{"id":9904,"date":"2015-11-18T13:23:20","date_gmt":"2015-11-18T16:23:20","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9904"},"modified":"2015-12-03T11:15:11","modified_gmt":"2015-12-03T14:15:11","slug":"lutas-dos-povos-africanospela-emancipacao-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9904","title":{"rendered":"Lutas dos povos africanospela emancipa\u00e7\u00e3o social*"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci5.googleusercontent.com\/proxy\/f3V9A556FOL4dMtnikYXbW9yPgDlvG09ulnDbZUYqSUH3oSTUjqWFpYGWMvTRGg_dn8vkVwnfbkbj8_02ji_81kNjfHmvS_o8g=s0-d-e1-ft#http:\/\/www.odiario.info\/b2-img\/clp_11__01_01_01.jpg\" alt=\"imagem\" \/>Carlos Lopes Pereira<\/p>\n<p>A partir de final dos anos 50 e, sobretudo, de 1960, sucederam-se as independ\u00eancias africanas. N\u00e3o sem que, na maioria dos casos, as pot\u00eancias coloniais tenham recorrido \u00e0 viol\u00eancia e a manobras de todo o tipo visando impedir a liberta\u00e7\u00e3o. Em v\u00e1rios casos, as independ\u00eancias foram conquistadas pela luta armada. Noutros casos, nesses anos 60, as independ\u00eancias africanas foram \u00abconcedidas\u00bb <!--more-->pacificamente pelos governos coloniais a partidos cujos dirigentes renunciaram \u00e0 soberania plena e aceitaram trilhar a via neocolonial.<\/p>\n<p>Com o derrubamento da ditadura fascista em Portugal, a 25 de Abril de 1974, tornou-se inelut\u00e1vel o r\u00e1pido desfecho do processo de independ\u00eancia dos novos pa\u00edses, apesar da oposi\u00e7\u00e3o das for\u00e7as reaccion\u00e1rias portuguesas e africanas, apoiadas pelo imperialismo norte-americano. O nascimento dos novos estados, em especial os de Angola e Mo\u00e7ambique, contribuiu para acelerar importantes transforma\u00e7\u00f5es progressistas na \u00c1frica Austral. O mapa pol\u00edtico da \u00c1frica ainda sofre altera\u00e7\u00f5es quando, em 1993, a Eritreia se separa da Eti\u00f3pia e, em 2011, o Sud\u00e3o do Sul do Sud\u00e3o. A independ\u00eancia trouxe progressos gigantescos, em todos os dom\u00ednios, aos povos e pa\u00edses da \u00c1frica.<\/p>\n<p>H\u00e1 em Portugal pouca informa\u00e7\u00e3o sobre as lutas anti-imperialistas dos povos da \u00c1frica. Ao contr\u00e1rio do acontece em rela\u00e7\u00e3o a processos transformadores em outras partes do mundo, da Am\u00e9rica Latina \u00e0 \u00c1sia, passando pela pr\u00f3pria Europa.<\/p>\n<p>N\u00e3o admira, pois, que entre os comunistas e outros revolucion\u00e1rios surjam quest\u00f5es sobre a situa\u00e7\u00e3o dos combates dos africanos pela sua emancipa\u00e7\u00e3o social. Qual o balan\u00e7o do trajecto dos modernos estados africanos? Por que falharam em \u00c1frica experi\u00eancias que proclamaram o socialismo como objectivo? Quais as perspectivas de surgimento de regimes progressistas no continente?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel encontrar respostas \u00fanicas, e muito menos f\u00e1ceis, para tais interroga\u00e7\u00f5es. Por um lado, porque a \u00c1frica \u00e9 diferenciada, de regi\u00e3o para regi\u00e3o, de pa\u00eds para pa\u00eds e, por vezes, no seio de cada um dos seus 54 estados. Existem, como em outras paragens, diferen\u00e7as enormes, de Norte a Sul, do Oeste ao Leste, quanto \u00e0 geografia, aos recursos naturais, \u00e0 popula\u00e7\u00e3o \u2013de grande diversidade cultural \u00e9tnica, lingu\u00edstica, religiosa \u2013, \u00e0 hist\u00f3ria, ao percurso pol\u00edtico, \u00e0 economia.Por outro lado, h\u00e1 m\u00faltiplos factores, internos e externos, por vezes imprevis\u00edveis, que condicionam a evolu\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses, na \u00c1fricacomo nos outros continentes.