{"id":9654,"date":"2015-10-24T21:02:57","date_gmt":"2015-10-25T00:02:57","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9654"},"modified":"2015-11-01T09:58:51","modified_gmt":"2015-11-01T12:58:51","slug":"o-jogo-da-hipocrisia-num-sistema-institucional-apodrecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9654","title":{"rendered":"O JOGO DA HIPOCRISIA NUM SISTEMA INSTITUCIONAL APODRECIDO"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.alesc.sc.gov.br\/fotonoticia\/fotos\/2008\/Foto_02966_2008_M.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Miguel Urbano Rodrigues<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a Guerra da Crimeia em l856,o Imperio Russo e a Inglaterra vitoriana estiveram na apar\u00eancia \u00e0 beira de um novo conflito armado at\u00e9 \u00e0 assinatura da chamada Entente Cordiale em 1904.<!--more--><\/p>\n<p>The Great Game, O Grande Jogo, foi o nome pelo qual ficou conhecida a tens\u00e3o permanente entre as duas pot\u00eancias imperiais, nascida de ambi\u00e7\u00f5es incompat\u00edveis pelo dom\u00ednio do Afeganist\u00e3o. Os diplomatas mentiam conscientemente, sugerindo a imin\u00eancia de uma guerra que nem Londres nem Petersburgo desejavam.<\/p>\n<p>Num contexto hist\u00f3rico muito diferente, o que aconteceu em Portugal nas \u00faltimas semanas faz lembrar esse jogo anglo-russo no seculo XIX.<\/p>\n<p>O comportamento e as declara\u00e7\u00f5es do Presidente da Republica, dos principais dirigentes do Partido Socialista e do PSD e do CDS e a histeria especulativa do sistema medi\u00e1tico caraterizam bem esse jogo da hipocrisia e desacreditam um sistema institucional apodrecido.<\/p>\n<p>Durante semanas choveram discursos, analises, coment\u00e1rios, especula\u00e7\u00f5es em torno do desfecho da situa\u00e7\u00e3o criada pelo resultado das elei\u00e7\u00f5es legislativas.<\/p>\n<p>O Presidente da Republica, antes de ouvir os partidos, incumbiu imediatamente Passos Coelho de iniciar dilig\u00eancias tendentes \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um governo capaz de assegurar \u00abestabilidade pol\u00edtica\u00bb ao pa\u00eds, consciente de que isso era imposs\u00edvel num Parlamento em que a coliga\u00e7\u00e3o PSD-CDS perdeu a maioria absoluta.<\/p>\n<p>Simultaneamente, Antonio Costa abriu conversa\u00e7\u00f5es com o bin\u00f3mio PSD -CDS e com o PCP e o Bloco de Esquerda. Correram mal as reuni\u00f5es com a coliga\u00e7\u00e3o e avan\u00e7aram os encontros com os dirigentes comunistas e os bloquistas com vista \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de \u00abum governo de esquerda\u00bb.<\/p>\n<p>Passos, Portas e Costa trocaram acusa\u00e7\u00f5es em tom cada vez mais \u00e1spero.<\/p>\n<p>Na semana que precedeu as reuni\u00f5es do Presidente da Republica com os partidos abundaram as mesas redondas, as entrevistas e as consultas a constitucionalistas tidos por s\u00e1bios. Cen\u00e1rios fantasistas foram montados por \u00abespecialistas\u00bb na televis\u00e3o, na radio e nos jornais de \u00abreferencia\u00bb.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese de um governo de gest\u00e3o foi exaustivamente debatida numa atmosfera de intriga e de densa especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No dia 15, ao acentuar se a tens\u00e3o entre os dirigentes da coliga\u00e7\u00e3o e Costa, com troca de acusa\u00e7\u00f5es pesadas, a maioria dos observadores admitia que aumentavam as probabilidades do chamado \u00abgoverno de esquerda\u00bb.<\/p>\n<p>Subestimavam a decis\u00e3o de Cavaco e as clivagens existentes no PS onde um influente sector encara com restri\u00e7\u00f5es um entendimento com o PCP e o Bloco de Esquerda. Francisco de Assis, porta-voz dessa tend\u00eancia, foi muito claro ao afirmar a sua prefer\u00eancia por um governo PSD-CDS.<\/p>\n<p>Mas, os media e os comentadores de servi\u00e7o passaram a apresentar a nomea\u00e7\u00e3o de Passos Coelho como uma certeza.