{"id":970,"date":"2010-11-12T15:48:38","date_gmt":"2010-11-12T15:48:38","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=970"},"modified":"2017-11-29T13:52:25","modified_gmt":"2017-11-29T16:52:25","slug":"comunicacao-de-michel-chossudovsky","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/970","title":{"rendered":"Comunica\u00e7\u00e3o de Michel Chossudovsky"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.globalresearch.ca\/images\/2003-12-11-ft-0008.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><em>\u201cTudo aquilo que a Funda\u00e7\u00e3o [Ford] fez pode ser considerado no \u00e2mbito de \u201ctornar o mundo seguro para o capitalismo\u201d, diminuindo as tens\u00f5es sociais ao ajudar a socorrer os angustiados, a proporcionar v\u00e1lvulas de seguran\u00e7a aos raivosos e a melhorar o funcionamento do governo (McGeorge Bundy, conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional dos Presidentes John F. Kennedy e Lyndon Johnson (1961-1966) e Presidente da Funda\u00e7\u00e3o Ford (1966-1979).<\/em><\/p>\n<p>\u201cAo p\u00f4r os fundos e o enquadramento pol\u00edtico \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de muita gente preocupada e dedicada que trabalha no sector n\u00e3o lucrativo, a classe dirigente pode ir buscar l\u00edderes \u00e0s comunidades de base,\u2026 e pode tornar o financiamento, a contabilidade e os componentes de avalia\u00e7\u00e3o do trabalho t\u00e3o demorado e oneroso que o trabalho de justi\u00e7a social \u00e9 praticamente imposs\u00edvel nessas condi\u00e7\u00f5es\u201d (Paul Kivel, You Call this Democracy, Who Benefits, Who Pays and Who Really Decides, 2004, p. 122 )<\/p>\n<p>\u201cNa Nova Ordem Mundial, o ritual de convidar l\u00edderes da \u201csociedade civil\u201d para os c\u00edrculos interiores do poder \u2013 enquanto simultaneamente reprime os cidad\u00e3os comuns \u2013 satisfaz diversas fun\u00e7\u00f5es importantes. Primeiro, diz ao Mundo que os cr\u00edticos da globaliza\u00e7\u00e3o \u201ct\u00eam que fazer concess\u00f5es\u201d para ganharem o direito de se misturar. Segundo, transmite a ilus\u00e3o de que, embora as elites globais devam \u2013 no que eufem\u00edsticamente se chama democracia &#8211; estar sujeitas \u00e0 cr\u00edtica, governam legitimamente. E terceiro, diz \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma mudan\u00e7a radical e o mais que podemos esperar \u00e9 negociar com esses governantes um ineficaz \u201cdar e receber\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo que os \u201cGlobalizadores\u201d possam adoptar algumas frases progressistas para demonstrar que t\u00eam boas inten\u00e7\u00f5es, os seus objectivos fundamentais n\u00e3o s\u00e3o contestados. E o que esta \u201cmiscel\u00e2nea da sociedade civil\u201d faz \u00e9 refor\u00e7ar o coio da institui\u00e7\u00e3o empresarial, ao mesmo tempo que enfraquece e divide o movimento de protesto. A compreens\u00e3o deste processo de coopta\u00e7\u00e3o \u00e9 importante, porque dezenas de milhares dos jovens mais \u00edntegros em Seattle, Praga e Quebec [1999-2001] est\u00e3o envolvidos nos protestos anti-globaliza\u00e7\u00e3o porque rejeitam a no\u00e7\u00e3o de que o dinheiro \u00e9 tudo, porque rejeitam o empobrecimento de milh\u00f5es e a destrui\u00e7\u00e3o da Terra fr\u00e1gil para que alguns fiquem mais ricos.<\/p>\n<p>Esta arraia-mi\u00fada e tamb\u00e9m alguns dos seus l\u00edderes merecem ser aplaudidos. Mas \u00e9 preciso ir mais longe. \u00c9 preciso contestar o direito dos \u201cGlobalizadores\u201d a governar. Para isso \u00e9 necess\u00e1rio repensar a estrat\u00e9gia do protesto. Poderemos mudar para um n\u00edvel superior, desencadeando movimentos de massas nos nossos respectivos pa\u00edses, movimentos que transmitam a mensagem do que a globaliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 a fazer \u00e0s popula\u00e7\u00f5es? Porque s\u00e3o eles a for\u00e7a que tem que ser mobilizada para contestar aqueles que pilham o Globo\u201d. (Michel Chossudovsky, The Quebec Wall, Abril 2001)<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201cfabrico do consenso\u201d foi inicialmente cunhada por Edward S Herman and Noam Chomsky.<\/p>\n<p>O \u201cfabrico do consenso\u201d descreve um modelo de propaganda usado pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o corporativos para manipular a opini\u00e3o p\u00fablica e \u201cinculcar valores e cren\u00e7as nos indiv\u00edduos\u2026\u201d<\/p>\n<p>Os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas servem como um sistema de comunica\u00e7\u00e3o de mensagens e s\u00edmbolos \u00e0 arraia-mi\u00fada. \u00c9 sua fun\u00e7\u00e3o divertir, entreter e informar, e inculcar nos indiv\u00edduos valores, cren\u00e7as e c\u00f3digos de comportamento que os integrar\u00e3o nas estruturas institucionais da sociedade mais ampla. Para cumprir este papel num mundo de riqueza concentrada e de importantes conflitos de interesses de classe, \u00e9 necess\u00e1rio uma propaganda sistem\u00e1tica. (Manufacturing Consent by Edward S. Herman and Noam Chomsky)<\/p>\n<p><em>O \u201cfabrico do consenso\u201d implica a manipula\u00e7\u00e3o e a modela\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica. Institui a conformidade e a aceita\u00e7\u00e3o \u00e0 autoridade e \u00e0 hierarquia social. Procura a obedi\u00eancia a uma ordem social institu\u00edda. O \u201cfabrico do consenso\u201d descreve a submiss\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica \u00e0 narrativa dos meios de comunica\u00e7\u00e3o predominantes, \u00e0s suas mentiras e maquina\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u201cO fabrico da dissid\u00eancia\u201d<\/strong><\/p>\n<p><em>Neste artigo, concentramo-nos num conceito relacionado, ou seja, o processo de \u201cfabrico da dissid\u00eancia\u201d (em vez do \u201cconsenso\u201d) que desempenha um papel decisivo ao servi\u00e7o dos interesses da classe dirigente.