{"id":990,"date":"2010-11-19T18:25:29","date_gmt":"2010-11-19T18:25:29","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=990"},"modified":"2017-11-29T13:53:35","modified_gmt":"2017-11-29T16:53:35","slug":"como-nasceu-e-como-morreu-o-lmarxismo-ocidentalr","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/990","title":{"rendered":"Como nasceu e como morreu o \u00abMarxismo Ocidental\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/novocartz_01.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Domenico Losurdo<\/p>\n<p>Serpa 2010<\/p>\n<p>Porque \u00e9 que, depois de ter gozado de uma extraordin\u00e1ria fortuna nos anos sessenta e setenta, o marxismo caiu no Ocidente numa crise t\u00e3o profunda? Vale a pena tomar como ponto de partida um debate de 1954 provocado por Norberto Bobbio. Este, embora justamente insistindo no car\u00e1cter irrenunci\u00e1vel da liberdade \u00abformal\u00bb, conta a favor dos Estados socialistas o terem \u00abiniciado uma nova fase de progresso civilizacional em pa\u00edses politicamente atrasados, introduzindo institui\u00e7\u00f5es tradicionalmente democr\u00e1ticas, de democracia formal como o sufr\u00e1gio universal e a electividade dos cargos, e de democracia substancial como a colectiviza\u00e7\u00e3o dos instrumentos de produ\u00e7\u00e3o\u00bb. E, no entanto \u2013 \u00e9 a conclus\u00e3o cr\u00edtica \u00ac\u2013 o novo \u00abEstado socialista\u00bb ainda n\u00e3o foi capaz de transplantar para o seu seio o governo da lei e os mecanismos garantistas liberais, ainda n\u00e3o foi capaz de proceder \u00e0 \u00ablimita\u00e7\u00e3o do poder\u00bb e deitar \u00abuma gota de \u00f3leo [liberal] nas m\u00e1quinas da revolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 realizada\u00bb. Como se v\u00ea, estamos longe das posi\u00e7\u00f5es assumidas pelo fil\u00f3sofo turin\u00eas na \u00faltima fase da sua evolu\u00e7\u00e3o, quando se torna em \u00faltima an\u00e1lise um ide\u00f3logo da guerra do Ocidente: em 1954 s\u00e3o grandes a influ\u00eancia do marxismo e o prest\u00edgio dos pa\u00edses que dele se reclamam; neste momento, juntamente com a \u00abdemocracia formal\u00bb Bobbio teoriza tamb\u00e9m uma \u00abdemocracia substancial\u00bb; ali\u00e1s, sobre os pa\u00edses socialistas exprime um ju\u00edzo que n\u00e3o \u00e9 univocamente negativo nem sequer no que respeita \u00e0 \u00abdemocracia formal\u00bb.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o as reac\u00e7\u00f5es dos intelectuais comunistas italianos? Para rejeitar ou atenuar as cr\u00edticas dirigidas em primeiro lugar \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, como justifica\u00e7\u00e3o parcial do atraso, eles poderiam ter aduzido o estado de excep\u00e7\u00e3o permanente imposto ao pa\u00eds nascido da revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e a amea\u00e7a de aniquila\u00e7\u00e3o nuclear que continuava a pairar sobre ele. Galvano della Volpe segue contudo uma estrat\u00e9gia absolutamente diferente, concentrando-se na celebra\u00e7\u00e3o da libertas maior (o desenvolvimento concreto da individualidade garantido pelas condi\u00e7\u00f5es materiais de vida). Assim, por um lado desvalorizam-se as garantias jur\u00eddicas do Estado de direito, implicitamente degradadas a libertas minor; e por outro, acaba-se por valorizar a transfigura\u00e7\u00e3o a que procede Bobbio da tradi\u00e7\u00e3o liberal como campe\u00e3 da causa do gozo universal pelo menos dos direitos civis, da liberdade formal. E contudo em 1954 ainda est\u00e1 de p\u00e9 o sistema colonial e dentro do seu \u00e2mbito \u00e9 claro que n\u00e3o se respeita nenhuma liberdade; nos pr\u00f3prios Estados Unidos os negros continuavam a ser largamente exclu\u00eddos dos direitos pol\u00edticos e, muitas vezes, at\u00e9 dos direitos civis (no Sul ainda n\u00e3o desaparecera o regime de segrega\u00e7\u00e3o racial e de white supremacy). Todo empenhado na celebra\u00e7\u00e3o da libertas maior, Della Volpe n\u00e3o se preocupa ou n\u00e3o \u00e9 capaz de chamar a aten\u00e7\u00e3o para o clamoroso infort\u00fanio de Bobbio.