{"id":96,"date":"2009-08-29T02:27:00","date_gmt":"2009-08-29T02:27:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=96"},"modified":"2017-11-09T13:54:41","modified_gmt":"2017-11-09T16:54:41","slug":"o-movimento-comunista-no-seculo-xx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/96","title":{"rendered":"O Movimento Comunista no s\u00e9culo XX"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/varios\/imagens\/domenico_losurdo.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Dom\u00e9nico Losurdo*<\/p>\n<p>Como resumir o balan\u00e7o hist\u00f3rico do movimento comunista no s\u00e9culo que passou? Hoje em dia, o discurso acerca da sua \u201cfal\u00eancia\u201d \u00e9 t\u00e3o pouco discutido que n\u00e3o chega a suscitar objec\u00e7\u00f5es, nem mesmo na esquerda. A ideologia e a historiografia actualmente dominantes parecem querer compendiar o balan\u00e7o de um s\u00e9culo dram\u00e1tico numa historieta edificante, que pode resumir-se deste modo: no princ\u00edpio do s\u00e9culo XX, uma rapariga fascinante e virtuosa, a menina Democracia, foi agredida, primeiro por um bruto, o senhor Comunismo, a seguir por outro, o senhor Nazi-Fascismo; aproveitando as contradi\u00e7\u00f5es entre eles e atrav\u00e9s de perip\u00e9cias complexas, a jovem consegue por fim libertar-se da terr\u00edvel amea\u00e7a; tornando-se entretanto mais madura mas sem nada perder do seu fasc\u00ednio, a menina Democracia consegue coroar o seu sonho de amor pelo casamento com o senhor Capitalismo; rodeado pelo respeito e a admira\u00e7\u00e3o gerais, o feliz e insepar\u00e1vel casal gosta de levar a vida principalmente entre Washington e Nova Iorque, entre a Casa Branca e Wall Street. Assim sendo, n\u00e3o h\u00e1 mais lugar a d\u00favidas: \u00e9 evidente e ingl\u00f3ria a fal\u00eancia do comunismo.<\/p>\n<p><strong>Os comunistas e a luta contra a discrimina\u00e7\u00e3o racial.<\/strong><\/p>\n<p>Acontece por\u00e9m que esta historieta edificante nada tem a ver com a hist\u00f3ria real. A democracia contempor\u00e2nea baseia-se no princ\u00edpio segundo o qual cada indiv\u00edduo deve ser considerado titular de direitos inalien\u00e1veis, independentemente da ra\u00e7a, do n\u00edvel de rendimentos e do g\u00e9nero, e pressup\u00f5e portanto a supera\u00e7\u00e3o das tr\u00eas grandes discrimina\u00e7\u00f5es (racial, censit\u00e1ria e sexual) que subsistiam ainda nas v\u00e9speras de Outubro de 1917.<\/p>\n<p>Atentemos na primeira grande discrimina\u00e7\u00e3o. Apresenta-se numa dupla forma. Por um lado, a n\u00edvel planet\u00e1rio, vemos a \u201cservid\u00e3o de centenas de milh\u00f5es de trabalhadores da \u00c1sia, das col\u00f3nias em geral e dos pequenos pa\u00edses\u201d por obra de \u201cpoucas na\u00e7\u00f5es eleitas\u201d, as quais \u2013 prossegue Lenin \u2013 se atribuem \u201co privil\u00e9gio <em>exclusivo<\/em> de forma\u00e7\u00e3o do Estado\u201d, negando-o aos b\u00e1rbaros das col\u00f3nias ou semi-col\u00f3nias [1].<\/p>\n<p>Por outro lado, a discrimina\u00e7\u00e3o racial faz-se sentir tamb\u00e9m no interior dos Estados Unidos, negando aos negros os direitos pol\u00edticos e submetendo-os a um regime terrorista de <em>white supremacy<\/em>, de supremacia branca. Os negros considerados rebeldes ou delinquentes eram postos a cozer em fogo lento, no quadro de um espect\u00e1culo de massa que durava muitas horas, com a participa\u00e7\u00e3o at\u00e9 de mulheres e crian\u00e7as e se conclu\u00eda com o momento feliz da distribui\u00e7\u00e3o ou venda de lembran\u00e7as aos espectadores: dentes e ossos da cabe\u00e7a e de outras partes do corpo da v\u00edtima.