<\/em><\/p>\n<p>No capitalismo contempor\u00e2neo, tem que se manter a ilus\u00e3o da democracia. \u00c9 do interesse das elites corporativas aceitar a dissid\u00eancia e o protesto como uma caracter\u00edstica do sistema tanto mais que n\u00e3o amea\u00e7am a ordem social institu\u00edda. O objectivo n\u00e3o \u00e9 reprimir os dissidentes mas, pelo contr\u00e1rio, modelar e moldar o movimento de protesto, estabelecer os limites exteriores da dissid\u00eancia.<\/p>\n<p>Para manter a sua legitimidade, as elites econ\u00f3micas favorecem formas de oposi\u00e7\u00e3o limitadas e controladas, com vista a impedir o desenvolvimento de formas radicais de protesto, que podiam abalar as funda\u00e7\u00f5es e as institui\u00e7\u00f5es do capitalismo global. Por outras palavras, o \u201cfabrico da dissid\u00eancia\u201d funciona como uma \u201cv\u00e1lvula de seguran\u00e7a\u201d que protege e sustenta a Nova Ordem Mundial.<\/p>\n<p>Mas, para ser eficaz, o processo do \u201cfabrico da dissid\u00eancia\u201d tem que ser cuidadosamente regulado e monitorizado por aqueles que s\u00e3o o alvo do movimento de protesto.<\/p>\n<p><strong> \u201cFinanciar a Dissid\u00eancia\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Como \u00e9 que se consegue fabricar a dissid\u00eancia?<\/p>\n<p>Essencialmente, \u201cfinanciando a dissid\u00eancia\u201d, nomeadamente canalizando recursos financeiros daqueles que s\u00e3o o objecto do movimento de protesto para aqueles que est\u00e3o envolvidos na organiza\u00e7\u00e3o do movimento de protesto.<\/p>\n<p>A coopta\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limita a comprar os favores de pol\u00edticos. As elites econ\u00f3micas \u2013 que controlam importantes funda\u00e7\u00f5es \u2013 tamb\u00e9m fiscalizam o financiamento de in\u00fameras Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o Governamentais (ONGs) e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, que historicamente t\u00eam estado envolvidas no movimento de protesto contra a ordem econ\u00f3mica e social institu\u00edda. Os programas de muitas ONGs e movimentos populares dependem fortemente de financiamentos de organismos p\u00fablicos ou privados, incluindo as funda\u00e7\u00f5es Ford, Rockefeller, McCarthy, entre outras.<\/p>\n<p>O movimento anti-globaliza\u00e7\u00e3o op\u00f5e-se a Wall Street e aos gigantes petrol\u00edferos do Texas controlados por Rockefeller e outros. Mas as funda\u00e7\u00f5es e os organismos caritativos de Rockefeller e outros financiam generosamente redes progressistas anti-capitalistas assim como os ambientalistas (que se op\u00f5em ao Grande Petr\u00f3leo) com vista a vir a fiscalizar e a modelar as suas diversas actividades.<\/p>\n<p>Os mecanismos do \u201cfabrico da dissid\u00eancia\u201d exigem um ambiente manipulador, um processo de bra\u00e7o de ferro e uma subtil coopta\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos do interior de organiza\u00e7\u00f5es progressistas, incluindo coliga\u00e7\u00f5es anti-guerra, ambientalistas e o movimento anti-globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto que os meios de comunica\u00e7\u00e3o \u201cfabricam o consenso\u201d, as elites corporativas utilizam a complexa rede de ONGs (incluindo segmentos dos meios de comunica\u00e7\u00e3o alternativos) para moldar e manipular o movimento de protesto.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia da desregulamenta\u00e7\u00e3o do sistema financeiro global nos anos 90 e do r\u00e1pido enriquecimento da institui\u00e7\u00e3o financeira, o financiamento atrav\u00e9s de funda\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es caritativas disparou. Ironicamente, parte dos ganhos financeiros fraudulentos de Wall Street nos \u00faltimos anos foram reciclados para funda\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es caritativas livres de impostos das elites. Estes ganhos financeiros inesperados n\u00e3o s\u00f3 foram usados para comprar pol\u00edticos, como tamb\u00e9m foram canalizados para ONGs, institutos de investiga\u00e7\u00e3o, centros comunit\u00e1rios, igrejas, ambientalistas, meios de comunica\u00e7\u00e3o alternativos, grupos de direitos humanos, etc. O \u201cfabrico da dissid\u00eancia\u201d tamb\u00e9m se aplica \u00e0 \u201cesquerda corporativa\u201d e aos \u201cmeios de comunica\u00e7\u00e3o progressistas\u201d financiados por ONGs ou directamente pelas funda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O objectivo encoberto \u00e9 \u201cfabricar a dissid\u00eancia\u201d e estabelecer as fronteiras duma oposi\u00e7\u00e3o \u201cpoliticamente correcta\u201d. Por sua vez, muitas ONGs s\u00e3o infiltradas por informadores que actuam frequentemente por conta dos organismos de informa\u00e7\u00f5es ocidentais. Al\u00e9m disso, um segmento cada vez maior dos meios noticiosos progressistas alternativos na internet passou a ficar dependente do financiamento de funda\u00e7\u00f5es corporativas e de organiza\u00e7\u00f5es caritativas.<\/p>\n<p><strong>Activismo Fragmentado<\/strong><\/p>\n<p>O objectivo das elites corporativas tem sido fragmentar o movimento popular num enorme mosaico \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d. A guerra e a globaliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o na linha da frente do activismo da sociedade civil. O activismo tem tend\u00eancia para se fragmentar. N\u00e3o h\u00e1 um movimento anti-guerra e anti-globaliza\u00e7\u00e3o integrado. A crise econ\u00f3mica n\u00e3o est\u00e1 a ser vista como tendo uma rela\u00e7\u00e3o com a guerra liderada pelos EU.