<\/p>\n<p>O facto \u00e9 que o marxismo ocidental daqueles anos se caracteriza largamente pelo menosprezo da quest\u00e3o colonial. Em 1961 Ernst Bloch publica Direito natural e dignidade humana. Como j\u00e1 emerge do t\u00edtulo, estamos bem longe da desvaloriza\u00e7\u00e3o cara a Della Volpe da libertas minor; pelo contr\u00e1rio \u00e9 expl\u00edcita a reivindica\u00e7\u00e3o da heran\u00e7a da tradi\u00e7\u00e3o liberal, submetida contudo a uma cr\u00edtica que infelizmente mais parece uma transfigura\u00e7\u00e3o. Bloch censura ao liberalismo o propugnar uma \u00abigualdade formal e apenas formal\u00bb. E acrescenta: \u00abPara se impor, o capitalismo s\u00f3 est\u00e1 interessado na realiza\u00e7\u00e3o de uma universalidade da regulamenta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, que tudo abrange de modo igual\u00bb.<\/p>\n<p>Esta afirma\u00e7\u00e3o pode-se ler num livro cuja publica\u00e7\u00e3o \u00e9 do mesmo ano em que em Paris a pol\u00edcia desencadeia uma impiedosa ca\u00e7a aos argelinos, afogados no Sena ou mortos \u00e0 bastonada; e tudo \u00e0 luz do sol, ali\u00e1s perante a presen\u00e7a de cidad\u00e3os franceses que, sob a protec\u00e7\u00e3o do governo da lei, assistem divertidos ao espect\u00e1culo: qual \u00abigualdade formal\u00bb! Na pr\u00f3pria capital de um pa\u00eds capitalista e liberal vemos em ac\u00e7\u00e3o uma dupla legisla\u00e7\u00e3o, que entrega ao arb\u00edtrio e ao terror policial um grupo \u00e9tnico bem determinado. Se depois tomarmos em considera\u00e7\u00e3o as col\u00f3nias e as semi-col\u00f3nias e virarmos os olhos por exemplo para a Arg\u00e9lia ou para o Qu\u00e9nia ou para a Guatemala (um pa\u00eds formalmente livre mas de facto sob o protectorado estado-unidense), vemos o Estado dominante, capitalista e liberal, recorrer em grande escala e de modo sistem\u00e1tico \u00e0s torturas, aos campos de concentra\u00e7\u00e3o e \u00e0s pr\u00e1ticas genocidas contra os ind\u00edgenas. De nada disto h\u00e1 sinais, nem em Bobbio, nem em Della Volpe nem em Bloch.<\/p>\n<p>Contudo, \u00e9 precisamente nestes anos que come\u00e7a a desenvolver-se nos EUA a luta dos afro-americanos. \u00c9 um assunto que atrai as aten\u00e7\u00f5es da China de Mao Zedong, e pode ser interessante comparar as tomadas de posi\u00e7\u00e3o de duas personalidades t\u00e3o diferentes entre si. Se Bloch denuncia o car\u00e1cter meramente \u00abformal\u00bb da igualdade liberal e capitalista, o dirigente comunista chin\u00eas procede de modo bem diferente. Certamente, sublinha que os negros sofrem uma taxa nitidamente mais alta de desemprego em rela\u00e7\u00e3o aos brancos, s\u00e3o relegados para os segmentos inferiores do mercado do trabalho e obrigados a contentar-se com sal\u00e1rios reduzidos. Mas n\u00e3o \u00e9 tudo: Mao chama a aten\u00e7\u00e3o para a viol\u00eancia racista desencadeada pelas autoridades do Sul e pelos bandos por elas tolerados ou encorajados e celebra \u00aba luta do povo negro americano contra a discrimina\u00e7\u00e3o racial e pela liberdade e igualdade de direitos\u00bb. Bloch critica a revolu\u00e7\u00e3o burguesa pelo facto de ela \u00abter limitado a igualdade \u00e0 pol\u00edtica\u00bb; em refer\u00eancia aos afro-americanos, Mao recorda que \u00aba maior parte deles est\u00e1 privada do direito de voto\u00bb.