<\/p>\n<p>No Expresso, o diretor, os diretores adjuntos e os principais colunistas tomaram partido em defesa dessa solu\u00e7\u00e3o. O grande capital e os media por ele controlados reagiram com alarme \u00e0s declara\u00e7\u00f5es de Antonio Costa, Catarina Martins e Jer\u00f3nimo de Sousa quando informaram o Presidente da Republica que estavam reunidas condi\u00e7\u00f5es para que o PS formasse um governo da sua iniciativa com apoio maiorit\u00e1rio na Assembleia da Republica.<\/p>\n<p>A primeira fase do desfecho (provis\u00f3rio) \u00e9 conhecida.<\/p>\n<p>Na noite do dia 22,Cavaco Silva dirigiu-se ao Pa\u00eds. Num discurso que ter\u00e1 sido o mais reacion\u00e1rio da sua carreira indigitou Passos Coelho como Primeiro-ministro, convidando-o a formar governo. Desrespeitando a Constitui\u00e7\u00e3o e a Assembleia da Republica, insultou os partidos da oposi\u00e7\u00e3o sem os nomear, qualificou de catastr\u00f3fica a alternativa \u00e0 nomea\u00e7\u00e3o do dirigente do PSD, e, numa manobra de chantagem, lan\u00e7ou um apelo \u00e0 dissid\u00eancia dos deputados do PS, instando -os a viabilizar o programa do governo da coliga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pode-se dizer que o tiro saiu pela culatra. Na tentativa desesperada de salvar o seu partido, o Presidente da Republica falou como dirigente de uma seita, produzindo o efeito oposto ao desejado. Conseguiu unir o PS em vez de o dividir. Horas depois, a comiss\u00e3o pol\u00edtica dos socialistas mandatou a sua bancada parlamentar para apresentar uma mo\u00e7\u00e3o de rejei\u00e7\u00e3o ao governo quando Passos o apresentar na Assembleia da Republica.<\/p>\n<p>Como o PCP e o Bloco de Esquerda tomaram antecipadamente a mesma decis\u00e3o, o II Governo da Coliga\u00e7\u00e3o que arruinou o pa\u00eds vai nascer morto.<\/p>\n<p>UM PS CAMALEONICO<\/p>\n<p>Muitos comentaristas com banca na televis\u00e3o e colunas nos jornais, refletindo sobre a situa\u00e7\u00e3o de vazio politica que resultar\u00e1 do derrubamento pelo Parlamento do governo natimorto de Passos &amp; Portas, entregam-se agora a fren\u00e9ticas especula\u00e7\u00f5es sobre o futuro imediato.<\/p>\n<p>Cavaco sugeriu que n\u00e3o dar\u00e1 posse a um governo do PS apoiado pelo PCP e o Bloco de Esquerda. Tal inten\u00e7\u00e3o configura um desafio insolente \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o e ao Poder Legislativo. Seria um ato de contornos ditatoriais, incompat\u00edvel com a sua anunciada decis\u00e3o de n\u00e3o colocar o pa\u00eds durante quase muitos meses sob um governo de gest\u00e3o derrubado pelo Parlamento.<\/p>\n<p>Tremendas press\u00f5es ser\u00e3o exercidas sobre o Presidente para dar o dito por n\u00e3o dito e, descendo \u00e0 Terra, incumbir Antonio Costa de formar governo.<\/p>\n<p>Admitindo que esse seja finalmente o desfecho pol\u00edtico da crise institucional, n\u00e3o encaro com otimismo o futuro pr\u00f3ximo. O acordo firmado pelos tr\u00eas partidos da oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o dissipa as nuvens acumuladas no horizonte.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 mesmo um \u00abgoverno de esquerda\u00bb como lhe chamam os media?<\/p>\n<p>A minha resposta \u00e0 pergunta \u00e9 negativa, mas justificar essa posi\u00e7\u00e3o gera em mim um sentimento doloroso.<\/p>\n<p>O Partido Socialista \u00e9 presentemente um Partido neoliberal como a maioria dos seus cong\u00e9neres europeus. Quando no governo realizou sempre pol\u00edticas de direita e quando na oposi\u00e7\u00e3o foi c\u00famplice de pol\u00edticas de direita.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da Revolu\u00e7\u00e3o Portuguesa, o PS, criado na Alemanha Federal, surgiu em Portugal com um programa influenciado pelo marxismo. Ent\u00e3o tinha cabimento falar se de uma \u00abmaioria de esquerda\u00bb quando socialistas e comunistas elegiam muito mais deputados do que a direita.