{"id":97,"date":"2009-08-31T18:39:37","date_gmt":"2009-08-31T18:39:37","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=97"},"modified":"2009-08-31T18:39:37","modified_gmt":"2009-08-31T18:39:37","slug":"a-alba-e-a-nova-geopolitica-da-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/97","title":{"rendered":"A ALBA e a nova geopol\u00edtica da Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"\n<\/p>\n<p>Em nosso continente as feridas deixadas por nossa heran\u00e7a colonial demoram para cicatrizar. Mesmo depois das lutas por independ\u00eancia e dos diversos movimentos anticolonialistas do s\u00e9culo XIX, ainda n\u00e3o podemos afirmar que conquistamos plenamente a soberania em todos os rinc\u00f5es desta \u201cNuestra Am\u00e9rica\u201d.<\/p>\n<p>Durante o s\u00e9culo XIX grandes esperan\u00e7as foram despertadas por Sim\u00f3n Bol\u00edvar e tantos outros , homens e mulheres, que lutaram pela constru\u00e7\u00e3o de uma unidade entre os povos e na\u00e7\u00f5es latino-americanas. Bol\u00edvar insistia que foi \u201cnossa divis\u00e3o e n\u00e3o as armas espanholas que levou-nos \u00e0 escravid\u00e3o\u201d (Cartagena das \u00cdndias, 15 de dezembro de 1812). Em 1815, com a Carta da Jamaica, e na iniciativa de 1826, com o Congresso do Panam\u00e1, Bol\u00edvar pretendia iniciar um processo de integra\u00e7\u00e3o mesmo diante de condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e hist\u00f3ricas bastante desfavor\u00e1veis. Sabia das dificuldades existentes, mas insistiu na id\u00e9ia de construir uma grande e \u00fanica na\u00e7\u00e3o em toda a Am\u00e9rica Latina, pois acreditava que assim poder\u00edamos enfrentar qualquer nova forma de colonialismo que viesse a se desenvolver no continente. Dentro desse movimento pol\u00edtico conhecido como pan-americanismo, que desejava afirmar a posi\u00e7\u00e3o americana diante de rela\u00e7\u00f5es internacionais historicamente controladas por pot\u00eancias europ\u00e9ias, surgem duas correntes, o \u201cbolivarianismo\u201d, e a Doutrina Monroe, anunciada pelo presidente dos EUA, James Monroe, em sua mensagem ao Congresso em 02 de dezembro de 1823. Enquanto Bol\u00edvar defendia a independ\u00eancia plena, a soberania e a unidade entre os povos e na\u00e7\u00f5es latino-americanas e caribenhas, a doutrina Monroe proclamava os EUA como \u201cguardi\u00f5es\u201d de toda a Am\u00e9rica, se declarando contra iniciativas colonizadoras europ\u00e9ias na regi\u00e3o e, ao mesmo tempo, praticando um neocolonialismo atrav\u00e9s de interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e militares em diversos pa\u00edses, impedindo com isso o pleno desenvolvimento da soberania e da independ\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>A derrota pol\u00edtica do \u201cbolivarianismo\u201d no s\u00e9culo XIX criou condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis para a manuten\u00e7\u00e3o do continente como um territ\u00f3rio subordinado aos interesses das pot\u00eancias hegem\u00f4nicas do momento. Com a ajuda da classe dominante brasileira e de seus governos, os EUA conseguem consolidar seu poder e sua influ\u00eancia na regi\u00e3o, e o Brasil vai aparecer como o mais fiel representante da Doutrina Monroe na Am\u00e9rica do Sul, evitando qualquer confronta\u00e7\u00e3o ou s\u00e9rio questionamento ao imperialismo estadunidense no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. A pol\u00edtica externa brasileira, principalmente ap\u00f3s a gest\u00e3o de Bar\u00e3o de Rio Branco (1902\/1912), empurra o pa\u00eds para uma situa\u00e7\u00e3o de aproxima\u00e7\u00e3o ainda maior com os EUA, contribuindo para enterrar mais uma vez o sonho de integra\u00e7\u00e3o soberana da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XX, a presen\u00e7a militar e pol\u00edtica dos EUA levou o continente para uma participa\u00e7\u00e3o ativa na chamada Guerra Fria, com interven\u00e7\u00f5es, golpes e ditaduras que, defendendo os interesses das grandes empresas transnacionais estadunidenses, acabaram afastando novas possibilidades de retomada do projeto \u201cbolivariano\u201d.