{"id":9585,"date":"2015-10-20T22:10:38","date_gmt":"2015-10-21T01:10:38","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9585"},"modified":"2016-05-18T21:47:59","modified_gmt":"2016-05-19T00:47:59","slug":"conjunturas-poemas-e-o-velho-odio-de-classe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9585","title":{"rendered":"Conjunturas, poemas e o velho \u00f3dio de classe"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2015\/10\/mauro-iasi-brecht.jpg?w=747&#038;h=500&#038;fit=500%2C500\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><em>Por <a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/category\/colunas\/mauro-iasi\/\" target=\"_blank\">Mauro Luis Iasi<\/a>.<\/em><\/p>\n<p>Um v\u00eddeo com uma an\u00e1lise de conjuntura realizada na abertura do Congresso da CSP-Conlutas, em junho deste ano, que terminava com um poema de Bertolt Brecht (\u201cPerguntas a um bom homem\u201d), causou <em>frisson<\/em> nas hostes da extrema-direita.<!--more--><\/p>\n<p>N\u00e3o foi a an\u00e1lise de conjuntura em si, coisa mais complexa e que exige certa cultura pol\u00edtica, mas o poema citado ao final que despertou a ira dos conservadores, atentos ao espa\u00e7o virtual da luta de classes.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise, comentava que diante das press\u00f5es que vinham de atos de massa contra e a favor do governo, o Pal\u00e1cio do Planalto demonstrava uma grande \u201cboa vontade\u201d para com a direita, anunciando sua disposi\u00e7\u00e3o ao di\u00e1logo, ao mesmo tempo em que ignorava as demandas que vinham das bases sociais que se mobilizaram em seu apoio.<\/p>\n<p>Parecia-me, e ainda parece, algo equivocado e err\u00e1tico. Primeiro pelo simples fato de que os que se dispuseram a sair em apoio ao governo (aqueles atos foram mais claramente compostos pela base governista do que os que se dariam no dia 20 de agosto) anunciavam, al\u00e9m da defesa da legalidade e continuidade do mandato da Presidente, algumas outras demandas (contr\u00e1rias ao ajuste fiscal, pela reforma agr\u00e1ria, em defesa da Petrobras etc.). E em segundo lugar porque era muito dif\u00edcil derivar uma pauta clara do circo de horrores que foi a manifesta\u00e7\u00e3o da direita, que em suma pedia a cabe\u00e7a da Presidente na bandeja do <em>impeachment.<\/em><\/p>\n<p>Diante dessa constata\u00e7\u00e3o, alertava aos presentes que considerava uma ilus\u00e3o a governante tentar manter-se pela via de aumentar as concess\u00f5es \u00e0 direita, j\u00e1 t\u00e3o beneficiada pela linha geral do governo, e o evidente compromisso com os rigores do chamado \u201cajuste fiscal\u201d que esfolava ainda mais os trabalhadores.<\/p>\n<p>Passei por elementos conjunturais como a den\u00fancia da reforma pol\u00edtica que atacava os partidos de esquerda, enfatizando a necessidade de constitui\u00e7\u00e3o de um \u201cterceiro campo\u201d \u00e0 esquerda e que se fundamente nas demandas da classe trabalhadora e das massas exploradas. Ap\u00f3s descartar que o modelo para isso viria do hoje j\u00e1 falecido Syriza, procurei recuperar, como fecho de minha fala, a ideia de que n\u00e3o devemos nos iludir, nem com as artimanhas governistas e muito menos com o canto de sereia da direita golpista.<\/p>\n<p>Para tanto recorri, como costumo fazer, a um poema de Brecht que conheci ao ler o livro <em><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/violencia\" target=\"_blank\">Viol\u00eancia: seis reflex\u00f5es laterais<\/a><\/em>, de Slavoj \u017di\u017eek, para o qual a Boitempo gentilmente havia me convidado a escrever o posf\u00e1cio. Sou absolutamente contr\u00e1rio a explicar piadas, met\u00e1foras e poemas. Mas vivemos tempos sombrios, ent\u00e3o vamos l\u00e1 (e quando digo \u201ctempos sombrios\u201d estou fazendo uso de uma figura de linguagem, n\u00e3o ensaiando um coment\u00e1rio meteorol\u00f3gico).<\/p>\n<p>No poema, Brecht fala de um personagem que se queixa, diante daqueles com quem estava em guerra que, era afinal um \u201chomem bom\u201d, que n\u00e3o se deixava comprar, que era honesto, corajoso, s\u00e1bio e n\u00e3o defendia \u201cinteresses pessoais\u201d. O poeta ent\u00e3o retruca a cada verso que um rio n\u00e3o pode ser comprado assim como o raio que incendeia uma casa, e passa a perguntar retoricamente a quem serve a sabedoria do homem que se achava bom, assim como que interesses defendia, se n\u00e3o os seus pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Veja, para aqueles que n\u00e3o s\u00e3o muito afeitos a poemas e outras manifesta\u00e7\u00f5es da alma humana, \u00e9 bom explicar que n\u00e3o