{"id":9979,"date":"2015-12-02T20:11:55","date_gmt":"2015-12-02T23:11:55","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9979"},"modified":"2015-12-16T20:01:29","modified_gmt":"2015-12-16T23:01:29","slug":"minimizadores-do-caso-samarco-tentam-reinventar-palavra-toxico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9979","title":{"rendered":"Minimizadores do caso Samarco tentam reinventar palavra &#8220;t\u00f3xico&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/alceucastilho\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/leonardomer%C3%A7on-ultimosrefugios.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><em>Defensores da mineradora ignoram defini\u00e7\u00e3o de toxicidade para amenizar impactos do rompimento da barragem em Mariana; n\u00e3o somente metais pesados t\u00eam efeito nocivo<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Por <strong>Alceu Lu\u00eds Castilho<\/strong> (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/alceucastilho\" target=\"_blank\">@alceucastilho<\/a>)<br \/>\nFotos: <strong>Herone Fernandes<\/strong> e <strong>Leonardo Mer\u00e7on<\/strong>\/ <a href=\"http:\/\/www.ultimosrefugios.org.br\/#%21lagrimas-do-rio-doce\/c16xv\" target=\"_blank\">Instituto \u00daltimos Ref\u00fagios<\/a><\/p>\n<p>Tomemos a defini\u00e7\u00e3o do Dicion\u00e1rio Houaiss:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>\u201ct\u00f3xico \\cs\\<\/em><br \/>\n<em> adjetivo e substantivo masculino<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em><b>1<\/b> que ou o que produz efeitos nocivos no organismo \u2039subst\u00e2ncia t.\u203a \u2039a coca\u00edna \u00e9 um t.\u203a<\/em><br \/>\n<em> <b>2<\/b> que ou o que cont\u00e9m veneno\u201d<\/em><\/p>\n<p>E agora o leitor decidir\u00e1: a lama da Samarco que arrasou povoados em Mariana e j\u00e1 chegou ao mar, matando milhares de peixes, aves, algas\u2026 \u00e9 t\u00f3xica ou n\u00e3o \u00e9 t\u00f3xica? (Atente: isso independe de conter ou n\u00e3o metais pesados.)<\/p>\n<p>Pois est\u00e1 em curso uma opera\u00e7\u00e3o para minimizar a cat\u00e1strofe. O que passa pela defini\u00e7\u00e3o de que a lama n\u00e3o seria t\u00f3xica. Ora, a lama produziu, em si, efeitos nocivos a organismos diversos. Retirou oxig\u00eanio da \u00e1gua, asfixiou <a href=\"http:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/gerais\/2015\/11\/27\/interna_gerais,712048\/rejeitos-tambem-matam-aves-e-toneladas-de-peixes.shtml\" target=\"_blank\">11 toneladas de peixes<\/a>, matou tartarugas, caranguejos, caramujos, camar\u00f5es, galinhas, bois, um rio inteiro (ainda que por alguns meses ou anos). Como n\u00e3o seria t\u00f3xica?<\/p>\n<p>O <a href=\"http:\/\/www.cvs.saude.sp.gov.br\/up\/gloss%C3%A1rio%20site.pdf\" target=\"_blank\">Centro de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria<\/a>, ligado \u00e0 Secretaria de Estado da Sa\u00fade de S\u00e3o Paulo, define como agente t\u00f3xico \u201cqualquer subst\u00e2ncia capaz de produzir um efeito t\u00f3xico (nocivo, danoso) num organismo vivo, ocasionando desde altera\u00e7\u00f5es bioqu\u00edmicas, preju\u00edzo de fun\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas at\u00e9 sua morte\u201d. E o risco t\u00f3xico, o que seria? \u201c\u00c9 a capacidade inerente de uma subst\u00e2ncia produzir efeitos nocivos num organismo vivo ou ecossistema\u201d.