{"id":9870,"date":"2015-11-14T20:23:03","date_gmt":"2015-11-14T23:23:03","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9870"},"modified":"2015-12-03T11:19:55","modified_gmt":"2015-12-03T14:19:55","slug":"a-mineracao-e-os-eco-chatos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9870","title":{"rendered":"A minera\u00e7\u00e3o e os eco-chatos"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/178.62.201.127\/sites\/default\/files\/styles\/scale_large\/public\/samarco.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>\u200bElaine\u200bTavares<\/p>\n<p>Desde muito tempo temos ouvido essa \u201cacusa\u00e7\u00e3o\u201d quando algu\u00e9m se levanta em luta pelo equil\u00edbrio ambiental: eco-chatos, inimigos do progresso. Uma gente chata que n\u00e3o quer ver o desenvolvimento da na\u00e7\u00e3o. Hoje, com a na\u00e7\u00e3o perplexa diante da trag\u00e9dia que se abateu <!--more-->sobre a vida em Minas, se faz mais do que necess\u00e1rio rever esse conceito. Qualquer pessoa que tenha consci\u00eancia cr\u00edtica sabe que o capitalismo enquanto tal \u00e9 um produtor de mis\u00e9rias. A sua produ\u00e7\u00e3o de mercadorias implica no seu contr\u00e1rio, ou seja, a destrui\u00e7\u00e3o. Assim, se queremos falar da raiz oculta das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalista, temos que necessariamente falar em rela\u00e7\u00f5es de destrui\u00e7\u00e3o, como bem aponta o te\u00f3rico Ludovico Silva no seu livro \u201cA mais-valia ideol\u00f3gica\u201d. N\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o que os chamados eco-chatos &#8211; ou ambientalistas, ou gente que tem consci\u00eancia da realidade, ou seja l\u00e1 como os chamem \u2013 sempre denunciaram os riscos da minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Brasil, a extra\u00e7\u00e3o do ouro teve seu primeiro ciclo em 1690, justamente em Minas, na regi\u00e3o de Tiradentes. Depois, em 1700 foi a vez dos diamantes, na mesma regi\u00e3o e no final do s\u00e9culo j\u00e1 metade do ouro circulando no mundo vinha dali. No 1800 milhares de colonos portugueses ocuparam o sudeste e boa parte do territ\u00f3rio foi sendo ocupado tendo como meta a extra\u00e7\u00e3o de algum tipo de min\u00e9rio. Hoje, a ind\u00fastria extrativista explora aproximadamente 72 minerais, sendo 23 tipos de metais e 45 n\u00e3o-met\u00e1licos, al\u00e9m de mais 04 tipos de combust\u00edveis. A minera\u00e7\u00e3o responde por 5% do PIB nacional &#8211; com 3.3354 minas &#8211; e oferece produtos que s\u00e3o amplamente utilizados nas ind\u00fastrias metal\u00fargicas, de fertilizantes, sider\u00fargicas e, principalmente, nas petroqu\u00edmicas. \u00a0\u00a0O pa\u00eds se destaca na produ\u00e7\u00e3o de amianto, bauxita, cobre, cromo, estanho, ferro, grafita, mangan\u00eas, n\u00edquel, ouro, pot\u00e1ssio, rocha fosf\u00e1tica e zinco. O ferro tem sido o metal de maior import\u00e2ncia, com sete grandes empresas na \u00e1rea: Cia. Vale do Rio Doce; Minera\u00e7\u00f5es Brasileiras Reunidas S.A.; Minera\u00e7\u00e3o da Trindade; Ferteco Minera\u00e7\u00e3o S.A.; Samarco Minera\u00e7\u00e3o S.A.; Cia Sider\u00fargica Nacional; e Itaminas Com\u00e9rcio de Min\u00e9rios S.A.<br \/>\nToda essa produ\u00e7\u00e3o movimenta mais de \u00a050,5 bilh\u00f5es por ano e conforme estudos do Departamento Nacional de Produ\u00e7\u00e3o Mineral o Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses com maior potencial mineral do mundo, juntamente com Federa\u00e7\u00e3o Russa, Estados Unidos, Canad\u00e1, China e Austr\u00e1lia, o que torna seu territ\u00f3rio bastante cobi\u00e7ado, visto que as reservas s\u00e3o grandes e podem gerar lucros por muito tempo ainda.