{"id":9998,"date":"2015-12-11T15:09:11","date_gmt":"2015-12-11T18:09:11","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=9998"},"modified":"2016-01-05T12:28:10","modified_gmt":"2016-01-05T15:28:10","slug":"mulheres-revolucionarias-dirce-machado-e-a-luta-camponesa-em-goias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/9998","title":{"rendered":"Mulheres Revolucion\u00e1rias: Dirce Machado e a luta camponesa em Goi\u00e1s"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh5.googleusercontent.com\/-bDs7UZQdV58\/Vj1FUutiInI\/AAAAAAAALDQ\/i_AwfEmTWP8\/w371-h527-no\/pp6.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/>Na d\u00e9cada de 1950, no norte de Goi\u00e1s, uma resist\u00eancia popular mudou a hist\u00f3ria do Estado. Esta resist\u00eancia tinha, entre Trombas e Formoso, lutadoras e lutadores sociais, mas tamb\u00e9m grileiros interessados em aniquilar fam\u00edlias inteiras para vender as terras que deveriam pertencer \u00e0s fam\u00edlias.<!--more--><\/p>\n<p>Quando veio a ditadura empresarial-militar, em 1964, Trombas, que se destacara por ter sido o local de resist\u00eancia dos posseiros, sofreu o violento golpe das persegui\u00e7\u00f5es. Os anos sombrios abalariam aquela realidade militante que nos dera refer\u00eancias de luta pela terra como Z\u00e9 Porf\u00edrio e, principalmente, Dona Dirce Machado.<\/p>\n<p>A goiana de Rio Verde, nascida em 1934, filha de meeiros e rendeiros, iniciou a sua milit\u00e2ncia pol\u00edtica aos 12 anos de idade sem saber, depois de um desmaio emocionado por ter descoberto que a leitura do livro <i>O Cavaleiro da Esperan\u00e7a, <\/i>de Jorge Amado, arrancara-lhe l\u00e1grimas por ser uma hist\u00f3ria real. Luiz Carlos Prestes existia, not\u00edcia confirmada pelo jornal Terra Livre, do Partido Comunista Brasileiro, e que convidava para o anivers\u00e1rio do Cavaleiro.<\/p>\n<p>Com o aux\u00edlio do Partido, Dirce estudou, organizou a Juventude Comunista, participou da vida pol\u00edtica no centro urbano do estado, mas n\u00e3o era o suficiente para que se sentisse feliz e militante, ela era da terra. E para a terra voltou, incumbida de organizar a resist\u00eancia em uma das regi\u00f5es de Formoso, liderando um dos acampamentos da regi\u00e3o, cuidando da seguran\u00e7a de todas aquelas pessoas que ousaram lutar. Ajudou na forma\u00e7\u00e3o do Conselho de Mulheres, um conselho que se destacou por dar assist\u00eancia \u00e0s casas dos posseiros que estavam no piquete, levar comunicados da dire\u00e7\u00e3o, administrar os mutir\u00f5es, auxiliar mulheres gr\u00e1vidas, com filhos pequenos ou que n\u00e3o podiam trabalhar e, inclusive, guardar a entrada de Trombas, o centro da revolta.<\/p>\n<p>Quando veio a ditadura, Dirce e seu marido, Jos\u00e9 Ribeiro, entocaram-se em uma gruta para que, na busca feroz dos militares e civis contra as lideran\u00e7as pol\u00edticas da resist\u00eancia, nenhuma outra pessoa sofresse com as torturas. Nestes anos dif\u00edceis, em que falar de pol\u00edtica era proibido, Dirce manteve-se forte e militante, fazia seu trabalho pol\u00edtico e, consciente, representava o PCB no Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro (MDB), tendo sido eleita vereadora duas vezes seguidas em Formoso, j\u00e1 na d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, Dona Dirce \u00e9 a refer\u00eancia de Trombas e Formoso, \u00e9 a pessoa que, na capital, recebe e hospeda quem esteve com ela na resist\u00eancia, e tamb\u00e9m quem n\u00e3o esteve, mas respeita sua luta e sua hist\u00f3ria que, com simplicidade, esta militante faz quest\u00e3o de dizer que n\u00e3o \u00e9 dela, mas do povo.<\/p>\n<p><b>Dirce Machado da Silva concedeu entrevista aos camaradas do Comit\u00ea Central do PCB Dinarco Reis Filho, Ivan Pinheiro e Marta Jane em julho de 2014. Aqui transcrevemos trechos dessa entrevista, que pode ser lida na \u00edntegra na p\u00e1gina da Funda\u00e7\u00e3o Dinarco Reis (http:\/\/pcb.org.br\/fdr).<\/b><\/p>\n<p><b>Dinarco:<\/b> Como \u00e9 que come\u00e7ou a hist\u00f3ria da sua atividade pol\u00edtica?<\/p>\n<p><b>Dirce:<\/b> Um dia chega um senhor chamado Ant\u00f4nio distribuindo uns jornaizinhos, o Terra Livre. A primeira reportagem convidava para o anivers\u00e1rio do Cavaleiro da Esperan\u00e7a. A\u00ed eu perguntei: \u201cesse homem existe?