Cessar-fogo no Irã não passa de um embuste

José Goulão – Abril Abril
Como seria de esperar, o cessar-fogo na guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã não passa de uma miragem. Apesar do ruído provocado por supostas cedências do Irã aos inimigos agressores e por enxurradas de declarações e as suas contrárias produzidas pelo transtornado Donald Trump, desmontar esta confusão levantada para consumo midiático é, afinal, muito simples. Washington está tentando se recompor do fracasso de todos os objetivos políticos e militares da guerra, de modo a poder voltar a atacar; ou então busca uma saída airosa que, em termos de propaganda, possa transformar a derrota em vitória. Como, por exemplo, as tropas imperiais atlantistas fizeram no Afeganistão.
A mais recente decisão do presidente dos EUA (a prorrogação unilateral do cessar-fogo) não introduz qualquer alteração no status quo. É, afinal, uma declaração de derrota, disfarçada através de um gesto de suposta boa vontade que traz a contradição dentro dele. Para haver um autêntico cessar-fogo é necessário que os Estados Unidos abandonem a estratégia de bloqueio contra os portos iranianos, que o Irã considera um ato de guerra e desrespeita a cessação de hostilidades declarada há cerca de 20 dias. Mais uma canhestra jogada de propaganda na medida da imbecilidade do seu autor, uma vez que a intenção de manter as tentativas de bloqueio persiste. Não deixemos, porém, de interpretar o gesto unilateral como uma manifestação estadunidense de pouca vontade para combater, como quem busca uma maneira de declarar vitória no meio do imbróglio a que aderiu por pressão sionista.
Por muitas estratégias vencedoras que o presidente dos Estados Unidos deseje exibir-nos, multiplicando-se em mentiras e contradições, no fim tudo se resume a uma única linha de conduta: Trump dança a música que Netanyahu toca.
No que diz respeito a esta nova fase da guerra contra o Irã, isso acontece, pelo menos, desde a primeira quinzena de fevereiro último. No dia 11 desse mês, o chefe do regime sionista fez uma extensa apresentação na Sala da Situação na Casa Branca – onde raramente têm assento estadistas estrangeiros – perante Trump e um núcleo restrito dos seus assessores.
Os pressupostos para uma bem-sucedida agressão contra o Irã apresentados por Benjamin Netanyahu, com toda a convicção, partiram dos princípios de que Teerã estaria maduro para uma mudança de regime; a vitória numa ação militar seria quase certa; o programa iraniano de mísseis balísticos poderia ser destruído em poucas semanas; o poder “dos aiatolás” estaria tão enfraquecido que seria incapaz de bloquear o Estreito de Ormuz; o aparelho militar iraniano não tinha capacidade para atacar os aliados dos Estados Unidos e de Israel no Golfo. Além disso, apoiado em pareceres seguros do Mossad, o chefe sionista garantiu que, logo aos primeiros bombardeios, as populações agredidas iriam sublevar-se contra o regime, promovendo tumultos e rebeliões; e que os curdos do Iraque não hesitariam em invadir território iraniano, dispensando os militares norte-americanos de «pôr os pés em terra», e assim acelerariam a queda do regime.
Netanyahu apresentou também uma lista dos dirigentes seculares que poderiam encabeçar um novo regime iraniano, nomeadamente Reza Pahlevi, o herdeiro do antigo Xá, residente nos Estados Unidos, que assim iria repor a monarquia fiel a Washington.
«Parece ótimo», declarou Trump aos presentes quando Netanyahu acabou a exposição. Pelo menos é o que revela o relato da reunião publicado pelo New York Times.
Nem todos os assessores emitiram pareceres tão otimistas. Por exemplo, o general Dan Caine, chefe das Forças Armadas, expressou reservas em relação ao plano, mas declarou, desde logo, que se submeteria à vontade presidencial. «Os israelenses precisam de nós, por isso sabem ser muito persuasivos», atreveu-se a dizer o general, mas o presidente estava surdo aos pareceres dos assessores. O vice-presidente Vance, que viajava pelo estrangeiro, expressou depois uma posição idêntica, como quem adverte «não digam que não vos avisei», mas também não foi escutado.
De acordo com dados publicados pela mais destacada comunicação social do governo Trump, ainda não confirmados por via oficial, as reservas do general Caine acabaram por ser parcialmente úteis em fase posterior, ao dissuadir o presidente de usar uma bomba nuclear contra o Irã. A par do principal chefe militar, todos os outros assessores presidenciais diretos, com exceção do psicopata Peter Hegseth, ministro da Guerra, manifestaram idêntica opinião em relação à intenção presidencial, qualificando-a como uma tragédia suicida sem retorno e, potencialmente, de âmbito global. Trump não premiu o botão, mas nada nos garante, na convulsão dos seus distúrbios mentais, que a ideia tenha sido posta de lado.