<\/p>\n<p>1989\/1999:neoliberalismo, \u201clivre com\u00e9rcio\u201d e ALCA<\/p>\n<p>Quem poderia acreditar que a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e geopol\u00edtica da Am\u00e9rica Latina pudesse sofrer tantas mudan\u00e7as num curto per\u00edodo de dez anos. Entre 1989 e 1991 a burguesia mundial comemorava o que chamou de \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d ou \u201cfim do socialismo\u201d, e celebrava a queda do muro de Berlin e o fim da Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas (URSS) como uma vit\u00f3ria plena do capitalismo e do liberalismo contra quaisquer tentativas de constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade que n\u00e3o estivesse subordinada \u00e0 l\u00f3gica do capital e do mercado.<\/p>\n<p>Os dez anos que se seguiram foram marcados pela ofensiva da classe dominante, que aproveitou para tentar enfraquecer os movimentos de trabalhadores, eliminar ou reduzir os direitos trabalhistas, ampliar seus lucros com novas formas de explora\u00e7\u00e3o ou com a privatiza\u00e7\u00e3o de empresas estatais, etc. Foi um per\u00edodo onde o neoliberalismo se desenvolveu plenamente. Surgem os Tratados de Livre Com\u00e9rcio (TLC), onde a classe dominante estadunidense procura impor suas regras atrav\u00e9s de \u201cacordos\u201d como o NAFTA (Tratado de Livre Com\u00e9rcio da Am\u00e9rica do Norte), assinado por M\u00e9xico, EUA e Canad\u00e1 e ALCA (\u00e1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas), cujo objetivo era obter a assinatura de 34 pa\u00edses do continente (todos, menos Cuba) para algo que poderia se transformar num NAFTA ampliado.<\/p>\n<p>1999\/2009: o papel da Venezuela na derrota da ALCA e na constru\u00e7\u00e3o da ALBA<\/p>\n<p>As mobiliza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais contra o neoliberalismo e a ALCA ganham for\u00e7a ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Hugo Ch\u00e1vez na Venezuela. Palco de intensas lutas sociais desde 1989, podemos dizer que a elei\u00e7\u00e3o de Ch\u00e1vez \u00e9 resultado desse amplo movimento de massas que, mesmo com limites e contradi\u00e7\u00f5es, conseguiu barrar o avan\u00e7o das for\u00e7as anti-populares e anti-democr\u00e1ticas que usavam a riqueza do petr\u00f3leo para garantir privil\u00e9gios enquanto as massas populares viviam numa situa\u00e7\u00e3o de mais absoluta pobreza.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s sua posse, em fevereiro de 1999, Ch\u00e1vez faz de seu governo mais um instrumento de cr\u00edtica \u00e0 ALCA e \u00e0 posi\u00e7\u00e3o estadunidense de querer obrigar todo o continente a aceitar uma \u201cintegra\u00e7\u00e3o\u201d subordinada aos interesses do grande capital imperialista. Venezuela, Cuba e diversos movimentos da classe trabalhadora tomam iniciativas, cada uma \u00e0 sua maneira, com diferentes formas de resist\u00eancia e organiza\u00e7\u00e3o, para que a ALCA n\u00e3o seja assinada pelos governos, ao mesmo tempo que v\u00e3o surgindo propostas de uma outra integra\u00e7\u00e3o, das lutas sociais, dos povos em luta, uma integra\u00e7\u00e3o que seja constru\u00edda na mobiliza\u00e7\u00e3o cotidiana das for\u00e7as pol\u00edticas e sociais anti-neoliberais, anti-imperialistas\/anti-capitalistas, que tenha como refer\u00eancia as reivindica\u00e7\u00f5es de diversos setores populares que procuram, de algum modo, fazer ressurgir o sonho de Bol\u00edvar, Mart\u00ed, Sandino e tantos outros que tinham na integra\u00e7\u00e3o latino-americana uma de suas principais bandeiras de luta.