<\/p>\n<p>Nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o a investida dos representantes do latif\u00fandio no Congresso Nacional para rever as demarca\u00e7\u00f5es de terras ind\u00edgenas. Esses grandes territ\u00f3rios j\u00e1 demarcados cont\u00e9m reservas estrat\u00e9gicas de min\u00e9rio e os que usam a terra como mercadoria querem colocar suas garras afiadas sobre essa riqueza. Passando para o legislativo nacional a decis\u00e3o sobre demarca\u00e7\u00e3o e dando a eles poder sobre a revis\u00e3o de antigas demarca\u00e7\u00f5es, o que se pode acontecer \u00e9 a retirada dos territ\u00f3rios j\u00e1 garantidos aos ind\u00edgenas, quilombolas e povos tradicionais. Tudo em nome do lucro, seja para a monocultura de exporta\u00e7\u00e3o ou para a minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E aqui voltamos aos eco-chatos. N\u00e3o \u00e9 de hoje que os ambientalistas verdadeiramente preocupados com o equil\u00edbrio entre o homem e a natureza denunciam os dramas da minera\u00e7\u00e3o. O tamanho do impacto ambiental que essa atividade causa \u00e9 imensur\u00e1vel. Com as escava\u00e7\u00f5es em larga escala s\u00e3o promovidas dram\u00e1ticas altera\u00e7\u00f5es na paisagem, bem como a contamina\u00e7\u00e3o incessante das \u00e1guas por conta do uso de metais pesados, como o merc\u00fario, por exemplo. A minera\u00e7\u00e3o ainda pode afetar a qualidade do ar e do solo, destruir esp\u00e9cies animais e vegetais e causar polui\u00e7\u00e3o sonora, isso sem contar nos danos \u00e1 sa\u00fade humana. Logo, o controle sobre esse tipo de trabalho por parte dos \u00f3rg\u00e3os ambientais precisa ser muito bem feito. Mas, o que se v\u00ea \u00e9 a velha pol\u00edtica das vistas grossas a toda e qualquer den\u00fancia que seja feita, tanto por parte dos ambientalistas, quanto por estudiosos da quest\u00e3o. Se \u00e9 contra a possibilidade de seguir lucrando, as for\u00e7as econ\u00f4micas, aliadas com a m\u00eddia comercial, v\u00e3o formando um consenso sobre o tema, de tal maneira que quem aparece como vil\u00e3o s\u00e3o aqueles que fazem as den\u00fancias: os eco-chatos, os que atrapalham o progresso, os que vivem a chamar desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>O crime ambiental que aconteceu agora em Minas Gerais, em grandes propor\u00e7\u00f5es, com o rompimento da barragem de lama t\u00f3xica, que estava sob den\u00fancias, deu visibilidade a esse drama que \u00e9 cotidiano em v\u00e1rias regi\u00f5es do Brasil. A lama t\u00f3xica, o merc\u00fario, a polui\u00e7\u00e3o por outros metais e venenos, tudo isso est\u00e1 \u2013 nesse exato momento \u2013 escorrendo para dentro de algum manancial. Em pequenas propor\u00e7\u00f5es, quase invis\u00edvel, mas que vai cobrar seu pre\u00e7o mais na frente.<\/p>\n<p>E diante dessa trag\u00e9dia sistem\u00e1tica como age a f\u00e1brica do consenso? Esconde os fatos, joga foco sobre o que chama de \u201ctrag\u00e9dia de Minas\u201d, como se aquilo fosse um caso isolado, um acidente, um acaso do destino e n\u00e3o a a\u00e7\u00e3o deliberada e irrespons\u00e1vel de empresas que est\u00e3o pouco se lixando para a vida que rodeia seus empreendimentos.<br \/>\nUma \u00fanica barragem como essa da Samarco est\u00e1 causando um rastro de destrui\u00e7\u00e3o que se espalha n\u00e3o s\u00f3 pelo estado de Minas, mas vai caminhando pelas veias abertas dos rios e riachos, at\u00e9 chegar ao mar, onde tamb\u00e9m provocar\u00e1 forte desequil\u00edbrio. Conforme informa\u00e7\u00f5es do bi\u00f3logo Andr\u00e9 Ruschi, diretor da escola Esta\u00e7\u00e3o Biologia Marinha Augusto Ruschi, em Aracruz (ES), s\u00f3 esse desastre compromete e impacta a vida marinha por mais de 100 anos. Ele n\u00e3o hesita em dizer que a irresponsabilidade da Samarco assassinou a quinta maior bacia hidrogr\u00e1fica do Brasil. \u201cA natureza se regenera\u201d dizem alguns, fazendo pouco caso dos efeitos do crime. Sim, \u00e9 fato, ela se regenera. O que n\u00e3o se regenera \u00e9 a vida perdida por conta desse tipo de explora\u00e7\u00e3o da riqueza.