<\/p>\n<p>A dissid\u00eancia foi compartimentalizada. S\u00e3o encorajados e generosamente financiados movimentos de protesto separados \u201corientados por assuntos\u201d (por ex. ambiente, antiglobaliza\u00e7\u00e3o, paz, direitos das mulheres, altera\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica), em oposi\u00e7\u00e3o a um movimento de massas coeso. Este mosaico j\u00e1 era prevalecente na manifesta\u00e7\u00e3o contra as cimeiras G7 e nas Cimeiras Populares dos anos 90.<\/p>\n<p><strong>O Movimento Anti-Globaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A contra cimeira Seattle 1999 \u00e9 invariavelmente considerada como um triunfo para o movimento anti-globaliza\u00e7\u00e3o: \u201cuma coliga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de activistas fez encerrar a cimeira da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio em Seattle, a fa\u00edsca que incendiou um movimento global anti-empresas\u201d. (Ver Naomi Klein, Copenhagen: Seattle Grows Up, The Nation, 13 de Novembro, 2009).<\/p>\n<p>Seattle foi de facto um marco importante na hist\u00f3ria do movimento de massas. Mais de 50 000 pessoas de diversas origens, organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, dos direitos humanos, sindicatos de trabalhadores, ambientalistas juntaram-se com um objectivo comum. O seu objectivo era desmantelar \u00e0 for\u00e7a a agenda neoliberal incluindo a sua base institucional.<\/p>\n<p>Mas Seattle \u00e9 tamb\u00e9m um marco de uma viragem importante. Com a escalada da dissid\u00eancia por parte de todos os sectores da sociedade, a Cimeira oficial da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC) precisava desesperadamente da participa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica dos l\u00edderes da sociedade civil \u201cpor dentro\u201d, para dar exteriormente o aspecto de ser \u201cdemocr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>Embora tenham convergido milhares de pessoas a Seattle, o que se passou nos bastidores foi na verdade uma vit\u00f3ria para o neoliberalismo. Um punhado de organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, formalmente opostas \u00e0 OMC contribuiu para legitimar a arquitectura comercial global da OMC. Em vez de contestar a OMC como um \u00f3rg\u00e3o intergovernamental ilegal, aceitaram um di\u00e1logo pr\u00e9-cimeira com a OMC e os governos ocidentais. \u201cParticipantes acreditados das ONG foram convidados a participar num ambiente amistoso com embaixadores, ministros do com\u00e9rcio e magnatas de Wall Street em v\u00e1rios dos eventos oficiais, incluindo os numerosos cocktails e recep\u00e7\u00f5es\u201d. (Michel Chossudovsky, Seattle and Beyond: Disarming the New World Order , Covert Action Quarterly, Novembro 1999, Ver Ten Years Ago: \u201cManufacturing Dissent\u201d in Seattle).<\/p>\n<p>A agenda oculta era enfraquecer e dividir os movimentos de protesto e orientar o movimento anti-globaliza\u00e7\u00e3o para \u00e1reas que n\u00e3o amea\u00e7assem directamente os interesses da institui\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Financiado por funda\u00e7\u00f5es privadas (incluindo a Ford, a Rockefeller, a Rockefeller Brothers, a Charles Stewart Mott, The Foundation for Deep Ecology), estas organiza\u00e7\u00f5es \u201cacreditadas\u201d da sociedade civil passaram a funcionar como grupos de press\u00e3o, agindo formalmente em nome do movimento popular. Lideradas por activistas conhecidos e empenhados, tinham as m\u00e3os atadas. Acabaram por contribuir (involuntariamente) para enfraquecer o movimento anti-globaliza\u00e7\u00e3o ao aceitarem a legitimidade do que era essencialmente uma organiza\u00e7\u00e3o ilegal, (o acordo da Cimeira de Marraquexe de 1994 que levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da OMC em 1 de Janeiro de 1995). (ibid).<\/p>\n<p>Os l\u00edderes das Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o Governamentais (ONGs) tinham plena consci\u00eancia de onde \u00e9 que vinha o dinheiro. No entanto, na comunidade das ONGs americanas e europeias, as funda\u00e7\u00f5es e as organiza\u00e7\u00f5es caritativas s\u00e3o consideradas como \u00f3rg\u00e3os filantr\u00f3picos independentes, separados das corpora\u00e7\u00f5es; nomeadamente a Funda\u00e7\u00e3o Rockefeller Brothers, por exemplo, \u00e9 considerada como separada e distinta do imp\u00e9rio de bancos e empresas petrol\u00edferas da fam\u00edlia Rockefeller.<\/p>\n<p>Com os sal\u00e1rios e as despesas operacionais dependentes de funda\u00e7\u00f5es privadas, isso tornou-se uma rotina aceite: numa l\u00f3gica distorcida, a batalha contra o capitalismo corporativo iria ser travada usando os fundos das funda\u00e7\u00f5es isentas de impostos, propriedade do capitalismo corporativo.<\/p>\n<p>As ONGs foram metidas numa camisa-de-for\u00e7as; a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia dependia das funda\u00e7\u00f5es. As suas actividades eram monitorizadas de perto. Numa l\u00f3gica distorcida, a pr\u00f3pria natureza do activismo anti-capitalista era controlada indirectamente pelos capitalistas atrav\u00e9s das suas funda\u00e7\u00f5es independentes.<\/p>\n<p><strong>\u201cC\u00e3es de Guarda Progressistas\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Nesta saga em evolu\u00e7\u00e3o, as elites corporativas, cujos interesses s\u00e3o defendidos inexoravelmente pelo FMI, pelo Banco Mundial e pela OMC, financiam de boa vontade (atrav\u00e9s das suas diversas funda\u00e7\u00f5es e obras caritativas) organiza\u00e7\u00f5es que est\u00e3o na vanguarda do movimento de protesto contra a OMC e as institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais com sede em Washington.