<\/p>\n<p>Em 2004, exatamente dez anos depois do primeiro encontro pol\u00edtico entre Fidel Castro e Hugo Ch\u00e1vez, surgia timidamente a ALBA (Alternativa Bolivariana para os Povos da Am\u00e9rica).<\/p>\n<p>Desenvolvimento e amplia\u00e7\u00e3o da ALBA<\/p>\n<p>O surgimento da ALBA \u00e9 fruto da pr\u00f3pria necessidade dos movimentos da classe trabalhadora do continente de apresentar uma verdadeira alternativa econ\u00f4mica, pol\u00edtica, social e cultural, um programa de transi\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter popular, democr\u00e1tico, que vai adquirindo com seu desenvolvimento um conte\u00fado cada vez mais anti-imperialista\/anti-capitalista.<\/p>\n<p>Tendo como principais articuladores os governos de Cuba e Venezuela, este instrumento de uma outra integra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o-neoliberal, vai surpreendendo os mais pessimistas, que n\u00e3o acreditavam na sua possibilidade de \u00eaxito. Com as elei\u00e7\u00f5es de in\u00fameros governos considerados n\u00e3o-neoliberais, progressistas, democr\u00e1ticos, e com a mobiliza\u00e7\u00e3o e as lutas da classe trabalhadora e das massas populares, v\u00e3o sendo constru\u00eddas condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis para o fortalecimento dessa iniciativa. A elei\u00e7\u00e3o de governos que, de alguma maneira, criaram algum tipo de conflito e\/ou contradi\u00e7\u00e3o com os interesses dos EUA na regi\u00e3o, diminuiu a influ\u00eancia desse pa\u00eds, que vinha exercendo o papel de pot\u00eancia hegem\u00f4nica no continente desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. A combina\u00e7\u00e3o de diversas formas de luta e diferentes maneiras de confronta\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica externa estadunidense abriu caminho para que em outros pa\u00edses as lutas sociais e pol\u00edticas com car\u00e1ter popular fossem se transformando em programa pol\u00edtico-eleitoral de partidos e\/ou frentes partid\u00e1rias que eram, em alguma medida, express\u00e3o desse processo de mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os princ\u00edpios que norteiam a constru\u00e7\u00e3o da ALBA est\u00e3o presentes em diversas iniciativas concretas, realizadas de maneira mais ativa pelos pa\u00edses membros (Bolivia, Cuba, Dominica, Honduras, Nicar\u00e1gua e Venezuela), mas tamb\u00e9m podem ser percebidos em acordos de coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social com pa\u00edses que n\u00e3o s\u00e3o membros da ALBA, mas ao mesmo tempo n\u00e3o se colocam na posi\u00e7\u00e3o de inimigos frontais dessa iniciativa, como no caso do Brasil, Argentina, Uruguai, Haiti, Paraguai (cujo presidente Fernando Lugo chamou a ALBA de \u201cuma iniciativa fundamental para se construir uma nova Am\u00e9rica Latina\u201d), com muito maior destaque, o Equador, que com as vit\u00f3rias eleitorais do presidente Rafael Correa s\u00f3 tende a aprofundar ainda mais sua integra\u00e7\u00e3o \u00e0 este bloco de pa\u00edses j\u00e1 chamado de \u201cbolivarianos\u201d. Tamb\u00e9m n\u00e3o podemos esquecer de El Salvador, onde recentemente foi vitorioso nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais o candidato Maur\u00edcio Tunes, da Frente Farabundo Mart\u00ed de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (FMLN), partido que t\u00eam \u00f3timas rela\u00e7\u00f5es com o bloco da ALBA.