{"id":9936,"date":"2015-11-25T14:42:40","date_gmt":"2015-11-25T17:42:40","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9936"},"modified":"2015-12-16T19:59:18","modified_gmt":"2015-12-16T22:59:18","slug":"a-volta-dos-passaportes-abandonados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9936","title":{"rendered":"A volta dos passaportes abandonados"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/franca\/imagens\/paris_14nov15.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>por Jean-Claude Paye*<\/p>\n<p><em>\u00c9 de rir ou de chorar: desde o 11 de Setembro de 2001 n\u00e3o h\u00e1 atentado terrorista em que os supostos culpados n\u00e3o se deixem identificar deixando no seu rastro os respectivos documentos de identidade.<!--more--><\/em><\/p>\n<p><em>Para o autor, esta aparente estupidez repetitiva dos terroristas deve ser interpretada como um artif\u00edcio ret\u00f3rico utilizado pelo poder a fim de paralisar os cidad\u00e3os. Como a narrativa oficial \u00e9 a mais absurda poss\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 possivel contest\u00e1-la.<\/em><\/p>\n<p>No quadro do inqu\u00e9rito sobre os massacres de Paris, um passaporte s\u00edrio foi encontrado perto de um dos kamikazes do Stade de France. Depois de o presidente ter designado &#8220;o Estado isl\u00e2mico&#8221; (EI) como respons\u00e1vel dos atentados, este reconheceu estar na base destas ac\u00e7\u00f5es. Para o executivo franc\u00eas que havia declarado pretender intervir na S\u00edria contra o EI, na realidade contra a Rep\u00fablica \u00c1rabe S\u00edria e seu presidente constitucional Bachar el-Assad que &#8220;deve partir&#8221;, trata-se de um ind\u00edcio importante que deve justificar uma ac\u00e7\u00e3o militar. O discurso duplo \u2013 apoiar uma organiza\u00e7\u00e3o designada como inimiga e chamar de terroristas aqueles que anteriormente eram chamados de &#8220;combatentes da liberdade&#8221; \u2013 n\u00e3o \u00e9 caracter\u00edstico apenas do governo franc\u00eas. Produzir seu inimigo tornou-se um eixo da estrat\u00e9gia ocidental, confirmando-nos que na estrutura imperial n\u00e3o h\u00e1 separa\u00e7\u00e3o entre interior e exterior, entre o direito e a viol\u00eancia pura, entre o cidad\u00e3o e o inimigo.<\/p>\n<p>Na B\u00e9lgica, o pregador mu\u00e7ulmano Jean-Louis Denis \u00e9 perseguido &#8220;por ter incitado jovens a partirem para fazer a jihad armada na S\u00edria&#8221;, pois ele \u00e9 suspeito de ter tido contactos com Sharia4Belgiu, um agrupamento qualificado de &#8220;terrorista&#8221;, o que \u00e9 negado pelo acusado. O seu advogado destacou a ideia d\u00faplice da acusa\u00e7\u00e3o neste caso, alegando perante o tribunal correccional de Bruxelas: &#8220;Enviaram-se garotos para os bra\u00e7os do Estado isl\u00e2mico na S\u00edria e foram os vossos servi\u00e7os que o fizeram&#8221; [1] . O advogado apoiou as suas acusa\u00e7\u00f5es destacando o papel neste caso de um agente infiltrado da pol\u00edcia federal.<\/p>\n<p>O retorno do significante<\/p>\n<p>Quanto aos massacres de Paris, aparentemente uma das primeiras preocupa\u00e7\u00f5es dos terroristas foi serem identificados o mais rapidamente poss\u00edvel. Contudo, este paradoxo apenas nos surpreende. Um documento de identidade, encontrado miraculosamente e designando o autor dos atentados que acabavam de ser cometidos, tornou-se um cl\u00e1ssico. Trata-se de um acontecimento repetitivo, uma obriga\u00e7\u00e3o de repeti\u00e7\u00e3o que designa sempre um culp\u00e1vel pertencente a um &#8220;movimento jihadista&#8221;.