{"id":998,"date":"2010-11-21T05:32:32","date_gmt":"2010-11-21T05:32:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=998"},"modified":"2017-11-29T13:57:46","modified_gmt":"2017-11-29T16:57:46","slug":"o-capitalismo-e-violento-pela-sua-propria-natureza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/998","title":{"rendered":"O Capitalismo \u00e9 violento pela sua pr\u00f3pria natureza"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/stayviolation.typepad.com\/.a\/6a00d834515bc269e20120a86786c9970b-320wi\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><strong>Barb\u00e1rie ou civiliza\u00e7\u00e3o?<\/strong> \u00e9 o tema que nos traz a este importante semin\u00e1rio, em que v\u00e1rios acad\u00e9micos e peritos far\u00e3o os seus depoimentos \u00e1 luz de um mundo unipolar, que avan\u00e7a com mudan\u00e7as de significados diferentes no come\u00e7o da segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, alguns, quem sabe, na direc\u00e7\u00e3o \u00e1 barb\u00e1rie, pela arrogante pol\u00edtica do imperialismo dos E.U.A. e das principais pot\u00eancias europeias que nunca renunciaram \u00e1 viol\u00eancia, \u00e0s guerras de rapina, \u00e1 agress\u00e3o de outros povos e \u00e0 autoridade dominante, como se o mundo tivesse regressado \u00e1s piores \u00e9pocas do colonialismo.<\/p>\n<p>Nos finais dos anos oitenta e come\u00e7os de noventa do s\u00e9culo passado, quando sobreveio o derrube do \u201csocialismo real\u201d na Europa oriental, que levou ao colapso da Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas, anunciou-se o fim da guerra fria, a vit\u00f3ria do capitalismo e at\u00e9 o fim da hist\u00f3ria. A confronta\u00e7\u00e3o leste-oeste e a contradi\u00e7\u00e3o internacional entre o capitalismo e o socialismo chegaram ao final, disseram os acad\u00e9micos burgueses, acabando o mundo bipolar de dois sistemas opostos em confronto dial\u00e9ctico e de busca da supremacia hist\u00f3rica de um sobre o outro. Emergiu o mundo unipolar, dominado pelo capitalismo, na pior das suas formas: o imperialismo, explicado por Vladimir Ilich L\u00e9nine como o desenvolvimento e continua\u00e7\u00e3o directa das propriedades fundamentais em geral do capitalismo. \u201cMas o capitalismo transformou-se em imperialismo capitalista unicamente ao chegar a um grau determinado, muito elevado, do seu desenvolvimento, quando algumas das caracter\u00edsticas fundamentais do capitalismo come\u00e7aram a converter-se na sua ant\u00edtese, quando tomaram corpo e se manifestaram em toda a linha os tra\u00e7os da \u00e9poca de transi\u00e7\u00e3o do capitalismo para uma estrutura econ\u00f3mica e social mais elevada\u201d. Por esta raz\u00e3o, para L\u00e9nine, de maneira simples, \u201co imperialismo \u00e9 a fase monopolista do capitalismo\u201d.(1)<\/p>\n<p>O imperialismo, na opini\u00e3o de L\u00e9nine, est\u00e1 montado sobre um Estado propriet\u00e1rio ou Estado agiota, sem escr\u00fapulos, apoiado, se for o caso, na viol\u00eancia para impor a acumula\u00e7\u00e3o de capital. Por esta raz\u00e3o nunca poder\u00e1 haver uma \u201cterceira via\u201d ou um \u201ccapitalismo humano\u201d, como preconizam tantos intelectuais, mesmo de esquerda, que conclu\u00edram que depois da queda do muro de Berlim a situa\u00e7\u00e3o mundial seria dominada por um \u201ccapitalismo de rosto humano\u201d. Pelo contr\u00e1rio, o que sobreveio foi o modelo neoliberal (alguns chamam-lhe \u201ccapitalismo selvagem\u201d), que arrasou como uma onda violenta, com o patrim\u00f3nio p\u00fablico, com o Estado eficaz e os direitos dos trabalhadores. Foi uma esp\u00e9cie de Tsunami pol\u00edtico, social y econ\u00f3mico que ainda n\u00e3o terminou. Muitos dos desiludidos da esquerda, ficaram frustrados perante a terr\u00edvel realidade que ainda n\u00e3o acabou, porque o capitalismo, n\u00e3o importa o lugar ou o momento hist\u00f3rico, est\u00e1 