<\/p>\n<p>A Fiocruz informa, em seu site, que n\u00e3o existem subst\u00e2ncias qu\u00edmicas sem toxicidade:. \u201cN\u00e3o existem subst\u00e2ncias qu\u00edmicas seguras, que n\u00e3o tenham efeitos lesivos ao organismo\u201d. Nada, portanto, de associar o termo apenas \u00e0 ingest\u00e3o de metais pesados \u2013 como v\u00eam fazendo a empresa e seus defensores. Lembremos que um cigarro possui 4.700 subst\u00e2ncias t\u00f3xicas.<\/p>\n<p>A BATALHA DOS EXAMES<\/p>\n<p>A p\u00e1gina do <a href=\"http:\/\/www.cprm.gov.br\/\" target=\"_blank\">Servi\u00e7o Geol\u00f3gico do Brasil<\/a>, uma companhia do governo federal, informa: \u201cNovos resultados descartam aumento de metais pesados no Rio Doce\u201d. Ou seja, por esses exames (feitos em apenas 40 coletas), a lama n\u00e3o seria t\u00f3xica especificamente em rela\u00e7\u00e3o a metais pesados: cobre, chumbo e merc\u00fario, entre outros.<\/p>\n<p>Mas mesmo nesse caso h\u00e1 controv\u00e9rsias: e o ferro e o mangan\u00eas? Um laudo encomendado pela pr\u00f3pria Vale informa que os n\u00edveis das duas subst\u00e2ncias est\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.eshoje.jor.br\/_conteudo\/2015\/11\/noticias\/geral\/36096-ferro-e-manganes-laudos-da-samarco-apontam-niveis-fora-das-normas-da-abnt.html\" target=\"_blank\">acima do recomendado<\/a> pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Normas T\u00e9cnicas (ABNT). Ainda que, na descri\u00e7\u00e3o feita pela empresa, e logo replicada acriticamente pela imprensa, sem risco para seres humanos.<\/p>\n<p>Ou seja, h\u00e1 \u00eanfase apenas no impacto direto em organismos humanos. Como se as subst\u00e2ncias n\u00e3o fossem t\u00f3xicas para outros seres vivos. Sem redu\u00e7\u00e3o de danos, reduzam-se as palavras.<\/p>\n<p>Diante da minimiza\u00e7\u00e3o, muitos fazem uma pergunta singela: por que, ent\u00e3o, a necessidade de barragens? Por um motivo simples: a polpa (a lama de areia e silte combinada com os rejeitos) da minera\u00e7\u00e3o tem o efeito t\u00f3xico que se viu nas \u00faltimas semanas. Mesmo sem metais pesados.<\/p>\n<p>E porque n\u00e3o se trata somente da sa\u00fade de humanos, por ingest\u00e3o ou contato direto; e sim da sa\u00fade de ecossistemas inteiros. Afetam a fauna, a flora. E tamb\u00e9m os humanos. As barragens surgiram, no s\u00e9culo 20, porque o material despejado afetava os po\u00e7os de irriga\u00e7\u00e3o e o solo; e os produtores constatavam a diminui\u00e7\u00e3o da colheita.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui nem estamos questionando os testes feitos pela pr\u00f3pria empresa. Ou considerando a necessidade de testes que n\u00e3o sejam encomendados pelas partes interessadas. Uma <a href=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/denuncias\/informacao-omitida-pela-samarco-lama-que-vazou-de-barragens-pode-provocar-alteracoes-nas-contracoes-musculares-problemas-osseos-intestinais-e-agravar-disturbios-cardiacos.html\" target=\"_blank\">coleta feita em Governador Valadares <\/a>logo ap\u00f3s a cat\u00e1strofe identificou n\u00edveis alt\u00edssimos de ferro e mangan\u00eas. E este pode gerar problemas \u00f3sseos, intestinais, ampliar problemas card\u00edacos.<\/p>\n<p>O Instituto Mineiro de Gest\u00e3o das \u00c1guas fez <a href=\"http:\/\/brasil.estadao.com.br\/noticias\/geral,analise-indica-presenca-de-arsenio-e-chumbo-na-rio-doce,10000003180\" target=\"_blank\">outros testes<\/a> e detectou a presen\u00e7a de chumbo, ars\u00eanio e c\u00e1dmio nas \u00e1guas do Rio Doce, nos dias subsequentes ao rompimento da barragem. Uma das consequ\u00eancias poss\u00edveis, c\u00e2ncer. Quem vai dizer que n\u00e3o existem esses riscos (ou que as subst\u00e2ncias n\u00e3o tenham sa\u00eddo da barragem), a pr\u00f3pria Samarco? Ou pesquisadores independentes?