<\/p>\n<p>Na vers\u00e3o oficial do 11 de Setembro, o FBI afirmou ter encontrado o passaporte intacto de um dos kamizazes na proximidade de uma das duas torres completamente pulverizadas por explos\u00f5es, provocando uma temperatura capaz de fundir o a\u00e7o das estruturas met\u00e1licas de um edif\u00edcio \u2013 mas preservando intacto um documento de papel. A queda do quarto avi\u00e3o, que se espatifou em campo aberto em Shanksville, permitiu igualmente \u00e0 pol\u00edcia federal encontrar o passaporte de um dos presumidos terroristas. Este documento parcialmente queimado permitiu ainda assim identificar a pessoa, gra\u00e7as \u00e0 presen\u00e7a do seu nome, do seu prenome e da sua foto. Esta possibilidade \u00e9 tanto mais perturbadora porque da queda do avi\u00e3o n\u00e3o restava sen\u00e3o uma cratera devida ao impacto, nem sequer um fragmento da fuselagem ou do motor, restava apenas este passaporte parcialmente queimado.<\/p>\n<p>O inveros\u00edmil como medida do verdadeiro<\/p>\n<p>No caso Charlie Hebdo, os investigadores encontraram o bilhete de identidade do mais velho dos irm\u00e3os Kouachi no ve\u00edculo abandonado no nordeste de Paris. A partir deste documento, a pol\u00edcia percebeu que se tratava de indiv\u00edduos conhecidos dos servi\u00e7os anti-terroristas, &#8220;pioneiros do jihadismo franc\u00eas&#8221;. A &#8220;persegui\u00e7\u00e3o&#8221; p\u00f4de ent\u00e3o come\u00e7ar. Como \u00e9 que assassinos, cometendo um atentado com sangue frio e um auto-controle de profissionais qualificados, podem cometer tal erro? N\u00e3o andar com os documentos faz parte do ABC de qualquer ladr\u00e3ozeco.<\/p>\n<p>Desde o 11 de Setembro, o inveros\u00edmil faz parte do nosso quotidiano. Ele tornou-se o fundamento da verdade. A Raz\u00e3o \u00e9 banida. N\u00e3o se trata de acreditar no que \u00e9 dito, mas sim de aderir \u00e0quilo que diz a voz que fala, seja qual for o contra-senso do enunciado. Quanto mais isto for evidente, mais cega deve ser a cren\u00e7a no que \u00e9 afirmado. O inveros\u00edmil torna-se assim a medida e a garantia do verdadeiro.<\/p>\n<p>O discurso quanto aos casos Merah ou Nemouche o confirma. Merah, cercado por dezenas de pol\u00edcias, teria conseguido, enganando a vigil\u00e2ncia das for\u00e7as especiais, sair da sua resid\u00eancia e a seguir retornar a ela a fim de se fazer matar por um atirador de elite (&#8220;sniper&#8221;) que teria alvejado em &#8220;leg\u00edtima defesa&#8221; com &#8220;armas n\u00e3o letais&#8221;. Ele teria sa\u00eddo da sua casa para telefonar de uma cabine p\u00fablica, a fim de &#8220;dissimular sua identidade&#8221;, aquando do reconhecimento da sua culpabilidade junto a uma jornalista da France 24 [2] .<\/p>\n<p>Quanto a Nemmouche, o autor da matan\u00e7a no Museu judeu de Bruxelas, ele n\u00e3o teria se desembara\u00e7ado das suas armas pois o que importava para ele era a sua revenda. Para isso, ele teria escolhido o modo de transporte internacional mais vigiado, transportando-as num \u00f4nibus que fazia a liga\u00e7\u00e3o Amsterdam, Bruxelas, Marselhe. Um &#8220;controle alfandeg\u00e1rio inesperado&#8221; teria permitido confundi-lo e prend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>A liquida\u00e7\u00e3o da &#8220;unidade nacional&#8221;<\/p>\n<p>Em todos os casos, o car\u00e1cter incr\u00edvel do que \u00e9 apresentado nos torna incapazes de reagir. Tal como o olhar de Gorgona, ele nos petrifica. Mostra-nos que alguma coisa n\u00e3o funciona no discurso. Exibe-nos uma falha que n\u00e3o tem como efeito nos enganar, mas sim fragmentar-nos. O relat\u00f3rio do desenrolar dos atentados \u00e9 uma exibi\u00e7\u00e3o que se imp\u00f5e ao espectador. Ele foge a qualquer representa\u00e7\u00e3o e tem um efeito paralisador. Este n\u00e3o resulta tanto do car\u00e1cter dram\u00e1tico dos factos e sim da impossibilidade de decifrar o real. O espectador n\u00e3o pode assim encontrar uma apar\u00eancia de unidade sen\u00e3o por um acr\u00e9scimo de credulidade ao que \u00e9 enunciado. Opera-se ent\u00e3o uma fus\u00e3o com quem o diz. Conv\u00e9m portanto n\u00e3o se distanciar do que \u00e9 dito e mostrado, renunciar a fazer perguntas ou a recuperar a palavra. A unidade nacional, a fus\u00e3o entre os vigilantes e os vigiados, pode ent\u00e3o ser instalada.