baseado na maior mais-valia, na super-explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e na acumula\u00e7\u00e3o de lucros. \u00c9 poss\u00edvel que, no auge da onda neoliberal, em pleno s\u00e9culo XXI, o capitalismo arraste uma crise c\u00edclica, que afecta o modelo, ainda que n\u00e3o seja sist\u00e9mica. \u201c\u00c9 uma crise c\u00edclica. Daquelas que, como no seu tempo advertiu Carl Marx, afectariam o capital de quando em vez e das quais o capitalismo se recomp\u00f5e enquanto as massas populares n\u00e3o est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de mudar a hist\u00f3ria e produzir a transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da sociedade. Alguns economistas, n\u00e3o sem raz\u00e3o, asseguram que a crise actual \u00e9 uma r\u00e9plica do crash de 1929 que sacudiu o capitalismo. N\u00e3o \u00e9, pois, t\u00e3o inofensiva como alguns cr\u00eaem \u201c.(2)<\/p>\n<p>O capitalismo \u00e9 violento por natureza. Os capitalistas ou burgueses s\u00e3o impiedosos na forma, violenta se necess\u00e1rio, de proteger os seus interesses. No Dezoito de Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte, Carl Marx demonstra, em refer\u00eancia a Fran\u00e7a, que \u201ca ordem burguesa, que nos in\u00edcios do s\u00e9culo p\u00f4s o Estado de guarda \u00e1 parcela rec\u00e9m criada e a avalisou com honrarias, converteu-se num vampiro que lhe chupa o sangue e a medula e o atira \u00e0 caldeira de alquimista do capital. O C\u00f3digo de Napole\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais que o c\u00f3digo dos embargos, dos leil\u00f5es e das adjudica\u00e7\u00f5es for\u00e7adas\u201d.(3)<\/p>\n<p>Nos nossos dias, disse Samir Amin, \u201ca continua\u00e7\u00e3o do modelo de desenvolvimento da economia real, tal como o vamos conhecendo, assim como o do consumo que o vai amparando, tornou-se, pela primeira vez na hist\u00f3ria, uma verdadeira amea\u00e7a para o futuro da humanidade e do planeta\u201d(3). Nem de outra forma podem explicar-se as agress\u00f5es imperialistas no M\u00e9dio Oriente e na \u00c1sia, mediante ofensivas e ac\u00e7\u00f5es militares desproporcionadas e criminosas, em nome da civiliza\u00e7\u00e3o e da democracia ocidental, que n\u00e3o passam de sinais de barb\u00e1rie no s\u00e9culo XXI. Para Amin, o conflito Norte\/Sul constitui o eixo central das lutas e conflitos que h\u00e3o-de vir. A explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais de cada Estado-Na\u00e7\u00e3o por parte das pot\u00eancias imperialistas.<\/p>\n<p>O capitalismo \u00e9 pela barb\u00e1rie. As for\u00e7as democr\u00e1ticas e o socialismo pela civiliza\u00e7\u00e3o. Na esteira dos acontecimentos do 11 de Setembro de 2001, conhecidos como o derrube das torres g\u00e9meas em Nova York, o mundo, na \u00e9poca unipolar, sofreu um golpe de estado, como o qualificou o comandante Fidel Castro, quando o ent\u00e3o presidente George W. Bush tra\u00e7ou a sua estrat\u00e9gia global contra o terrorismo. Barack Obama, nove anos depois, embora com uma linguagem mais moderada, mant\u00e9m o mesmo rumo pol\u00edtico, num cen\u00e1rio de desprezo pelas liberdades democr\u00e1ticas e a auto-determina\u00e7\u00e3o dos povos.<\/p>\n<p>\u00c9 uma pol\u00edtica de Estado, uma defini\u00e7\u00e3o de interesses comuns aos norte-americanos, representados no sistema bipartidarista de democratas e republicanos, na luta pelo controlo dos recursos naturais no mundo, descrito assim por Amin: \u201cSe os Estados Unidos fixaram como objectivo o controlo militar do planeta \u00e9 porque sabem que sem esse controlo n\u00e3o podem assegurar o acesso exclusivo a tais recursos. Como bem se sabe, a China, a \u00cdndia e o Sul no seu conjunto tamb\u00e9m necessitam desses recursos para o seu desenvolvimento. Para os Estados Unidos trata-se imperativamente de limitar esse acesso e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, s\u00f3 existe um meio: a guerra\u201d.