No dia seguinte ao da reunião na Sala da Situação, em 12 de fevereiro, oficiais estadunidenses de inteligência “especialistas em Irã” apresentaram a Trump um relatório simples, na esperança de que este compreendesse o essencial. O documento dividia-se em quatro cenários de análise quanto aos possíveis resultados de uma eventual operação militar baseada nos pressupostos de Netanyahu: “Decapitação” do regime com o assassinato do chefe religioso Ali Khamenei; a fraqueza do Irã para conseguir atacar países árabes do Golfo; as eventuais revoltas populares contra o aparelho de poder que explodiriam logo aos primeiros bombardeios; e a mudança de regime para um outro de características seculares.
De acordo com a opinião dos analistas, os dois primeiros pontos eram exequíveis; os dois últimos, incluindo o papel dos curdos numa invasão terrestre, significavam que o chefe sionista “estava desligado da realidade”.
Não se sabe se Trump passou os olhos pelo relatório dos peritos de inteligência, mas a sua decisão, alinhada com a vontade de Netanyahu, estava tomada desde a véspera.
Ao cabo de 40 dias de ataques cerrados e destrutivos dos Estados Unidos e Israel contra o território e o povo iranianos, privilegiando infraestruturas e comunidades de civis, e das respectivas respostas de Teerã, que provocaram sérias devastações de estruturas em nove países árabes do Golfo e em Israel, verifica-se que Trump e Netanyahu não atingiram nenhum dos objetivos delineados na reunião de 11 de fevereiro.
De fato, os bombardeios não geraram tumultos e levantes, mas sim impressionantes manifestações de apoio à República Islâmica; o programa de mísseis balísticos continua ativo e não tem poupado alvos estratégicos dos agressores; a vitória militar das forças imperial-sionistas continua distante; e as forças militares do regime de Teerã, afinal, tinham capacidade para bloquear o Estreito de Ormuz e atingir, provocando danos enormes, tanto os países árabes do Golfo como Israel.
Houve apenas a tal exceção que confirma a regra: o aiatolá Khamenei foi assassinado, mas a sua substituição pelo filho mais velho ocorreu logo de seguida, o que reforçou a solidez do regime, embora Trump queira fazer crer o contrário.
Dezenas de milhares de pessoas morreram nesta guerra, sobretudo iranianos, até à declaração de um cessar-fogo pelo qual os Estados Unidos afinal já ansiavam, porque a brutalidade criminosa dos ataques não conseguiu vergar o Irã. Pelo contrário, as bases militares estadunidenses e respectivos radares de milhares de milhões de dólares, instaladas nos países do Golfo, ficaram impraticáveis devido às saraivadas de mísseis balísticos e aos enxames de drones lançados pelo Irã. Por causa disso, a vida nos países do Golfo degradou-se a níveis que forçaram os mais poderosos a fugir nos seus jatos privados. Quanto a arsenais e munições disponíveis, consta que o Irã está em melhores condições de prosseguir uma guerra de desgaste, se a isso for obrigado; enquanto as carências e as limitações de armamento dos Estados Unidos, depois de anos de franca generosidade com a Ucrânia, Israel e países da OTAN “ameaçados”, estão refreando o voluntarismo militarista imperial-sionista. Uma realidade que se percebe pela declaração unilateral de prorrogação do cessar-fogo por tempo indeterminado.
Uma declaração de vitória
Um dos mais significativos exemplos do fracasso dos pressupostos em que se baseou a agressão ilegal contra o Irã foi o que dava como certa a incapacidade de Teerã para bloquear o Estreito de Ormuz. O Irã não apenas concretizou o bloqueio, como o interrompeu num gesto de boa vontade para dar força ao processo negocial lançado no Paquistão; mas logo o restabeleceu, sem demora, na sequência de sucessivos delírios de Trump, principalmente quando garantiu que a República Islâmica cedera nas suas exigências para fazer a vontade aos Estados Unidos, a Israel e “à paz”.
Teerã definiu as condições para o movimento de navios, em especial petroleiros, através do Estreito de Ormuz: a passagem será exclusiva para navios comerciais – nunca de guerra – e desde que não tenham ligação «a países hostis»; a rota será estabelecida pelo Irã e o deslocamento terá de se processar sob a coordenação de forças iranianas.
