo que estamos passando. E no momento, com toda a crise \u00e9tica e pol\u00edtica, aliada \u00e0 crise econ\u00f4mica gerada por um modelo que todos sabiam que ia dar nisso, dado sua insustentabilidade, fica muito dif\u00edcil segurar\u201d, lamentou.<\/p>\n<p>A entrevista completa, realizada em parceria com a webr\u00e1dio Central3, pode ser lida a seguir.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Come\u00e7ando pelo plano internacional, o que voc\u00ea pode nos contar da sua experi\u00eancia na Gr\u00e9cia, como membro da Comiss\u00e3o de Auditoria da D\u00edvida daquele pa\u00eds, a convite de seu pr\u00f3prio parlamento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Lucia Fattorelli:<\/strong> Uma experi\u00eancia muita rica e importante. Foi criada uma comiss\u00e3o pra auditar a d\u00edvida grega, mola-mestra da crise por que passa o pa\u00eds, composta por europeus, uma africana e duas latino-americanas. Uma grande honra representar o Brasil neste processo. Embora tenhamos feito um trabalho preliminar, porque tivemos apenas sete semanas, pouqu\u00edssimo tempo pra auditar uma d\u00edvida nacional. Assim, focamos no per\u00edodo de 2010 pra c\u00e1, quando come\u00e7ou a interven\u00e7\u00e3o da chamada troika. Focamos nos contratos feitos a partir de ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi incr\u00edvel o que observamos. Ficou evidente que a Gr\u00e9cia n\u00e3o recebeu recursos. Foi um esquema pra beneficiar bancos privados, n\u00e3o s\u00f3 gregos, mas principalmente de outros pa\u00edses, que haviam comprado t\u00edtulos antigos da Gr\u00e9cia e, tamb\u00e9m, foram atingidos pela crise financeira de 2008, dois anos antes da interven\u00e7\u00e3o. E aquela crise era localizada no sistema financeiro. Assim, tais acordos de 2010 foram um verdadeiro esquema para reciclar os papeis podres de posse dos bancos privados, transferindo-os \u00e0 Gr\u00e9cia e exigindo que o pa\u00eds tomasse novos empr\u00e9stimos para liquidar tais papeis, que se fossem negociados em mercado n\u00e3o valeriam nada.<\/p>\n<p>Portanto, a situa\u00e7\u00e3o demanda o aprofundamento da auditoria, porque s\u00f3 o trabalho preliminar j\u00e1 demonstrou muitas ilegalidades e ilegitimidades, gera\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas sem contrapartida para a Gr\u00e9cia e o mais grave: a crise monet\u00e1ria se deve \u00e0 ilegitimidade de tais acordos. O pa\u00eds n\u00e3o recebe dinheiro, mas sim papeis. E tem de reembolsar a troika em dinheiro. De que forma? Aumentando impostos e cortando sal\u00e1rios, aposentadorias, pens\u00f5es, al\u00e9m de privatizar patrim\u00f4nio. Um verdadeiro caos econ\u00f4mico e social, pois com tais redu\u00e7\u00f5es e cortes o desemprego \u00e9 brutal, atinge mais de 60% dos jovens e todas as outras faixas em 30%. Os que mantiveram seus empregos sofreram redu\u00e7\u00e3o forte nos sal\u00e1rios. O PIB encolheu 22% de 2010 pra c\u00e1. O or\u00e7amento reduziu-se em mais de 40 bilh\u00f5es de euros, cifra elevad\u00edssima na economia grega.<\/p>\n<p>Dessa forma, as pessoas que t\u00eam condi\u00e7\u00f5es, s\u00e3o bem formadas, falam outras l\u00ednguas, saem do pa\u00eds. Mais de 110 mil pessoas abandonaram o pa\u00eds pra procurar emprego em outros lugares, outra perda muito grande, pois sabemos o quanto custa formar profissionais de n\u00edvel superior, com mestrado, doutorado etc. Enfim, uma verdadeira trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Outro ponto grave: diante de tudo que comprovamos na auditoria, o governo chegou a resistir ao terceiro acordo proposto pela troika e os pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia e convocou o referendo de 5 de julho. O pr\u00f3prio primeiro-ministro, Alexis Tsipras, disse que se o povo dissesse \u201csim\u201d ao novo acordo de austeridade ele renunciaria. O povo disse \u201cn\u00e3o\u201d e, logo em seguida, ele passou a defender o acordo que repudiava! Ningu\u00e9m entendeu nada. Tsipras acabou assinando o acordo em 20 de julho e renunciou.