<\/p>\n<p>Sustentados pelo dinheiro das funda\u00e7\u00f5es, foram colocados diversos \u201cc\u00e3es de guarda\u201d nas ONGs para fiscalizar a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas neoliberais, sem no entanto colocar a quest\u00e3o mais ampla de como \u00e9 que os g\u00e9meos Bretton Woods e a OMC, atrav\u00e9s das suas pol\u00edticas, tinham contribu\u00eddo para o empobrecimento de milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>A SAPRIN, Structural Adjustment Participatory Review Network, foi fundada pelo Development Gap, uma USAID (Ag\u00eancia Americana para o Desenvolvimento Internacional) e o Banco Mundial financiou a ONG com sede em Washington DC.<\/p>\n<p>Amplamente documentada, a imposi\u00e7\u00e3o do Programa de Ajustamento Estrutural FMI-Banco Mundial (SAP) aos pa\u00edses em desenvolvimento constitui uma forma escandalosa de interfer\u00eancia nos assuntos internos de estados soberanos em nome de institui\u00e7\u00f5es credoras.<\/p>\n<p>Em vez de contestar a legitimidade da \u201cmedicina econ\u00f3mica letal\u201d do FMI-Banco Mundial, a organiza\u00e7\u00e3o central da SAPRIN procurou estabelecer um papel participativo para as ONGs, de bra\u00e7o dado com a USAID e o Banco Mundial. O objectivo era dar um \u201crosto humano\u201d \u00e0 agenda pol\u00edtica neoliberal, em vez de rejeitar liminarmente o enquadramento pol\u00edtico do FMI-Banco Mundial:<\/p>\n<p>\u201cA SAPRIN \u00e9 a rede global da sociedade civil que foi buscar o seu nome \u00e0 Structural Adjustment Participatory Review Initiative (SAPRI), que foi lan\u00e7ada com o Banco Mundial e o seu presidente, Jim Wolfensohn, em 1997.<\/p>\n<p>A SAPRI destina-se a um exerc\u00edcio tripartido para reunir organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, os seus governos e o Banco Mundial numa an\u00e1lise conjunta de programas de ajustamento estrutural (SAPs) e na explora\u00e7\u00e3o de novas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Est\u00e1 a legitimar um papel activo para a sociedade civil na tomada de decis\u00f5es econ\u00f3micas, j\u00e1 que lhe compete indicar \u00e1reas em que s\u00e3o necess\u00e1rias mudan\u00e7as na pol\u00edtica econ\u00f3mica e no processo de implementar pol\u00edticas econ\u00f3micas. (<a href=\"http:\/\/www.saprin.org\/overview.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.saprin.org\/overview.htm<\/a> website da SAPRIN).<\/p>\n<p>Do mesmo modo, o Observat\u00f3rio do Com\u00e9rcio (anteriormente WTO Watch), que opera a partir de Genebra, \u00e9 um projecto do Instituto para a Pol\u00edtica de Agricultura e Com\u00e9rcio (IATP), com base em Minneapolis, que \u00e9 generosamente financiado pela Ford, Rockefeller, Charles Stewart Mott, entre outros (ver Quadro 1 abaixo).<\/p>\n<p>O Observat\u00f3rio do Com\u00e9rcio tem por fun\u00e7\u00e3o fiscalizar a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC), o Acordo de Com\u00e9rcio Livre Norte-americano (NAFTA) e a proposta \u00c1rea de Com\u00e9rcio Livre das Am\u00e9ricas (FTAA). (IATP, About Trade Observatory, Setembro 2010).<\/p>\n<p>O Observat\u00f3rio do Com\u00e9rcio tamb\u00e9m pretende melhorar dados e informa\u00e7\u00f5es assim como estimular a \u201cgoverna\u00e7\u00e3o\u201d e a \u201cresponsabilidade\u201d. Responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas das pol\u00edticas da OMC ou responsabilidade para com os protagonistas das reformas neoliberais?<\/p>\n<p>As fun\u00e7\u00f5es de c\u00e3o de guarda do Observat\u00f3rio do Com\u00e9rcio n\u00e3o amea\u00e7am de modo algum a OMC. Muito pelo contr\u00e1rio: a legitimidade das organiza\u00e7\u00f5es e dos acordos comerciais nunca s\u00e3o postas em causa.<\/p>\n<p><strong>Quadro 1 \u2013 Principais doadores ao Instituto para a Pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p><strong>Agr\u00edcola e Comercial Minneapolis (IATP)<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/michel-chossudvsky-table\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p><strong>O F\u00f3rum Econ\u00f3mico Mundial. \u201cTodos os Caminhos V\u00e3o Dar a Davos\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O movimento popular foi assaltado. Intelectuais escolhidos, executivos sindicais, e l\u00edderes das organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil (incluindo a Oxfam, a Amnistia Internacional, o Greenpeace) s\u00e3o sistematicamente convidados para o F\u00f3rum Mundial Econ\u00f3mico FME de Davos, onde se misturam com os actores econ\u00f3micos e pol\u00edticos mais poderosos do Mundo. Esta mistura de elites corporativas do mundo com \u201cprogressistas\u201d escolhidos a dedo faz parte do ritual subjacente ao processo de \u201cfabrico da dissid\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>A t\u00e1ctica \u00e9 escolher a dedo selectivamente l\u00edderes da sociedade civil \u201cem quem podemos confiar\u201d e integr\u00e1-los num \u201cdi\u00e1logo\u201d, isol\u00e1-los das suas bases, fazer com que eles se sintam \u201ccidad\u00e3os globais\u201d a agir no interesse dos trabalhadores seus colegas mas fazer com que eles ajam de modo a servir os interesses da institui\u00e7\u00e3o corporativa:<\/p>\n<p>\u201cA participa\u00e7\u00e3o de ONGs no Encontro Anual em Davos \u00e9 uma prova de que procuramos intencionalmente integrar um largo espectro dos principais participantes na sociedade para\u2026 definir e impulsionar a agenda global\u2026 Acreditamos que o F\u00f3rum Mundial Econ\u00f3mico [de Davos] proporciona \u00e0 comunidade dos neg\u00f3cios o enquadramento ideal para se