Além disso, as autoridades de Teerã recusaram-se a participar numa segunda roda de negociações no Paquistão porque os Estados Unidos mantêm a obsessão de bloquear portos iranianos, ato que o Irã considera uma violação do cessar-fogo.
Oásis artificiais sem viço
Trump envolveu-se no cessar-fogo, como um náufrago que se agarra a destroços de um navio, porque os objetivos da guerra estão fracassando, um após o outro, devido ao fato de a capacidade de resistência e de resposta iraniana superar, em muito, as elucubrações do sionismo. A interrupção temporária da agressão foi também do interesse de Israel, e não apenas por estar sofrendo as consequências – as mais graves de sempre – dos seus atos terroristas, o que evidencia, finalmente, que a impunidade tem limites.
A suspensão do envolvimento na frente iraniana permitiu a Israel investir com maiores capacidades na guerra permanente contra o Líbano. Segundo o Irã, e também os mediadores paquistaneses, o cessar-fogo era extensivo ao território libanês, mas o sionismo comportou-se como sempre e ignorou toda e qualquer decisão que tenha a ver com o pequeno país, reclamado pelos chefes do “povo eleito” como parte do ambicionado Grande Israel.
O Hezbollah, porém, continua sem estar de acordo com os anseios dos terroristas que governam Israel e lhes responde à altura, contando com a solidariedade iraniana. O que acontece com bastante eficácia, e nem poupa sequer a cidade de Telavive, apesar de o governo colaboracionista de Beirute insistir na exigência de desarmar o grupo islâmico – por sinal o único que defende o país, porque ao exército regular libanês falta, desde sempre, coragem, patriotismo e vontade para se opor aos agressores.
Outro fator determinante que forçou Trump a aceitar o cessar-fogo com ambas as mãos foi a pressão exercida pelos aliados do Golfo, que estão às voltas com uma fatura tão pesada que pode transformar-se em existencial.
Catar, Emirados Árabes Unidos – sobretudo o Dubai – Bahrein, Kuwait, a própria Arábia Saudita tornaram-se alvos legítimos do Irã por albergarem bases militares norte-americanas usadas como áreas de agressão. E uma vez que os próprios países do Golfo se tornaram participantes diretos na guerra, Teerã trata-os da mesma maneira que aos Estados Unidos e Israel. Por consequência, grandes áreas de produção e refinação de petróleo e gás natural desses territórios, sobretudo do Catar, sofreram danos que reduzem quase a zero as capacidades de exportação de tais produtos estratégicos, sendo que o remanescente não pode passar pelo bloqueio do Estreito de Ormuz.
Ora, os paraísos artificiais do Golfo, ditaduras que alimentam as suas megalomanias com as exportações de combustíveis fósseis, necessitam de importar quase tudo o que lhes permita fazer funcionar o dia-a-dia e sustentar a insultuosa ostentação, que afinal tem alicerces de areias movediças. Agora, ao cabo de mês e meio de guerra, as ditaduras “nossas aliadas” da Península Arábica deixaram de exportar petróleo e gás e as imensas receitas da afluência de turismo endinheirado caíram para zero. Esses países não conseguem importar alimentos e outros bens essenciais de consumo; além disso, os bombardeios iranianos poderão deixá-los sem energia e água potável, produzida em sistemas de dessalinização que se tornaram alvos das operações iranianas.
Em pouco tempo, no caso de a guerra continuar, esses oásis artificiais que jorravam dinheiro e combustíveis para quase todo o mundo transformar-se-ão no inferno dos desertos que sempre foram – sem ar condicionado, água e alimentos quando o tórrido verão se aproxima. O êxodo das classes proprietárias e das próprias famílias reais em jatos privados testemunha o pânico que já começou a atingir esses territórios. Sheiks, emires, reis e os parasitas que deles se alimentam podem agradecer a situação aos amigos e aliados Donald Trump e Benjamin Netanyahu.
Aí está o efeito de boomerang
O Irã fez acompanhar o processo de cessar-fogo e o início das efêmeras “negociações de paz” no Paquistão por um conjunto de dez exigências cuja aceitação é considerada essencial para que se possa chegar a um acordo entre agredido e agressores.