<\/p>\n<p>Agora o pa\u00eds fez novas elei\u00e7\u00f5es e a sociedade vive um grande des\u00e2nimo. Foi feita toda uma apura\u00e7\u00e3o para que no final se assinasse o terceiro acordo, que aprofunda ainda mais os problemas sociais e econ\u00f4micos do pa\u00eds. Uma verdadeira trag\u00e9dia, e tudo para salvar bancos, que transferem sua crise aos pa\u00edses. Isso mostra a urg\u00eancia de analisarmos tal assunto.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Como enxergou a ren\u00fancia do primeiro-ministro Alexis Tsipras e o desmembramento do pr\u00f3prio partido que vencera as elei\u00e7\u00f5es em janeiro, o Syriza, culminando em nova elei\u00e7\u00e3o que o reelegeu?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Lucia Fattorelli:<\/strong> Terr\u00edvel. Todos n\u00f3s acompanhamos a tremenda press\u00e3o que a Gr\u00e9cia sofreu. Todos os jornais do mundo tinham a Gr\u00e9cia na manchete nas semanas do referendo e que antecederam o acordo. Diziam que se n\u00e3o tivesse acordo toda a economia europeia, e de outras partes do mundo, seria abalada. Terrorismo total.<\/p>\n<p>E quando analisamos bem, perguntamos: a economia da Gr\u00e9cia \u00e9 2% da europeia. Como 2% derrubam 98%? N\u00e3o h\u00e1 qualquer coer\u00eancia nessa press\u00e3o toda. Por que n\u00e3o deixar o pa\u00eds resistir? Fizeram uma verdadeira tortura, exigiram a sa\u00edda do Varoufakis e chegou-se \u00e0 capitula\u00e7\u00e3o. Isso se n\u00e3o houve outro tipo de amea\u00e7a. N\u00e3o temos provas, mas evidencia-se a capitula\u00e7\u00e3o porque o primeiro-ministro passou a defender outra ideia. Mas por que, que tipo de amea\u00e7a ele pode ter recebido, ou o pr\u00f3prio pa\u00eds? Sabemos que \u00e9 brutal a press\u00e3o exercida pelo sistema financeiro mundial.<\/p>\n<p>Uma pena, porque a Gr\u00e9cia tinha apoio popular e formula\u00e7\u00e3o. O Syriza chegou ao poder com a proposta de resist\u00eancia. Puxa vida, organizam tudo, ganham elei\u00e7\u00f5es, o parlamento convoca auditoria, que prova as ilegalidades; convoca-se referendo, que respalda o \u201cn\u00e3o\u201d \u00e0 pol\u00edtica de austeridade. Pra depois capitular? Claro que houve grande absten\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O povo est\u00e1 muito desanimado e abalado. O \u00edndice de suic\u00eddios \u00e9 uma calamidade, tem at\u00e9 programa do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade para demover as pessoas da ideia, quase em tom de clamor. As pessoas est\u00e3o desesperadas, n\u00e3o enxergam sa\u00edda alguma, principalmente depois da capitula\u00e7\u00e3o. \u00c9 um quadro dific\u00edlimo para o pa\u00eds se recuperar, depois do alento da chegada do Syriza ao poder. Agora temos o racha j\u00e1 mencionado no Syriza e dificilmente se conseguir\u00e1 construir outra for\u00e7a para reagir. N\u00e3o \u00e0 toa a troika comemorou efusivamente a ren\u00fancia do Tsipras e a assinatura do acordo.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Vindo ao Brasil, o car\u00e1ter da nossa d\u00edvida p\u00fablica \u00e9 similar ao que voc\u00ea viu na Europa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Lucia Fattorelli:<\/strong> Em todas as oportunidades que j\u00e1 tivemos de auditar a d\u00edvida oficialmente, como no caso da Gr\u00e9cia e do Equador, assim como no pr\u00f3prio Brasil durante a CPI da D\u00edvida (que foi uma investiga\u00e7\u00e3o bem aprofundada), sempre comprovamos a exist\u00eancia de um mesmo sistema de d\u00edvida. Claro que cada lugar tem suas peculiaridades, mas o modus operandi do \u201csistema da d\u00edvida\u201d \u00e9 igual.