90 anos da Guerra Civil Espanhola

Jorge Sarabando

Jornal Avante! – Partido Comunista Português (PCP)

Com a Frente Po­pular, con­sa­grou-se a igual­dade entre todos os es­pa­nhóis

A Re­pú­blica foi pro­cla­mada na Es­panha duas vezes: a pri­meira, em 1873, não chegou a durar dois anos; a se­gunda, em 1931, re­sistiu oito anos, os três úl­timos vi­vidos numa cru­enta Guerra Civil, ven­cida pelos ge­ne­rais su­ble­vados, com o de­ci­sivo apoio das di­ta­duras fas­cistas de Hi­tler, Mus­so­lini e Sa­lazar. Nas duas vezes, a Re­pú­blica não nasceu por obra de um golpe mi­litar, mas sim em con­sequência da ab­di­cação dos reis em exer­cício, in­ca­pazes de re­solver as crises po­lí­ticas em que a Es­panha es­tava mer­gu­lhada.

Em abril de 1931, os par­tidos re­pu­bli­canos ven­ceram as elei­ções mu­ni­ci­pais e o Rei Afonso XIII, en­fra­que­cido pela queda de su­ces­sivos go­vernos, in­cluindo o da di­ta­dura de Primo de Ri­vera, partiu para o exílio.

O Trono – um rei de­sa­cre­di­tado; a Es­pada – um Exér­cito con­fi­nado ao es­paço me­tro­po­li­tano e ao norte de Mar­rocos, mas ainda com 800 Ge­ne­rais; o Altar – uma Igreja, do­mi­nada pelo con­ser­va­do­rismo, com 31 mil pa­dres e 80 mil re­li­gi­osos. Trono, Es­pada e Altar cons­ti­tuíam uma ci­da­dela de po­deres, que entre si se am­pa­ravam num mundo de po­breza, in­jus­tiça, ex­plo­ração, onde crescia um ope­ra­riado mais or­ga­ni­zado e cons­ci­ente da sua força, e des­pon­tava uma pe­quena bur­guesia ur­bana, di­nâ­mica na vida eco­nômica e ávida de afir­mação.

A vul­gata his­tó­rica sobre o novo re­gime detém-se na agi­tação per­ma­nente, na re­volta ar­mada dos mi­neiros das As­tú­rias, em cuja re­pressão já se havia dis­tin­guido o Ge­neral Franco, nos cho­ques au­to­no­mistas da Ca­ta­lunha, nas de­sor­dens an­ti­cle­ri­cais, nos golpes mi­li­tares que teve de en­frentar. Mas, no início da Re­pú­blica, como lembra Ma­de­leine Chapsal, a Es­panha tinha 24 mi­lhões de ha­bi­tantes, me­tade dos quais anal­fa­betos, um terço, oito mi­lhões, vivia na po­breza, o sa­lário médio dos tra­ba­lha­dores era de uma a três pe­setas por dia, um quilo de pão cus­tava uma pe­seta. Havia dois mi­lhões de cam­po­neses sem terra, 20 mil pro­pri­e­tá­rios eram donos de me­tade da Es­panha. Li­ber­dade, par­ti­ci­pação e jus­tiça eram as­pi­ra­ções par­ti­lhadas pela grande mai­oria da po­pu­lação.

Avanços ex­tra­or­di­ná­rios

A Re­pú­blica in­tro­duziu pro­fundas al­te­ra­ções po­lí­ticas, desde logo a se­pa­ração da Igreja e o Es­tado.

A nova Cons­ti­tuição de­finia a Es­panha como uma «Re­pú­blica de­mo­crá­tica de tra­ba­lha­dores de todas as classes, or­ga­ni­zada num re­gime de li­ber­dade e jus­tiça», re­nun­ciava à guerra como ins­tru­mento da po­lí­tica na­ci­onal, de­cla­rava a igual­dade de todos os ci­da­dãos e re­co­nhecia o di­reito de voto às mu­lheres, na época uma me­dida de van­guarda.

Já com a Frente Po­pular no go­verno, foi efetuada a Re­forma Agrária nas re­giões do sul, onde eram co­muns as praças de “bra­ceros”, com a ex­pro­pri­ação de terras aban­do­nadas com mais de de­ter­mi­nada di­mensão, de­pois ex­plo­radas pelo Es­tado ou por co­o­pe­ra­tivas de agri­cul­tores. Num só ano, já sem la­ti­fun­diá­rios ab­sen­tistas, au­mentou a terra cul­ti­vada em seis por cento. Em­bora num quadro de forte ins­ta­bi­li­dade, muitas in­dús­trias, no­mi­nal­mente pri­vadas, sofreram intervenção e con­ti­nu­aram a produzir, e au­mentou mesmo a pro­dução em mais de 30 por cento no setor têxtil.

