Cuba: a solidariedade não se bloqueia

Jornal AVANTE! – Partido Comunista Português (PCP)

A Voz do Ope­rário, em Lisboa, aco­lheu no dia 19 dois mo­mentos es­pe­ciais de so­li­da­ri­e­dade com Cuba so­be­rana, re­sis­tente e so­ci­a­lista: uma con­fe­rência evo­ca­tiva do cen­te­nário do nas­ci­mento de Fidel Castro, que este ano se as­si­nala; e um con­certo contra o blo­queio e as ame­aças dos EUA, que contou com a ge­ne­rosa con­tri­buição de vá­rios ar­tistas. Re­a­li­zadas em plena cam­panha de so­li­da­ri­e­dade com Cuba, estas ini­ci­a­tivas tes­te­mu­nharam que não há blo­queio que seja capaz de impedir o apoio àquele país tão digno, he­róico e so­li­dário.

As ini­ci­a­tivas re­a­li­zaram-se num mo­mento par­ti­cu­lar­mente exi­gente para a Re­vo­lução cu­bana: o blo­queio im­posto há mais de seis dé­cadas foi agra­vado desde 2019 e, par­ti­cu­lar­mente, no final de ja­neiro deste ano, com os EUA ten­tando impor um cerco total à en­trada de com­bus­tí­veis no país, que en­frenta desde então longos apa­gões e per­tur­ba­ções graves nos setores da saúde, dos trans­portes, da pro­dução e, em geral, na vida co­ti­diana de mi­lhões de cu­banos.

E de­pois há, como sempre houve, o outro lado: a cri­a­ti­vi­dade e a re­sis­tência dos re­vo­lu­ci­o­ná­rios cu­banos, de todo o povo de Cuba, que não ab­dica da sua so­be­rania e da sua Re­vo­lução. Isso ficou evi­dente por estes dias, nas co­me­mo­ra­ções de duas datas mar­cantes, pas­sadas há 65 anos: a ten­ta­tiva de de­sem­barque mer­ce­nário, pro­mo­vido pelos EUA, na Baía dos Porcos, der­ro­tado pelo povo cu­bano no pró­prio dia 19 de abril de 1961; dias antes, a pro­cla­mação do caráter so­ci­a­lista da Re­vo­lução cu­bana, pela voz do Co­man­dante em Chefe Fidel Castro. «Re­sistir aos em­bates das in­va­sões coti­di­anas é a obra épica que es­cre­vemos hoje», afirmou por estes dias Mi­guel Diaz-Canel, Pre­si­dente de Cuba.

Na con­fe­rência “No cen­te­nário de Fidel Castro – Cuba, a Re­vo­lução e o Mundo” falou-se de tudo isto: dos 67 anos de luta, re­sis­tência e cons­trução que marca a Re­vo­lução cu­bana; do cerco e ataques per­ma­nentes por parte da maior po­tência im­pe­ri­a­lista do mundo; da con­tri­buição no­tável de Cuba – e em par­ti­cular de Fidel Castro – para o mo­vi­mento de li­ber­tação dos povos e para a luta anti-im­pe­ri­a­lista; da so­li­da­ri­e­dade que é de­vida a Cuba.

So­li­da­ri­e­dade re­cí­proca

O pri­meiro a in­tervir foi João Ter­reiro, vice-pre­si­dente da As­so­ci­ação de Ami­zade Por­tugal-Cuba (AAPC), que re­alçou o pen­sa­mento de Fidel Castro, para quem a Re­vo­lução cu­bana «fazia parte de uma luta his­tó­rica mais vasta de afir­mação dos di­reitos dos povos, da luta por um outro mundo, livre da ex­plo­ração e opressão e li­berto das re­la­ções de do­mínio co­lo­niais e im­pe­ri­a­listas». Sa­li­entou ainda o ca­ráter so­li­dário da Re­vo­lução cu­bana, que en­viou e envia mé­dicos, pro­fes­sores e en­ge­nheiros para de­zenas de países, e par­ti­cipou e par­ti­cipa em mis­sões de co­o­pe­ração in­ter­na­ci­onal em vá­rios con­ti­nentes. A so­li­da­ri­e­dade re­cí­proca, na qual a AAPC sempre se em­pe­nhou – e hoje com par­ti­cular in­ten­si­dade –, cons­titui uma afir­mação po­lí­tica de que «Cuba não está só».

Ou­tra das or­ga­ni­za­ções pro­mo­toras da Con­fe­rência e da cam­panha de so­li­da­ri­e­dade é o CPPC, que pela voz da pre­si­dente da di­reção na­ci­onal, Isabel Ca­ma­rinha, re­alçou o «exemplo de luta, re­sis­tência e so­li­da­ri­e­dade com o mundo» dado pela Re­vo­lução Cu­bana, que con­tinua a ser uma fonte de ins­pi­ração e de es­pe­rança «não só para os povos da Amé­rica La­tina, mas também para todos aqueles que as­piram à paz, pro­gresso so­cial e jus­tiça».