<\/p>\n<p>Sistema da d\u00edvida \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o do instrumento de endividamento p\u00fablico \u00e0s avessas. Tal instrumento \u00e9 muito importante. \u00c9 leg\u00edtimo que o Estado, em qualquer n\u00edvel \u2013 municipal, estadual ou federal \u2013 lance m\u00e3o de empr\u00e9stimos para complementar os recursos necess\u00e1rios aos seus investimentos. Mas o que verificamos? Os recursos n\u00e3o chegam, a d\u00edvida n\u00e3o tem contrapartida e h\u00e1 um esquema que meramente transfere dinheiro para o setor financeiro. Tais caracter\u00edsticas se d\u00e3o em todos os lugares por que passamos.<\/p>\n<p>A Gr\u00e9cia n\u00e3o recebeu dinheiro. Eram papeis a serem reciclados. Aqui no Brasil, temos uma investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, principalmente da d\u00e9cada de 70 pra c\u00e1. J\u00e1 vimos dados bem antigos. Nossa primeira d\u00edvida, da Independ\u00eancia, l\u00e1 em 1822, j\u00e1 foi dentro desse esquema. Sem contrapartida. Quando o Brasil se tornou independente, Portugal havia contra\u00eddo uma d\u00edvida junto a Inglaterra para evitar nossa independ\u00eancia. Ao n\u00e3o conseguir barr\u00e1-la, nos transferiram tal d\u00e9bito, de mais de 3 milh\u00f5es de libras esterlinas. E esse dinheiro nunca chegou aqui. Registramos a d\u00edvida e j\u00e1 nascemos devedores, com juros, de um dinheiro que nunca recebemos. Isso que se chama de sistema da d\u00edvida: o empr\u00e9stimo sem contrapartida.<\/p>\n<p>Hoje em dia temos verificados v\u00e1rios mecanismos geradores de d\u00edvida sem contrapartida. Tanto interna quanto externa. No Equador tamb\u00e9m vimos o mesmo, assim como nos \u00e2mbitos estaduais e municipais. Cada um tem suas peculiaridades, mas os mecanismos se repetem. \u00c9 uma usurpa\u00e7\u00e3o do instrumento, que onera o Estado e beneficia sempre, invariavelmente, o setor financeiro privado.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Dentro de tal contexto, como voc\u00ea enxerga a aus\u00eancia desse assunto em nossos debates, em um ano de severos cortes de or\u00e7amento social, anunciados seguidamente pelo governo e sua equipe econ\u00f4mica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Lucia Fattorelli:<\/strong> \u00c9 um ponto importante, porque diante da aus\u00eancia de tal debate quem paga toda a conta \u00e9 o conjunto da sociedade. E justamente ela n\u00e3o sabe como a d\u00edvida afeta sua vida. Agora vemos todo o esfor\u00e7o do ajuste fiscal. Falam todos os dias sobre o ajuste, mas n\u00e3o para que. O que \u00e9 o ajuste? \u00c9 o corte de v\u00e1rios gastos e despesas, investimentos p\u00fablicos que recaem principalmente sobre as pastas sociais. Os cortes mais representativos atingem sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, assist\u00eancia, al\u00e9m de subs\u00eddios que influenciam na vida das pessoas, como nos transportes. At\u00e9 investimentos sociais b\u00e1sicos como o Minha Casa Minha Vida e o Bolsa Fam\u00edlia, sobre qual anunciaram o corte de 70 mil bolsas, e depois 180 mil. Imagine quantas pessoas s\u00f3 n\u00e3o passam fome gra\u00e7as a esse programa&#8230;<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tais cortes, vemos aumento de tributos e privatiza\u00e7\u00f5es. E todo recurso advindo das privatiza\u00e7\u00f5es se direciona ao pagamento da d\u00edvida. Todo o ajuste \u00e9 feito em prol da d\u00edvida. Qual, afinal? Vemos os servidores p\u00fablicos com sal\u00e1rios congelados, trabalhadores da inciativa privada tendo sal\u00e1rios cortados ou sendo demitidos, os aposentados tiveram seu reajuste vetado \u2013 que chegou a ser aprovado no Congresso, mas n\u00e3o pela Dilma&#8230; Os comerciantes e industriais tamb\u00e9m sofrem. Passamos por um processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o e vimos o \u00edndice de atividade comercial cair pela s\u00e9tima vez seguida&#8230;<\/p>\n<p>Veja bem: toda a atividade econ\u00f4mica do pa\u00eds est\u00e1 em queda, exceto a banc\u00e1ria. Eles lucraram mais de 80 bilh\u00f5es de reais em 2014. E no primeiro semestre os lucros superam em mais de 15% os do ano passado. Toda a atividade do pa\u00eds est\u00e1 em queda, o PIB vai encolhendo e os bancos se mant\u00eam lucrando? \u00c9 evidente a transfer\u00eancia de recursos p\u00fablicos para o setor financeiro privado. Isso acontece, principalmente, atrav\u00e9s dos mecanismos de pol\u00edtica monet\u00e1ria do Banco Central, sob desculpas de controle da infla\u00e7\u00e3o etc. Assim, geram d\u00edvida p\u00fablica sem nenhuma contrapartida, sem que o pa\u00eds receba absolutamente nenhum centavo. Geram d\u00edvida p\u00fablica e repassam o dinheiro aos bancos privados.