{"id":9852,"date":"2015-11-11T21:32:16","date_gmt":"2015-11-12T00:32:16","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9852"},"modified":"2015-12-03T11:18:49","modified_gmt":"2015-12-03T14:18:49","slug":"a-luta-de-classes-nunca-tirou-ferias-neste-pais-afirma-o-professor-da-ufrj-jose-paulo-netto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9852","title":{"rendered":"\u201cA luta de classes nunca tirou f\u00e9rias neste pa\u00eds\u201d, afirma o professor da UFRJ Jos\u00e9 Paulo Netto"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.brasildefato.com.br\/sites\/default\/files\/u2204\/LT1_4350201510_Jos%C3%A9%20Paulo%20Netto_Foto_Leandro%20Taques.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><strong><em>Em entrevista ao Brasil de Fato e aos Jornalistas Livres, o pesquisador e professor da UFRJ, Jos\u00e9 Paulo Netto, analisa as recentes manifesta\u00e7\u00f5es de \u00f3dio contra determinados setores da sociedade a partir da forma\u00e7\u00e3o social e da cultura pol\u00edtica brasileira.<!--more--><br \/>\n<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>10\/11\/2015<\/em><\/p>\n<p><em>Por Camilla Hoshino e Leandro Taques,<\/em><\/p>\n<p><em>De Veran\u00f3polis (RS)<\/em><\/p>\n<p>Manifesta\u00e7\u00f5es de \u00f3dio, racismo, declara\u00e7\u00f5es machistas e amea\u00e7as verbais e f\u00edsicas contra lideran\u00e7as da esquerda t\u00eam sido constantes no \u00faltimo per\u00edodo no pa\u00eds. Segundo o professor Jos\u00e9 Paulo Netto, essas atitudes t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com a tentativa das classes dominantes de \u201cafastar a massa do povo dos centros de decis\u00e3o pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Paulo Netto \u00e9 doutor em servi\u00e7o social pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP). Foi vice-diretor da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ e do seu Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social, tendo t\u00edtulo de professor em\u00e9rito na institui\u00e7\u00e3o. Tradutor e organizador de textos de autores cl\u00e1ssicos como Marx, Engels, L\u00eanin e Luk\u00e1cs, em que se destaca como grande especialista, produziu obras te\u00f3ricas e pol\u00edticas sobre o capitalismo, servi\u00e7o social e marxismo. \u00c9 membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e atua em parceria com movimentos sociais, como o MST.<\/p>\n<p>Em entrevista ao Brasil de Fato e aos Jornalistas Livres, ele faz uma an\u00e1lise das classes dominantes a partir da forma\u00e7\u00e3o social brasileira, fala sobre o quadro pol\u00edtico atual no pa\u00eds e sobre como atuam as elites em face da crise do capitalismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Para Netto, \u00e9 justamente em momentos de tens\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas que \u201ctodo esse por\u00e3o da sociedade brasileira, com um forte sentimento antipovo, antipopular, antimassa, racista e discriminador, vem \u00e0 tona\u201d.<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato &#8211; Estamos presenciando a todo o momento ataques da direita brasileira que deixam expl\u00edcitos o preconceito, o racismo e o sentimento de \u00f3dio contra determinados setores da sociedade. Como a nossa forma\u00e7\u00e3o social pode nos ajudar a compreender essas atitudes? