{"id":9906,"date":"2015-11-18T13:30:49","date_gmt":"2015-11-18T16:30:49","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9906"},"modified":"2015-12-03T11:15:05","modified_gmt":"2015-12-03T14:15:05","slug":"paris-terror-e-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9906","title":{"rendered":"Paris, terror e humanidade"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2015\/11\/mauro-iasi-paris-humanidade-terror-blog-da-boitempo.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><em>Por\u00a0Mauro Luis Iasi.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cQuando nascer o dia<br \/>\ne limparmos da varanda<br \/>\nos morcegos mortos<br \/>\nteremos que ter todo o cuidado<br \/>\npara n\u00e3o estar entre eles\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>(Mauro Iasi.\u00a0Sobre o Trabalho da Civiliza\u00e7\u00e3o)<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Devemos iniciar com a solidariedade e respeito ao sofrimento das v\u00edtimas e aos familiares daqueles que sofreram os ataques coordenados ocorridos em Paris. Nossa inten\u00e7\u00e3o de refletir analiticamente sobre eventos como estes n\u00e3o pode nos deixar indiferentes \u00e0 dor daqueles que s\u00e3o atingidos, feridos ou perdem sua vida como pe\u00e7as de um jogo que nem sempre, ou quase nunca, compreendem de fato.<\/p>\n<p>O presidente dos EUA, Barack Obama, disse em sua mensagem que se solidariza \u00e0 Fran\u00e7a, pois era uma de suas mais antigas aliadas e que os atentados foram contra \u201cas ideias e valores que constituem a base de nossas sociedades\u201d, enfim, um ataque \u201ccontra a humanidade\u201d. Um site especializado em abaixo assinados, certamente com a melhor das inten\u00e7\u00f5es, expressa com estas palavras sua indigna\u00e7\u00e3o diante dos atentados:<\/p>\n<p>\u201cEste foi mais do que um\u00a0<em>ato monstruoso de \u00f3dio<\/em>. Os ataques tiveram a inten\u00e7\u00e3o de desestabilizar a base de nossas sociedades. Foram um ataque \u00e0 nossa humanidade compartilhada, toler\u00e2ncia, liberdade e respeito,\u00a0<em>valores que simbolizam o mundo pelo qual nosso movimento tem lutado<\/em><b>\u201c<\/b>.<\/p>\n<p>O que nos chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 um paradoxo reiterado em situa\u00e7\u00f5es como essa, isto \u00e9, se o ataque foi contra a humanidade, quem os realizou n\u00e3o faz parte da humanidade? Nesta dire\u00e7\u00e3o, o segundo coment\u00e1rio \u00e9 mais preciso que o primeiro, uma vez que deixa claro que se trata de \u201cnossa humanidade\u201d. O advers\u00e1rio, o inimigo, o terrorista, torna-se um outro externo ao campo da humanidade, ou em outros termos preferidos, por exemplo, por Huntington, s\u00e3o de outra civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo este senhor, n\u00e3o haveria uma compreens\u00e3o un\u00e2nime sobre quantas civiliza\u00e7\u00f5es comporiam o mundo, oscilando entre 7 e 23, mas se conformaria um \u201cconsenso razo\u00e1vel, acerca da afirma\u00e7\u00e3o sobre a exist\u00eancia de doze civiliza\u00e7\u00f5es principais, entre elas sete que j\u00e1 encontraram seu fim e cinco que persistem (chinesa, japonesa, indiana, isl\u00e2mica e ocidental). O problema, ainda segundo Huntington, \u00e9 que a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, pelo seu sucesso econ\u00f4mico e superioridade moral, est\u00e1 cercada pela migra\u00e7\u00e3o que se imp\u00f5e pelo n\u00famero e insidiosamente iria minando os valores, a l\u00edngua e os padr\u00f5es de vida da sociedade ocidental que entra em decl\u00ednio e tem o direito de se defender. Para ele o quadro conjuntural da pol\u00edtica mundial configura o que chama de uma \u201cguerra de civiliza\u00e7\u00f5es\u201d. Diz Huntington:<\/p>\n<p>\u201cO crescimento natural da popula\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos \u00e9 baixo e praticamente zero na Europa. Os migrantes t\u00eam altas taxas de fertilidade e por isso respondem pela maior parte do futuro crescimento populacional nas sociedades ocidentais. Em consequ\u00eancia, os ocidentais cada vez mais receiam \u201cestarem atualmente sendo invadidos, n\u00e3o por ex\u00e9rcitos e tanques, mas por migrantes que falam outros idiomas, adoram outros deuses, pertencem a outras culturas e, temem eles, ir\u00e3o tomar seus empregos, ocupar suas terras, viver \u00e0 custa do sistema de previd\u00eancia social e amea\u00e7ar seu estilo de vida\u201d.