<\/p>\n<p>A ALBA, com t\u00e3o pouco tempo de vida, apesar de todas as dificuldades e d\u00favidas que a cercam, j\u00e1 pode ser considerada como a mais avan\u00e7ada e a mais concreta iniciativa de integra\u00e7\u00e3o popular e democr\u00e1tica dos povos da Am\u00e9rica Latina e Caribe. Infelizmente amplos setores da esquerda est\u00e3o menosprezando a import\u00e2ncia da ALBA na constru\u00e7\u00e3o de uma nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as regional, que pode contribuir muito para neutralizar por algum tempo a influ\u00eancia estadunidense, criando assim condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis para novos ciclos de mobiliza\u00e7\u00e3o social e popular. Derrotar a ALCA e a pol\u00edtica externa estadunidense n\u00e3o \u00e9 pouca coisa, mas tudo isso ainda \u00e9 insuficiente para, de fato, desencadearmos uma transi\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do capitalismo em diversos pa\u00edses da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O papel decisivo e determinante das lutas de massa na constru\u00e7\u00e3o da ALBA<\/p>\n<p>Para fortalecer o car\u00e1ter classista e anti-imperialista\/anti-capitalista no processo de constru\u00e7\u00e3o da ALBA \u00e9 fundamental a exist\u00eancia de movimentos aut\u00f4nomos da classe trabalhadora, que n\u00e3o estejam subordinados aos governos, por mais populares, democr\u00e1ticos ou anti-imperialistas que eles sejam, pois s\u00f3 a luta de massas da classe trabalhadora e das massas populares pode, de fato, assegurar a vit\u00f3ria de um projeto de integra\u00e7\u00e3o dessa natureza. Ser governo n\u00e3o \u00e9 ter o poder, pois o Estado continua sendo em muitos pa\u00edses da ALBA, como diziam K. Marx e F. Engels, o \u201ccomit\u00ea gestor dos neg\u00f3cios da burguesia\u201d, portanto, para alterar essa natureza, de uma Estado burgu\u00eas para um Estado que seja express\u00e3o real de um processo de transi\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter anti-capitalista, n\u00e3o basta a elei\u00e7\u00e3o de um presidente comprometido com a luta pelo socialismo. Em situa\u00e7\u00f5es como essa, extraordin\u00e1rias na hist\u00f3ria do capitalismo, onde partidos e organiza\u00e7\u00f5es anti-capitalistas conquistam o governo num pa\u00eds capitalista, a tend\u00eancia \u00e9 a intensifica\u00e7\u00e3o do conflito, com a inevit\u00e1vel vit\u00f3ria de uma das for\u00e7as, a da revolu\u00e7\u00e3o ou a da contra-revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sendo assim, a melhor forma dos movimento sociais da classe trabalhadora (que se expressam de diferentes formas em cada pa\u00eds) contribu\u00edrem com a ALBA \u00e9 melhorando sua capacidade organizativa, \u00e9 ampliando sua capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o social, \u00e9 elevando o n\u00edvel de consci\u00eancia pol\u00edtica de sua base, de seus militantes e dirigentes, investindo na forma\u00e7\u00e3o de novos quadros, cada vez mais capacitados para enfrentar os desafios da luta de classes neste in\u00edcio de s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>A ALBA e a nova geopol\u00edtica latino-americana<\/p>\n<p>No Manifesto Comunista K. Marx e F. Engels j\u00e1 alertavam que n\u00e3o podemos falar de na\u00e7\u00e3o sem falar de luta de classes, pois a na\u00e7\u00e3o nada mais \u00e9 do que o espa\u00e7o concreto onde as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo se manifestam de maneira mais evidente, \u00e9 onde ocorrem os embates entre as for\u00e7as pol\u00edticas e sociais que defendem os interesses da classe dominante e da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7as que est\u00e3o ocorrendo em nosso continente nos obrigam a desenvolver uma nova reflex\u00e3o sobre velhos problemas, tais como a quest\u00e3o nacional e a quest\u00e3o democr\u00e1tica, os desafios da transi\u00e7\u00e3o socialista, os limites, possibilidades, conte\u00fado e real significado de um programa democr\u00e1tico e popular na atual conjuntura, etc. Se n\u00e3o podemos ainda afirmar que vivemos um novo per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o para o socialismo, tamb\u00e9m n\u00e3o podemos menosprezar que algo de novo est\u00e1 acontecendo, principalmente quando levamos em considera\u00e7\u00e3o o que est\u00e1 ocorrendo na Venezuela, que de todos os processos recentes, com todos os erros, limites e contradi\u00e7\u00f5es existentes (e s\u00e3o muitas), me parece o que temos de mais avan\u00e7ado em termos de conquistas sociais para os mais pobres e em termos de avan\u00e7o na consci\u00eancia pol\u00edtica das massas.