<\/p>\n<p>UMA HIST\u00d3RIA ALTERNATIVA<\/p>\n<p>A Vale (dona da Samarco, junto com a BHP Billinton, e que tamb\u00e9m despejou res\u00edduos na barragem rompida) j\u00e1 est\u00e1 at\u00e9 falando que a lama vai ter <a href=\"http:\/\/www.eshoje.jor.br\/_conteudo\/2015\/11\/economia\/36136-diretora-da-vale-lama-vai-ter-efeito-de-adubo-no-reflorestamento.html\" target=\"_blank\">efeito de adubo<\/a> no reflorestamento. Ou seja, n\u00e3o somente se minimiza o impacto brutal no ecossistema, como se tem a desfa\u00e7atez de apresentar um poss\u00edvel benef\u00edcio \u201cno reflorestamento\u201d. Mais ou menos como os defensores do agroneg\u00f3cio, que chamam os agrot\u00f3xicos de \u201cdefensivos\u201d.<\/p>\n<p>Est\u00e1 desde o dia 5 de novembro em curso uma batalha por discursos. As evid\u00eancias das primeiras semanas come\u00e7am a ser esquecidas: as fotos dos povoados destru\u00eddos, a narrativa \u2013 ainda incompleta \u2013 sobre as 23 pessoas que morreram, a evidente destrui\u00e7\u00e3o ambiental. A morte de um rio, a dor dos pescadores (como os das fotos deste artigo, feitas pelo <a href=\"http:\/\/noticias.terra.com.br\/brasil\/lama-lagrimas-e-morte-a-jornada-de-fotografo-no-rio-doce,0314a4602ea54dec2268353abd80c52eb0xgs66e.html\" target=\"_blank\">Instituto \u00daltimos Ref\u00fagios<\/a>), agricultores e povos ind\u00edgenas que se viram sem \u00e1gua. A <a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/alceucastilho\/2015\/11\/11\/lama-da-samarco-biologo-aponta-impacto-por-100-anos-na-vida-marinha\/\" target=\"_blank\">amea\u00e7a aos ecossistemas marinhos<\/a>.<\/p>\n<p>E agora come\u00e7a a investida na reconstru\u00e7\u00e3o conveniente dos fatos. Movida a insensibilidade e esc\u00e1rnio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas, todas elas \u2013 humanos ou n\u00e3o. Aposta-se na falta de mem\u00f3ria e na falta de bom senso para se dizer que o Rio Doce estar\u00e1 restabelecido <a href=\"http:\/\/noticias.uol.com.br\/cotidiano\/ultimas-noticias\/2015\/11\/26\/samarco-rebate-onu-e-afirma-que-lama-de-barragem-em-mg-nao-e-perigosa.htm\" target=\"_blank\">em cinco meses<\/a>, como se fosse pouco, e que a lama at\u00e9 vai virar um adubozinho. E nem tinha tanto veneno assim, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Nem se matou diretamente pessoas por ingest\u00e3o de chumbo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/alceucastilho\/2015\/11\/30\/minimizadores-do-caso-samarco-tentam-reinventar-palavra-toxico\/\" target=\"_blank\">http:\/\/outraspalavras.net\/<wbr \/>alceucastilho\/2015\/11\/30\/<wbr \/>minimizadores-do-caso-samarco-<wbr \/>tentam-reinventar-palavra-<wbr \/>toxico\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Defensores da mineradora ignoram defini\u00e7\u00e3o de toxicidade para amenizar impactos do rompimento da barragem em Mariana; n\u00e3o somente metais pesados t\u00eam efeito nocivo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9979\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-9979","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2AX","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9979","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9979"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9979\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9979"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9979"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9979"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}