<br \/>\n(HUNTINGTON, S. P.\u00a0<em>O Choque de civiliza\u00e7\u00f5es e a recomposi\u00e7\u00e3o da ordem mundial,<\/em>\u00a0Rio de Janeiro: Objetiva, 1997, p. 249).<\/p>\n<p>Apesar de alguns expressarem tais ideias conservadoras orgulhosos de seu reacionarismo, os ide\u00f3logos da ordem burguesa mundial recepcionam tais afirma\u00e7\u00f5es com inequ\u00edvoco desconforto. N\u00e3o pelo conte\u00fado que carregam e que fundamenta a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas no campo do ordenamento jur\u00eddico e geopol\u00edtico, mas porque revelam sem media\u00e7\u00f5es a constata\u00e7\u00e3o que se trata de uma guerra contra \u201coutras civiliza\u00e7\u00f5es\u201d, seus valores e padr\u00f5es de exist\u00eancia. O trabalho da ideologia \u00e9 encobrir esta constata\u00e7\u00e3o brutal , atenuando-a, e para tanto n\u00e3o se trataria de uma luta entre \u201cciviliza\u00e7\u00f5es\u201d, mas da defesa \u201cda civiliza\u00e7\u00e3o\u201d e dos valores consensuais que caracterizam a \u201chumanidade\u201d contra minorias que ao atacar estes valores e esta civiliza\u00e7\u00e3o colocam-se fora da condi\u00e7\u00e3o civilizada e humana (podendo, por isso mesmo, ser tratados como se n\u00e3o fossem humanos).<\/p>\n<p>Toda a fala de Francois Hollande vai nesta dire\u00e7\u00e3o, atacaram \u201cnossa forma de vida\u201d, nossos \u201cvalores\u201d, e ao proceder desta forma, atacam \u201ctoda a humanidade\u201d. Os pr\u00f3prios sujeitos dos atentados, caso se confirme o que hoje parece ser a maior probabilidade, isto \u00e9, que tenham partido do Estado Isl\u00e2mico (ISIS), refor\u00e7am esta cortina ideol\u00f3gica ao afirmar em seu comunicado que atacaram s\u00edmbolos de uma forma de vida \u201cdegradada e decadente\u201d, marcada pela frivolidade e o pecado, arrogando a si mesmo a tarefa de empunhar a espada contra os \u201cinfi\u00e9is.<\/p>\n<p>Nesta dimens\u00e3o o discurso ideol\u00f3gico se presta a uma outra finalidade, reduzir as a\u00e7\u00f5es \u00e0 dimens\u00e3o do \u00f3dio irracional, como tal, n\u00e3o se exige nenhum esfor\u00e7o de compreens\u00e3o mais profundo de causas e determina\u00e7\u00f5es, \u00e9 apenas a irracionalidade das paix\u00f5es, do fundamentalismo, da f\u00e9 cega, da intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Caso se confirme a autoria do estado Isl\u00e2mico, ou de subgrupos a ele associados, estas determina\u00e7\u00f5es precisam mesmo ser ocultadas para o bem da ordem, na Fran\u00e7a e na m\u00edtica civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Os que perpetraram os ataques, segundo testemunhas, gritaram que aquilo era uma vingan\u00e7a contra o que aconteceu no Iraque e na S\u00edria. Mas, contra o que exatamente que aconteceu no Iraque e na S\u00edria?<\/p>\n<p>\u00c9 certo que aqueles que aproveitavam de uma noite de sexta feira na Cidade Luz, indo \u00e0 uma partida de futebol, jantando em um elegante\u00a0<em>bistr\u00f4<\/em>\u00a0ou indo a uma casa de espet\u00e1culo ver uma banca de rock, reagiriam, com certa raz\u00e3o, que nada tinham com as a\u00e7\u00f5es militares naqueles pa\u00edses distantes.