<\/p>\n<p>Assim, todas as pessoas que pagam a conta precisam tomar conhecimento da situa\u00e7\u00e3o, a fim de criarmos consci\u00eancia coletiva e uma press\u00e3o capaz de promover mudan\u00e7as. \u00c9 um debate que tem de ganhar n\u00e3o apenas entidades da sociedade civil organizada, sindicatos, associa\u00e7\u00f5es de todos os tipos, a m\u00eddia chamada alternativa etc. (j\u00e1 que s\u00e3o informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o saem na \u201cgrande\u201d m\u00eddia). \u00c9 preciso envolver mais pessoas pra multiplicar tais informa\u00e7\u00f5es e derrubar o mito de que o tema \u00e9 s\u00f3 para especialistas. N\u00e3o \u00e9 verdade. Normalmente, se tenta criar o famoso \u201ceconom\u00eas\u201d, apenas para tentar afastar as pessoas, exatamente para que ningu\u00e9m se interesse, articule alguma a\u00e7\u00e3o e eles fiquem \u00e0 vontade pra continuar levando essa vantagem toda.<\/p>\n<p>Nosso papel \u00e9 exatamente o de fazer o contraponto. No \u00e2mbito da Auditoria Cidad\u00e3, tudo que produzimos e publicamos, as diversas palestras, artigos, livros, cursos que promovemos, sempre s\u00e3o feitos com linguagem popular e esclarecedora para a popula\u00e7\u00e3o. S\u00e3o mecanismos que lesam n\u00e3o s\u00f3 as pessoas como a economia nacional por completo. O Brasil \u00e9 o s\u00e9timo mais rico do mundo e passa por enormes dificuldades. \u00c9 um grande absurdo. E a d\u00edvida est\u00e1 no centro de toda a problem\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>Correio da Cidadania: Como voc\u00ea imagina que caminhar\u00e1 o governo Dilma diante de um arranjo pol\u00edtico que praticamente a deixa de m\u00e3os atadas em rela\u00e7\u00e3o ao PMDB, em meio ainda a grandes press\u00f5es sugerindo sua queda ou ren\u00fancia? Como isso deve se refletir na vida da popula\u00e7\u00e3o nos pr\u00f3ximos anos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Lucia Fattorelli:<\/strong> O governo Dilma \u00e9 continuidade dos governos Lula, que tamb\u00e9m foram de grande capitula\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito triste a constata\u00e7\u00e3o, mas tal capitula\u00e7\u00e3o aconteceu l\u00e1 em 2003. Quando de sua primeira elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o havia o financiamento banc\u00e1rio na campanha. Havia, sim, certo financiamento empresarial, at\u00e9 por conta do vice-presidente Jos\u00e9 de Alencar.<\/p>\n<p>Mas o que o elegeu foi toda uma constru\u00e7\u00e3o, de mais de 20 anos, de lutas por mudan\u00e7as efetivas. E todos os governos do PT acabaram seguindo a agenda neoliberal, das privatiza\u00e7\u00f5es etc. N\u00e3o enfrentaram o sistema da d\u00edvida, n\u00e3o enfrentaram o modelo tribut\u00e1rio regressivo do pa\u00eds, onde quanto mais rico se \u00e9, menos se paga imposto proporcionalmente. Promoveram uma brutal concentra\u00e7\u00e3o de renda, fazendo do Brasil o pa\u00eds mais desigual do mundo, onde a concentra\u00e7\u00e3o de renda \u00e9 a mais cruel.<\/p>\n<p>Nada das pautas estruturais foi objeto de enfrentamento. O que se fez foi pol\u00edtica perif\u00e9rica, a exemplo do Bolsa Fam\u00edlia e do programa Minha Casa Minha Vida. Muito pouco, algo superperif\u00e9rico, ao passo que os lucros dos bancos nos governos petistas foram exponenciais.