se trata de uma pessoa e outra conversando, muito menos uma posi\u00e7\u00e3o pessoal. \u00c9 uma met\u00e1fora de um encontro de classes numa situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, na qual a classe dominante se encontra diante da possibilidade de ser julgada por aqueles que sempre explorou e dominou. As classes dominantes est\u00e3o imersas numa falsa consci\u00eancia (n\u00e3o vou pedir que a direita leia Luk\u00e1cs se ela mal entende Olavo de Carvalho\u2026), isto \u00e9, ela realmente acredita que \u00e9 \u201cboa\u201d e que faz o \u201cbem\u201d para a humanidade quando imp\u00f5e o livre mercado, a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o, o Estado burgu\u00eas e seus instrumentos de repress\u00e3o e exterm\u00ednio. Ela realmente cr\u00ea que faz isso para o nosso pr\u00f3prio bem, e por isso se espanta quando reagimos.<\/p>\n<p>Por meio desse mecanismo ideol\u00f3gico, os membros de uma classe dominante podem se reunir na ceia de Natal, rezar ao nosso senhor Jesus Cristo, amar os mais pr\u00f3ximos que est\u00e3o \u00e0 mesa, e sair mais tarde para crucificar, torturar e matar os \u201cdistantes\u201d, criancinhas negras nas favelas, s\u00edrios, afeg\u00e3os, palestinos ou l\u00edbios em seus pa\u00edses.<\/p>\n<p>Quando esta autoilus\u00e3o se v\u00ea numa situa\u00e7\u00e3o limite da luta de classes, como aquela que o poema descreve, os trabalhadores apenas devolvem a ela seu discurso, envolto num belo embrulho de ironia. Brecht est\u00e1 aqui utilizando em seu texto este instrumento dram\u00e1tico que ele tanto gostava: \u201cEst\u00e1 bem, j\u00e1 que dizes ser bom, vou matar-te com esta boa bala\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 uma ironia, uma met\u00e1fora. Muitos foram mortos em fuzilamentos nos dois lados da luta de classes. N\u00e3o h\u00e1 not\u00edcias de uma s\u00f3 pessoa que tenha morrido ao ser atacada por uma met\u00e1fora e ainda que muitos possam alegar que foram cortados por uma fina ironia, e que doeu, certamente n\u00e3o morrer\u00e3o por isso.<\/p>\n<p>Brecht ficaria muito contente se pudesse saber que seus versos ainda incomodam a direita 59 anos depois de sua morte (ele morreu, n\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora, morreu mesmo).<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o \u00e0s muitas pessoas \u2013 amigos, conhecidos, camaradas, companheiros, alunos, colegas, entidades e mesmo gente que n\u00e3o conhe\u00e7o \u2013 pelo carinho e solidariedade empenhadas nesta hora.<\/p>\n<p>E \u00e0queles que entulharam minha p\u00e1gina com amea\u00e7as, dizendo que gostariam de me fuzilar, me levar para o DOI-Codi para \u201cbrincar comigo\u201d, que amea\u00e7aram matar minha fam\u00edlia, que expressaram seu desejo de que eu tivesse tomado um tiro na \u00e9poca da guerrilha (bom, eu tinha uns oito anos de idade, mas como eles torturam crian\u00e7as \u00e9 poss\u00edvel, n\u00e3o \u00e9?), que enviaram a foto do Comandante Guevara morto para dizer que fariam o mesmo comigo, que afirmaram que eliminariam todos os comunistas da face da terra, que eu quero mesmo \u201c\u00e9 uma piroca\u201d (foi dif\u00edcil entender a princ\u00edpio, mas parece haver uma rela\u00e7\u00e3o comprovada entre o conservadorismo e a homofobia), que v\u00e3o me demitir de meu trabalho, que jamais poderei sair \u00e0 rua, ir a restaurantes ou ser bem vindo em shows do Lob\u00e3o\u2026 reafirmo apenas que, com tudo isso, conseguiram \u2013 de maneira muito mais did\u00e1tica do que fui capaz em minha an\u00e1lise \u2013 comprovar meu principal argumento: com a extrema-direita n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel nenhum di\u00e1logo.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2015\/10\/mauro-iasi-brecht-blog2.jpg?w=500&#038;h=500&#038;fit=500%2C500&#038;resize=500%2C500\" alt=\"mauro iasi brecht blog2\" width=\"500\" height=\"500\" \/><br \/>\n<sup>[Ilustra\u00e7\u00f5es de Ricardo Bezerra, para a pe\u00e7a \u201cO patr\u00e3o cordial\u201d, da Companhia do Lat\u00e3o]<\/sup><\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Mauro Iasi <\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a> (Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a> (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o <strong>Blog da Boitempo <\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/10\/20\/conjunturas-poemas-e-o-velho-odio-de-classe\/\">Conjunturas, poemas e o velho \u00f3dio de&nbsp;classe<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Mauro Luis Iasi. 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