<\/p>\n<p>Estas pr\u00e1ticas continuavam a subsistir ainda nos anos da presid\u00eancia de Franklin Dellano Roosevelt. O terror atingia n\u00e3o s\u00f3 os negros condenados ao linchamento mas ainda as suas fam\u00edlia, cuja casa era por vezes entregue \u00e0s chamas. As cr\u00f3nicas da imprensa da \u00e9poca testemunham o valor escasso ou nulo que tinha a vida dos afro-americanos. Veja-se por exemplo um jornal onde se refere que tinha sido linchado o \u201cnegro errado\u201d. Tencionavam assassinar um outro, mas acabara torturado e enforcado ou queimado vivo um pobre homem apressadamente confundido com o \u201cculpado\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 altura de colocar uma primeira pergunta: quais foram as for\u00e7as pol\u00edticas que lutaram contra o regime da <em>white supremacy<\/em> ? Em 1924, um jovem indochin\u00eas (Nguyen Sinh Cung), chegado \u00e0 rep\u00fablica norte-americana em busca de trabalho, assistia horrorizado a um linchamento. Passemos sobre os detalhes que j\u00e1 conhecemos ou podemos imaginar e vejamos a conclus\u00e3o: \u201cPor terra, envolta em fumo e cheiro de gordura, uma cabe\u00e7a negra, mutilada, torrada, deformada, com um esgar de horror, parece perguntar ao sol que se p\u00f5e: \u201c\u00c9 esta a civiliza\u00e7\u00e3o?\u201d O jovem indochin\u00eas denunciava a inf\u00e2mia do regime de supremacia branca e do Ku Klux Klan na \u00abCorrespondance Internationale\u00bb (a vers\u00e3o francesa do \u00f3rg\u00e3o da Internacional Comunista). Dez anos mais tarde regressava \u00e0 p\u00e1tria e assumia o nome pelo qual mais tarde se tornar\u00e1 conhecido em todo o mundo, o nome Ho Chi Minh.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma personalidade isolada. Empenhados como se achavam em combater o racismo branco, os comunistas eram qualificados pela ideologia dominante como \u201cestrangeiros\u201d e \u201camantes dos negros\u201d (<em>nigger lovers<\/em>). E naqueles anos \u2013 para citar um historiador norte-americano \u2013 ser comunistas e desafiar o regime da <em>white supremacy<\/em> significava \u201cdefrontar a eventualidade do c\u00e1rcere, da sova violenta, do sequestro e at\u00e9 da morte.\u201d \u00c9 por isto que os afro-americanos mais combativos olhavam com admira\u00e7\u00e3o e reconhecimento para o movimento comunista e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica: olhavam Stalin como o \u201cnovo Lincoln\u201d, aquele que os ajudaria a p\u00f4r fim, desta vez de modo concreto e definitivo, \u00e0 escravid\u00e3o dos negros, \u00e0 opress\u00e3o, \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o, \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o, \u00e0 viol\u00eancia e aos linchamentos que continuavam a sofrer.<\/p>\n<p>Demos agora um salto de cerca de duas d\u00e9cadas. Em Dezembro de 1952, o Secret\u00e1rio da Justi\u00e7a dos EUA escrevia ao Supremo Tribunal, empenhado em discutir a quest\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o nas escolas p\u00fablicas: \u201cA discrimina\u00e7\u00e3o racial leva \u00e1gua ao moinho da propaganda comunista e levanta d\u00favidas, inclusivamente entre as na\u00e7\u00f5es amigas, acerca da intensidade da nossa devo\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00e9 democr\u00e1tica.\u201d Washigton corria o risco \u2013 observa o historiador americano que relata estas declara\u00e7\u00f5es \u2013 de se alienar as \u201cra\u00e7as de cor\u201d, n\u00e3o s\u00f3 no Oriente e no Terceiro Mundo mas no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos: tamb\u00e9m aqui a propaganda comunista obtinha um consider\u00e1vel sucesso na sua tentativa de ganhar os negros para a \u201ccausa revolucion\u00e1ria\u201d, fazendo so\u00e7obrar neles a \u201cf\u00e9 nas institui\u00e7\u00f5es americanas\u201d.