<\/p>\n<p>Mas o PS, sob a dire\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Soares, reescreveu o programa, trocou o vermelho da bandeira por rosa, passou a exorcizar o marxismo e engavetou o socialismo. No Parlamento aliou se com frequ\u00eancia \u00e0 direita, primeiro ao CDS, e depois ao PPD-PSD (Bloco Central).<\/p>\n<p>Arvorando o estandarte de uma coisa autointitulada Socialismo de Rosto Humano, combateu sistematicamente o PCP, ombro a ombro com as for\u00e7as mais reacion\u00e1rias da sociedade portuguesa. Desempenhou um papel decisivo na destrui\u00e7\u00e3o da Reforma Agraria e na ofensiva contra as conquistas de Abril.<\/p>\n<p>\u00c1lvaro Cunhal e Vasco Gon\u00e7alves apontam-no como o principal respons\u00e1vel pela contrarrevolu\u00e7\u00e3o. O Partido Socialista foi no Governo e depois na Presid\u00eancia da Republica o instrumento de a\u00e7\u00e3o da sua estrat\u00e9gia reacion\u00e1ria, a que Guterres, S\u00f3crates e Seguro deram continuidade.<br \/>\nQUE FUTURO NO HORIZONTE?<\/p>\n<p>Pode um governo socialista sa\u00eddo do atual Parlamento realizar uma obra mais nociva do que o cessante de Passos &amp; Portas?<\/p>\n<p>N\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas vai porventura um governo liderado por Antonio Costa desenvolver uma pol\u00edtica que responda minimamente \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es das v\u00edtimas da obra devastadora da coliga\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria PSD-CDS?<\/p>\n<p>N\u00e3o creio. \u00c9 muito improv\u00e1vel que essa esperan\u00e7a se concretize. Sejam quais forem os acordos a que o PS chegar com o Bloco de Esquerda e o PCP, os riscos, sobretudo para os comunistas, ser\u00e3o sempre grandes e as possibilidades de os evitar escassas. As \u00e1reas de eventuais acordos entre projetos tao diferentes s\u00e3o aparentemente poucas. \u00c9 minha convic\u00e7\u00e3o que somente a intensifica\u00e7\u00e3o da luta de massas, ao tornar-se priorit\u00e1ria como frente de combate contra a heran\u00e7a devastadora dos \u00faltimos governos, pode abrir perspetival de sobreviv\u00eancia a um governo fr\u00e1gil de Antonio Costa.<\/p>\n<p>Mas estar\u00e1 a dire\u00e7\u00e3o de um Partido como PS aberta a uma altera\u00e7\u00e3o tao profunda da sua pol\u00edtica tradicional? N\u00e3o creio.<\/p>\n<p>Raras vezes em Portugal slogans como \u00aba nossa democracia\u00bb e \u00abos superiores interesses do pa\u00eds\u00bb foram usados insistentemente e com tanta impropriedade.<\/p>\n<p>Para mal do povo portugu\u00eas o regime da \u00abdemocracia representativa\u00bb, que assegurou liberdades e direitos fundamentais, tem funcionado na pr\u00e1tica desde o in\u00edcio da recupera\u00e7\u00e3o capitalista como uma ditadura econ\u00f3mica da burguesia com fachada democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>As perspetivas de evolu\u00e7\u00e3o da crise n\u00e3o justificam sentimentos de euforia.<\/p>\n<p>N\u00e3o encontro na Historia exemplos de acordos de governo entre socialistas e comunistas- mesmo quando a interven\u00e7\u00e3o destes se limitou ao apoio parlamentar- que tenham produzido resultados positivos duradouros. Alguns, como a Frente Popular Francesa de 1936 e o Governo Provis\u00f3rio de De Gaulle em l944.46 tiveram um come\u00e7o auspicioso, mas todos acabaram mal.<\/p>\n<p>Como comunista, cumpro um dever ao escrever este artigo dif\u00edcil e inc\u00f3modo.<\/p>\n<p>VILA NOVA DE GAIA, 23 de Outubro de 2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Miguel Urbano Rodrigues Ap\u00f3s a Guerra da Crimeia em l856,o Imperio Russo e a Inglaterra vitoriana estiveram na apar\u00eancia \u00e0 beira de um \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9654\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-9654","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2vI","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9654","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9654"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9654\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}