<\/p>\n<p>Apesar dessas diversidade e imprevisibilidade, pode-se contudo tentar esbo\u00e7ar tra\u00e7os comuns e evidenciar tend\u00eancias no desenvolvimento contempor\u00e2neo das sociedades africanas.<\/p>\n<p>Na segunda metade do s\u00e9culo XX, a \u00c1frica conheceu um amplo e impetuoso movimento de liberta\u00e7\u00e3o nacional.<br \/>\nDesde o fim da 2.\u00aa Guerra Mundial existia um contexto internacional favor\u00e1vel ao movimento independentista dos povos africanos sob dom\u00ednio colonial das pot\u00eancias europeias. A derrota do nazi-fascismo, o prest\u00edgio da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e do socialismo e, pouco depois, ainda na d\u00e9cada de 40, os processos independentistasna \u00cdndia e na Indon\u00e9sia, a luta her\u00f3ica dos vietnamitas e a vit\u00f3ria dos revolucion\u00e1rios na Rep\u00fablica Popular da China anunciaram tempos novos. E contribu\u00edram para um ainda maior encorajamento \u00e0 secular resist\u00eancia dos africanos contra a domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o estrangeiras, mostrando que a emancipa\u00e7\u00e3o dos povos era inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Assim, a partir de final dos anos 50 e, sobretudo, de 1960, sucederam-se as independ\u00eancias africanas. N\u00e3o sem que, na maioria dos casos, as pot\u00eancias coloniais tenham recorrido \u00e0 viol\u00eancia e a manobras de todo o tipo visando impedir a liberta\u00e7\u00e3o. Por exemplo, na Guin\u00e9 (Conakry), em 1958, quando os guineenses, mobilizados pelo PDG(Partido Democr\u00e1tico da Guin\u00e9) e pelo seu l\u00edder, Ahmed S\u00e9kouTour\u00e9, votaram \u00abN\u00e3o\u00bba uma proposta de solu\u00e7\u00e3o neocolonial apresentada pela Fran\u00e7a, presidida pelo general de Gaulle, os franceses abandonaram o territ\u00f3rio deixando os cofres da administra\u00e7\u00e3o vazios, levando t\u00e9cnicos e funcion\u00e1rios e retirando m\u00e1quinas e equipamentos com o prop\u00f3sito de jugular logo \u00e0 nascen\u00e7a a jovem rep\u00fablica. Ou no Congo, onde os Estados Unidos e a B\u00e9lgica, ex-pot\u00eancia colonial, sabotaram desde os primeiros dias da independ\u00eancia, em 1960, o governo progressista liderado por Patrice Lumumba, derrubando-o, fomentando a secess\u00e3o da prov\u00edncia do Katanga, intervindo militarmente e assassinando barbaramente o her\u00f3i congol\u00eas. Ou na Arg\u00e9lia, cujo direito \u00e0 independ\u00eancia a Fran\u00e7a recusou-se a reconhecer, levando os patriotas argelinos, sob a direc\u00e7\u00e3o da FLN (Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional), a pegar em armas e travar uma vitoriosa guerra libertadora (1954-1962).<\/p>\n<p>Noutros casos, nesses anos 60, as independ\u00eancias africanas foram \u00abconcedidas\u00bb pacificamente pelos governos coloniais a partidos cujos dirigentes renunciaram \u00e0 soberania plena e aceitaram trilhar a via neocolonial.Mantiveram-se assim dependentes, pol\u00edtica e economicamente, das classes dominantes das antigas metr\u00f3poles e ao servi\u00e7o de sectores privilegiados das respectivas burguesias nacionais, garantindo o prosseguimento da explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra barata e da pilhagem das riquezas dos seus pa\u00edses.