<\/p>\n<p>Imp\u00f5e-se uma conclus\u00e3o. O desafio objectivamente representado pelo movimento comunista internacional contribuiu de modo decisivo para fazer cair nos EUA o regime da supremacia branca. O cap\u00edtulo da hist\u00f3ria iniciado com a revolu\u00e7\u00e3o de Outubro promoveu a luta contra a discrimina\u00e7\u00e3o racial, n\u00e3o apenas promovendo \u00e0 escala mundial a emancipa\u00e7\u00e3o dos povos coloniais, mas dando impulso \u00e0 causa da igualdade racial no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o do Ocidente.<\/p>\n<p><strong>O Estado racial do Sul dos Estados Unidos e o Terceiro Reich.<\/strong><\/p>\n<p>O regime que suscitava o horror de Ho Chi Minh e dos comunistas gozava por\u00e9m na Europa do favor de importantes for\u00e7as pol\u00edticas. Em 1937, Alfred Rosenberg, o principal te\u00f3rico do Terceiro Reich, celebrava os Estados Unidos como um \u201cespl\u00eandido pa\u00eds do futuro\u201d: ao limitar a cidadania pol\u00edtica exclusivamente aos brancos e sancionar a todos os n\u00edveis e por todos os meios a supremacia branca, os EUA tinham o m\u00e9rito de formular a feliz \u201cnova ideia de um Estado racial\u201d, ideia que se tratava agora de p\u00f4r em pr\u00e1tica \u201ccom for\u00e7a juvenil\u201d, mediante a expuls\u00e3o e a deporta\u00e7\u00e3o de \u201cnegros e amarelos\u201d [2]. Basta uma vista de olhos \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o adoptada por Hitler logo ap\u00f3s a tomada do poder, para nos darmos conta das analogias com a situa\u00e7\u00e3o vigente nos EUA e em particular no Sul: da cidadania pol\u00edtica, reservada aos arianos, s\u00e3o exclu\u00eddos os judeus, os ciganos e os poucos mulatos que viviam na Alemanha (no final da I Guerra mundial soldados de cor ao servi\u00e7o do Ex\u00e9rcito franc\u00eas haviam participado na ocupa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds). E, tal como nos Estados Unidos, tamb\u00e9m no Terceiro Reich a <em>miscegenenation<\/em>, ou seja, a contamina\u00e7\u00e3o do sangue derivada das rela\u00e7\u00f5es sexuais e matrimonais entre membros da ra\u00e7a superior e membros das ra\u00e7as inferiores, \u00e9 proibida pela norma legal. \u201cA quest\u00e3o negra\u201d \u2013 continua a escrever Rosenberg \u2013 encontra-se nos Estados Unidos no v\u00e9rtice de todas as quest\u00f5es decisivas\u201d; e, uma vez anulado para os negros o princ\u00edpio absurdo da igualdade, n\u00e3o se v\u00ea por que n\u00e3o se h\u00e3o de tirar \u201cas consequ\u00eancias necess\u00e1rias tamb\u00e9m para os judeus e os amarelos.\u201d [3]<\/p>\n<p>\u00c9 evidente o peso exercido pelo modelo americano na constru\u00e7\u00e3o do Estado racial na Alemanha. Interroguemo-nos sobre qual a palavra-chave suscept\u00edvel de exprimir de modo claro e concentrado a carga de desumaniza\u00e7\u00e3o e de viol\u00eancia genocida \u00ednsita na ideologia nazi. Neste caso n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias pesquisas particularmente tormentosas: \u00e9 <em>Untermensch<\/em>, sub-homem, o termo-chave, que antecipadamente priva de toda a dignidade humana todos quantos se destinam a ser escravizados ao servi\u00e7o da ra\u00e7a dos senhores ou aniquilados como agentes patog\u00e9nicos, culpados de fomentarem a revolta contra a ra\u00e7a dos senhores e contra a civiliza\u00e7\u00e3o como tal. Pois bem, o termo <em>Untermensch<\/em>, que desempenhou um papel t\u00e3o central e t\u00e3o nefasto na teoria e na pr\u00e1tica do Terceiro Reich, n\u00e3o \u00e9 mais do que a tradu\u00e7\u00e3o do americano <em>Under Man<\/em> ! O pr\u00f3prio Rosenberg o reconhece, ao exprimir a sua admira\u00e7\u00e3o pelo autor norte-americano Lothrop Stoddard: cabe-lhe o m\u00e9rito de ter sido o primeiro a cunhar o termo em quest\u00e3o, que figura como subt\u00edtulo (<em>The Menace of the Under Man<\/em>) de um livro publicado em Nova Iorque em 1922 e da sua vers\u00e3o alem\u00e3 (<em>Die Drohung des Untermenschen<\/em>), surgida tr\u00eas anos mais tarde. No que concerne ao seu significado, Stoddard esclarece que indica a massa de \u201cselvagens e b\u00e1rbaros\u201d, \u201cessencialmente incapazes de civiliza\u00e7\u00e3o e seus inimigos incorrig\u00edveis\u201d, com os quais h\u00e1 que proceder a um radical ajuste de contas, se se quer evitar o risco de colapso da civiliza\u00e7\u00e3o [4].