empenhar num esfor\u00e7o colaborativo com os outros participantes principais [as ONGs] da economia global para \u201cmelhorar o estado do mundo\u201d, que \u00e9 a miss\u00e3o do F\u00f3rum. (F\u00f3rum Mundial Econ\u00f3mico, Comunicado \u00e0 Imprensa 5 Janeiro 2001)<\/p>\n<p>O FME n\u00e3o representa a comunidade de neg\u00f3cios mais ampla. \u00c9 um grupo elitista: Os seus membros s\u00e3o gigantescas corpora\u00e7\u00f5es globais (com um m\u00ednimo de 5 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares de volume de neg\u00f3cios anual). As organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais (ONGs) seleccionadas s\u00e3o consideradas como \u201cparticipantes\u201d parceiros assim como um conveniente \u201cporta-voz para os que n\u00e3o t\u00eam express\u00e3o que ficam quase sempre fora dos processos de tomada de decis\u00f5es\u201d. (World Economic Forum &#8211; Non-Governmental Organizations, 2010)<\/p>\n<p>\u201c[As ONGs] desempenham uma s\u00e9rie de pap\u00e9is na parceria com o F\u00f3rum para melhorar o estado do mundo, incluindo servir de ponte entre os neg\u00f3cios, o governo e a sociedade civil, ligando os pol\u00edticos \u00e0s bases, pondo solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas em cima da mesa\u2026\u201d (ibid).<\/p>\n<p>Uma \u201cparceria\u201d da sociedade civil com corpora\u00e7\u00f5es globais em nome dos \u201cque n\u00e3o t\u00eam voz\u201d, que s\u00e3o \u201cdeixados de fora\u201d?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m s\u00e3o cooptados executivos sindicais com preju\u00edzo para os direitos dos trabalhadores. Os l\u00edderes da Federa\u00e7\u00e3o Internacional dos Sindicatos (IFTU), da AFL-CIO, da Confedera\u00e7\u00e3o dos Sindicatos Europeus, do Congresso do Trabalho Canadiano (CLC), entre outros, s\u00e3o sistematicamente convidados para assistir tanto \u00e0s reuni\u00f5es anuais do FME em Davos, na Su\u00ed\u00e7a, como \u00e0s cimeiras regionais. Tamb\u00e9m participam na Comunidade de L\u00edderes Trabalhistas do FME que se concentra em padr\u00f5es mutuamente aceit\u00e1veis de comportamento para o movimento dos trabalhadores. O FME \u201cacredita que a voz do Trabalho \u00e9 importante para um di\u00e1logo din\u00e2mico sobre as quest\u00f5es da globaliza\u00e7\u00e3o, da justi\u00e7a econ\u00f3mica, da transpar\u00eancia e responsabilidade, e garante um sistema financeiro global saud\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>\u201cGarante um sistema financeiro global saud\u00e1vel\u201d eivado de fraudes e corrup\u00e7\u00e3o? A quest\u00e3o dos direitos dos trabalhadores nem sequer \u00e9 referida. (World Economic Forum &#8211; Labour Leaders, 2010).<\/p>\n<p><strong>O F\u00f3rum Social Mundial: \u201c\u00c9 Poss\u00edvel Outro Mundo\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Em muitos aspectos a contra cimeira de Seattle 1999 estabeleceu os alicerces para o desenvolvimento do F\u00f3rum Social Mundial.<\/p>\n<p>A primeira reuni\u00e3o do F\u00f3rum Social Mundial (FSM) realizou-se em Janeiro de 2001, em Porto Alegre, Brasil. Esta reuni\u00e3o internacional envolveu a participa\u00e7\u00e3o de dezenas de milhares de activistas de organiza\u00e7\u00f5es de bases de e de ONGs.<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o do FSM de ONGs e organiza\u00e7\u00f5es progressistas realiza-se em simult\u00e2neo com o F\u00f3rum Econ\u00f3mico Mundial (FEM) de Davos. Destinava-se a dar voz \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o e \u00e0 dissid\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao F\u00f3rum Econ\u00f3mico Mundial de l\u00edderes corporativos e de ministros das finan\u00e7as.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, o FSM foi uma iniciativa da ATTAC de Fran\u00e7a e de v\u00e1rias ONGs brasileiras:<\/p>\n<p>\u201c\u2026 Em Fevereiro de 2000, Bernard Cassen, chefe duma ONG francesa, a plataforma ATTAC, Oded Grajew, chefe duma organiza\u00e7\u00e3o de empregadores brasileiros, e Francisco Whitaker, chefe duma associa\u00e7\u00e3o de ONGs brasileiras, reuniram-se para discutir uma proposta para um \u201cevento mundial da sociedade civil\u201d; em Mar\u00e7o de 2000, asseguraram formalmente o apoio do governo municipal de Porto Alegre e do governo estatal de Rio Grande do Sul, ambos controlados na \u00e9poca pelo Partido dos Trabalhadores Brasileiros (PT)\u2026 Um grupo de ONGs francesas, incluindo a ATTAC, os Amigos do L\u2019Humanit\u00e9 e os Amigos do <em>Le Monde Diplomatique<\/em>, patrocinaram um F\u00f3rum Social Alternativo em Paris intitulado \u201cUm Ano Ap\u00f3s Seattle\u201d, a fim de preparar uma agenda para os protestos a ser encenados na cimeira da Uni\u00e3o Europeia em Nice, que se aproximava. Os oradores apelaram \u00e0 \u201creorienta\u00e7\u00e3o de certas institui\u00e7\u00f5es internacionais tais como o FMI, o Banco Mundial, a OMC\u2026 a fim de criar uma globaliza\u00e7\u00e3o a partir de baixo\u201d e \u00e0 \u201cimplementa\u00e7\u00e3o de um movimento internacional de cidad\u00e3os, n\u00e3o para destruir o FMI, mas para reorientar as suas miss\u00f5es\u201d. (Research Unit For Political Economy, The Economics and Politics of the World Social Forum, Global Research, 20 de Janeiro, 2004)<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio em 2001, o FSM foi sustentado por um financiamento substancial da Funda\u00e7\u00e3o Ford, que, como se sabe, tem liga\u00e7\u00f5es com a CIA que remontam aos anos 50: \u201cA CIA usa funda\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas como a via mais eficaz para canalizar grandes somas de dinheiro para projectos da Ag\u00eancia sem avisar os recebedores quanto \u00e0 sua