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s col\u00f3nias \u00abportuguesas\u00bb de Angola, Guin\u00e9, Mo\u00e7ambique, Cabo Verde e S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe, a natureza criminosa da ditadura salazarista \u2013 que, logo no come\u00e7o da d\u00e9cada de 60, rejeitou repetidas ofertas dos nacionalistas para abrir conversa\u00e7\u00f5es sobre as independ\u00eancias dos territ\u00f3rios ent\u00e3o sob dom\u00ednio portugu\u00eas \u2013for\u00e7ou tr\u00eas guerras que provocaram milhares de mortos e feridos ao longo de mais de uma d\u00e9cada, adiando a emancipa\u00e7\u00e3o desses territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>Em 1961, em Angola, o MPLA (Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola), de Agostinho Neto, desencadeou a luta armada de liberta\u00e7\u00e3o nacional. O mesmo caminho seguiram, em 1963, o PAIGC (Partido Africano para a Independ\u00eancia da Guin\u00e9 e Cabo Verde), liderado por Am\u00edlcar Cabral, e, em 1964, a Frelimo (Frente de Liberta\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique), encabe\u00e7ada por Eduardo Mondlane e, mais tarde, por Samora Machel.<\/p>\n<p>Com o derrubamento da ditadura fascista em Portugal, a 25 de Abril de 1974, tornou-se inelut\u00e1vel o r\u00e1pido desfecho do processo de independ\u00eancia dos novos pa\u00edses, concretizado no ano seguinte, apesar da oposi\u00e7\u00e3o das for\u00e7as reaccion\u00e1rias portuguesas e africanas, apoiadas pelo imperialismo norte-americano.<\/p>\n<p>Com a morte do colonialismo senil portugu\u00eas, o nascimento dos novos estados, em especial os de Angola e Mo\u00e7ambique, contribuiu para acelerar importantes transforma\u00e7\u00f5es progressistas na \u00c1frica Austral.Com o apoio do MPLA e da Frelimo, agora no poder, os patriotas da ZAPU e ZANU, no Zimbabw\u00e9, em 1980, e da SWAPO, na Nam\u00edbia, em 1990, de armas nas m\u00e3os, liquidaram o dom\u00ednio racista rodesiano e sul-africano e alcan\u00e7aram tamb\u00e9m a independ\u00eancia. E, na pr\u00f3pria \u00c1frica do Sul, o apartheid foi derrotado e, ap\u00f3s d\u00e9cadas de resist\u00eancia e combate, o ANC (Congresso Nacional Africano), de Nelson Mandela, chegou ao poder, em 1994, com amplo apoio popular, atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>O mapa pol\u00edtico da \u00c1frica ainda sofre altera\u00e7\u00f5es quando, em 1993, a Eritreia separa-se da Eti\u00f3pia e, em 2011, o Sud\u00e3o do Sul do Sud\u00e3o. Em ambos os casos passando por cima do compromisso da OUA (Organiza\u00e7\u00e3o da Unidade Africana), criada em 1963, a que sucedeu a Uni\u00e3o Africana, em 2002, de n\u00e3o mexer nas fronteiras herdadas do colonialismo.<\/p>\n<p>Hoje, o Sahara Ocidental \u00e9 a \u00faltima col\u00f3nia em \u00c1frica. Marrocos ocupou o territ\u00f3rio em 1975, ap\u00f3s a retirada da Espanha. Apesar dos saharauis e da sua Frente Polis\u00e1rio terem proclamado no ano seguinte a Rep\u00fablica \u00c1rabe Saharaui Democr\u00e1tica, os marroquinos continuam a ocupar ilegalmente o territ\u00f3rio, negando ao povo o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Progresso hist\u00f3rico<\/p>\n<p>Ao longo destas d\u00e9cadas, a independ\u00eancia trouxe progressos gigantescos, em todos os dom\u00ednios, aos povos e pa\u00edses da \u00c1frica.