Foi ampliada a rede de cui­dados de Saúde, in­cluindo a va­ci­nação, e na Jus­tiça foi ace­le­rada a tra­mi­tação pro­ces­sual nos tri­bu­nais or­di­ná­rios.

Num só ano, o go­verno au­mentou o or­ça­mento da Edu­cação em 500 por cento, foram inau­gu­radas cerca de 1000 es­colas. O nú­mero de pro­fes­sores au­mentou de 37 mil para cerca de 60 mil.

Foi um tempo de flo­res­ci­mento cul­tural, de todas as artes, da im­prensa, do mo­vi­mento as­so­ci­a­tivo. O te­atro iti­ne­rante La Bar­raca foi mon­tado por Lorca em 1931, no quadro do pro­grama de Mis­sões Pe­da­gó­gicas do Mi­nis­tério da Edu­cação.

O Con­gresso dos Es­cri­tores reuniu, em 1937, muitos au­tores da Es­panha Re­pu­bli­cana como An­tonio Ma­chado, Mi­guel Her­nandez, Ra­fael Al­berti e teve a pre­sença ou re­cebeu a so­li­da­ri­e­dade de in­te­lec­tuais como André Gide, John dos Passos, André Mal­raux, Er­nest He­mingway, Jaime Cor­tesão, Ro­main Rol­land, Ilya Eh­ren­burg, Al­bert Eins­tein, Anna Seghers, Oc­tavio Paz, Pablo Ne­ruda, Ber­tolt Brecht, Louis Aragon, Ber­nard Shaw, Mikhail Cho­lokov ou Selma La­gerlof. Ocorreu em Ma­dri e Va­lência em con­di­ções dra­má­ticas, sob in­ces­santes bom­bar­de­ios, e o con­certo de en­cer­ra­mento, com o vi­o­lon­ce­lista Pablo Ca­sals, re­a­lizou-se em Bar­ce­lona.

No mesmo ano, no Pa­vi­lhão de Es­panha da Ex­po­sição In­ter­na­ci­onal de Paris, Pablo Pi­casso ex­punha a sua imortal Guer­nica.

Em julho de 1936, após a vi­tória da Frente Po­pular nas elei­ções de fe­ve­reiro, o Golpe dos Ge­ne­rais triunfou em al­gumas ca­pi­tais pro­vin­ciais, mas perdeu em Ma­dri, Bar­ce­lona, Va­lência e ou­tras grandes ci­dades. Assim se ini­ciou a Guerra Civil, que causou cen­tenas de mi­lhares de ví­timas de ambos os lados. No pe­ríodo se­guinte ao seu termo e até 1946, os ven­ce­dores, se­gundo Paul Preston, as­sas­si­naram quase 150 mil pes­soas.

O Exér­cito re­belde teve o apoio das Forças Ar­madas da Ale­manha de Hi­tler e da Itália de Mus­so­lini, e o apoio efetivo de Sa­lazar.

A Re­pú­blica re­cebeu au­xílio mi­litar da União So­vié­tica e o apoio de mi­lhares de vo­lun­tá­rios, 40 mil dos quais nas Bri­gadas In­ter­na­ci­o­nais (18 mil mor­reram), vindos de países tão di­fe­rentes como os Es­tados Unidos da Amé­rica, França, Ale­manha, Po­lônia, Itália, Mé­xico, Brasil, Reino Unido, Áus­tria, Iugoslávia e de muitos ou­tros, como Por­tugal, num exemplo his­tó­rico de so­li­da­ri­e­dade in­ter­na­ci­o­na­lista, que nunca mais se re­petiu com esta força e sig­ni­fi­cado. Os vo­lun­tá­rios in­te­grados nas Bri­gadas aban­do­naram a Es­panha, em se­tembro de 1938, em nome da po­lí­tica de “não in­ter­venção”.

Ra­zões de um des­fecho

Em 1937, com Ma­nuel Azaña como Pre­si­dente da Re­pú­blica, com Juan Ne­grin na chefia de um go­verno de ampla uni­dade de­mo­crá­tica, um acordo de ação con­junta as­si­nado pelo PSOE e o PCE, o Exér­cito fi­nal­mente dis­ci­pli­nado e or­ga­ni­zado, as frentes de com­bate es­ta­bi­li­zadas, Ma­dri, a ca­pital, re­sis­tente, dir-se-ia que a Es­panha re­pu­bli­cana tinha con­di­ções para vencer. Mas tal não acon­teceu, de­pois de mais dois anos de con­flito.

Por que a Re­pú­blica perdeu a guerra? O go­verno le­gí­timo perdeu pelo con­curso de dois fatores de­ci­sivos:

o apoio mi­litar mas­sivo a Franco por parte da Ale­manha nazista e da Itália fas­cista;

a cum­pli­ci­dade das de­mo­cra­cias oci­den­tais – França e Reino Unido –, im­pli­cadas na farsa da “não in­ter­venção” e que vi­riam a as­sinar, em 1938, com Hi­tler e Mus­so­lini o Pacto de Mu­nique.