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Paulo Netto &#8211; <\/strong>Se analisarmos com cuidado a hist\u00f3ria brasileira, vamos encontrar algumas constantes que s\u00e3o tra\u00e7os constitutivos da nossa forma\u00e7\u00e3o social e que, portanto, s\u00e3o elementos constitutivos da cultura pol\u00edtica brasileira. Um tra\u00e7o muito vis\u00edvel de meados do s\u00e9culo XIX em diante tem sido a capacidade das franjas das camadas mais ativas das classes dominantes em afastar a massa do povo dos centros de decis\u00e3o pol\u00edtica. Mesmo quando tivemos, ao longo do s\u00e9culo XX, momentos de institucionaliza\u00e7\u00e3o mais ampla da participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, tivemos elementos, mecanismos, meios e modos que constrangeram ou limitaram essa participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a processos adjetivos. Costumo dizer que tivemos no Brasil um processo tardio, lento, desigual e sinuoso de socializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Isso ganhou certa magnitude com a derrota da ditadura instaurada em 1964. A constitui\u00e7\u00e3o de 1988 consagrou direitos pol\u00edticos essenciais, abriu caminho para se repensar direitos civis e, sobretudo, ampliou o leque dos direitos sociais no pa\u00eds. Com todas as desigualdades e assimetrias, creio que se pode dizer que no p\u00f3s-1988 tivemos formalmente a institucionaliza\u00e7\u00e3o da cidadania moderna no Brasil. Entretanto, se observarmos o processo de luta contra a ditadura, de crise da ditadura e de transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica no Brasil, teremos a clara percep\u00e7\u00e3o dessa capacidade das franjas mais ativas das classes dominantes de encontrar meios de excluir a massa do povo de processos decis\u00f3rios. Tivemos um processo de socializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, mas nem de longe um processo de socializa\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico. Isso tem rela\u00e7\u00e3o com o que eu chamo de linhas de continuidade na nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>O senhor pode citar alguns exemplos disso? <\/strong><\/p>\n<p>O Brasil foi um pa\u00eds escravocrata. Em 1888 tivemos uma aboli\u00e7\u00e3o inteiramente formal, em que n\u00e3o se criou nenhuma pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para que o liberto pudesse construir sua vida autonomamente. Da noite para o dia foram libertos, mas sem ter terra, sem ter nada. Esta cultura escravocrata n\u00e3o desapareceu. H\u00e1 exemplos recentes. As camadas m\u00e9dias (n\u00e3o necessariamente camadas olig\u00e1rquicas) reagiram negativamente em face da legisla\u00e7\u00e3o acerca do trabalho dom\u00e9stico. Poder\u00edamos citar outros exemplos como o acesso \u00e0 universidade, historicamente elitista. \u00c9 s\u00f3 observar a dimens\u00e3o das nossas universidades e a popula\u00e7\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es et\u00e1ria e formal de ingressar ali.<\/p>\n<p>Deste modo, podemos perceber que a sociedade foi constru\u00edda para que muito poucos usufru\u00edssem dos direitos formais que ela veio (bem ou mal) escrevendo no seu ordenamento jur\u00eddico-pol\u00edtico. Em momentos de crise ou em momentos de tens\u00e3o, em que se agudiza abertamente a luta de classes (para utilizar um jarg\u00e3o da esquerda), todo esse por\u00e3o da sociedade brasileira, com um forte sentimento antipovo, antipopular, antimassa, racista e discriminador, vem \u00e0 tona. O processo de transi\u00e7\u00e3o da ditadura fez com que amplos setores tivessem vergonha do seu conservadorismo. Mas isso acabou.