<\/p>\n<p>Ressoam tons an\u00e1logos no Vietname, onde est\u00e1 em curso uma grande luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional dirigida por Ho Chi Minh, que j\u00e1 em 1920 tinha acusado a Terceira Rep\u00fablica francesa nestes termos: \u00abA chamada justi\u00e7a indochinesa tem l\u00e1 dois pesos e duas medidas. Os anamitas n\u00e3o t\u00eam as mesmas garantias dos europeus e dos europeizados\u00bb. N\u00e3o s\u00f3 s\u00e3o \u00abvergonhosamente oprimidos e explorados\u00bb, como s\u00e3o tamb\u00e9m \u00abhorrivelmente martirizados\u00bb e sofrem \u00abtodas as atrocidades cometidas pelos bandidos do capital\u00bb. Como se v\u00ea, nos textos aqui citados de Mao e Ho Chi Minh n\u00e3o existe nem a desvaloriza\u00e7\u00e3o cara a Della Volpe da libertas minor nem a ilus\u00e3o (comum, com modalidades diferentes, a Bobbio, Della Volpe e Bloch), de que o capitalismo e o liberalismo apesar de tudo garantiriam a \u00abigualdade formal\u00bb ou a pr\u00f3pria \u00abigualdade pol\u00edtica\u00bb. Como vemos, na den\u00fancia das macrosc\u00f3picas cl\u00e1usulas de exclus\u00e3o da liberdade liberal, o marxismo \u00aboriental\u00bb empenha-se, compreensivelmente, bem mais do que o \u00abocidental\u00bb.<\/p>\n<p>Tornemos ao debate provocado por Bobbio em 1954. H\u00e1 uma interven\u00e7\u00e3o sensivelmente diferente da de Della Volpe. A pol\u00e9mica com o fil\u00f3sofo turin\u00eas agora desenvolveu-se assim: \u00abQuando e em que medida foram aplicados aos povos coloniais os princ\u00edpios liberais sobre os quais se disse estar assente o Estado ingl\u00eas oitocentista, modelo, creio, do regime liberal perfeito para quem raciocina como Bobbio?\u00bb. A verdade \u00e9 que a \u00abdoutrina liberal [\u2026] assenta numa b\u00e1rbara discrimina\u00e7\u00e3o entre as criaturas humanas\u00bb, que alastra n\u00e3o s\u00f3 nas col\u00f3nias mas tamb\u00e9m na pr\u00f3pria metr\u00f3pole, como demonstra o caso dos negros estado-unidenses, \u00abem t\u00e3o grande parte privados de direitos elementares, discriminados e perseguidos\u00bb. Nesta tomada de posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 nenhuma degrada\u00e7\u00e3o a libertas minor da \u00abliberdade formal\u00bb mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o se perde de vista o facto de que a negar o seu gozo a ilimitadas massas de homens tem sido historicamente o pr\u00f3prio Ocidente liberal. A interven\u00e7\u00e3o que acabamos de ver deve-se a um autor hoje quase totalmente esquecido, mas que responde pelo nome de Palmiro Togliatti, \u00e0 \u00e9poca secret\u00e1rio-geral do PCI.<\/p>\n<p>2. Nos anos sessenta e setenta do s\u00e9culo XX um equ\u00edvoco de massa caracteriza na Europa e nos Estados Unidos a esquerda de orienta\u00e7\u00e3o marxista: as grandes manifesta\u00e7\u00f5es a favor do Vietname entrela\u00e7am-se tranquilamente com a homenagem tributada a autores inclinados a considerar definitivamente superados os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional. Em 1966, na Dial\u00e9ctica negativa, Adorno liquida a tese hegeliana do \u00abesp\u00edrito do povo\u00bb, ou seja, do car\u00e1cter essencial da dimens\u00e3o e da quest\u00e3o nacional, como \u00abreaccion\u00e1ria\u00bb e regressiva, por estar afectada de \u00abnacionalismo\u00bb e ser \u00abprovinciana na \u00e9poca de conflitos mundiais e do potencial de uma organiza\u00e7\u00e3o mundial do mundo\u00bb. \u00c9\u2019 uma tomada de posi\u00e7\u00e3o que a posteriori tirava legitimidade \u00e0 guerra conduzida pela Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional da Arg\u00e9lia, um povo e um pa\u00eds indubiamente mais provincianos, mais atrasados e menos cosmopolitas que a Fran\u00e7a contra quem se tinham insurgido. Seja como for, Adorno colocava-se na impossibilidade de compreender as grandes lutas que mo entanto se iam desenrolando diante dos seus olhos, a come\u00e7ar pela guiada pela Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional do Vietname.