<br \/>\nApesar do ponto de partida\u2013 um subdesenvolvimento generalizado, em grande parte resultante de s\u00e9culos de escravatura e de tr\u00e1fico de escravos, de trabalho for\u00e7ado, de explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra barata, do saque das riquezas naturais. Apesar das guerras, dos conflitos \u00e9tnicos, dos golpes de estado e da instabilidade pol\u00edtica, das doen\u00e7as, da pobreza extrema de largos sectores da popula\u00e7\u00e3o, do analfabetismo. Apesar, em poucas palavras, dos efeitos nefastos da domina\u00e7\u00e3o imperialista directa (colonialismo) ou indirecta (neocolonialismo).<\/p>\n<p>Apesar de tudo isso, e n\u00e3o foi pouco, os africanos edificaram estados nacionais, forjaram e consolidaram as suas na\u00e7\u00f5es.Promoveram a cultura, refor\u00e7aram a sua identidade. De modo diferenciado de pa\u00eds para pa\u00eds, organizaram e dinamizaram as suas economias, que cresceram a taxas elevadas. Melhoraram as condi\u00e7\u00f5es alimentares, sanit\u00e1rias e educacionais das popula\u00e7\u00f5es. Levaram \u00e1gua pot\u00e1vel e electricidade a cidades, vilas e aldeias. Formaram t\u00e9cnicos. Constru\u00edram hospitais, escolas, universidades, habita\u00e7\u00e3o, barragens, estradas, portos e aeroportos. Criaram institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f3micas supra-nacionais e intensificaram a coopera\u00e7\u00e3o internacional. Planificam a integra\u00e7\u00e3o continental e o desenvolvimento a m\u00e9dio e longo prazo.<\/p>\n<p>Nos anos mais recentes, a \u00c1frica passou de \u00abcontinente perdido\u00bb a \u00abterra de oportunidades\u00bb. \u00c9 uma regi\u00e3o de r\u00e1pido crescimento, de enormes riquezas naturais, com uma popula\u00e7\u00e3o de mais mil milh\u00f5es de habitantes, um imenso mercado que desperta a cobi\u00e7a das grandes pot\u00eancias capitalistas em crise.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de estranhar, pois, nos nossos dias, o renovado \u00abinteresse\u00bb do imperialismo por \u00c1frica.<\/p>\n<p>Procurando responder \u00e0 crise estrutural em que o capitalismo se afunda, as pot\u00eancias imperiais refor\u00e7am a explora\u00e7\u00e3o e a pilhagem, tamb\u00e9m no continente africano, multiplicando inger\u00eanciase interven\u00e7\u00f5es militares, fomentando guerras, conflitos e divis\u00f5es,no quadro da sua estrat\u00e9gia de dom\u00ednio global.<\/p>\n<p>S\u00e3o bem conhecidos aspectos desta pol\u00edtica militarista em \u00c1frica:a agress\u00e3o \u00e0 L\u00edbia, capitaneada pelos Estados Unidos e pela NATO, e a instala\u00e7\u00e3o do caos no pa\u00eds;a instala\u00e7\u00e3o em diferentes regi\u00f5es de bases militares, em especial norte-americanas e francesas; a colabora\u00e7\u00e3o do Africom, o comando militar dos EUA para \u00c1frica, com dezenas de estados (em forma\u00e7\u00e3o, espionagem, treino, opera\u00e7\u00f5es conjuntas, facilidades em portos e aeroportos, venda de armamento); as guerras do Mali \u00e0 Som\u00e1lia, da Rep\u00fablica Centro Africana ao Sud\u00e3o do Sul, com interven\u00e7\u00e3o de tropas estrangeiras; a cria\u00e7\u00e3o, financiamento e armamento do \u00abterrorismo isl\u00e2mico\u00bb, um instrumento \u00e0 medida das manobras desestabilizadoras dos EUA e seus aliados.<\/p>\n<p>Face ao intervencionismo belicista estado-unidenseem \u00c1frica, a par da coniv\u00eancia no plano econ\u00f3mico existente com os governos africanos \u00abamigos\u00bb, h\u00e1 quem justamente designeeste processo como o de uma aut\u00eantica recoloniza\u00e7\u00e3o do continente.