<\/p>\n<p>Elogiado, ainda antes de o ter sido por Alfred Rosenberg, j\u00e1 por dois Presidentes dos EUA (Harding e Hoover), Stoddard foi seguidamente recebido com todas as honras em Berlim, onde se encontra com os mais altos hierarcas do regime nazi, incluindo Adolf Hitler [5], ent\u00e3o lan\u00e7ado na sua campanha de dizima\u00e7\u00e3o e escraviza\u00e7\u00e3o dos \u201cind\u00edgenas\u201d, ou seja, dos <em>Untermenschen<\/em> da Europa de leste, e empenhado nos preparativos para a aniquila\u00e7\u00e3o dos <em>Untermenschen<\/em> judeus, considerados como os loucos inspiradores da revolu\u00e7\u00e3o bolchevista e da revolta dos escravos e dos povos das col\u00f3nias.<\/p>\n<p>N\u00e3o faz sentido querer colocar o comunismo no mesmo plano do nazismo, quer dizer, da for\u00e7a que com mais consequ\u00eancia e brutalidade se op\u00f4s \u00e0 supera\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o racial e portanto ao advento da democracia. Se por um lado o Terceiro Reich se apresenta como a tentativa, levada a cabo em condi\u00e7\u00f5es de guerra total, de realizar um regime de <em>white supremacy<\/em> \u00e0 escala planet\u00e1ria e sob hegemonia alem\u00e3, por outro lado o movimento comunista forneceu uma contribui\u00e7\u00e3o decisiva para a supera\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o racial e do colonialismo, cuja heran\u00e7a o nazismo procura assumir e radicalizar.<\/p>\n<p><strong>O movimento comunista, a supera\u00e7\u00e3o das tr\u00eas grandes discrimina\u00e7\u00f5es e o advento do Estado social.<\/strong><\/p>\n<p>Deixemos agora para tr\u00e1s as col\u00f3nias e a sorte das \u201cra\u00e7as inferiores\u201d, para concentrar a an\u00e1lise sobre a metr\u00f3pole capitalista, e mesmo exclusivamente sobre a sua popula\u00e7\u00e3o \u201ccivilizada\u201d. Tamb\u00e9m a este n\u00edvel, na v\u00e9spera da revolu\u00e7\u00e3o de Outubro continuavam a ser operantes significativas cl\u00e1usulas de exclus\u00e3o da cidadania e da democracia.<\/p>\n<p>Em Inglaterra \u2013 observa Lenin \u2013 o direito eleitoral \u201c\u00e9 ainda bastante limitado para excluir o estrato inferior propriamente prolet\u00e1rio\u201d [6]; al\u00e9m do mais, podemos acrescentar, alguns privilegiados continuavam a gozar do \u201cvoto plural\u201d, que s\u00f3 ser\u00e1 completamente suprimido em 1948. Particularmente tortuoso foi, no pa\u00eds cl\u00e1ssico da tradi\u00e7\u00e3o liberal, o processo que conduziu \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio \u201cuma cabe\u00e7a, um voto\u201d, e tal processo n\u00e3o pode ser pensado sem o desafio constitu\u00eddo pela revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia e o desenvolvimento do movimento comunista.<\/p>\n<p>Mesmo nos pa\u00edses onde o sufr\u00e1gio masculino se tornara universal ou quase universal, ele era neutralizado pela presen\u00e7a de uma C\u00e2mara Alta que era apan\u00e1gio da nobreza e das classes privilegiadas. No Senado italiano sentavam-se, na qualidade de membros de direito, os pr\u00edncipes da Casa Sab\u00f3ia: todos os outros eram nomeados vitaliciamente pelo rei, sob proposta do Presidente do Conselho. Considera\u00e7\u00f5es an\u00e1logas valem para as outras C\u00e2maras Altas europeias que, \u00e0 excep\u00e7\u00e3o da francesa, n\u00e3o eram electivas mas sim caracterizadas por uma combina\u00e7\u00e3o de hereditariedade e nomea\u00e7\u00e3o r\u00e9gia. Mesmo nos Estados