<\/p>\n<p>De resto, vejamos como sobre este ponto argumenta o \u00abmarxismo oriental\u00bb. Tr\u00eas anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da Dial\u00e9ctica negativa morre Ho Chi Minh. No seu Testamento, depois de ter chamado os seus concidad\u00e3os \u00e0 \u00abluta patri\u00f3tica\u00bb e ao empenho \u00abpela salva\u00e7\u00e3o da p\u00e1tria\u00bb, no plano pessoal tra\u00e7a este balan\u00e7o: \u00abPor toda a vida, de corpo e alma servi a p\u00e1tria, servi a revolu\u00e7\u00e3o, servi o povo\u00bb. Por outro lado, j\u00e1 em 1960, por ocasi\u00e3o do seu septuag\u00e9simo anivers\u00e1rio, assim evocou o dirigente vietnamita o seu percurso intelectual e pol\u00edtico: \u00abAo princ\u00edpio o que me impeliu a crer em L\u00e9nine e na Terceira Internacional foi o patriotismo, e n\u00e3o o comunismo\u00bb. O que provocou grande emo\u00e7\u00e3o foram em primeiro lugar os apelos e os documentos que apoiavam e promoviam a luta de liberta\u00e7\u00e3o dos povos coloniais, sublinhando o seu direito de se constitu\u00edrem como Estados nacionais independentes: \u00abAs teses de L\u00e9nine [sobre a quest\u00e3o nacional e colonial] despertaram em mim uma grande como\u00e7\u00e3o, um grande entusiasmo, uma grande f\u00e9, e ajudaram-me a ver claramente os problemas. Foi t\u00e3o grande a minha alegria que at\u00e9 chorei\u00bb. No que diz respeito a Mao, basta pensar na declara\u00e7\u00e3o que fez em 1949, nas v\u00e9speras da funda\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Popular Chinesa: \u00abA nossa nunca mais ser\u00e1 uma na\u00e7\u00e3o sujeita ao insulto e \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o. Pusemo-nos de p\u00e9 [\u2026] A era em que o povo chin\u00eas era considerado incivilizado terminou agora\u00bb.<\/p>\n<p>Bem se compreende o comportamento dos dois grandes revolucion\u00e1rios. Por detr\u00e1s deles actua a li\u00e7\u00e3o de L\u00e9nine, que assim caracterizara o imperialismo: trata-se de um sistema em cujo \u00e2mbito algumas ditas \u00abna\u00e7\u00f5es modelo\u00bb atribuem a si mesmas \u00abo privil\u00e9gio exclusivo da forma\u00e7\u00e3o do Estado\u00bb, negando-o aos povos das col\u00f3nias; sim, \u00abpoucas na\u00e7\u00f5es eleitas\u00bb pretendem edificar o seu \u00abbem-estar\u00bb e estabelecer o seu pr\u00f3prio primado na base do saque e da domina\u00e7\u00e3o do resto da humanidade. Mas nesses anos a homenagem a Ho Chi Minh ou a Mao ou a Fidel n\u00e3o estimulava de modo nenhum uma distancia\u00e7\u00e3o do niilismo nacional absorvido na escola do marxismo ocidental.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o profunda desta atitude contradit\u00f3ria ser\u00e1 esclarecida de modo exemplar, uns dec\u00e9nios depois, por Hardt e Negri: \u00abDa \u00cdndia \u00e0 Arg\u00e9lia, de Cuba ao Vietname, o Estado \u00e9 o presente envenenado da liberta\u00e7\u00e3o nacional\u00bb. Sim, os palestinos podem contar com a nossa simpatia; mas a partir do momento em que \u00abse institucionalizarem\u00bb, j\u00e1 n\u00e3o se pode estar do \u00ablado deles\u00bb. O facto \u00e9 que \u00abno momento em que a na\u00e7\u00e3o come\u00e7a a formar-se e se torna um Estado soberano perdem-se as suas fun\u00e7\u00f5es progressistas\u00bb. Ou seja, s\u00f3 se pode simpatizar com os vietnamitas, com os palestinos ou com outros povos enquanto eles forem oprimidos e humilhados; s\u00f3 se pode apoiar uma luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional na medida em que ela n\u00e3o deixar de ser derrotada!