Pela CGTP-IN, também ela en­vol­vida em toda a ação so­li­dária, in­ter­veio o di­ri­gente Dinis Lou­renço, para re­alçar a na­tu­reza da Re­vo­lução cu­bana «dos hu­mildes, pelos hu­mildes e para os hu­mildes» e de­nun­ciar os efeitos cri­mi­nosos do blo­queio estadunidense. O sin­di­ca­lista va­lo­rizou a forma como os tra­ba­lha­dores cu­banos têm con­tri­buído para con­tornar os obs­tá­culos im­postos pelo blo­queio e para re­cons­truir o que as re­centes in­tem­pé­ries des­truíram.

Con­quistas re­vo­lu­ci­o­ná­rias

Sobre a Saúde, uma das grandes con­quistas re­vo­lu­ci­o­ná­rias, falou o mé­dico Jo­a­quim Judas, va­lo­ri­zando o sis­tema de saúde cu­bano: o acesso é efeti­va­mente uni­versal e gra­tuito, a me­di­cina pre­ven­tiva e a pro­moção da saúde são eixos cen­trais, e a in­dús­tria far­ma­cêu­tica e bi­o­téc­no­ló­gica é al­ta­mente de­sen­vol­vida. Apesar das imensas di­fi­cul­dades co­lo­cadas pelo blo­queio, Cuba apre­senta ín­dices de saúde ex­tra­or­di­ná­rios, al­guns su­pe­ri­ores aos dos EUA, como são os casos da es­pe­rança média de vida e da mor­ta­li­dade in­fantil: em 2020, eram res­pec­ti­va­mente de 78 anos, face aos 77 dos EUA, e de quatro mortes por mil recém-nascidos, face aos seis dos EUA.

Ma­nuela Men­donça, do Se­cre­ta­riado da FEN­PROF, abordou o fato de Cuba ter pres­tado, na área da Edu­cação, ajuda so­li­dária a mais de 40 países e al­fa­be­ti­zado mais de 10 mi­lhões de pes­soas. A taxa de es­co­la­ri­zação cu­bana é de 98% e a de al­fa­be­ti­zação apro­xima-se dos 100%. A pro­fes­sora e sin­di­ca­lista de­nun­ciou também os efeitos do blo­queio, que im­pede es­tu­dantes e pro­fes­sores de terem acesso a meios e tec­no­lo­gias es­sen­ciais. «Como ex­plicar a uma mãe que o seu filho com pa­ra­lisia ce­re­bral não pode ter acesso a um co­mu­ni­cador al­ter­na­tivo porque o blo­queio im­pede a sua im­por­tação?»

Re­gina Mar­ques, do MDM, re­feriu-se ao papel das mu­lheres em Cuba e da «re­vo­lução dentro da Re­vo­lução» que pro­ta­go­ni­zaram. São mu­lheres 56% das de­pu­tadas à As­sem­bleia Na­ci­onal e 80% dos ma­gis­trados; 42% dos mu­ni­cí­pios e seis das 15 re­giões são pre­si­didos por mu­lheres. E lem­brou Fidel Castro, quando este afirmou que «foram as opor­tu­ni­dades e o am­bi­ente de igual­dade e res­peito cri­ados pela Re­vo­lução que lhes per­mi­tiram [às mu­lheres] (…) ocupar o lugar que jus­ta­mente lhes cor­res­ponde, sem dis­cri­mi­na­ções nem in­fe­ri­o­ri­dades».

O jor­na­lista Carlos Lopes Pe­reira lem­brou o papel de Cuba na li­ber­tação na­ci­onal dos povos afri­canos, so­bre­tudo de An­gola. «Poucos dias antes da de­cla­ração de in­de­pen­dência, pe­rante as ame­aças do im­pe­ri­a­lismo à so­be­rania an­go­lana, o go­verno de Cuba de­cidiu apoiar de modo di­reto o país afri­cano», afirmou, lem­brando que o pró­prio Nelson Man­dela diria mais tarde que «essa foi a pri­meira vez que um país veio de outro con­ti­nente não para levar algo, mas para ajudar os afri­canos a con­quistar a li­ber­dade».

Re­sistir e trans­formar

Pela As­so­ci­ação Por­tu­guesa de Ju­ristas De­mo­cratas in­ter­veio Luís Cor­ceiro, que de­nun­ciou a ile­ga­li­dade do blo­queio dos EUA contra Cuba, «que priva o povo cu­bano do seu de­sen­vol­vi­mento livre e so­be­rano» e, como tal, ca­rece de sus­ten­tação legal, po­lí­tica e também moral. Assim, acres­centou, «não é o sis­tema econômico cu­bano que não fun­ciona, é a as­fixia da eco­nomia cu­bana, através das san­ções, que pro­voca as mai­ores di­fi­cul­dades». Blo­quear, acres­centou, é «matar, de uma forma en­ver­go­nhada, mas gros­seira, ge­no­cida, hor­rível».