<\/p>\n<p>O atual momento do governo resulta do fracasso de todas as suas pol\u00edticas. Tivessem sido enfrentadas as pautas estruturais, n\u00e3o passar\u00edamos hoje pelo que estamos passando. E no momento, com toda a crise \u00e9tica e pol\u00edtica, aliada \u00e0 crise econ\u00f4mica gerada por um modelo que todos sabiam que ia dar nisso, dado sua insustentabilidade, fica muito dif\u00edcil segurar.<\/p>\n<p>Porque se fosse apenas econ\u00f4mico o problema, mas o governo tivesse for\u00e7as pol\u00edticas bem sustentadas e articuladas e seguisse um plano conjunto com a sociedade, a situa\u00e7\u00e3o seria diferente.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o tem nada disso. Todas as promessas de campanha viraram do avesso. Tudo que foi dito em favor do social e em termos de colocar o pa\u00eds na trilha de mais justi\u00e7a social e desenvolvimento virou do avesso. O que vimos das elei\u00e7\u00f5es pra c\u00e1 foi aumento brutal de juros. A taxa Selic, em rela\u00e7\u00e3o a outubro do ano passado, subiu 30% e j\u00e1 atinge 14,5%.<\/p>\n<p>O or\u00e7amento \u00e9 um s\u00f3. Por que tem dinheiro pra subir 30% dos juros e corta-se gasto social? Ao mesmo tempo, as pol\u00edticas do BC de reconhecer e garantir varia\u00e7\u00e3o cambial aos bancos, atrav\u00e9s das opera\u00e7\u00f5es de swap, nada mais s\u00e3o que garantias aos bancos. Nada mais. O d\u00f3lar sobe e o BC vem pagar a diferen\u00e7a para bancos e grandes empresas, gerando grandes preju\u00edzos. Como se cobre tal preju\u00edzo? Com gera\u00e7\u00e3o de d\u00edvida. Hoje o BC remunera toda sobra de caixa dos bancos, nas opera\u00e7\u00f5es compromissadas.<\/p>\n<p>Olha o custo dessa pol\u00edtica! \u00c9 insana. E sem apoio da sociedade, diante do n\u00e3o atendimento das pautas de campanha, junto da crise \u00e9tica e pol\u00edtica, cria-se uma situa\u00e7\u00e3o complicad\u00edssima. \u00c9 dific\u00edlimo reverter tal quadro. Exigiria uma virada total do governo, de modo a assumir de fato a pauta social, da classe trabalhadora e dizer \u201cn\u00e3o\u201d ao sistema financeiro. Mas vemos o contr\u00e1rio. Arrocho geral para cumprir ajuste fiscal e continuar dizendo \u201csim\u201d ao mercado financeiro, apesar de todas as den\u00fancias e ilegalidades do processo. \u00c9 muito dif\u00edcil ter solu\u00e7\u00e3o nesse quadro.<\/p>\n<p>O ajuste fiscal joga a economia numa espiral rumo ao fundo do po\u00e7o. Tributa-se mais a sociedade, logo, tira-se recursos das m\u00e3os das pessoas, cortam-se os sal\u00e1rios e gera-se desemprego. As pessoas n\u00e3o consomem, o com\u00e9rcio cai, demanda-se menos da ind\u00fastria, que por sua vez demite&#8230; \u00c9 o fundo do po\u00e7o. Os pa\u00edses que melhor enfrentaram crises econ\u00f4micas injetaram dinheiro na economia, ativaram o emprego e o investimento. Aqui fazem o contr\u00e1rio. O acirramento do ajuste fiscal corta todas as possibilidades de rea\u00e7\u00e3o da economia.<\/p>\n<p>E, ao se juntar a crise econ\u00f4mica \u00e0s crises \u00e9tica e pol\u00edtica, ficamos numa situa\u00e7\u00e3o muito complicada.<\/p>\n<p>http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/index.php?option=com_content&#038;view=article&#038;id=11148%3A2015-10-09-21-28-26&#038;catid=34%3Amanchete&#038;Itemid=47<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Escrito por Gabriel Brito e Paulo Silva Junior, da Reda\u00e7\u00e3o de Correio da Cidadania Continua a crise generalizada do governo de Dilma Rousseff, \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9569\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-9569","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2ul","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9569","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9569"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9569\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9569"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9569"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9569"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}