origem\u201d. (James Petras, The Ford Foundation and the CIA, Global Research, 18 de Setembro, 2002)<\/p>\n<p>O mesmo procedimento de contra-cimeiras ou cimeiras populares com fundos doados, que caracterizou as Cimeiras Populares dos anos 90, foi utilizado no F\u00f3rum Social Mundial:<\/p>\n<p>\u201c\u2026 outros fundadores do FSM (ou \u2018parceiros\u2019, conforme s\u00e3o designados na terminologia do FSM) inclu\u00edam a Funda\u00e7\u00e3o Ford \u2013 basta dizer aqui que esta sempre funcionou na mais estreita colabora\u00e7\u00e3o com a CIA e com os interesses estrat\u00e9gicos em geral dos EU; a Funda\u00e7\u00e3o Heinrich Boll Foundation, que \u00e9 controlada pelo partido alem\u00e3o Os Verdes, um parceiro no actual [2003] governo alem\u00e3o e apoiante das guerras na Jugosl\u00e1via e no Afeganist\u00e3o (o seu l\u00edder Joschka Fischer \u00e9 o [antigo] ministro alem\u00e3o dos neg\u00f3cios estrangeiros); e importantes organismos financiadores como o Oxfam (Reino Unido), o Novib (Holanda), o ActionAid (EU), etc.<\/p>\n<p>Curiosamente, um membro do Conselho Internacional do FSM relata que os \u201cfundos consider\u00e1veis\u201d recebidos desses organismos n\u00e3o tivera \u201cat\u00e9 agora motivado quaisquer debates significativos [nos \u00f3rg\u00e3os do FSM] sobre as poss\u00edveis rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia que poderiam gerar\u201d. Mas reconhece que \u201cpara receber fundos da Funda\u00e7\u00e3o Ford, os organizadores tiveram que convencer a funda\u00e7\u00e3o de que o Partido dos Trabalhadores n\u00e3o estava envolvido no processo\u201d. H\u00e1 aqui dois pontos dignos de registo. Primeiro, isto demonstra que os financiadores puderam medir as for\u00e7as e determinar o papel das diferentes for\u00e7as no FSM \u2013 tiveram que ser \u201cconvencidos\u201d das credenciais daqueles que estariam envolvidos. Segundo, se os financiadores objectaram \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do cuidadosamente domesticado Partido dos Trabalhadores, teriam objectado ainda com mais determina\u00e7\u00e3o se fosse dado relevo a for\u00e7as genuinamente anti-imperialistas. Que eles fizeram essas objec\u00e7\u00f5es tornar-se-\u00e1 claro quando descrevermos quem foi inclu\u00eddo e quem foi exclu\u00eddo da segunda e da terceira reuni\u00f5es do FSM\u2026<\/p>\n<p>\u2026 A quest\u00e3o do financiamento [do FSM] nem sequer figura na carta de princ\u00edpios do FSM, aprovada em Junho de 2001. Os marxistas, que s\u00e3o materialistas, fariam notar que se deve analisar a base material do f\u00f3rum para apanhar a sua natureza. (Claro que n\u00e3o \u00e9 preciso ser-se marxista para compreender que \u201cquem paga a despesa \u00e9 quem manda\u201d). Mas o FSM n\u00e3o est\u00e1 de acordo. Pode aceitar fundos de institui\u00e7\u00f5es imperialistas como a Funda\u00e7\u00e3o Ford, e ao mesmo tempo lutar contra o \u201cdom\u00ednio do mundo pelo capital e qualquer outra forma de imperialismo\u201d. (Research Unit For Political Economy, The Economics and Politics of the World Social Forum, Global Research, 20 de Janeiro, 2004)<\/p>\n<p>A Funda\u00e7\u00e3o Ford forneceu apoio fundamental ao FSM, com contribui\u00e7\u00f5es indirectas para participar em \u201corganiza\u00e7\u00f5es parceiras\u201d da Funda\u00e7\u00e3o McArthur, da Funda\u00e7\u00e3o Charles Stewart Mott, de The Friedrich Ebert Stiftung, da Funda\u00e7\u00e3o W. Alton Jones, da Comiss\u00e3o Europeia, de diversos governos europeus (incluindo o governo trabalhista de Tony Blair), do governo canadiano, assim como de uma s\u00e9rie de \u00f3rg\u00e3os das NU (incluindo a UNESCO, a UNICEF, a UNDP, a ILO e a FAO). (Iibid.)<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do apoio fundamental inicial da Funda\u00e7\u00e3o Ford, muitas das organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil participantes recebem fundos de importantes funda\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es caritativas. Por seu lado, as ONGs com sede nos EU e na Europa operam frequentemente como organismos de financiamento secund\u00e1rio, canalizando dinheiro Ford e Rockefeller para organiza\u00e7\u00f5es parceiras em pa\u00edses em desenvolvimento, incluindo movimentos de base de camponeses e de direitos humanos.<\/p>\n<p>O Conselho Internacional (CI) do FSM \u00e9 composto por representantes das ONGs, sindicatos, organiza\u00e7\u00f5es de meios de comunica\u00e7\u00e3o alternativos, institutos de investiga\u00e7\u00e3o, muitos dos quais s\u00e3o fortemente financiados por funda\u00e7\u00f5es assim como por governos. (Ver F\u00f3rum Social Mundial). Os mesmos sindicatos, que s\u00e3o rotineiramente convidados para se misturarem com directores de Wall Street no F\u00f3rum Econ\u00f3mico Mundial de Davos, incluindo a AFL-CIO, a Confedera\u00e7\u00e3o Europeia de Sindicatos e o Congresso do Trabalho Canadiano tamb\u00e9m se sentam no Conselho Internacional do F\u00f3rum Social Mundial. Entre as ONGs financiadas pelas principais funda\u00e7\u00f5es que t\u00eam assento no Conselho Internacional do FSM encontra-se o Instituto para a Politica de Agricultura e Com\u00e9rcio (ver a nossa an\u00e1lise mais acima) que fiscaliza o Observat\u00f3rio do Com\u00e9rcio com sede em Genebra.<\/p>\n<p>A Rede de Financiadores para o Com\u00e9rcio e Globaliza\u00e7\u00e3o (FTNG), que tem o estatuto de observador no Conselho Internacional do FSM desempenha um papel chave. Enquanto canaliza apoio financeiro para o FSM, actua como uma c\u00e2mara de compensa\u00e7\u00e3o para importantes funda\u00e7\u00f5es. A FTNG descreve-se a si mesma como \u201cuma alian\u00e7a de doadores empenhados na constru\u00e7\u00e3o de comunidades justas e sustentadas em todo o mundo\u201d. Alguns membros desta alian\u00e7a s\u00e3o a Funda\u00e7\u00e3o Ford, a Rockefeller Brothers, Heinrich Boell, C. S. Mott, a Funda\u00e7\u00e3o da Fam\u00edlia Merck, Open Society Institute, Tides, entre outros. (Para uma lista completa dos organismos financiadores da FTNG ver FNTG: Funders). A FTNG actua como uma entidade angariadora de fundos por conta do FSM.