Pesou também a hos­ti­li­dade de grande parte da hi­e­rar­quia da Igreja ca­tó­lica que, muito mar­cada pelos con­frontos an­ti­cle­ri­cais, trans­formou o le­van­ta­mento de Franco numa nova “Cru­zada”. Pro­cla­mava o Bispo de Car­ta­gena: «Ben­ditos sejam os ca­nhões se nas bre­chas que abrirem flo­rescer o Evan­gelho.» (Tal não obstou a que 16 sa­cer­dotes bascos fossem exe­cu­tados pelos ven­ce­dores, 278 presos e 1300 qua­li­fi­cados de “in­de­se­já­veis”).

A luta não ter­minou, na ver­dade, em abril de 1939. O go­verno da Re­pú­blica não se “rendeu”. Foi aco­lhido, bem como a re­pre­sen­tação per­ma­nente das Cortes, no Mé­xico. Juan Ne­grin, a quem os go­vernos de Paris e Lon­dres pres­si­o­naram para afastar os co­mu­nistas do go­verno, e ou­tros di­ri­gentes, lu­taram du­rante anos em de­fesa da le­gi­ti­mi­dade das ins­ti­tui­ções re­pu­bli­canas.

A luta pros­se­guiu com muitos mi­lhares de re­pu­bli­canos es­pa­nhóis que com­ba­teram os nazifas­cistas, de­sig­na­da­mente na Re­sis­tência Fran­cesa ou no Exér­cito So­vié­tico, e na Es­panha con­ti­nu­aram a luta contra a di­ta­dura. Sig­ni­fi­ca­ti­va­mente, por in­di­cação do Co­mando, uma for­mação de mi­li­tares es­pa­nhóis in­te­grou a co­luna do Ge­neral Le­clerc que pri­meiro en­trou em Paris, em Agosto de 1944.

Fe­de­rico Garcia Lorca (1898-1936)

A vida e obra de Fe­de­rico Garcia Lorca são in­se­pa­rá­veis da his­tória da Re­pú­blica. Tendo in­te­grado a “Ge­ração de 27”, Lorca não se fe­chou em cír­culos eru­ditos, era um in­te­lec­tual de novo tipo e um ar­tista com­pleto. Poeta (“Ro­man­cero gi­tano”, “Poeta em Nova Iorque”), dra­ma­turgo (“ A casa de Ber­narda Alba”, “Bodas de sangue”), autor de muitos ou­tros tra­ba­lhos, de­se­nhador, pi­a­nista, a sua força vinha do povo que co­nhecia como poucos.

Vi­ajou por toda a Es­panha, re­co­lheu mú­sicas, po­e­sias, can­tares, tendo or­ga­ni­zado com Ma­nuel de Falla a Festa do Cante Jondo, um acon­te­ci­mento ino­vador. Como es­creveu Jo­a­quim Na­mo­rado, «con­duziu a arte po­pular a uma arte de con­teúdo uni­versal». Viveu no con­ti­nente ame­ri­cano mas, em 1931, quando a Re­pú­blica surgiu, voltou a Es­panha e foi um par­ti­ci­pante ativo da vida cul­tural.

A arte de Lorca nasce do ser hu­mano con­creto, trans­cende-o, trans­fi­gura-o, mas nunca se des­prende da vida, do tra­balho, do sonho, da tra­gédia, da festa, do amor, de tudo quanto é es­sen­ci­al­mente hu­mano. Lorca não foi um mi­li­tante po­lí­tico, mas de­clarou: «estou e es­tarei do lado dos que têm fome.»

Quando co­meçou a Guerra Civil, re­fu­giou-se em Gra­nada, o lugar que me­lhor co­nhecia. Quando as mi­lí­cias fran­quistas o en­con­traram, ma­taram-no. Em 18 de agosto. Os man­dantes do crime cui­daram que o seu corpo nunca fosse en­con­trado.

Bi­bli­o­grafia:

“Mourir à Ma­drid”, de F.Rossif e M.Chapsal, Édi­tions Seghers, Paris, 2003

“A guerra civil de Es­panha”, de Hugh Thomas, Ed. Ulis­seia, Lisboa

“Bi­o­grafia de Fe­de­rico Garcia Lorca”, de Jo­a­quim Na­mo­rado, Ed.Saber, Coimbra, 1943

“Guerra y revolución en Es­paña”, de Do­lores Ibar­ruri e ou­tros, Ed. Pro­gresso, Mos­covo, 1971

“ Guerra civil es­pañola”, de Jesus An­drés e Jesus Cu­ellar, pró­logo de Paul Preston, Ed. Su­saeta, Ma­drid

“His­tória da li­te­ra­tura es­pa­nhola”, de José Maria Val­verde”, Ed. Es­tú­dios Cor, Lisboa, 1958