<\/p>\n<p>Essa \u201cnova geopol\u00edtica das na\u00e7\u00f5es\u201d, como diz Jos\u00e9 Luis Fiori, est\u00e1 se materializando na Am\u00e9rica Latina, e uma \u2013 mas n\u00e3o a \u00fanica &#8211; das express\u00f5es desse processo \u00e9 a ALBA, que tem um p\u00e9 nos movimentos sociais e na heran\u00e7a das lutas de resist\u00eancia dos anos 90, que resultaram em diversas iniciativas continentais, tais como Coordenadora Latino-Americana de Organiza\u00e7\u00f5es do Campo (CLOC), Via Campesina, Alian\u00e7a Social Continental, Campanha Jubileu Sul, Grito dos Exclu\u00eddos Continental, Campanha de Resist\u00eancia Negra, Ind\u00edgena e Popular nos 500 anos, Campanha Continental Contra a ALCA, etc. Mas que tamb\u00e9m tem um p\u00e9 nas iniciativas de governos que, em conjunto com movimentos sociais ou atrav\u00e9s de acordos entre pa\u00edses, levam at\u00e9 o territ\u00f3rio nacional projetos econ\u00f4micos, sociais e culturais que est\u00e3o dentro dos princ\u00edpios dessa nova perspectiva de integra\u00e7\u00e3o dos povos, tais como a Escola Latino-Americana de Ci\u00eancias M\u00e9dicas (ELAM), a Opera\u00e7\u00e3o Milagros (cirurgias para devolver a vis\u00e3o para os mais pobres), o Projeto de Alfabetiza\u00e7\u00e3o \u201cYo si puedo\u201d, a Telesul, a Petrocaribe, o Banco do Sul, a cria\u00e7\u00e3o de uma moeda (\u201cSucre\u201d) para circular entre os pa\u00edses da ALBA, etc. Todas s\u00e3o iniciativas que ultrapassam as fronteiras dos pa\u00edses membros efetivos da ALBA, pois s\u00e3o projetos que est\u00e3o se desenvolvendo na atualidade tamb\u00e9m em pa\u00edses que, por algum motivo, optaram em n\u00e3o ser membros da ALBA.<\/p>\n<p>Na \u00faltima reuni\u00e3o da Alba, realizada em abril deste ano na cidade venezuelana de Cuman\u00e1, com presen\u00e7a dos presidentes Hugo Ch\u00e1vez (Venezuela), Evo Morales (Bol\u00edvia), Ra\u00fal Castro (Cuba), Daniel Ortega (da Nicar\u00e1gua), Manuel Zelaya (Honduras), e o primeiro-ministro de Dominica, Roosevelt Skerrit (os membros plenos da Alba), mais o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, o chanceler do Equador, Fander Falcon\u00ed (representando o presidente Rafael Correa) e o primeiro-ministro de S\u00e3o Vicente e Granadinas, Ralph Gonsalves (todos pa\u00edses observadores na Alba) foi aprovado um documento que \u00e9 a s\u00edntese das opini\u00f5es desses governos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atual situa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es internacionais. No texto aprovado (ver no s\u00edtio http:\/\/www.alternativabolivariana.org , Boletim ALBA n. 23) afirmam que:<\/p>\n<p>&#8211; os pa\u00edses membros da ALBA n\u00e3o concordam com o projeto de declara\u00e7\u00e3o apresentado para a V C\u00fapula das Am\u00e9ricas (reuni\u00e3o que ocorreu em Trinidad e Tobago logo ap\u00f3s a C\u00fapula da ALBA) por n\u00e3o dar uma resposta \u00e0 crise econ\u00f4mica mundial e por n\u00e3o condenar energicamente o criminoso bloqueio econ\u00f4mico contra Cuba;<\/p>\n<p>&#8211; o capitalismo est\u00e1 acabando com o planeta;<\/p>\n<p>&#8211; o capitalismo t\u00eam provocado uma crise ecol\u00f3gica;<\/p>\n<p>&#8211; a crise econ\u00f4mica global \u00e9 resultado do processo de decad\u00eancia do capitalismo, que amea\u00e7a acabar com a exist\u00eancia de toda a vida no planeta;<\/p>\n<p>&#8211; questionam o G20 e sua iniciativa de triplicar os recursos do FMI enquanto que o necess\u00e1rio seria criar uma nova ordem econ\u00f4mica internacional;<\/p>\n<p>&#8211; a solu\u00e7\u00e3o para a crise mundial deve ser debatida pelos 192 pa\u00edses ligados \u00e0 ONU na