<\/p>\n<p><strong>Qual foi o impacto do PT na mudan\u00e7a dessa atmosfera pol\u00edtica? <\/strong><\/p>\n<p>Eu diria que o PT teve um papel duplo. Pensando no PT como for\u00e7a de governo, a partir de janeiro de 2003, foram tomadas provid\u00eancias de car\u00e1ter emergencial, mas que foram apresentadas como pol\u00edticas duradouras de Estado e que beneficiaram objetivamente a massa mais pobre. Isso foi muito positivo. Ao mesmo tempo, isso foi feito no marco de uma orienta\u00e7\u00e3o macroecon\u00f4mica que privilegiou os grupos financeiros do pa\u00eds, que n\u00e3o restringiu em absoluto a fome lucrativa dos monop\u00f3lios nacionais e internacionais. Isso criou uma situa\u00e7\u00e3o paradoxal que pode ser observada ao cabo do mandato do Lula. Mas as elites jamais suportaram o significado simb\u00f3lico de ter um trabalhador que tomava cacha\u00e7a e falava errado na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica<strong>. <\/strong>O efeito PT (quando Lula se elege) \u00e9 enorme do ponto de vista simb\u00f3lico. Enfim um sujeito aparentemente igual \u00e0 maioria da popula\u00e7\u00e3o chega l\u00e1.<\/p>\n<p><strong>\u201cMarolinha\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Lula elege sua sucessora no marco de uma crise econ\u00f4mica internacional grav\u00edssima, a qual ele caracterizou como uma \u201cmarolinha\u201d. S\u00f3 que os efeitos daquela crise rebateram na periferia de formas distintas. Sob o governo dele, uma orienta\u00e7\u00e3o macroecon\u00f4mica conseguiu driblar bem esses efeitos. A articula\u00e7\u00e3o de economia pol\u00edtica que funcionou nos dois governos dele n\u00e3o funcionou no governo Dilma. N\u00e3o foi por incompet\u00eancia da equipe gestora. Houve sim falhas t\u00e9cnicas, mas elas n\u00e3o s\u00e3o as mais importantes. Mas \u00e9 que a \u201cmarolinha\u201d virou um \u201ctsunami\u201d. Neste momento, aqueles mesmos grupos que foram altamente beneficiados no governo Lula p\u00f5em para fora todo o seu preconceito de classe que vem acompanhado de manifesta\u00e7\u00f5es de \u00f3dio de classe, de marcas racistas e, sobretudo, de uma entrada em cena, sem qualquer tipo de maquiagem, do velho elitismo brasileiro. Penso que este \u00e9 o quadro em que estamos vivendo hoje.<\/p>\n<p><strong>Como este elitismo se expressa? <\/strong><\/p>\n<p>Penso que o processo eleitoral mostrou isso com clareza. Tivemos uma vit\u00f3ria eleitoral democr\u00e1tica que mostrou uma sociedade dividida. N\u00e3o ponho em d\u00favida a legitimidade de vit\u00f3ria de Dilma. Mas n\u00e3o h\u00e1 duvida nenhuma que h\u00e1 uma legitimidade expressa eleitoralmente muito estreita em termos de maioria e que, portanto, \u00e9 muito vulner\u00e1vel. Exatamente sobre esta vulnerabilidade atuam as elites. Tamb\u00e9m operam atrav\u00e9s de uma m\u00eddia historicamente oficialista e porta voz de tudo aquilo que atravanca a conquista, a realiza\u00e7\u00e3o e a amplia\u00e7\u00e3o de direitos.<\/p>\n<p>De 1888 a 2015, quando se tem uma crise (n\u00e3o no sentido de possibilidade de quebra do regime, mas uma crise financeira do Estado), se n\u00e3o h\u00e1 orienta\u00e7\u00f5es claras e pol\u00edticas claras em face desta dificuldade, o momento se torna ideal para que os segmentos mais retr\u00f3grados se apresentem como s\u00e3o. Temos uma composi\u00e7\u00e3o do legislativo que me parece a mais an\u00f3dina e amorfa dos \u00faltimos trinta anos e, portanto, facilmente catalisada com propostas de oportunismo meramente eleitoral. Os que querem desestabilizar tem um prato feito. N\u00e3o sei como vai se desdobrar esse processo governativo, mas tenho a impress\u00e3o de que a presidente Dilma vai travar uma guerrilha di\u00e1ria. N\u00e3o se satisfaz a fome de le\u00e3o do PMDB com alface.<\/p>\n<p><strong>O senhor utilizou os termos \u201cluta de classes\u201d, \u201c preconceito de classe\u201d e \u201c\u00f3dio de classe\u201d. Com toda a complexidade da divis\u00e3o socioecon\u00f4mica e das ramifica\u00e7\u00f5es do trabalho na nossa sociedade, ainda podemos falar em classes sociais?