(4)<\/p>\n<p>Todavia, estas pol\u00edticas fracassar\u00e3o num mundo que est\u00e1 para l\u00e1 da classe dominante e da burguesia transnacionalizada, e que se pronuncia cada vez com mais for\u00e7a pela civiliza\u00e7\u00e3o e pelas sa\u00eddas pol\u00edticas dos conflitos, assim os belicistas imponham a for\u00e7a e a barb\u00e1rie. Ao fim e ao cabo as massas populares criam tamb\u00e9m as suas pr\u00f3prias formas de resist\u00eancia, muitas audazes e contundentes. \u201c(\u2026) A crise econ\u00f3mica e financeira (no momento actual) coincide com o fracasso da estrat\u00e9gia imperialista de guerra preventiva que deu lugar \u00e1 chamada luta contra o terrorismo e teve as suas mais violentas express\u00f5es nas invas\u00f5es do Iraque e Afeganist\u00e3o, assim como em outros casos de intervencionismo militar\u201d(5)<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica Latina \u00e9 uma regi\u00e3o em ebuli\u00e7\u00e3o, \u00e9 um fervedouro de conflitos pol\u00edticos e sociais, com processos de fortalecimento de projectos de emancipa\u00e7\u00e3o, em diferentes n\u00edveis e alcances. N\u00e3o h\u00e1 um modelo preconcebido, n\u00e3o existe um paradigma, mas sim processos \u00e1 margem da influ\u00eancia e da domina\u00e7\u00e3o ianque. A Am\u00e9rica Latina n\u00e3o \u00e9 mais o p\u00e1tio das traseiras do imp\u00e9rio do norte. Demonstram-no os processos de integra\u00e7\u00e3o regional como a UNASUR e outros sem a presen\u00e7a norte-americana. Inclusive come\u00e7a-se a falar de uma nova forma de organiza\u00e7\u00e3o de pa\u00edses da Am\u00e9rica e do Caribe sem a presen\u00e7a tutelar dos Estados Unidos. S\u00e3o novas realidades de um mundo em que \u00e9 evidente a barb\u00e1rie dos poderosos, mas tamb\u00e9m as tend\u00eancias para a civiliza\u00e7\u00e3o e para as mudan\u00e7as de sentido positivo.<\/p>\n<p>A esquerda e os revolucion\u00e1rios est\u00e3o pela civiliza\u00e7\u00e3o, associada ao progresso democr\u00e1tico e social. \u201cA civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9, pois, o est\u00e1dio de desenvolvimento da sociedade em que a divis\u00e3o do trabalho, a mudan\u00e7a entre indiv\u00edduos que dela deriva, e a produ\u00e7\u00e3o mercantil que abarca um e outro, alcan\u00e7am o seu pleno desenvolvimento e provocam uma revolu\u00e7\u00e3o em toda a sociedade anterior\u201d. Palavras escritas h\u00e1 tantos anos por Engels, em tempos da primeira \u00e9poca do capitalismo, levantando-se, embora de forma incipiente, sobre as ru\u00ednas do sistema feudal, mas que colocado nos termos da modernidade, da revolu\u00e7\u00e3o industrial e tecnol\u00f3gica, nos tempos do ciberespa\u00e7o e grandes conquistas da ci\u00eancia, a filosofia burguesa do maior lucro e de colocar o conhecimento ao servi\u00e7o dos interesses do capital, continua a ser igual. Como igual \u00e9 a luta de classes, a confronta\u00e7\u00e3o dial\u00e9ctica, porque as for\u00e7as democr\u00e1ticas e progressistas pretendem mudan\u00e7as e transforma\u00e7\u00f5es estruturais e de fundo para que as conquistas da humanidade e da civiliza\u00e7\u00e3o se coloquem ao servi\u00e7o das massas populares, dos homens e das mulheres que constituem o conglomerado social nas diferentes latitudes.<\/p>\n<p><em>(1) LENIN, V.I. O Imperialismo fase superior do capitalismo. Tomo 3 das Obras Escolhidas, Editorial Progreso, 1961. P\u00e1g. 764 <\/em><\/p>\n<p>(2) Em Recess\u00e3o econ\u00f3mica. Crise do modelo ou crise do sistema? Carlos Lozano G. (Editor). (Art\u00edgo de Carlos A. Lozano Guill\u00e9n). Funda\u00e7\u00e3o Semanario VOZ, Fevereiro de 2009. P\u00e1g. 13<\/p>\n<p>(3) MARX, Carl, ENGELS, Frederico. Obras Escolhidas. Dezoito Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte, Editorial Progreso, 1955. Tomo I. P\u00e1g. 465<\/p>\n<p>(4) Em Recess\u00e3o