Unidos continuavam a subsistir res\u00edduos de discrimina\u00e7\u00e3o censit\u00e1ria, a qual por\u00e9m se manifestava sobretudo, como vimos, sob a forma de discrimina\u00e7\u00e3o racial, que atinge nos negros, simultaneamente, os estratos mais pobres da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se tomarmos o Ocidente no seu conjunto, a cl\u00e1usula de exclus\u00e3o mais macrosc\u00f3pica era a que feria as mulheres. Em Inglaterra, as senhoras Pankhurst (m\u00e3e e filha), que dirigem o movimento das sufragistas, viam-se for\u00e7adas a visitar periodicamente as pris\u00f5es do pa\u00eds. Na R\u00fassia, a \u201cexclus\u00e3o das mulheres\u201d dos direitos pol\u00edticos, denunciada por Lenin e pelo partido bolchevique, foi anulada logo depois da revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro, saudada como \u201crevolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria\u201d (dado o peso exercido pelos sovietes e as massas populares) por Antonio Gramsci, o qual sublinhava calorosamente o facto de que a revolu\u00e7\u00e3o \u201cdestruiu o autoritarismo e substituiu-o pelo sufr\u00e1gio universal, alargando-o tamb\u00e9m \u00e0s mulheres.\u201d<\/p>\n<p>Este mesmo caminho foi depois o tomado pela rep\u00fablica de Weimar (nascida da revolu\u00e7\u00e3o que eclodiu na Alemanha a um ano de dist\u00e2ncia da revolu\u00e7\u00e3o de Outubro), e s\u00f3 em seguida pelos EUA [7].<\/p>\n<p>Em s\u00edntese. A supera\u00e7\u00e3o das tr\u00eas grandes discrimina\u00e7\u00f5es foi tornada poss\u00edvel por um duplo movimento: com as numerosas e grandes revolu\u00e7\u00f5es a partir de baixo, que se desenvolveram quer nas metr\u00f3poles capitalistas quer nas col\u00f3nias e muitas vezes inspiradas pela revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e pelo movimento comunista, combinaram-se revolu\u00e7\u00f5es pela c\u00fapula, promovidas com o fim de impedir novas revolu\u00e7\u00f5es a partir de baixo e de defrontar o desafio do movimento comunista.<\/p>\n<p>Fazem parte da democracia, como hoje \u00e9 geralmente entendida, tamb\u00e9m os direitos econ\u00f3micos e sociais (direitos ao trabalho, \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 instru\u00e7\u00e3o, etc.) E \u00e9 justamente o grande patriarca do neo-liberalismo, Hayek, quem denuncia o facto de a sua teoriza\u00e7\u00e3o e a sua presen\u00e7a no Ocidente remeterem para a influ\u00eancia, considerada por ele funesta, da \u201crevolu\u00e7\u00e3o marxista russa\u201d. Por conseguinte, o Estado social que se realizou no Ocidente, quer dizer, a tentativa de p\u00f4r limites ao pleno desdobramento do poder econ\u00f3mico-social da riqueza, n\u00e3o pode ser pensado sem o impulso e o desafio provenientes da revolu\u00e7\u00e3o de Outubro.<\/p>\n<p><strong>Restaura\u00e7\u00e3o e revolu\u00e7\u00e3o nos nossos dias.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel, por outro lado, a derrota estrat\u00e9gica sofrida pelo \u201ccampo socialista\u201d entre 1989 e 1991 e est\u00e1 perante os olhos de todos a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na Europa de leste! Teremos de fazer valer para o movimento comunista no seu conjunto a observa\u00e7\u00e3o que Marx faz em rela\u00e7\u00e3o ao jacobinismo? \u201cTodo o terrorismo franc\u00eas [jacobino] n\u00e3o foi sen\u00e3o um modo plebeu de desembara\u00e7ar-se dos inimigos da burguesia, o absolutismo, o feudalismo e o car\u00e1cter filisteu\u201d; \u201co proletariado e as frac\u00e7\u00f5es burguesas n\u00e3o pertencentes \u00e0 burguesia\u201d, ao mesmo tempo que se opuseram \u00e0 burguesia, como por exemplo na Fran\u00e7a de 1793 a 1794, lutaram apenas pela realiza\u00e7\u00e3o dos interesses da burguesia, ainda que n\u00e3o \u00e0 maneira da burguesia.