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tenho a menor d\u00favida. Classe social \u00e9 uma categoria te\u00f3rica que expressa elementos fundamentais da realidade em uma sociedade como a nossa. A sociedade brasileira tem hoje uma estrutura de classes muito complexa e eu desconhe\u00e7o qualquer estudo rigoroso e s\u00e9rio sobre isso. N\u00e3o estou falando daqueles estudos publicit\u00e1rios que separam a nossa sociedade em classes A, B, C, D, etc., mas de estudos que tragam rela\u00e7\u00f5es com os meios de produ\u00e7\u00e3o e com a consci\u00eancia de um projeto pol\u00edtico. A luta de classes nunca tirou f\u00e9rias neste pa\u00eds. Ela esteve latente ou expressa ao longo desses \u00faltimos doze anos em manifesta\u00e7\u00f5es referentes a determinados projetos de pol\u00edticas p\u00fablicas e em como fazer a orienta\u00e7\u00e3o macroecon\u00f4mica. Isso foi uma luta que atravessou o governo Fernando Henrique, o governo Lula e atravessa o governo Dilma. O que temos agora \u00e9 uma emers\u00e3o clara das posi\u00e7\u00f5es de classe.<\/p>\n<p><strong>E como \u00e9 poss\u00edvel mediar essas tens\u00f5es? <\/strong><\/p>\n<p>Eu percebo um dilaceramento do tecido social brasileiro do ponto de vista pol\u00edtico. O que \u00e9 preocupante, porque n\u00e3o est\u00e3o em jogo projetos pol\u00edticos, mas projetos de na\u00e7\u00e3o. Que sociedade n\u00f3s queremos? N\u00f3s queremos uma sociedade onde quem tem orienta\u00e7\u00e3o diferente \u00e9 objeto de espancamento e onde o dissenso pol\u00edtico \u00e9 resolvido com amea\u00e7as f\u00edsicas? Vivemos uma conjuntura internacional dif\u00edcil, com ajustamento na divis\u00e3o internacional do trabalho. N\u00f3s vamos nos inserir nisso de maneira subalterna ou soberana? Temos que vir a p\u00fablico para determinar com clareza que tipo de sociedade n\u00f3s queremos e para chegar l\u00e1 s\u00e3o poss\u00edveis v\u00e1rios meios.<\/p>\n<p>Estamos com problemas que n\u00e3o vieram do governo Dilma, do governo Lula ou do governo Fernando Henrique. Eles v\u00eam da nossa transi\u00e7\u00e3o interrompida. Eu espero que tenhamos firmeza de princ\u00edpios e sabedoria para resolv\u00ea-los sem romper um pacto civilizat\u00f3rio que fizemos pelos menos em 1988 e que, na minha opini\u00e3o, est\u00e1 amea\u00e7ado por express\u00f5es de preconceito e \u00f3dio de classe. N\u00e3o podemos repetir experi\u00eancias traum\u00e1ticas do passado, cujos resultados foram desastrosos para a massa do povo brasileiro, ainda que tenham sido excelentes para as suas elites.<\/p>\n<p>Nesse sentido, penso que temos que olhar a pol\u00edtica brasileira para al\u00e9m das express\u00f5es institucionais abastardadas, onde se troca minist\u00e9rio por voto no Congresso Nacional. Isto n\u00e3o \u00e9 o Brasil. Isto \u00e9 a express\u00e3o institucional da pol\u00edtica brasileira. A pol\u00edtica brasileira est\u00e1 nas universidades, nas f\u00e1bricas, nas usinas, nos escrit\u00f3rios, no com\u00e9rcio e nas ruas.<\/p>\n<p><strong>O senhor \u00e9 um grande especialista da obra de Marx, um nome que causa arrepio nas elites e nos setores mais conservadores da sociedade. Os intelectuais que se utilizam deste referencial te\u00f3rico tem sido acusados de promover \u201cdoutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica\u201d nas universidades. O que o senhor pensa disso? \u00c9 poss\u00edvel resgatarmos Marx para analisar a sociedade contempor\u00e2nea? <\/strong><\/p>\n<p>Uma das coisas que mais tem me divertido na exposi\u00e7\u00e3o do pensamento da direita brasileira (se \u00e9 que ela pensa) \u00e9 imaginar que os comunistas est\u00e3o no poder. Isso \u00e9 coisa do Olavo de Carvalho, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 uma cal\u00fania contra o PT e contra os comunistas, mas deixemos isso de lado. Primeiro, eu diria que no universo cultural, resultado de experi\u00eancias hist\u00f3ricas