<\/p>\n<p><strong>Governos Ocidentais Financiam as Contra-Cimeiras e Reprimem o Movimento de Protesto<\/strong><\/p>\n<p>Ironicamente, governos que fazem parte da Uni\u00e3o Europeia atribuem dinheiro para financiar grupos progressistas (incluindo o F\u00f3rum Social Mundial) envolvidos na organiza\u00e7\u00e3o de protestos contra esses mesmos governos que financiam as suas actividades:<\/p>\n<p>\u201cTamb\u00e9m os governos t\u00eam sido financiadores significativos de grupos de protesto. A Comiss\u00e3o Europeia, por exemplo, financiou dois grupos que mobilizaram grande n\u00famero de pessoas para protestar nas cimeiras da UE em Gotenburgo e Nice. A lotaria nacional da Gr\u00e3-Bretanha, que \u00e9 fiscalizada pelo governo, ajudou a financiar um grupo no centro do contingente brit\u00e2nico em ambos os protestos\u201d. (James Harding, Counter-capitalism, FT.com, 15 de Outubro 2001)<\/p>\n<p>Trata-se de um processo diab\u00f3lico: O governo anfitri\u00e3o financia a cimeira oficial assim como as ONGs activamente envolvidas na Contra-Cimeira. Tamb\u00e9m financia a opera\u00e7\u00e3o policial anti-motins que tem como miss\u00e3o reprimir os participantes de base da Contra-Cimeira, incluindo membros de ONGs financiadas directamente pelo governo.<\/p>\n<p>O objectivo destas opera\u00e7\u00f5es combinadas, incluindo ac\u00e7\u00f5es violentas de vandalismo perpetradas por pol\u00edcias \u00e0 paisana (Toronto G20, 2010) disfar\u00e7ados em activistas, \u00e9 desacreditar o movimento de protesto e intimidar os seus participantes. O objectivo mais amplo \u00e9 transformar a contra-cimeira num ritual de dissid\u00eancia, que serve para patrocinar os interesses da cimeira oficial e o governo anfitri\u00e3o. Esta l\u00f3gica tem funcionado em numerosas contra cimeiras desde os anos 90.<\/p>\n<p>Na Cimeira da Am\u00e9rica em Quebeque em 2001, o governo federal canadiano concedeu financiamentos a ONGs e a sindicatos mais importantes mediante certas condi\u00e7\u00f5es. Um grande segmento do movimento de protesto acabou por ficar exclu\u00eddo da Cimeira Popular. Isso deu origem a uma segunda reuni\u00e3o paralela, que alguns observadores descreveram como \u201ccontra a Cimeira Popular\u201d. As autoridades provinciais e federais exigiram que a marcha de protesto seguisse para um local a uma dist\u00e2ncia de 10 km da cidade, em vez de seguirem na direc\u00e7\u00e3o da \u00e1rea do centro hist\u00f3rico onde se estava a realizar a cimeira FTAA por detr\u00e1s dum \u201cper\u00edmetro de seguran\u00e7a\u201d fortemente guardado\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEm vez de avan\u00e7ar para a veda\u00e7\u00e3o do per\u00edmetro e para o local das reuni\u00f5es da Cimeira das Am\u00e9ricas, os organizadores do desfile escolheram um percurso que se afastava da Cimeira Popular, passando por \u00e1reas residenciais quase vazias at\u00e9 ao parque de estacionamento de um est\u00e1dio numa \u00e1rea isolada a alguns quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia. Henri Masse, o presidente da Federa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e trabalhadoras de Quebeque (FTQ) explicou, \u201cLamento estarmos t\u00e3o longe do centro da cidade\u2026 Mas foi por uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a\u201d. Um milhar de seguran\u00e7as da FTQ mantiveram um controlo muito apertado sobre o desfile. Quando o desfile chegou ao ponto em que alguns activistas pretenderam dividir-se e subir a colina at\u00e9 \u00e0 veda\u00e7\u00e3o, os seguran\u00e7as da FTQ fizeram sinal ao contingente dos Trabalhadores Canadianos de Autom\u00f3veis (CAW) que caminhavam atr\u00e1s do CUPE para se sentarem e fazerem parar o desfile, a fim de os seguran\u00e7as da FTQ poderem formar um cord\u00e3o e impedir que houvesse quem sa\u00edsse do percurso oficial do desfile\u201d. (Katherine Dwyer, Lessons of Quebec City, International Socialist Review, Junho\/Julho 2001)<\/p>\n<p>A Cimeira das Am\u00e9ricas efectuou-se no interior de um \u201cbunker\u201d de quatro quil\u00f3metros, feito com uma veda\u00e7\u00e3o de bet\u00e3o e de a\u00e7o galvanizado. A parte cercada do centro hist\u00f3rico da cidade, o \u201cMuro de Quebeque\u201d de 3 metros de altura, inclu\u00eda o complexo parlamentar da Assembleia Nacional, hoteis e \u00e1reas comerciais.<\/p>\n<p><strong>L\u00edderes de ONG versus suas Bases<\/strong><\/p>\n<p>A institui\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum Social Mundial em 2001 foi sem d\u00favida um marco hist\u00f3rico, reunindo dezenas de milhares de activistas empenhados. Foi um acontecimento importante que permitiu a troca de ideias e o estabelecimento de la\u00e7os de solidariedade.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em causa \u00e9 o papel ambivalente dos l\u00edderes das organiza\u00e7\u00f5es progressistas. A sua rela\u00e7\u00e3o estreita e bem-educada com os c\u00edrculos internos do poder, com os financiamentos corporativos e governamentais, organismos de apoio, Banco Mundial, etc. corr\u00f3i a sua rela\u00e7\u00e3o e responsabilidades com as suas bases. O objectivo da dissid\u00eancia fabricada \u00e9 precisamente esse: distanciar os l\u00edderes das suas bases como um meio de silenciar e enfraquecer eficazmente as ac\u00e7\u00f5es das bases.