Econ\u00f3mica. Crise do modelo ou crise do sistema? Carlos Lozano G. (Editor). (Em art\u00edgo de Samir Amin). Funda\u00e7\u00e3o Semanario VOZ. P\u00e1g. 66<\/p>\n<p>(5) Ibidem P\u00e1g. 67<\/p>\n<p>(6) Em Recess\u00e3o Econ\u00f3mica. Crise do modelo ou crise do sistema? Carlos Lozano G. (Editor). (Em art\u00edgo de Jairo Estrada Alvarez) Funda\u00e7\u00e3o Semanario VOZ. P\u00e1g. 33<\/p>\n<p>(7) ENGELS, Frederico, A origem da fam\u00edlia, a propriedade privada e o Estado. Obras Escolhidas de Carl Marx e Frederico Engels em tr\u00eas tomos. Editorial Progreso 1955, Tomo II P\u00e1g. 341.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p><strong>Uma express\u00e3o da barb\u00e1rie <\/strong><\/p>\n<p>O conflito colombiano: Forma violenta do capitalismo<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria pol\u00edtica da Col\u00f4mbia \u00e9 a hist\u00f3ria dos grandes conflitos sociais e econ\u00f3micos. Faz apenas quarenta anos, mais ou menos, que se publicou o texto \u201cOs grandes conflitos sociais e econ\u00f3micos da nossa hist\u00f3ria\u201d, primeira tentativa de escrever a \u201cnova hist\u00f3ria da Col\u00f4mbia\u201d, diferente da tradicional e confessional que se transmite de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o at\u00e9 aos nossos dias. O autor foi Indal\u00e9cio Li\u00e9vano Aguirre. No inicio, o texto afirma o seguinte: \u201cA conquista e a coloniza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica ser\u00e3o objecto de infindas controv\u00e9rsias enquanto se insistir em as descrever como um processo homog\u00e9neo e rectil\u00edneo e n\u00e3o como um conflito din\u00e2mico, dentro o qual as chamadas Lenda Negra e Lenda Rosa representam, apenas, as duas tend\u00eancias que ao longo dos s\u00e9culos coloniais inspiraram a grande controv\u00e9rsia entre o Estado espanhol e os poderes senhoriais da riqueza. No relato que vamos fazer dos epis\u00f3dios principais da nossa hist\u00f3ria desde a conquista, se poder\u00e3o perceber as origens dessa grande controv\u00e9rsia e a maneira decisiva como ela ancorou no centro de gravidade da nossa sociedade o grande debate entre a justi\u00e7a que defende os humildes e todas as formas de opress\u00e3o que favorecem os poderosos\u201d.(1)<\/p>\n<p>Essa esp\u00e9cie de confronta\u00e7\u00e3o \u00e9 constante, porque as classes dominantes desde \u201cA Conquista\u201d, acostumaram-se a exercer o poder mediante o exerc\u00edcio da viol\u00eancia. Nem sequer a \u00e9poca republicana se livrou desta perversa tend\u00eancia olig\u00e1rquica, depois de Sim\u00f3n Bol\u00edvar, a hist\u00f3ria colombiana desde finais do s\u00e9culo XVIII at\u00e9 aos nossos dias, manteve essa constante. O pequeno, mas poderoso c\u00edrculo governante, imp\u00f4s a \u201clei e a ordem\u201d sob m\u00e9todos repressivos e terroristas de Estado. Mediante o exterm\u00ednio do contraditor e os estatutos de seguran\u00e7a, como a lei her\u00f3ica, a lei dos cavalos, o estatuto de seguran\u00e7a, a seguran\u00e7a democr\u00e1tica, entre outros. Todos orientados para impor a ordem e neutralizar a subvers\u00e3o em defesa dos interesses imperialistas e da oligarquia dominante. Esta \u00e9 a causa de tantos conflitos e de guerras civis ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u201cPara entender o conflito pol\u00edtico, social e armado que afecta o pa\u00eds no momento actual, basta seguir a traject\u00f3ria da hist\u00f3ria da viol\u00eancia na Col\u00f4mbia nos \u00faltimos cinquenta anos, que \u00e9 apenas uma das tantas viol\u00eancias que a classe dominante imp\u00f4s ao povo, porque ao fim e ao cabo n\u00e3o conheceu outra forma de governar para fixar o reg\u00edmen antidemocr\u00e1tico e desp\u00f3tico que garante gordos benef\u00edcios \u00e1 oligarquia, que lucra com o poder em cada etapa do processo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista. Primeiro foram os latifundi\u00e1rios, depois a burguesia detentora dos meios de produ\u00e7\u00e3o e na actualidade o capital financeiro, proporcionado pelo modelo neoliberal do capitalismo selvagem e os poderosos grupos econ\u00f3micos que concentram cada vez mais a riqueza, naturalmente amarrados como usufrutu\u00e1rios do poder dominante, ligado aos interesses imperialistas\u201d.