e da batalha de ideias sob a hegemonia burguesa, o marxismo andou muito desprestigiado e muito desacreditado. No final da d\u00e9cada de 1990 houve um acantonamento do pensamento marxista. Isso mudou nos \u00faltimos dez anos na universidade e fora dela. Houve um interesse renovado pelas ideias de Marx, n\u00e3o apenas no Brasil. Segundo, eu acho que Marx \u00e9 um inc\u00f4modo contempor\u00e2neo para n\u00f3s. Essa crise sist\u00eamica que o capitalismo est\u00e1 experimentando (pelo menos desde o in\u00edcio do s\u00e9culo) est\u00e1 trazendo a discuss\u00e3o sobre uma s\u00e9rie de proje\u00e7\u00f5es que Marx fez. Ele \u00e9 extremamente atual. \u00c9 imposs\u00edvel tentar compreender com seriedade as muta\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas dos \u00faltimos 30,40 anos sem Marx.<\/p>\n<p><strong>Socialismo <\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o para a crise do capitalismo. Ela \u00e9 global n\u00e3o no sentido do globo, mas por ser uma crise \u00e9tica, pol\u00edtica, econ\u00f4mica e ecol\u00f3gica. O padr\u00e3o de civiliza\u00e7\u00e3o capitalista se exauriu. N\u00e3o adianta dar carros para todo mundo, pois n\u00e3o haver\u00e1 lugar para jog\u00e1-los fora. N\u00f3s n\u00e3o podemos continuar nessas cidades que crescem loucamente sem nenhum planejamento. O capitalismo s\u00f3 tem a oferecer mais inseguran\u00e7a, mais instabilidade e mais viol\u00eancia. Nesse sentido, esgotado o capitalismo, a \u00fanica alternativa para ele \u00e9 o socialismo. N\u00e3o posso ser original: \u201cOu o socialismo ou a barb\u00e1rie\u201d. E a barb\u00e1rie j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed pertinho. Sob esse aspecto, o socialismo \u00e9 extremamente atual. Agora a quest\u00e3o \u00e9 se essa atualidade \u00e9 transformada em viabilidade. E eu n\u00e3o vejo essa viabilidade em curto prazo. O que me torna muito pessimista, pois quanto mais tardia a alternativa do socialismo, maior ser\u00e1 a destrui\u00e7\u00e3o que o capitalismo pode realizar.<\/p>\n<p><strong>Por que o senhor n\u00e3o v\u00ea essa alternativa no horizonte? <\/strong><\/p>\n<p>Porque o socialismo n\u00e3o resulta da crise e da exaust\u00e3o do capitalismo, mas de um duro, longo e dif\u00edcil processo em que massas organizadas de homens e mulheres mudam o curso da vida coletiva e individual. Eu n\u00e3o vejo isso se desenhando em curto prazo no horizonte. Vou dizer algo que j\u00e1 foi dito por Ant\u00f4nio Gramsci e que \u00e9 adequado para pensar o agora: \u201cQuando aquilo que \u00e9 velho ainda n\u00e3o morreu e aquilo que \u00e9 novo ainda n\u00e3o emergiu, nesses tempos de transi\u00e7\u00e3o, revelam-se fen\u00f4menos que s\u00e3o verdadeiras sociopatias\u201d. Estou convencido de que a ordem do capital, que \u00e9 o velho, ainda n\u00e3o morreu e a ordem do futuro ainda n\u00e3o emergiu. Ent\u00e3o estes s\u00e3o per\u00edodos hist\u00f3ricos que oscilam entre o tr\u00e1gico e o dram\u00e1tico.<\/p>\n<p><strong>A esquerda fala em revolu\u00e7\u00e3o, em protagonismo da classe oper\u00e1ria e em tomada de consci\u00eancia pela massa. Mas tamb\u00e9m defende que qualquer tipo de transi\u00e7\u00e3o radical passa por uma forma\u00e7\u00e3o s\u00e9ria dos trabalhadores. Como o senhor v\u00ea isso? E como essa forma\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter te\u00f3rico se transforma em pr\u00e1tica? <\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o penso que as massas revolucion\u00e1rias ser\u00e3o massas teoricamente muito ilustradas. O que leva os trabalhadores a querer mudar de vida \u00e9 o momento em que suas vidas se tornam insuport\u00e1veis. \u00c9 evidente que camadas de trabalhadores letradas e informadas s\u00e3o muito mais