\u201d. E chorei. Porque foi imensa a minha emo\u00e7\u00e3o. (&#8230;) E nesse grupo tinha uma mo\u00e7a e um sujeito jovem, rec\u00e9m-casados: Declieux Crispim e Colombina Baiochi. Eles estavam fugindo. Eram mais de 20 pessoas. Eles estiveram tr\u00eas dias reunidos l\u00e1 em casa, depois foram embora e ca\u00edram na malha da pol\u00edcia. (&#8230;) Fomos expulsos da fazenda. (&#8230;) Eles nos deram uma pequena indeniza\u00e7\u00e3o, meu pai comprou um lote e fez um ranchinho de pau a pique na cidade de Rio Verde. Mas eu fiquei suja, nenhum pai de fam\u00edlia queria que as crian\u00e7as brincassem comigo, n\u00e3o tinha escola que me quisesse. <b>\u00c9 porque, no mundo capitalista, mulher pode ser prostituta, pode ser alcoviteira, pode ser assassina, ladra, \u00e9 normal da sociedade, mas ser comunista \u00e9 o fim da picada!<\/b><\/p>\n<p><b>Dinarco:<\/b> Mas e a\u00ed, depois, voc\u00ea come\u00e7ou a ter atividade no Partido?<\/p>\n<p><b>Dirce:<\/b> Eu entrei para a Juventude Comunista. (&#8230;) Morei num aparelho do Partido. N\u00f3s faz\u00edamos a regi\u00e3o cafeeira. A gente reunia os companheiros, de dias em dias tinha o pleno. Vinha gente de Urua\u00e7u, aquela regi\u00e3o toda. Eu fazia parte do quadro de Finan\u00e7as, Agita\u00e7\u00e3o e Propaganda. A gente imprimia o jornalzinho no mime\u00f3grafo, era aquele trabalho de formiguinha. (&#8230;) Meu marido era dirigente do Partido, chamava-se Jos\u00e9 Ribeiro da Silva. N\u00f3s casamos para ir ajudar na luta, orientar e tudo, mas a cabe\u00e7a pensante do movimento, quem fazia as estrat\u00e9gias e determinava era o Z\u00e9 Ribeiro. Ele era um grande estrategista, era um grande companheiro.<\/p>\n<p><b>Ivan:<\/b> Como aconteceu a revolta camponesa?<\/p>\n<p><b>Dirce: <\/b>J\u00e1 estava tendo a luta contra os grileiros e n\u00f3s fomos l\u00e1 para ajudar a orientar, porque os grileiros estavam espezinhando, matando posseiro, queimando casa, espancando mulher at\u00e9 abortar. Come\u00e7amos a trabalhar na base de mutir\u00e3o, porque a gente conhecia os mutir\u00f5es em Rio Verde, o Ribeiro conhecia em Minas Gerais, a\u00ed come\u00e7amos. Eu fazia parto, eu encanava perna, eu matava os piolhos, as sarnas (com sab\u00e3o&#8230; e tamb\u00e9m no mato, a gente arranjava folha e passava), tirava os bernes. A gente j\u00e1 estava orientando, trabalhando a regi\u00e3o, esclarecendo, indo na casa daqueles camponeses mais inteligentes, mais revoltados. Ent\u00e3o os grileiros come\u00e7aram a querer cobrar arrendo, buscar as coisas nas casas dos posseiros, faziam tanta atrocidade que voc\u00eas n\u00e3o s\u00e3o capazes de avaliar. Eles queriam ficar com a terra porque ali em Bras\u00edlia j\u00e1 tinha aberto a estrada (Bel\u00e9m-Bras\u00edlia), come\u00e7ou a valoriza\u00e7\u00e3o do terreno. (&#8230;) Desde crian\u00e7a eu vivi naquele clima de injusti\u00e7a, tinha que mudar, tinha que fazer a reforma agr\u00e1ria. N\u00f3s fomos morar no C\u00f3rrego do Sapato. \u00d4 Deus, que dificuldade! Pobre n\u00e3o tinha nada. E fomos para a casa do Jo\u00e3o Marinho e da Vera, da Associa\u00e7\u00e3o de Posseiros de Formoso, uma organiza\u00e7\u00e3o de renome, dentro da regi\u00e3o era uma autoridade, e cada c\u00f3rrego tinha um conselho. Aquele conselho administrava os problemas da regi\u00e3o, daquele c\u00f3rrego. De tempo em tempo, reunia o representante daquele conselho com outros conselhos, com a dire\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o. (&#8230;) Ent\u00e3o, na regi\u00e3o do Sapato, eu fundei o Conselho das Mulheres, a base das mulheres. Foi a \u00fanica base feminina da regi\u00e3o. As outras eram mistas e l\u00e1 era de mulheres mesmo. N\u00f3s comand\u00e1vamos a entrada principal da regi\u00e3o de Trombas, tinha que passar por cima de n\u00f3s para entrar em Trombas. As mulheres eram boas de gatilho. Elas eram terr\u00edveis. A Comiss\u00e3o de Mulheres dava assist\u00eancia \u00e0s casas dos posseiros que estavam no piquete, levavam e traziam comunicados da dire\u00e7\u00e3o e administravam as ro\u00e7as, administravam o mutir\u00e3o.<\/p>\n<p>(&#8230;) Hoje eu sou presidente de honra da Associa\u00e7\u00e3o dos Anistiados. Acontece o seguinte, eu n\u00e3o recebi nada como meu, \u00e9 dos companheiros de Trombas. <b>Eu, sozinha, n\u00e3o fiz a luta.<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Na d\u00e9cada de 1950, no norte de Goi\u00e1s, uma resist\u00eancia popular mudou a hist\u00f3ria do Estado. 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