<\/p>\n<p>O conflito pol\u00edtico, social e armado da actualidade, o \u00faltimo de tantas viol\u00eancias dos 500 anos de exist\u00eancia e 200 da primeira independ\u00eancia, teve a sua origem em meados do s\u00e9culo passado nas lutas camponesas pela reforma agr\u00e1ria e da contradi\u00e7\u00e3o com os latifundi\u00e1rios, protegidos pelo governo de ent\u00e3o (Mariano Ospina P\u00e9rez, conservador) a ferro e fogo. Foi a \u00e9poca em que se consolidaram as formas terroristas do Estado colombiano, que ainda perduram.<\/p>\n<p>A Col\u00f4mbia era na \u00e9poca um pa\u00eds agr\u00e1rio, de economia agr\u00e1ria e com a maior concentra\u00e7\u00e3o da riqueza e popula\u00e7\u00e3o no campo. Apenas 3 por cento dos propriet\u00e1rios controlava 95 por cento da terra f\u00e9rtil. Sessenta anos depois, apesar da Col\u00f4mbia ser um pa\u00eds urbano, com forte economia agro-industrial e com ritmos altos na produ\u00e7\u00e3o industrial, nunca se fez uma reforma agr\u00e1ria. Antes pelo contr\u00e1rio, nos \u00faltimos vinte anos, o emaranhado de pol\u00edticos regionais tradicionais, as m\u00e1fias do narcotr\u00e1fico e o para-militarismo, avan\u00e7aram com uma contra-reforma agr\u00e1ria para despojar da terra os m\u00e9dios e pequenos camponeses. Despejo imposto com a protec\u00e7\u00e3o dos governantes, mesmo em formas descaradas de assist\u00eancia a latifundi\u00e1rios e outros sectores da oligarquia, como o Programa de Agro Ingresso Seguro no anterior Governo, que entregou milh\u00f5es e milh\u00f5es de pesos em subs\u00eddios e ajudas aos ricos, em aberto desafio \u00e0s comunidades empobrecidas da agricultura colombiana.<\/p>\n<p>S\u00e3o estas as raz\u00f5es do conflito, que se retroalimentou nos \u00faltimos trinta anos com a configura\u00e7\u00e3o excludente de um sistema bipartidarista de formas repressivas e da liquida\u00e7\u00e3o das liberdades p\u00fablicas, que afastam a possibilidade de um Estado social de direito, como consagra a Constitui\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica de 1991 na sua letra morta. Precisamente, por a oligarquia dominante, em cada momento, se negar a alterar esta situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 que fracassaram todos as tentativas nos \u00faltimos 30 anos de encontrar a paz mediante o di\u00e1logo com as guerrilhas. N\u00e3o h\u00e1 uma vontade pol\u00edtica de mudan\u00e7a na classe dominante, preferem a paz dos cemit\u00e9rios \u00e1 paz romana. A causa do fracasso dos processos de paz ou de di\u00e1logo foi a resist\u00eancia do governo de turno, pressionado pela classe dominante e pelo imperialismo ianque, a aceitar altera\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sociais e econ\u00f3micas que erradiquem as causas do conflito. Cada governo prefere a linha da guerra, com a velha ambi\u00e7\u00e3o de levar a guerrilha derrotada \u00e1 mesa de di\u00e1logo para assinar a desmobiliza\u00e7\u00e3o e a rendi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 a causa de tantos fracassos e de tantas frustra\u00e7\u00f5es do povo colombiano, que anseia pela paz. O conflito prolongou-se de maneira indefinida, conhecendo altos n\u00edveis de degrada\u00e7\u00e3o e barb\u00e1rie. Por esta raz\u00e3o, um di\u00e1logo de paz deve come\u00e7ar por acordos humanit\u00e1rios bilaterais, que comprometam as partes na aplica\u00e7\u00e3o e respeito pelo direito internacional humanit\u00e1rio. Contudo, o fracasso da via militar \u00e9 evidente, e mais ainda depois dos oito anos de guerra sustentada na chamada \u201cseguran\u00e7a democr\u00e1tica\u201d nos dois governos de \u00c1lvaro Uribe V\u00e9lez, incluindo a entrega de parte do territ\u00f3rio nacional para a instala\u00e7\u00e3o de bases militares norte-americanas.