Confer\u00eancia Internacional que ir\u00e1 ocorrer em junho;<\/p>\n<p>&#8211; querem um mundo onde pa\u00edses grande e pequenos tenham os mesmos direitos, um mundo sem imp\u00e9rios;<\/p>\n<p>&#8211; os servi\u00e7os b\u00e1sicos de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, \u00e1gua, energia e telecomunica\u00e7\u00e3o devem ser considerados direitos humanos inalien\u00e1veis, e n\u00e3o podem ser transformados em mercadoria nem ser discutidos dentro da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio;<\/p>\n<p>&#8211; que as mudan\u00e7as que queremos s\u00f3 vir\u00e3o com a organiza\u00e7\u00e3o, a mobiliza\u00e7\u00e3o e a unidade entre nossos povos.<\/p>\n<p>A ALBA j\u00e1 se constitu\u00ed como uma for\u00e7a pol\u00edtica internacional. \u00c9 um conjunto de id\u00e9ias, princ\u00edpios e valores, mas tamb\u00e9m um programa de transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais, pol\u00edticas e culturais que pode ser apropriado por todos aqueles movimentos e organiza\u00e7\u00f5es que querem fazer de suas lutas concretas parte integrante de uma estrat\u00e9gia de ruptura com o capitalismo e com o capital. Tamb\u00e9m a ALBA possui nos governos um instrumento para lutar contra o imperialismo. Mas tudo o que foi constru\u00eddo at\u00e9 agora, apesar da ineg\u00e1vel import\u00e2ncia nesse processo de ac\u00famulo de for\u00e7as da classe trabalhadora, ainda \u00e9 insuficiente para garantir a vit\u00f3ria de um novo modo de produ\u00e7\u00e3o. Precisamos fazer mais, precisamos fazer melhor. Os movimentos classistas precisam adquirir mais for\u00e7a, mais capacidade organizativa, mais capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o, mais maturidade pol\u00edtica, mais capacidade de construir alian\u00e7as (t\u00e1ticas e estrat\u00e9gicas), para colocar em movimento todo esse potencial de luta que momentaneamente se encontra adormecido diante de um momento de intensa crise estrutural do capital. Como disseram K. Marx e F. Engels, \u201co proletariado \u00e9 o coveiro da burguesia\u201d. Nunca as condi\u00e7\u00f5es objetivas foram t\u00e3o favor\u00e1veis para uma ruptura com o capitalismo, mas parece que, por algum motivo, o \u201ccoveiro\u201d est\u00e1 dormindo. O buraco na terra j\u00e1 est\u00e1 feito, o t\u00famulo est\u00e1 pronto, mas o capitalismo n\u00e3o \u00e9 um cad\u00e1ver que por livre e espont\u00e2nea vontade se jogar\u00e1 no buraco. Algu\u00e9m t\u00eam de empurr\u00e1-lo e tapar o buraco. Que a ALBA possa ser uma p\u00e1 nas m\u00e3os do proletariado latino-americano e caribenho, para ir aos poucos \u2013 ou rapidamente \u2013 enterrando de vez os interesses imperialistas que s\u00f3 nos trouxeram desuni\u00e3o, pobreza e mais desigualdade.<\/p>\n<p>TEXTO PUBLICADO NA REVISTA SEM TERRA N. 50, JUNHO\/JULHO DE 2009, S\u00c3O PAULO, MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Marcelo Buzetto\nComo disse Eduardo Galeano, em seu agora ainda mais conhecido \u201cAs veias abertas da Am\u00e9rica Latina\u201d, \u201cpara os que concebem a hist\u00f3ria como uma disputa, o atraso e a mis\u00e9ria da Am\u00e9rica Latina s\u00e3o o resultado de seu fracasso. Perdemos: outros ganharam. Mas acontece que aqueles que ganharam, ganharam gra\u00e7as ao que n\u00f3s perdemos: a hist\u00f3ria do subdesenvolvimento da Am\u00e9rica Latina integra a hist\u00f3ria do desenvolvimento do capitalismo mundial. Nossa derrota esteve sempre impl\u00edcita na vit\u00f3ria alheia, nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os imp\u00e9rios e seus agentes nativos\u201d.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/97\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-97","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c29-organizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1z","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}