<\/p>\n<p>Aqui \u00e9 necess\u00e1rio que adentremos um pouco mais na forma e conte\u00fado daquilo que se chama de \u201cterrorismo\u201d. O terrorismo \u00e9 um instrumento de luta que se costuma usar, fundamentalmente, para tornar p\u00fablica uma guerra que \u00e9 secreta, ou que se d\u00e1 abaixo da linha de visibilidade da consci\u00eancia da uma boa parte da sociedade. Foi assim que foi utilizada pelos israelenses contra o dom\u00ednio brit\u00e2nico, ou pelos argelinos da FLN contra o colonialismo franc\u00eas, ou se quisermos voltar mais no tempo, pelos colonos norte-americanos contra o dom\u00ednio brit\u00e2nico com ajuda dos franceses.<\/p>\n<p>Os marxistas sempre tiveram retic\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o ao terrorismo, essencialmente, por dois motivos: ele \u00e9 um instrumento indiscriminado, isto \u00e9, n\u00e3o ataca diretamente o advers\u00e1rio, preparado para uma guerra, mas a popula\u00e7\u00e3o; segundo, pelo fato de que o marxismo compreende a revolu\u00e7\u00e3o como um processo de transforma\u00e7\u00e3o massivo que n\u00e3o prescinde da a\u00e7\u00e3o de vanguardas, mas que no entanto nunca pode se restringir \u00e0 iniciativa de minorias. Nesta segunda acep\u00e7\u00e3o, mesmo as a\u00e7\u00f5es militares, muitas vezes decisivas, se subordinam \u00e0 a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Podemos ver estes princ\u00edpios claramente expressos nas criticas de Marx e Engels \u00e0 Blanqui, em Lenin e Trotski no balan\u00e7o das propostas do grupo \u201cTerra e Liberdade\u201d e do terrorismo na R\u00fassia, em Fidel quando afirmava que a guerrilha s\u00f3 poderia ser o pequeno motor que faria mover o grande motor que era a a\u00e7\u00e3o de massas, e, de forma ainda mais evidente, mesmo na Revolu\u00e7\u00e3o Vietnamita que se desdobrou para uma guerra direta contra os EUA.<\/p>\n<p>A direita sempre usou do terrorismo de forma mais intensa sem muitas retic\u00eancias. Os exemplos se multiplicam, desde a Opera\u00e7\u00e3o Condor na America Latina, os Corpos Francos na Alemanha de 1918, as hordas nazi-fascistas que abriram caminho para Mussolini e Hitler, utilizaram largamente de a\u00e7\u00f5es terroristas, mas talvez o exemplo mais did\u00e1tico seja do secret\u00e1rio de Estado dos EUA, o senhor Mac Namara, que aconselhou os militares americanos que atacavam o Jap\u00e3o a usarem bombas incendi\u00e1rias no lugar das convencionais, pois os inc\u00eandios, destruindo se alastrando pelas casas de madeira, tinham um potencial mais eficiente quanto \u00e0 taxa de mortalidade.<\/p>\n<p>No caso presente, as coisas s\u00e3o muito diversas. A guerra em si da qual se trata n\u00e3o \u00e9, nem de perto, secreta. Ela \u00e9 p\u00fablica e vis\u00edvel, no entanto as causas, interesses e acordos que est\u00e3o por tr\u00e1s desta visibilidade, n\u00e3o s\u00e3o nem p\u00fablicos, nem vis\u00edveis. O grupo em quest\u00e3o surge na desintegra\u00e7\u00e3o do Iraque fruto da interven\u00e7\u00e3o militar norte-americana apoiada por seus aliados, entre os quais a Fran\u00e7a, e sempre contou com a simpatia ou anu\u00eancia do imperialismo. Trata-se de uma estrat\u00e9gia muito antiga e largamente aplicada na pol\u00edtica imperialista no oriente m\u00e9dio, baseado no velho\u00a0<em>ad\u00e1gio<\/em>\u00a0romano \u2013 dividir para governar. O imperialismo aprendeu, inclusive por amargas experi\u00eancias, que n\u00e3o conv\u00eam apoiar uma \u00fanica for\u00e7a para desestabilizar um regime ou um pa\u00eds, sendo o melhor caminho o de apoiar diversas fac\u00e7\u00f5es, dividi-las e se beneficiar de sua futura luta para que caiam todas sob sua depend\u00eancia.<\/p>\n<p>Desta forma os EUA, para criar um contraponto \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o iraniana na regi\u00e3o e desestabilizar um governo com certa independ\u00eancia, financiou, armou e bancou a subida ao poder de Saddam Houssein no Iraque, da mesma forma que armou, treinou e respaldou logisticamente Osama Bin Laden para intervir na guerra civil do Afeganist\u00e3o. Sabemos o que ocorreu com estes senhores. Os fatos comprovam de forma inequ\u00edvoca que os EUA e seus aliados financiaram, armaram, treinaram e apoiaram logisticamente o Estado Isl\u00e2mico, assim como outros grupos mercen\u00e1rios e alguns rebeldes, com a finalidade evidente de desestabilizar o governo de Bashar al-Assad na S\u00edria, assim como operaram na destrui\u00e7\u00e3o da L\u00edbia.