<\/p>\n<p>Op\u00e7\u00f5es progressistase perspectivas actuais<\/p>\n<p>Ao longo do per\u00edodo de mais de meio s\u00e9culo devida dos modernos estados africanos, sempre existiram for\u00e7as pol\u00edticase personalidades destacadas defendendoideais progressistas e lutando por op\u00e7\u00f5es anti-imperialistas. E houve, em diversos pa\u00edses e em diferentes momentos, experi\u00eancias de governa\u00e7\u00e3o mais ou menos duradouras cujo prop\u00f3sito declarado foi o da constru\u00e7\u00e3o do socialismo.<\/p>\n<p>Na \u00c1frica Ocidental, nos anos 60, o gan\u00eas KwameNkrumah, o congol\u00eas Patrice Lumumba ou o maliano ModiboKeita, combatentes pela independ\u00eancia dos seus pa\u00edses, que chegaram a governar, eram homens progressistas que pugnaram pela unidade africana e pela constru\u00e7\u00e3o de sociedades desenvolvidas e sem explora\u00e7\u00e3o. Mais tarde, nos anos 80, um jovem capit\u00e3o, Thomas Sankara, tomou o poder no Alto Volta, mudou o nome do pa\u00eds para Burkina Faso (\u201cterra dos homens dignos\u201d) e governou com apoio popular, antes de ser derrubado e assassinado. De orienta\u00e7\u00e3o progressista foram tamb\u00e9m o primeiro presidente argelino, Ahmed Ben Bella, ou o l\u00edder eg\u00edpcio Gamal Abdel Nasser, no Norte de \u00c1frica, ou o presidente tanzaniano JuliusNyerere, na \u00c1frica Oriental. Como combatentes anti-imperialistas destacaram-se, igualmente, Nelson Mandela, na \u00c1frica do Sul, Robert Mugabe, no Zimbabw\u00e9, ou Sam Nujoma, na Nam\u00edbia, chegados ao poder j\u00e1 nos anos 80 e 90.<\/p>\n<p>L\u00edderes dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional das col\u00f3nias \u00abportuguesas\u00bb, Am\u00edlcar Cabral, Agostinho Neto, mais tarde Samora Machel, eram dirigentes revolucion\u00e1rios. Ainda durante a guerra emancipadora, compreenderam que n\u00e3o bastava aos povos africanos conquistarem s\u00f3 um hino e uma bandeira. Para al\u00e9m da independ\u00eancia, era necess\u00e1rio continuar e aprofundar a revolu\u00e7\u00e3o nacional, construir sociedades desenvolvidas, sem explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem. Cabral defendeu no in\u00edcio dos anos 70, pouco tempo antes de ser assassinado por agentes a soldo do colonialismo portugu\u00eas, que a op\u00e7\u00e3o que se colocava aos dirigentes dos jovens estados africanos era o neocolonialismo ou o socialismo.<\/p>\n<p>A partir da segunda metade da d\u00e9cada de 70, na Angola dirigida pelo MPLA e pelo presidente Agostinho Neto e no Mo\u00e7ambique com a Frelimo e o presidente Samora Machel na governa\u00e7\u00e3o, as experi\u00eancias de constru\u00e7\u00e3o acelerada de sociedades socialistas n\u00e3o triunfaram. Para tal, entre outras causas, internas e externas, contribuiu como factor determinante a guerra \u2013 literalmente \u2013 que o imperialismo norte-americano, associando-se sem vergonhaao regime do apartheid, moveu contra os dois jovens estados. Invas\u00f5es e agress\u00f5es militares, apoio a grupos armados reaccion\u00e1rios como a Unita e a FNLA, em Angola, e a Renamo em Mo\u00e7ambique, desestabiliza\u00e7\u00e3o permanente, cria\u00e7\u00e3o de dificuldades econ\u00f3micas \u2013 foi a \u00abreceita\u00bbadoptada para esmagar as aspira\u00e7\u00f5es dos povos angolano e mo\u00e7ambicano \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o social.