<\/p>\n<p>\u00c9 a linha em que persiste o governo actual de Juan Manuel Santos, que chegou ao desaforo de qualificar Uribe V\u00e9lez como o segundo libertador da Col\u00f4mbia. Enquanto insiste nas opera\u00e7\u00f5es militares e bombardeamentos a\u00e9reos indiscriminados e calculados, sempre com o apoio do governo dos Estados Unidos, que lhe permitiu assestar duros golpes na guerrilha das FARC, embora sem acabar com ela como \u00e9 a pretens\u00e3o e a propaganda. N\u00e3o chegou o \u201csonho dourado\u201d da madre de todas as batalhas que permita ao governo da Col\u00f4mbia arrasar a totalidade da for\u00e7a guerrilheira.<\/p>\n<p>Depois do sete de Agosto passado, quando Juan Manuel Santos assumiu a presid\u00eancia, as FARC fizeram pelo menos tr\u00eas tentativas de abrir um cen\u00e1rio de di\u00e1logo, com uma agenda concreta que inclu\u00eda cinco pontos como o direito internacional humanit\u00e1rio, a reforma agr\u00e1ria, o modelo econ\u00f3mico, as mudan\u00e7as pol\u00edticas e as bases militares e a soberania nacional. Santos, por seu lado, assegura que tem na sua m\u00e3o a chave do di\u00e1logo, condicionado a gestos de vontade de paz da guerrilha, ainda que a \u00eanfase seja colocada nos meios operativos militares e de guerra. Tudo num clima de confronta\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o aos opositores como \u00e9 o caso da senadora Piedad C\u00f3rdoba e de tantos colombianos e colombianas que trabalham para construir um novo pa\u00eds em condi\u00e7\u00f5es de paz com democracia e justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>A via militar \u00e9 invi\u00e1vel. A solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica negociada do conflito, a via pac\u00edfica e democr\u00e1tica, apoiada nas massas populares, \u00e9 a \u00fanica que pode tirar o pa\u00eds da crise. Neste sentido \u00e9 importante fortalecer os processos de unidade em redor do P\u00f3lo Democr\u00e1tico Alternativo e de outros sectores pol\u00edticos e sociais, que se pronunciam pela paz e o fortalecimento da democracia. \u00c9 a contradi\u00e7\u00e3o entre a barb\u00e1rie e a civiliza\u00e7\u00e3o, Entre as for\u00e7as progressistas e o fascismo; entre os que queremos uma Col\u00f4mbia democr\u00e1tica virada para os processos latino-americanos e os que insistem em estar atados \u00e1 tirania imperialista que imp\u00f5e o atraso e a guerra.<\/p>\n<p><em>LIEVANO, Aguirre Indalecio Os grandes conflitos sociais e econ\u00f3micos da nossa hist\u00f3ria. Intermedio Editores 2002. P\u00e1g. 19<\/em><\/p>\n<p>ANO, Guill\u00e9n Carlos A. Guerra ou Paz na Col\u00f4mbia? Cinquenta anos de um conflito sem solu\u00e7\u00e3o. Edi\u00e7\u00f5es Izquierda Viva y Ocean Sur. 2006. P\u00e1g. 37<\/p>\n<p>(*) Advogado e jornalista colombiano. Director do jornal VOZ. Dirigente do Partido Comunista Colombiano e do P\u00f3lo Democr\u00e1tico Alternativo. Autor de sete livros e de numerosos ensaios em jornais e revistas.<\/p>\n<p>ANO, Guill\u00e9n Carlos A. Guerra ou Paz na Col\u00f4mbia? Cinquenta anos de um conflito sem solu\u00e7\u00e3o. Edi\u00e7\u00f5es Izquierda Viva y Ocean Sur. 2006. P\u00e1g. 37<\/p>\n<p>(*) Advogado e jornalista colombiano. Director do jornal VOZ. Dirigente do Partido Comunista Colombiano e do P\u00f3lo Democr\u00e1tico Alternativo. Autor de sete livros e de numerosos ensaios em jornais e revistas.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o para portugu\u00eas: Guilherme Coelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiario.info\n\u00a0\n\n\n\u00a0\n\u00a0\n\n\n\nCarlos A. 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