<\/p>\n<p>A exibi\u00e7\u00e3o das falhas no discurso do poder acerca de todos estes atentados tem como efeito a instala\u00e7\u00e3o de uma psicose e a supress\u00e3o de todo mecanismo de defesa, n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o a propostas ou actos determinados como tamb\u00e9m rela\u00e7\u00e3o a n\u00e3o importa que ac\u00e7\u00e3o ou declara\u00e7\u00e3o do poder. Exemplo: em rela\u00e7\u00e3o a leis como aquela sobre a informa\u00e7\u00e3o que retira a vida privada das liberdades fundamentais.<\/p>\n<p>Um acto de guerra contra as popula\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Votada em Junho de 2015, a lei sobre a informa\u00e7\u00e3o, projecto com mais de um ano, foi-nos apresentada como uma resposta aos atentados do Charlie Hebdo. A lei autoriza nomeadamente a instala\u00e7\u00e3o de &#8220;caixas negras&#8221; junto aos fornecedores de acesso \u00e0 Internet, que permitem capturar em tempo real os metadados dos utilizadores. Ela permite igualmente a coloca\u00e7\u00e3o de microfones, de dispositivos de localiza\u00e7\u00e3o, de instala\u00e7\u00e3o de c\u00e2maras e de softwares espi\u00f5es. S\u00e3o submetidos a estas t\u00e9cnicas especiais de investiga\u00e7\u00e3o n\u00e3o os agentes de uma pot\u00eancia estrangeira mas sim a popula\u00e7\u00e3o francesa. Esta \u00faltima \u00e9 assim tratada como inimiga de um Poder executivo, que tem o poder de decis\u00e3o e o &#8220;controle&#8221; destes dispositivos secretos. Sob a cobertura da luta contra o terrorismo, esta lei legaliza medidas j\u00e1 em vigor, pondo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do executivo um dispositivo permanente, clandestino e quase ilimitado de vigil\u00e2ncia dos cidad\u00e3os. A aus\u00eancia de qualquer efic\u00e1cia na preven\u00e7\u00e3o de atentados mostra-nos que n\u00e3o eram os terroristas e sim os habitantes da Fran\u00e7a o alvo desta lei. Ao mudar a natureza dos servi\u00e7os de informa\u00e7\u00e3o, da contra-espionagem para a vigil\u00e2ncia dos cidad\u00e3os, esta lei \u00e9 um acto de guerra contra a popula\u00e7\u00e3o francesa. Os massacres que acabam de acontecer em Paris s\u00e3o parte real dessa guerra.<\/p>\n<p>15\/Novembro\/2015<\/p>\n<p>*Soci\u00f3logo, belga.<\/p>\n<p>[1] Julien Balboni, \u00ab <a href=\"http:\/\/www.dhnet.be\/actu\/faits\/proces-de-jean-louis-denis-le-parquet-federal-a-envoye-des-jeunes-en-syrie-5644e82f3570bccfaefc698a\">Proc\u00e8s de Jean-Louis Denis: &#8221;Le parquet f\u00e9d\u00e9ral a envoy\u00e9 des jeunes en Syrie&#8221;<\/a> \u00bb , DH.be, le 12 novembre 2015.<br \/>\n[2] Ler: Jean-claude Paye et T\u00fclay Umay, \u00ab <a href=\"http:\/\/www.voltairenet.org\/article176421.html\">L&#8217;affaire Merah (4\/4): Le changement en se taisant : la parole confisqu\u00e9e<\/a>\u00bb, R\u00e9seau Voltaire , le 30 octobre 2012,<\/p>\n<p>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/www.voltairenet.org\/article189291.html\">www.voltairenet.org\/article189291.html<\/a><\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Jean-Claude Paye* \u00c9 de rir ou de chorar: desde o 11 de Setembro de 2001 n\u00e3o h\u00e1 atentado terrorista em que os \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9936\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[109],"tags":[],"class_list":["post-9936","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c122-franca"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2Ag","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9936","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9936"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9936\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9936"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9936"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9936"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}