<br \/>\nEstas inger\u00eancias imperiais est\u00e3o longe de ser casos isolados. \u00c1lvaro Cunhal, numa comunica\u00e7\u00e3o apresentada em finais de 2003 num encontro internacional organizado pela Funda\u00e7\u00e3o RodneyArismendi, do Uruguai, denunciava a utiliza\u00e7\u00e3o pelo imperialismo, designadamente pelos Estados Unidos, \u00e0 escala mundial, de \u00abcolossais meios materiais e ideol\u00f3gicos, a repress\u00e3o brutal contra os trabalhadores e os povos em luta, colossais meios financeiros, econ\u00f3micos, pol\u00edticos e militares contra as revolu\u00e7\u00f5es, bloqueios, sabotagens, atentados, conspira\u00e7\u00f5es, ac\u00e7\u00f5es terroristas e guerras declaradas e n\u00e3o declaradas\u00bb.<\/p>\n<p>De um modo geral, entre as principais raz\u00f5es das dificuldades com que se depararam os regimes progressistas africanos, as quais diferem de caso para caso, destaca-se \u00e9 certo a permanente ac\u00e7\u00e3o de sapa do imperialismo (corrompendo as classes dirigentes, instigando divis\u00f5es \u00e9tnicas e religiosas, fomentando descontentamentos, inspirando ou promovendo golpes de estado de forma a garantir os seus interesses).Mas existem causas internas: a corrup\u00e7\u00e3o de sectores da burguesia nacional e a sua op\u00e7\u00e3o deliberada por \u00absolu\u00e7\u00f5es\u00bb neocoloniais; a prioridade \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o de problemas imediatos, numa situa\u00e7\u00e3o de grande debilidade econ\u00f3mica; a estrutura da sociedade, sem uma classe trabalhadora forte e organizada e com classes e camadas sociais pr\u00e9-capitalistas; e a inexist\u00eancia de partidos pol\u00edticos \u00abarmados\u00bb com uma ideologia revolucion\u00e1ria validada pela realidade.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 90, com a destrui\u00e7\u00e3o da URSS,a derrota do socialismo em v\u00e1rios pa\u00edses da Europa e o recuo do movimento comunista e oper\u00e1rio, a \u00c1frica independente e progressista perdeu um aliado principal. A exist\u00eancia de um campo socialista forte, por si s\u00f3,era um factor fundamental de dissuas\u00e3o e de conten\u00e7\u00e3o do imperialismo. Al\u00e9m disso, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Cuba, a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3, a China e outros pa\u00edses socialistas apoiaram e auxiliaram sempre, pol\u00edtica e economicamente, na medida das suas possibilidades, quer a luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional dos povos africanos quer a reconstru\u00e7\u00e3o nacional dos seus jovens estados.<\/p>\n<p>Hoje, em novo contexto mundial marcado pela instabilidade e incerteza, em resultado da escalada agressiva do imperialismo, em \u00c1frica a maioria dos pa\u00edses continua a apresentar altas taxas de crescimento econ\u00f3mico. Mas, em muitos desses estados, as op\u00e7\u00f5es neoliberais dos partidos que representam os interesses das classes dominantes no poder, atoladas na corrup\u00e7\u00e3o, provocam profundas desigualdades sociais e o aumento galopante de desemprego, pobreza, criminalidade.<\/p>\n<p>Factores que podem contrariar estas tend\u00eancias negativas s\u00e3o o refor\u00e7o dos sindicatos de classe e a emerg\u00eancia de movimentos e organiza\u00e7\u00f5es sociais, animados sobretudo por jovens, que contestam cada vez mais a opress\u00e3o nacional, a explora\u00e7\u00e3o, a corrup\u00e7\u00e3o e a submiss\u00e3o dos governantes a interesses estrangeiros.