<\/p>\n<p>3. Neste clima espiritual e pol\u00edtico, a cultura de orienta\u00e7\u00e3o marxista come\u00e7a a ser atra\u00edda e revirada do avesso por autores e correntes de pensamento que contudo deveriam ser vistos com uma certa dist\u00e2ncia critica. Irrompe em for\u00e7a Foucault com a sua an\u00e1lise da penetra\u00e7\u00e3o ou da omnipresen\u00e7a do poder n\u00e3o s\u00f3 nas institui\u00e7\u00f5es e nas rela\u00e7\u00f5es sociais mas j\u00e1 no dispositivo conceptual. \u00c9 um discurso que fascina pelo seu radicalismo e que ainda por cima permite ajustar contas com o poder e a ideocracia como fundamento do \u00absocialismo real\u00bb, cuja crise se manifesta cada vez com maior nitidez. Na realidade, o radicalismo n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 aparente, como se vira no seu contr\u00e1rio. O gesto de condena\u00e7\u00e3o de todas as rela\u00e7\u00f5es de poder, ali\u00e1s, de todas as formas de poder quer no \u00e2mbito da sociedade que no discurso sobre a sociedade torna bastante problem\u00e1tica ou imposs\u00edvel a \u00abnega\u00e7\u00e3o determinada\u00bb, a nega\u00e7\u00e3o de um \u00abconte\u00fado determinado\u00bb que, hegelianamente, \u00e9 o pressuposto de uma real transforma\u00e7\u00e3o da sociedade, o pressuposto da revolu\u00e7\u00e3o. Para mais, este esfor\u00e7o de identifica\u00e7\u00e3o e desmistifica\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio em todas as suas formas revela lacunas surpreendentes justamente onde o dom\u00ednio se manifesta em toda a sua brutalidade: s\u00ecm, bastante escassa ou inexistente \u00e9 a aten\u00e7\u00e3o reservada \u00e0 domina\u00e7\u00e3o colonial.<\/p>\n<p>Pode-se ir mais longe: o colonialismo e a ideologia colonial est\u00e3o largamente ausentes na hist\u00f3ria que Foucault reconstr\u00f3i do mondo moderno e contempor\u00e2neo. A julgar por esta, a \u00abapari\u00e7\u00e3o do racismo de Estado [deve-se situar] nos in\u00edcios do s\u00e9culo XX\u00bb. Quem tratou de p\u00f4r em causa esta cronologia foram com largu\u00edssima antecipa\u00e7\u00e3o os abolicionistas que j\u00e1 no s\u00e9culo XIX queimavam na pra\u00e7a p\u00fablica a Constitui\u00e7\u00e3o americana, rotulada como um pacto com o diabo pelo facto de consagrar a escravatura racial. Se n\u00e3o na hist\u00f3ria dos Estados Unidos, Foucault poderia ter-se concentrado na hist\u00f3ria da Confedera\u00e7\u00e3o secessionista ou da \u00c1frica do Sul, ou ent\u00e3o poderia ter feito uma considera\u00e7\u00e3o de car\u00e1cter geral: se analisarmos os pa\u00edses capitalistas juntamente com as col\u00f3nias por eles possu\u00eddas, podemos facilmente dar-nos conta de que o fen\u00f3meno denunciado por Ho Chi Minh em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Indochina tem um car\u00e1cter geral: estamos na presen\u00e7a de uma dupla legisla\u00e7\u00e3o, uma para a ra\u00e7a dos conquistadores, e a outra para a ra\u00e7a dos conquistados. Neste sentido o Estado racial acompanha como uma sombra a hist\u00f3ria do colonialismo no seu conjunto; s\u00f3 que este fen\u00f3meno se apresenta com maior evid\u00eancia nos Estados Unidos devido \u00e0 contiguidade espacial em que vivem as diferentes ra\u00e7as. Ali\u00e1s, quando em 1976 o autor franc\u00eas se p\u00f5e em busca de outra realidade para juntar ao Terceiro Reich sob a bandeira do \u00abracismo de Estado\u00bb, ele s\u00f3 consegue identific\u00e1-la na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o pa\u00eds que desde a sua funda\u00e7\u00e3o desempenhava um papel decisivo em promover a emancipa\u00e7\u00e3o dos povos coloniais e que em 1976 ainda estava em primeiro plano na den\u00fancia da politica anti-negra conduzida pela \u00c1frica do Sul!