Ma­nuel Jo­a­quim Silva, que em 1998 in­te­grou a co­missão or­ga­ni­za­dora da jor­nada de so­li­da­ri­e­dade com Cuba, a pro­pó­sito da vi­sita de Fidel Castro a Por­tugal, re­cordou a grande ma­ni­fes­tação pelas ruas do Porto e o co­mício de Ma­to­si­nhos. Aí, o Co­man­dante em Chefe da Re­vo­lução cu­bana afirmou que «com Cuba o so­ci­a­lismo não mor­rerá», mas que «os de­fen­sores da Re­vo­lução não podem cruzar os braços, têm de lutar em todas as frentes e em todas as tri­bunas».

A pro­fes­sora Ra­quel Ri­beiro, que es­teve re­cen­te­mente em Cuba, su­bli­nhou o pen­sa­mento re­vo­lu­ci­o­nário de Fidel Castro que, ao con­trário de ou­tras im­por­tantes fi­guras, como Franz Fanon, Pa­trice Lu­mumba ou Amílcar Ca­bral, não tem sido «re­des­co­berto» ou «res­ga­tado» pela Aca­demia li­beral, porque os de­mais mor­reram (ou foram mortos) sem terem efeti­va­mente go­ver­nado, ao con­trário do que acon­teceu com Fidel.

«Deixem Cuba em paz!»

O Se­cre­tário-Geral do PCP, Paulo Rai­mundo, in­ter­veio na Con­fe­rência onde, entre ou­tros as­pectos, saudou «um povo de co­ragem, de­ter­mi­nação e uma exem­plar so­li­da­ri­e­dade para com todos os povos e com a luta pela eman­ci­pação na­ci­onal e so­cial». Quanto a Fidel Castro, va­lo­rizou o «rico e atual le­gado de re­fle­xões, pro­postas ins­pi­ra­doras e guias de ação» que deixou, in­se­pa­rá­veis da sua for­mação mar­xista-le­ni­nista e «por­ta­doras de uma ina­ba­lável con­vicção na ne­ces­si­dade e pos­si­bi­li­dade de li­bertar a Hu­ma­ni­dade da ex­plo­ração e opressão ca­pi­ta­listas».

O di­ri­gente co­mu­nista re­a­firmou a so­li­da­ri­e­dade de sempre do PCP para com Cuba, o seu povo e a sua Re­vo­lução e de­nun­ciou o cri­mi­noso blo­queio que lhe foi im­posto, res­pon­sável pelas di­fi­cul­dades atra­ves­sadas pela eco­nomia cu­bana. «Os que os­tentam a sua su­posta su­pe­ri­o­ri­dade sis­têmica são os mesmos que só com­batem se o seu ad­ver­sário tiver as mãos e os pés amar­rados», de­nun­ciou, exi­gindo: «Deixem Cuba em paz, deixem o povo cu­bano cons­truir o seu pró­prio ca­minho.»

Paulo Rai­mundo ma­ni­festou a sua con­fi­ança na ca­pa­ci­dade do povo cu­bano, unido em torno do Par­tido Co­mu­nista de Cuba, en­con­trar as so­lu­ções e os ca­mi­nhos para su­perar as di­fi­cul­dades e pros­se­guir a sua Re­vo­lução.

Ideias de Fidel mais vivas do que nunca

Ao co­me­morar o cen­te­nário de Fidel Castro, «não o fa­çamos com o si­lêncio dos ce­mi­té­rios, mas com a ale­gria da luta», afirmou o em­bai­xador de Cuba em Por­tugal, José Ramón Sa­bo­rido Loidi, va­lo­ri­zando um exemplo que «nos serve de alento para en­frentar os de­sa­fios do nosso tempo com a mesma va­lentia e a mesma fé no ser hu­mano que ele sempre teve».

Fidel Castro, lem­brou, «foi um se­me­ador de so­nhos que muitos con­si­de­ravam im­pos­sí­veis. So­nhou com um mundo sem anal­fa­betos, sem cri­anças sem es­cola, sem do­entes sem cui­dados mé­dicos. So­nhou com uma hu­ma­ni­dade que desse as mãos em vez de er­guer os pu­nhos. Essas uto­pias não eram im­pos­sí­veis para ele: eram metas de tra­balho. E é essa a he­rança que nos deixa: a obri­gação moral de pros­se­guir em­pur­rando os li­mites do pos­sível».

Para o di­plo­mata cu­bano, é no mo­mento de com­ple­xi­dade ex­trema que o seu país en­frenta que as ideias e o exemplo de Fidel Castro as­sumem maior im­por­tância.