\u201d (MEW, VI, 107). Isto \u00e9, segundo a interpreta\u00e7\u00e3o de Marx, apesar do seu radicalismo, os jacobinos teriam acabado apenas por aplanar o caminho \u00e0 sociedade burguesa. Ter-se-ia tamb\u00e9m passado algo semelhante com o comunismo do s\u00e9culo XX ? Teria o comunismo liquidado as tr\u00eas grandes discrimina\u00e7\u00f5es somente para aplanar o caminho a uma democracia burguesa mais completa?<\/p>\n<p>Esta tese n\u00e3o convence. Desde logo deve notar-se que ao colapso do socialismo na Europa de leste corresponde no Ocidente o desmantelamento do Estado social e mesmo a exclus\u00e3o dos direitos econ\u00f3micos e sociais do cat\u00e1logo dos direitos. \u00c9 a opera\u00e7\u00e3o explicitamente posta em pr\u00e1tica por Hayek, o qual n\u00e3o por acaso conseguiu a seu tempo o pr\u00e9mio Nobel da economia e se tornou um ponto de refer\u00eancia essencial da ideologia hoje dominante.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas do Estado social. Nos Estados Unidos \u2013 sublinha entre outros um autorizado historiador <em>liberal<\/em> [no sentido americano da palavra, NdT] como Schlesinger Jr. \u2013, o peso do dinheiro nas competi\u00e7\u00f5es eleitorais \u00e9 t\u00e3o forte que os organismos representativos correm o risco de se tornar monop\u00f3lio das classes propriet\u00e1rias (como nos anos de ouro da restri\u00e7\u00e3o censit\u00e1ria do sufr\u00e1gio). H\u00e1 tempos, podia ler-se no \u00abInternational Herald Tribune\u00bb uma an\u00e1lise que d\u00e1 que pensar:<\/p>\n<p>\u00abOs Estados Unidos tornaram-se uma plutocracia [\u2026] Quem tenha dinheiro pode exercer um peso para influenciar o governo. Deixado de fora fica o restante povo, e agora parecem existir escassas esperan\u00e7as de poder alterar o modo como o pa\u00eds \u00e9 governado.\u00bb (Pfaff, 2000).<\/p>\n<p>Mas \u00e9 sobretudo a n\u00edvel internacional que a tend\u00eancia para a restaura\u00e7\u00e3o se torna particularmente evidente, ao repropor-se em novas formas a grande discrimina\u00e7\u00e3o que tradicionalmente atingiu os povos coloniais e semi-coloniais. \u00c9 expl\u00edcita a reabilita\u00e7\u00e3o do colonialismo no ide\u00f3logo mais ou menos oficial da \u201csociedade aberta\u201d e do Ocidente. Popper exprime-se deste modo a prop\u00f3sito das ex-col\u00f3nias: \u201cLibert\u00e1mos estes Estados de forma demasiado apressada e demasiado simplista; \u00e9 como abandonar a si pr\u00f3prio um asilo de crian\u00e7as\u201d. E o historiador ingl\u00eas Paul Johnson, de grande sucesso medi\u00e1tico, fala de um \u201c<em>revival<\/em>\u201d do colonialismo, numa interven\u00e7\u00e3o com tanto mais autoridade quanto foi publicada no \u00abNew York Times\u00bb, com destaque e com um t\u00edtulo que soa como o enunciado de um programa: \u201cFinalmente regressa o colonialismo, era tempo\u201d. N\u00e3o existem alternativas ao \u201c<em>revival<\/em> altru\u00edsta do colonialismo\u201d em \u201cmuit\u00edssimos pa\u00edses do Terceiro Mundo\u201d: \u201c\u00e9 uma quest\u00e3o moral; o mundo civilizado tem a miss\u00e3o de ir governar estes lugares desesperados.\u201d N\u00e3o se trata apenas de intervir em pa\u00edses incapazes de se governarem sozinhos, mas tamb\u00e9m naqueles que, ao governar-se, revelam uma tend\u00eancia \u201cextremista\u201d [8].<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo a categoria de imperialismo conhece uma nova juventude ou reapresenta-se com uma nova cosm\u00e9tica.