capazes de tomar consci\u00eancia dos seus interesses do que camadas trabalhadoras r\u00fasticas, mantidas na ignor\u00e2ncia pelas classes dominantes<strong>. <\/strong>Acredito que a quest\u00e3o central seja a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos militantes. L\u00edderes e dirigentes n\u00e3o fazem a revolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 inteiramente irrealista imaginar que o conjunto das classes trabalhadoras vai se transformar em l\u00edderes da transforma\u00e7\u00e3o social. Segmentos que v\u00e3o constituir as suas vanguardas (no plural) \u00e9 que podem dirigir um processo de transforma\u00e7\u00e3o social. O investimento na forma\u00e7\u00e3o desses segmentos \u00e9 absolutamente essencial. \u00c9 preciso forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com base te\u00f3rica. Aqui n\u00e3o me refiro \u00e0 agita\u00e7\u00e3o e propaganda ou doutrina\u00e7\u00e3o, mas sim a conhecimentos de teoria social que permitam discernir e distinguir o essencial do acess\u00f3rio, o substantivo do epis\u00f3dico.<\/p>\n<p><strong>Teoria e pr\u00e1tica <\/strong><\/p>\n<p>A teoria \u00e9 absolutamente indispens\u00e1vel para a forma\u00e7\u00e3o de vanguardas que sejam capazes de, em momentos de ruptura e de tens\u00e3o social, dar orienta\u00e7\u00f5es claras, l\u00facidas, s\u00e9rias e respons\u00e1veis \u00e0s massas. Rupturas sociais s\u00e3o sempre processos traum\u00e1ticos. N\u00e3o apenas no sentido da viol\u00eancia material, mas elas envolvem rupturas ideol\u00f3gicas, intelectuais, \u00e9ticas, etc. Se lideran\u00e7as n\u00e3o tiverem compet\u00eancia te\u00f3rica e sabedoria pol\u00edtica, o resultado dessas rupturas pode ser catastr\u00f3fico. Pode ser a derrota de bandeiras e demandas generosas e legitimas. Isso significa que ningu\u00e9m avan\u00e7a no dom\u00ednio do progresso social, da universaliza\u00e7\u00e3o de direitos, da cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es de uma consci\u00eancia e de uma nova cultura pol\u00edtica s\u00f3 pela milit\u00e2ncia operativa. \u00c9 preciso forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e cultural. Eu me atreveria a dizer que sem isso n\u00e3o caminharemos.<\/p>\n<p>Queria ser original, mas algu\u00e9m j\u00e1 disse h\u00e1 cerca de 110 anos que \u201csem teoria revolucion\u00e1ria, n\u00e3o h\u00e1 revolu\u00e7\u00e3o\u201d [L\u00eanin]. \u00c9 preciso estudar, estudar e estudar para poder mobilizar e organizar com compet\u00eancia. Uma revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser o arrebentar de uma represa de demandas reprimidas e de esperan\u00e7as humilhadas. \u00c9 sobre esse ch\u00e3o, sobre a indigna\u00e7\u00e3o e sobre a revolta que corre a possibilidade de outro mundo. Mas ele tem que ser constru\u00eddo com cientificidade, compet\u00eancia e com uma palavra que est\u00e1 desgastada que a sabedoria.<\/p>\n<p>http:\/\/www.brasildefato.com.br\/node\/33400<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em entrevista ao Brasil de Fato e aos Jornalistas Livres, o pesquisador e professor da UFRJ, Jos\u00e9 Paulo Netto, analisa as recentes manifesta\u00e7\u00f5es \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9852\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-9852","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2yU","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9852","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9852"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9852\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9852"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9852"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9852"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}