<\/p>\n<p>Mas, afinal, quem se importa com o destino daqueles que s\u00e3o apenas m\u00e3o-de-obra barata para o giro da roda do capital? Assim como nas guerras \u201climpas\u201d, nas quais ningu\u00e9m v\u00ea os corpos dilacerados, esse crime ambiental tamb\u00e9m tem seus corpos escondidos. A m\u00eddia, sempre afeita a um espet\u00e1culo, mostra o salvamento de cachorros como momentos de rara humanidade dos valorosos bombeiros \u2013 o que de fato, \u00e9 &#8211; \u00a0mas n\u00e3o mostra com igual destaque o acumulado de corpos de gente e bicho que adormece sob a lama. Melhor \u00e9 levantar o moral, mostrar as delicadezas que sempre assomam em horas de grande trag\u00e9dia. Ou ent\u00e3o, dar voz a tipos como o ex-governador de Minas, A\u00e9cio Neves, que tem a coragem de dizer em alto e bom tom que \u201cn\u00e3o \u00e9 hora de encontrar culpados\u201d.<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 hora de encontrar os respons\u00e1veis, sim. Os donos da empresa que n\u00e3o cumpriram as determina\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio P\u00fablico, os \u00f3rg\u00e3os ambientais que liberam licen\u00e7as sem o devido controle, o estado que faz vistas grossas aos males da minera\u00e7\u00e3o. Enfim, uma cadeia de respons\u00e1veis, gente que precisa responder por isso.<\/p>\n<p>E, como sempre acontece no mundo do espet\u00e1culo, t\u00e3o logo a poeira abaixe, o crime da Samarco ser\u00e1 esquecido. Um novo drama, uma nova trag\u00e9dia, outro espet\u00e1culo tomar\u00e1 o lugar da lama t\u00f3xica. Os governos declarar\u00e3o que o dano n\u00e3o foi t\u00e3o grande, que haver\u00e1 uma compensa\u00e7\u00e3o, que as fam\u00edlias ser\u00e3o indenizadas, que cuidados futuros ser\u00e3o tomados, e todos voltar\u00e3o a dormir em paz.<\/p>\n<p>Mas, enquanto isso, novas minas continuar\u00e3o sendo abertas, materiais t\u00f3xicos seguir\u00e3o escorrendo pelos rios, entrando terra adentro, pessoas continuar\u00e3o morrendo contaminadas pela irresponsabilidade, danos seguir\u00e3o sendo causados a terra, aos bichos, \u00e0s gentes, ao mar. Tudo seguir\u00e1 como antes at\u00e9 que novo crime, de tamanha propor\u00e7\u00e3o, seja praticado. E a\u00ed tudo recome\u00e7ar\u00e1. Nesse \u00ednterim, os eco-chatos seguir\u00e3o denunciando, gritando, anunciando. E, como sempre, sendo apontados apenas como os arautos da desgra\u00e7a, coisa que de fato s\u00e3o. N\u00e3o porque queiram, mas porque sabem que em nome do lucro tudo \u00e9 v\u00e1lido nesse mundo. E, por isso mesmo n\u00e3o hesitam em gritar, denunciar, apontar.<br \/>\nO drama da vida perdida em Minas, e que agora vai se perder por outros estados pelos quais a lama vai passar, deveria, pelo menos, servir de alerta. Quando uma den\u00fancia sobre os danos da minera\u00e7\u00e3o \u00e9 feita, que se procure investigar. A voz dessa gente que clama por equil\u00edbrio no ambiente n\u00e3o pode mais ser vista como um \u201catrapalho ao progresso\u201d. Ela \u00e9 sempre um sinal de alerta que precisa ser levado a serio.<\/p>\n<p>E hoje, tal qual a voz dos \u201carautos da desgra\u00e7a\u201d, os corpos escondidos na pequena Bento Rodrigues est\u00e3o falando, e tamb\u00e9m esperam que algu\u00e9m os ou\u00e7a.<\/p>\n<p>http:\/\/iela.ufsc.br\/noticia\/mineracao-e-os-eco-chatos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u200bElaine\u200bTavares Desde muito tempo temos ouvido essa \u201cacusa\u00e7\u00e3o\u201d quando algu\u00e9m se levanta em luta pelo equil\u00edbrio ambiental: eco-chatos, inimigos do progresso. 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