<\/p>\n<p>Os EUA, a Fran\u00e7a, a Alemanha e outras pot\u00eancias n\u00e3o fizeram isso na defesa de valores sagrados da sociedade ocidental, pelo menos n\u00e3o aqueles que hoje tem de ser colocados em evid\u00eancia pelo discurso ideol\u00f3gico, isto \u00e9, na defesa da igualdade, liberdade e fraternidade, para garantir uma sociedade fundada na \u201ctoler\u00e2ncia e no respeito\u201d. S\u00e3o outros valores os que aqui s\u00e3o centrais: os valores monet\u00e1rios e financeiros, os valores do petr\u00f3leo e do g\u00e1s, os valores como subst\u00e2ncia que precisa se impulsionar constantemente \u00e0 autovaloriza\u00e7\u00e3o pela explora\u00e7\u00e3o do trabalho. A garantia desses \u201creais valores fundamentais\u201d colidiu diretamente com os outros valores abstratos que dizem defender.<\/p>\n<p>Independente do ju\u00edzo que fa\u00e7amos dos regimes pol\u00edticos em quest\u00e3o (no Iraque, na L\u00edbia ou na S\u00edria), as pessoas que foram atingidas como pe\u00e7as do jogo do capital imperialista mundial e da geopol\u00edtica do p\u00f3s-guerra fria, tamb\u00e9m iam a restaurantes, assistiam partidas de futebol, viam espet\u00e1culos musicais. \u00c9 um tanto quanto dif\u00edcil manter um padr\u00e3o de vida numa vila ou cidade destru\u00edda pelas bombas da coalis\u00e3o que atacou a S\u00edria, ou seus mercen\u00e1rios armados e financiados pelos Estados ditos ocidentais. As pessoas das cidades destru\u00eddas empreendem uma dura peregrina\u00e7\u00e3o para sobreviver sob o terror da ocupa\u00e7\u00e3o do Estado Isl\u00e2mico, que autorizou o estupro como direito leg\u00edtimo, por exemplo, ou o desespero da fuga que os leva ao mar e a indiferen\u00e7a das fronteiras fechadas. At\u00e9 agosto de 2015 a estimativa \u00e9 que haviam morrido mais de 240 mil pessoas na S\u00edria, entre elas, 12 mil crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Quando \u017di\u017eek analisava os atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, dizia que a verdade mais dram\u00e1tica que os norte-americanos perceberam com os ataques \u00e9 que o mundo n\u00e3o gostava deles como eles pr\u00f3prios imaginavam, que eles n\u00e3o eram os her\u00f3is da liberdade do mundo e garantia da democracia planet\u00e1ria, mas que parte da humanidade os via como inimigos e algozes. (Ver:<em><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/bem-vindo-ao-deserto-do-real%21\" target=\"_blank\">Bem-vindo ao deserto do real: cinco ensaios sobre o 11 de Setembro e datas relacionadas<\/a><\/em>\u00a0N.E.).<\/p>\n<p>De certa forma \u00e9 o que se v\u00ea hoje nos ataques em solo franc\u00eas. Por que algu\u00e9m atacaria a terra da igualdade, da liberdade e da fraternidade, das artes e da cultura, de vinhos e queijos, da culin\u00e1ria refinada servida em por\u00e7\u00f5es min\u00fasculas? Quando a Constitui\u00e7\u00e3o francesa redigida ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de 1789 declara os princ\u00edpios da igualdade e da liberdade (a fraternidade foi quase que imediatamente esquecida), os franceses \u201cesquecem\u201d que havia escravid\u00e3o objetiva em suas col\u00f4nias (como no Haiti, por exemplo) que ainda n\u00e3o tinha sido abolida. Esquecem tamb\u00e9m como os direitos \u201cuniversais\u201d n\u00e3o se estendiam aos trabalhadores, proibidos de se associar em defesa de seus sal\u00e1rios ou participar das elei\u00e7\u00f5es em sua Nova Rep\u00fablica hierarquizadas pelo voto censit\u00e1rio. Quer dizer, sempre algu\u00e9m ficou de fora do campo dos sagrados valores da \u201chumanidade\u201d. Vinte na\u00e7\u00f5es africanas