<\/p>\n<p>Uma outra nota positiva \u00e9 trazida pela recente cria\u00e7\u00e3o, pelo grupode pa\u00edses emergentes denominado BRICS (Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul) de um banco de desenvolvimento, que pode ser uma alternativa para os estados africanos ao Banco Mundial e ao Fundo Mundial Internacional, instrumentos de dom\u00ednio do imperialismo.<\/p>\n<p>Igualmente a coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica mutuamente vantajosa entre a \u00c1frica e a Rep\u00fablica Popular da China \u2013 os chineses s\u00e3o j\u00e1 os primeiros parceiros comerciais do continente\u2013 pode contribuir para uma menor depend\u00eancia dos estados africanos.<\/p>\n<p>H\u00e1 perspectivas, pois, de ocorrerem a curto ou m\u00e9dio prazo novas transforma\u00e7\u00f5es progressistas em \u00c1frica?<\/p>\n<p>Numa entrevista ao jornal cabo-verdiano Tribuna, em 1989, \u00c1lvaro Cunhal pronunciou-sesobre a possibilidade de uma via de desenvolvimento n\u00e3o capitalista para os pa\u00edses da \u00c1frica, considerando-a n\u00e3o s\u00f3 poss\u00edvel como \u00aba \u00fanica op\u00e7\u00e3o a m\u00e9dio e a longo prazo para que os povos africanos possam assegurar o desenvolvimento econ\u00f3mico e social correspondente aos seus interesses e aspira\u00e7\u00f5es\u00bb.<\/p>\n<p>O ent\u00e3o secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista Portugu\u00eas afirmou que \u00abnum mundo em que se acentua a divis\u00e3o internacional do trabalho com peso dominante da alta finan\u00e7a e das grandes empresas capitalistas multinacionais, o desenvolvimento capitalista em pa\u00edses cujo est\u00e1dio de desenvolvimento econ\u00f3mico \u00e9 extraordinariamente mais atrasado significa a cria\u00e7\u00e3o ou refor\u00e7o de la\u00e7os neocolonialistas e fortes limita\u00e7\u00f5es \u00e0 independ\u00eancia e soberania nacionais\u00bb. E avisou que o caminho para o socialismo \u00e9 extremamente complexo, tanto por factores objectivos como subjectivos, tanto por factores internos como externos, de natureza econ\u00f3mica, social e pol\u00edtica: \u00abN\u00e3o ser\u00e1 certamente adequado pretender copiar qualquer \u201cmodelo\u201d de constru\u00e7\u00e3o de socialismo em condi\u00e7\u00f5es completamente diferentes. A grande tarefa que se coloca a for\u00e7as que ponham como objectivo a constru\u00e7\u00e3o do socialismo nos seus pa\u00edses \u00e9 descobrir com criatividade revolucion\u00e1ria os caminhos e solu\u00e7\u00f5es para, ainda que num processo irregular, construir uma sociedade sem explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem, uma sociedade donde sejam progressivamente eliminadas a opress\u00e3o e as injusti\u00e7as sociais\u00bb.<\/p>\n<p>Palavras que surpreendem pela actualidade e validade, em \u00c1frica e em todo o mundo.<br \/>\n*Publicado em \u201cO Militante\u201d, n.\u00ba 339, Nov.\/Dez. 2015<\/p>\n<blockquote data-secret=\"t8CtNVr6d0\" class=\"wp-embedded-content\"><p><a href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3827\">Anima\u00e7\u00e3o do Manifesto Comunista<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3827\/embed#?secret=t8CtNVr6d0\" data-secret=\"t8CtNVr6d0\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;Anima\u00e7\u00e3o do Manifesto Comunista&#8221; &#8212; PCB - Partido Comunista Brasileiro\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Carlos Lopes Pereira A partir de final dos anos 50 e, sobretudo, de 1960, sucederam-se as independ\u00eancias africanas. 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