Entre esses pontos estão a eliminação de todas as sanções econômicas primárias e secundárias; o compromisso dos EUA de Israel de que não voltarão a atacar o Irã; o direito de Teerã a manter o programa de enriquecimento de urânio para fins civis; a aceitação do controle da navegação no Estreito de Ormuz pelo Irã e Omã; a revogação de todas as resoluções e decisões do Conselho de Segurança da ONU e da Agência Internacional de Energia Atômica contra o Irã; a libertação de todos os ativos iranianos congelados nos bancos ocidentais; e a proibição de ataques dos Estados Unidos, de Israel e outros países do Oriente Médio contra os aliados do Irã.
Ansioso por declarar vitória numa guerra que se apressou a dar como concluída com a entrada em vigor do cessar-fogo, Trump recebeu estas condições iranianas de ânimo leve, se calhar nem as leu. Só assim se percebe a inicial disponibilidade do presidente dos Estados Unidos para aceitar os termos iranianos.
O conteúdo do documento iraniano, ponto por ponto, é a posição de um vencedor; ou, pelo menos, representa a confiança e a capacidade de quem continua pronto a responder a novas ofensivas que os Estados Unidos e Israel realizem.
Num gesto de boa vontade a seguir à primeira reunião de negociações em Islamabad, o Irã decidiu desbloquear o Estreito de Ormuz, desde que os Estados Unidos levantassem o assédio aos movimentos de navios de e para os portos iranianos.
Como era de esperar, o caldo entornou de imediato e o Irã decidiu não comparecer à segunda reunião de negociações. Os Estados Unidos não só não levantaram as ameaças contra os portos iranianos como regressaram às atitudes de mentira e hostilidade em relação a todas as posições de Teerã.
Afinal, declarou Trump, era o Irã que aceitava as condições de “paz” estadunidenses. «O Irã concordou com tudo e trabalhará com os Estados Unidos para remover todo o seu urânio enriquecido», declarou Trump. Esse processo decorrerá sem utilização de tropas terrestres, segundo o presidente dos EUA. «Iremos descer e tomar conta do urânio enriquecido, com a ajuda da parte iraniana, e trazê-lo para os Estados Unidos», acrescentou Trump. «Ótimo, não é? Até lá teremos um acordo, e não haverá necessidade de combater quando existe um acordo. Assim é melhor; podíamos fazê-lo de outra maneira se fosse preciso», ameaçou.
O Irã, seguindo a ordem natural das coisas, voltou a fechar o Estreito de Ormuz; e o Ocidente que se prepare para as nefastas consequências: uma imensa e profunda crise econômica e social gerada pela irresponsabilidade e o expansionismo imperial-sionista de Trump e Netanyahu.
O bloqueio do Estreito de Ormuz e os graves danos já provocados pela guerra nos maiores centros industriais de gás natural do Golfo, sobretudo no Catar e em numerosas instalações petrolíferas, tornarão cada vez mais difícil o abastecimento do Ocidente. As perturbações na indústria do gás natural liquefeito prejudicam também o aproveitamento de subprodutos como o hélio, a ureia e a amônia. O primeiro é fundamental em áreas tecnológicas de ponta, como a produção de semicondutores utilizados em todos os artefactos electrónicos de maior consumo, incluindo os mais essenciais meios de diagnóstico na saúde. Ureia e amônia são indispensáveis para a produção de fertilizantes: a carência destes produtos terá efeitos trágicos nas necessidades e nos preços dos alimentos em vastas regiões do planeta.
Os Estados Unidos e Israel estão percebendo que o Irã não é o Iraque, a Líbia, o Afeganistão, ou mesmo a Síria de Assad. O Irã, por sinal o único país do mundo que está ativamente solidário com o povo palestino – tem os seus trunfos e já demonstrou que poderá jogá-los e atingir os pontos fracos dos agressores. E também de outros países que, por covardia ou cumplicidade, não tentam travá-los com os meios que o Direito Internacional – que ainda existe, sabiam? – coloca ao seu dispôr, assim eles o queiram.
Enquanto isso, as rotas de navegação estão bloqueadas entre os Estreitos de Bab el Mandeb – sob vigilância dos iemenitas aliados de Teerã – e de Ormuz, isolando o Golfo do Mar Vermelho e respectivo acesso ao Canal de Suez. Os navios comerciais seguem longas e dispendiosas rotas contornando África, até porque os prêmios dos seguros por riscos de guerra subiram vertiginosamente, para níveis intoleráveis.
Tudo isso se refletirá nos nossos bolsos, agravando a miséria social, moral e econômica do Ocidente, entregue a dirigentes medíocres, covardes, sem humanismo, dignidade e coluna vertebral; uma casta apodrecida propícia a que dela emerjam aberrações intrinsecamente malignas e sem limites como Donald Trump e Benjamin Netanyahu.