conseguiram romper com o colonialismo franc\u00eas somente na segunda metade do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Hoje o problema n\u00e3o \u00e9 mais apenas o mundo l\u00e1 fora cujo papel \u00e9 ser saqueado para garantir a civiliza\u00e7\u00e3o burguesa. A contradi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, migrou para dentro das ilhas de prosperidade do capital, na for\u00e7a de trabalho barata e precarizada, nos servi\u00e7ais, na superpopula\u00e7\u00e3o relativa. Ao que parece, caso se confirmem os fatos, muitos dos sujeitos dos atentados n\u00e3o s\u00e3o os imigrantes cuja estigmatiza\u00e7\u00e3o servir\u00e1 para o endurecimento das pol\u00edticas xen\u00f3fobas de fechamento das fronteiras da Comunidade Europ\u00e9ia, mas de filhos do pr\u00f3prio solo franc\u00eas nascidos na velha Europa, e que n\u00e3o se veem como parte desta civiliza\u00e7\u00e3o que os despreza cotidianamente.<\/p>\n<p>Tanto o mar de refugiados, como os ataques s\u00e3o a volta do bumerangue da pol\u00edtica externa francesa. Mas h\u00e1 ainda um ingrediente adicional desta crise. A pr\u00f3pria Europa est\u00e1 cindida internamente. (Ver: \u201cO bumerangue de Foucault: o novo urbanismo militar\u201d, de Stephen Graham, em\u00a0<em><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titulos\/visualizar\/bala-perdida\" target=\"_blank\">Bala perdida: a viol\u00eancia policial no Brasil e os desafios de sua supera\u00e7\u00e3o<\/a>.<\/em>\u00a0N. E.).<\/p>\n<p>O drama que vivemos n\u00e3o se resolver\u00e1 na defesa abstrata da humanidade contra aqueles que a atacam, uma vez que o que os olhos \u201cocidentais\u201d n\u00e3o conseguem ver no espelho \u00e9 que fazem parte da humanidade tanto as vitimas dos ataques quanto aqueles que os praticaram. Uma humanidade cindida, fragmentada por interesses que beneficiam uma ridiculamente pequena parcela da popula\u00e7\u00e3o, protegida em seus\u00a0<em>bunkers<\/em>\u00a0na forma de poderosos Estados militarizados, condenando os demais a comprovar dramaticamente sua condi\u00e7\u00e3o de simples mortais.<\/p>\n<p>Nem o Estado franc\u00eas e seu presidente conservador, tampouco os EUA e seu presidente eleito como um democrata, ou os que empunharam armas e bombas em Paris, parecem representar de fato a combalida humanidade como um todo. Todos s\u00e3o parte dela. Parte de uma forma hist\u00f3rica que a humanidade assumiu e precisa ser superada. Precisamos urgentemente saber ver esse fen\u00f4meno como um alerta. Ele \u00e9 a face grotesca que se reflete em nosso espelho, e que d\u00f3i tanto olhar de frente.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Mauro Iasi\u00a0<\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a>\u00a0(Boitempo, 2002) e colabora com os livros\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a>\u00a0(Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o\u00a0<strong>Blog da Boitempo\u00a0<\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><i><b>Fonte: Blog da Boitempo<\/b><\/i><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/11\/17\/paris-terror-humanidade\/\">Paris, terror e&nbsp;humanidade<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por\u00a0Mauro Luis Iasi. \u201cQuando nascer o dia e limparmos da varanda os morcegos mortos teremos que ter todo o cuidado para n\u00e3o estar \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9906\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-9906","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2zM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9906","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9906"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9906\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9906"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9906"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9906"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}