<\/p>\n<p>Tem-se observado que Foucault exerce uma consider\u00e1vel influ\u00eancia sobre Antonio Negri. Com efeito\u2026 Nos nossos dias, autorizados especialistas estado-unidenses de orienta\u00e7\u00e3o liberal descrevem a hist\u00f3ria do seu pa\u00eds como a hist\u00f3ria de uma Herrenvolk democracy, isto \u00e9, de uma democracia v\u00e1lida s\u00f3 para o Herrenvolk (\u00e9 significativo o recurso \u00e0 linguagem cara a Hitler), para o \u00abpovo dos senhores\u00bb e que, por outro lado, n\u00e3o hesita em escravizar os negros e em eliminar os peles-vermelhas da face da terra. A Empire, em contrapartida, fala em tom compungido de uma \u00abdemocracia americana\u00bb que rompe com a vis\u00e3o \u00abtranscendente\u00bb do poder, pr\u00f3pria da tradi\u00e7\u00e3o europeia.<\/p>\n<p>Chegados a este ponto, proponho uma esp\u00e9cie de experi\u00eancia intelectual ou, se quiserem, de jogo. Comparemos dois trechos de dois autores entre si sensivelmente diferentes, mas ambos empenhados em contrapor positivamente os Estados Unidos \u00e0 Europa. O primeiro celebra \u00aba experi\u00eancia americana\u00bb, sublinhando \u00aba diferen\u00e7a entre uma na\u00e7\u00e3o concebida na liberdade e devota ao princ\u00edpio de que todos os homens foram criados iguais e as na\u00e7\u00f5es do velho continente, que decerto n\u00e3o foram concebidas na liberdade\u00bb.<\/p>\n<p>E agora vejamos o segundo: \u00abO que era a democracia americana sen\u00e3o uma democracia assente no \u00eaxodo, em valores afirmativos e n\u00e3o dial\u00e9cticos, no pluralismo e na liberdade? Estes mesmos valores \u2013 juntamente com a ideia da nuova fronteira \u2013 n\u00e3o viriam alimentar constantemente o movimento expansivo do seu fundamento democr\u00e1tico, para al\u00e9m das abstrac\u00e7\u00f5es da na\u00e7\u00e3o, da etnia e da religi\u00e3o? [\u2026] Quando Hannah Arendt escrevia que a Revolu\u00e7\u00e3o americana era superior \u00e0 francesa dado que a Revolu\u00e7\u00e3o americana se devia entender como uma busca sem fim da liberdade pol\u00edtica, enquanto a Revolu\u00e7\u00e3o francesa tinha sido uma luta limitada em torno da escassez e da desigualdade, exaltava um ideal de liberdade que os europeus haviam perdido mas que fariam ganhar terreno nos Estados Unidos\u00bb.<\/p>\n<p>Qual dos dois trechos aqui citados \u00e9 mais apolog\u00e9tico? \u00c9 dif\u00edcil diz\u00ea-lo, embora o segundo pare\u00e7a mais inspirado e mais l\u00edrico: deve-se \u00e0 pluma de Negri (e de Hardt), enquanto o primeiro \u00e9 de Leo Strauss, o autor de refer\u00eancia dos neoconservadores americanos!<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=1812\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"color: #0000ff;\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=1812<\/span><\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiario.info\n\u00a0\n\n\n\u00a0\n\u00a0\n\n\n\nIII Encontro Civiliza\u00e7\u00e3o ou Barb\u00e1rie\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/990\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[89],"tags":[],"class_list":["post-990","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c102-civilizacao-ou-barbarie"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-fY","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/990","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=990"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/990\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=990"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=990"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=990"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}