<\/p>\n<p>Naturalmente, o processo de recoloniza\u00e7\u00e3o do Terceiro Mundo, e das zonas perif\u00e9ricas em rela\u00e7\u00e3o ao Ocidente, avan\u00e7a com palavras de ordem universalistas, que proclamam a absoluta transcend\u00eancia das normas \u00e9ticas relativamente aos limites estatais e nacionais. Mas isto, longe de constituir uma novidade, \u00e9 uma constante da tradi\u00e7\u00e3o colonial. Por outro lado, \u00e9 evidente que, arrogando-se o direito de declarar superada a soberania de outros Estados, as grandes pot\u00eancias atribuem-se uma soberania dilatada, a exercer muito para al\u00e9m do pr\u00f3prio territ\u00f3rio nacional. Reproduz-se de uma forma pouco modificada a dicotomia que ritmou a expans\u00e3o colonial, no decurso da qual os protagonistas constantemente recusaram reconhecer como Estados soberanos os pa\u00edses que subjugavam ou transformavam em protectorado.<\/p>\n<p>Quer dizer, ao enfraquecimento do movimento comunista corresponde o desfazer-se das conquistas democr\u00e1ticas realizadas no s\u00e9culo XX, a partir da revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Dito por outras palavras, a elimina\u00e7\u00e3o das grandes discrimina\u00e7\u00f5es que durante s\u00e9culos caracterizaram o mundo liberal-burgu\u00eas nunca ser\u00e1 definitivamente consolidada sem profundas transforma\u00e7\u00f5es, a n\u00edvel nacional e internacional, das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e sociais capitalistas. Disso mesmo se d\u00e3o conta, por exemplo, os pa\u00edses e os povos que na Am\u00e9rica latina lutam para sacudir das costas o peso do dom\u00ednio do saque imperialista. A partir desta exig\u00eancia elementar de conquista ou reconquista da independ\u00eancia e da dignidade nacional, eles percebem a necessidade de avan\u00e7ar na direc\u00e7\u00e3o do \u201csocialismo do s\u00e9culo XXI\u201d. E ao faz\u00ea-lo redescobrem a grande heran\u00e7a do comunismo do s\u00e9culo XX: olham com admira\u00e7\u00e3o, com simpatia e com respeito Cuba, a China, o Vietnam.<\/p>\n<p>O processo verificado entre 1989 e 1991 n\u00e3o significou a liquida\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses que se reclamam do socialismo. A partir de Outubro de 1917 desenvolveu-se uma dial\u00e9ctica complexa e contradit\u00f3ria. O sistema capitalista, refor\u00e7ado pela absorp\u00e7\u00e3o de elementos derivados da bagagem ideal e pol\u00edtica do movimento comunista e da pr\u00f3pria realidade do socialismo real, soube depois exercitar por sua vez uma atrac\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel sobre a popula\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses caracterizados por um socialismo que, desde o in\u00edcio, traz impressos na face os sinais da guerra desencadeada e imposta pelo Ocidente, e que depois se torna cada vez mais ossificado e escler\u00f3tico at\u00e9 se tornar a caricatura de si pr\u00f3prio. Quer dizer, os regimes nascidos na onda da revolu\u00e7\u00e3o bolchevique n\u00e3o souberam confrontar-se concretamente com o Ocidente que eles pr\u00f3prios tinham contribu\u00eddo para modificar em profundidade. Em \u00faltima an\u00e1lise venceu o sistema pol\u00edtico-social que melhor soube responder ao desafio lan\u00e7ado ou objectivamente constitu\u00eddo pelo sistema oposto e concorrente. E foi assim que, tamb\u00e9m neste caso, a inicial vit\u00f3ria parcial conseguida pelo movimento oper\u00e1rio e comunista, com a capacidade demonstrada de desenvolver a sua efic\u00e1cia hist\u00f3rica concreta tamb\u00e9m no campo advers\u00e1rio, se transformou numa derrota de alcance estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a pr\u00f3pria gravidade de tal derrota, repondo em discuss\u00e3o as conquistas democr\u00e1ticas conseguidas no s\u00e9culo XX, d\u00e1 novo f\u00f4lego, sobretudo no Terceiro Mundo, ao projecto de transforma\u00e7\u00e3o socialista. Este, no entanto, perdeu a clareza e a evid\u00eancia que parecia ter no s\u00e9culo XX. Conv\u00e9m reflectir sobre uma celeb\u00e9rrima tese de Lenin: \u201csem teoria revolucion\u00e1ria n\u00e3o h\u00e1 revolu\u00e7\u00e3o\u201d. O partido bolchevique possu\u00eda sem d\u00favida