<\/p>\n<p>Financiar a dissid\u00eancia \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de infiltra\u00e7\u00e3o nas ONGs, assim como de adquirir informa\u00e7\u00f5es por dentro sobre estrat\u00e9gias de protesto e resist\u00eancia dos movimentos de base.<\/p>\n<p>A maior parte das organiza\u00e7\u00f5es de base que participam no F\u00f3rum Social Mundial, incluindo organiza\u00e7\u00f5es camponesas, de trabalhadores e de estudantes, firmemente empenhadas em combater o neoliberalismo n\u00e3o tinham conhecimento da rela\u00e7\u00e3o do Conselho Internacional do F\u00f3rum Social Mundial com o financiamento corporativo, negociado nas suas costas por um punhado de l\u00edderes de ONGs com liga\u00e7\u00f5es a organismos de financiamento oficiais e privados.<\/p>\n<p>O financiamento a organiza\u00e7\u00f5es progressistas n\u00e3o se faz sem condi\u00e7\u00f5es. O seu objectivo \u00e9 \u201cpacificar\u201d e manipular o movimento de protesto. Os organismos financiadores estabelecem condicionalismos minuciosos. Se n\u00e3o forem cumpridos, cessam os pagamentos e a ONG recebedora vai \u00e0 fal\u00eancia por falta de fundos.<\/p>\n<p>O F\u00f3rum Social Mundial define-se como \u201cum local de encontro aberto para pensamento reflectivo, debate de ideias democr\u00e1tico, formula\u00e7\u00e3o de propostas, livre troca de experi\u00eancias e inter-liga\u00e7\u00e3o para ac\u00e7\u00e3o eficaz, de grupos e movimentos da sociedade civil que se op\u00f5em ao neoliberalismo e ao dom\u00ednio do mundo pelo capital e qualquer forma de imperialismo e est\u00e3o empenhados na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade centrada na pessoa humana\u201d. (Ver F\u00f3rum Social Mundial, 2010).<\/p>\n<p>O F\u00f3rum Social Mundial \u00e9 um mosaico de iniciativas individuais que n\u00e3o amea\u00e7a directamente nem contesta a legitimidade do capitalismo global e das suas institui\u00e7\u00f5es. Re\u00fane-se anualmente. Caracteriza-se por uma imensidade de sess\u00f5es e de grupos de trabalho. Quanto a este aspecto, uma das caracter\u00edsticas do F\u00f3rum Social Mundial era manter o enquadramento \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d, caracter\u00edstico<\/p>\n<p>Esta estrutura aparentemente desorganizada \u00e9 propositada. Embora favore\u00e7a o debate sobre uma s\u00e9rie de t\u00f3picos individuais, a moldura do FSM n\u00e3o conduz a uma articula\u00e7\u00e3o duma plataforma comum coesiva e dum plano de ac\u00e7\u00e3o dirigido contra o capitalismo global. Al\u00e9m disso, a guerra liderada pelos EU no M\u00e9dio Oriente e na \u00c1sia Central, que rebentou poucos meses depois da reuni\u00e3o inaugural do FSM em Porto Alegre em Janeiro de 2001, nunca foi uma quest\u00e3o central nas discuss\u00f5es do f\u00f3rum.<\/p>\n<p>O que prevalece \u00e9 uma vasta e intrincada rede de organiza\u00e7\u00f5es. As organiza\u00e7\u00f5es de base recebedoras dos pa\u00edses em desenvolvimento est\u00e3o normalmente inconscientes de que as suas ONGs parceiras nos Estados Unidos ou na Uni\u00e3o Europeia, que lhes est\u00e3o a fornecer o apoio financeiro, est\u00e3o elas pr\u00f3prias a ser financiadas por importantes funda\u00e7\u00f5es. O dinheiro escorre, impondo constrangimentos \u00e0s ac\u00e7\u00f5es das bases. Muitos destes l\u00edderes de ONGs est\u00e3o empenhados e s\u00e3o indiv\u00edduos bem intencionados que agem num enquadramento que estabelece os limites da dissid\u00eancia. Os l\u00edderes destes movimentos s\u00e3o frequentemente cooptados, sem sequer perceber que, em consequ\u00eancia do financiamento corporativo, ficam com as m\u00e3os atadas.<\/p>\n<p><strong>O capitalismo global financia o anti-capitalismo: uma rela\u00e7\u00e3o absurda e contradit\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>\u201c\u00c9 Poss\u00edvel um Outro Mundo\u201d, mas este n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ado de forma significativa com a actual situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso um aban\u00e3o no F\u00f3rum Social Mundial, na sua estrutura organizativa, nos seus financiamentos e na sua lideran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o pode haver um movimento de massas significativo quando a dissid\u00eancia \u00e9 t\u00e3o generosamente financiada pelos mesmos interesses corporativos que s\u00e3o o alvo desse movimento de protesto<\/strong>. Nas palavras de McGeorge Bundy, presidente da Funda\u00e7\u00e3o Ford (1966-1979),\u201dTudo o que a Funda\u00e7\u00e3o [Ford] fez pode ser considerado no \u00e2mbito de \u2018tornar o mundo seguro para o capitalismo\u201d.<\/p>\n<p><em>*Michel Chossudovsky n\u00e3o se deslocou a Portugal como estava previsto, mas enviou ao III Encontro Civiliza\u00e7\u00e3o ou Barb\u00e1rie a comunica\u00e7\u00e3o que hoje publicamos.<\/em><\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.odiario.info\/?p=1794<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nIII Encontro Civiliza\u00e7\u00e3o ou Barb\u00e1rie\nMichel Chossudovsky*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/970\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[89],"tags":[],"class_list":["post-970","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c102-civilizacao-ou-barbarie"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-fE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/970","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=970"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/970\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=970"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=970"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=970"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}