uma teoria para a conquista do poder; mas se por revolu\u00e7\u00e3o se entende, para l\u00e1 do derrube da velha ordem, a constru\u00e7\u00e3o da nova, os bolcheviques e o movimento comunista encontravam-se substancialmente privados de uma teoria revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode certamente considerar-se como teoria da sociedade post-capitalista a construir a expectativa escatol\u00f3gica de uma sociedade perfeitamente conciliada e sem contradi\u00e7\u00f5es e conflitos de algum tipo. A resist\u00eancia e a vitalidade dos pa\u00edses de inspira\u00e7\u00e3o socialista que conseguiram superar a crise de 1989\/1991 derivam da capacidade demonstrada de levar avante concretamente, no meio de limita\u00e7\u00f5es, erros e experi\u00eancias mais ou menos felizes, o necess\u00e1rio processo de aprendizagem, depurando o projecto socialista das suas componentes abstractamente ut\u00f3picas e redescobrindo o mercado socialista, o governo da lei em vers\u00e3o socialista, a persist\u00eancia das diferen\u00e7as e identidades nacionais, etc. Abre-se uma fase nova e rica de inc\u00f3gnitas: o processo de aprendizagem n\u00e3o est\u00e1 e n\u00e3o pode ter um sucesso garantido, n\u00e3o \u00e9 imune nem ao surgimento de contradi\u00e7\u00f5es e conflitos nem ao perigo da derrota. \u00c9 um processo que se acha bem longe de ter chegado ao seu termo.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><br \/>\n[1] Lenin, 1955 c, p. 403 e Lenin, 1955 a, p. 417.<br \/>\n[2] Rosenberg 1937, p. 673.<br \/>\n[3] Rosenberg 1937, pp. 668-9.<br \/>\n[4] Cfr. Losurdo 2002, cap. 27, \u00a7 7.<br \/>\n[5] Sobre o eugenismo nos EUA e na Alemanha, cfr. K\u00fchl 1994, p. 61; o ju\u00edzo lisongeiro do presidente Harding \u00e9 referido na abertura do livro de Stoddard 1925.<br \/>\n[6] Lenin, 1955 b, p. 282.<br \/>\n[7] Sobre isto, cfr. Losurdo, 1998, cap. II, 3.<br \/>\n[8] Johnson, 1993, pp. 22 e 43-44.<\/p>\n<p><em>* Domenico Losurdo, fil\u00f3sofo e historiador, \u00e9 Professor da Universidade de Urbino, It\u00e1lia<\/em><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o de J.A. Nunes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: resistir.info\n\n\n\n\nDom\u00e9nico Losurdo*\nComo resumir o balan\u00e7o hist\u00f3rico do movimento comunista no s\u00e9culo que passou? Hoje em dia, o discurso acerca da sua \u201cfal\u00eancia\u201d \u00e9 t\u00e3o pouco discutido que n\u00e3o chega a suscitar objec\u00e7\u00f5es, nem mesmo na esquerda. A ideologia e a historiografia actualmente dominantes parecem querer compendiar o balan\u00e7o de um s\u00e9culo dram\u00e1tico numa historieta edificante, que pode resumir-se deste modo: no princ\u00edpio do s\u00e9culo XX, uma rapariga fascinante e virtuosa, a menina Democracia, foi agredida, primeiro por um bruto, o senhor Comunismo, a seguir por outro, o senhor Nazi-Fascismo; aproveitando as contradi\u00e7\u00f5es entre eles e atrav\u00e9s de perip\u00e9cias complexas, a jovem consegue por fim libertar-se da terr\u00edvel amea\u00e7a; tornando-se entretanto mais madura mas sem nada perder do seu fasc\u00ednio, a menina Democracia consegue coroar o seu sonho de amor pelo casamento com o senhor Capitalismo; rodeado pelo respeito e a admira\u00e7\u00e3o gerais, o feliz e insepar\u00e1vel casal gosta de levar a vida principalmente entre Washington e Nova Iorque, entre a Casa Branca e Wall Street. Assim sendo, n\u00e3o h\u00e1 mais lugar a d\u00favidas: \u00e9 evidente e ingl\u00f3ria a fal\u00eancia do comunismo.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/96\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-96","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c41-unidade-comunista"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1y","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}