A resistência iraniana e seu significado político

Imagem: Al Jazeera

Edmilson Costa*

A recente agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã representou uma derrota política e militar do governo Trump e do sionismo diante da determinação iraniana e, ao mesmo tempo, demonstrou que o imperialismo não é invencível quando um povo decide tomar o destino de sua história em suas mãos e enfrentar com valentia o inimigo militarmente mais forte. Os sistemas militares do imperialismo estadunidense e do sionismo, viciados em agredir e destruir várias nações impunemente e ainda se proclamarem defensores da liberdade e dos direitos humanos, foram surpreendidos com a estratégia militar e política do Irã, que desenvolveu uma tática de guerra assimétrica, incluindo a luta econômica e geopolítica, o que proporcionou às suas forças militares aplicar duros golpes ao esquema militar imperial, muito mais poderoso.

Surpreendentemente, as Forças Armadas do Irã conseguiram destruir a maioria das bases militares dos Estados Unidos no Oriente Médio, cegando seus equipamentos militares e radares, dificultando sua ação militar e impedindo que os dois agressores destruíssem o Irã como ocorreu em Gaza. E mesmo Israel, também acostumado a destruir cidades inteiras e praticar genocídio contra os palestinos, recebeu duros golpes dos mísseis iranianos. Isto representou uma desmoralização da propaganda sionista segundo a qual Israel possuía um Domo de Ferro impenetrável, que nessa guerra se transformou muito mais numa peneira do que num escudo contra os mísseis iranianos. Ocorreu assim uma derrota dupla imperial, num espaço de tempo muito rápido, muito embora a propaganda da Casa Branca tente apresentar essa derrota como uma vitória de Trump.

Essa confrontação tornou-se um dos acontecimentos mais importantes da geopolítica contemporânea. Mais do que uma disputa militar localizada, o conflito colocou em evidência as profundas transformações que vêm ocorrendo na correlação de forças internacional e revelou que o mundo já não é o mesmo que emergiu após o fim da Guerra Fria, quando os Estados Unidos ditavam as regras do jogo internacional na parte capitalista do mundo após a queda da União Soviética. Independentemente das interpretações específicas sobre esse episódio militar, uma conclusão política parece inevitável: a capacidade de resistência do Irã demonstrou que o poder imperialista encontra hoje obstáculos muito maiores do que aqueles que enfrentava há algumas décadas, e suas forças armadas, mesmo ainda sendo as mais poderosas do mundo, não conseguem mais atingir os objetivos imperiais como no passado.

Durante muito tempo, os Estados Unidos acostumaram-se a exercer uma posição de supremacia praticamente incontestável no cenário mundial. O colapso da União Soviética fortaleceu a percepção de que Washington havia se tornado o centro único da hegemonia no sistema político internacional. Como potência arrogante, multiplicaram-se as intervenções militares, as operações de mudança de regime, as sanções econômicas e as pressões diplomáticas contra países considerados adversários. O Oriente Médio transformou-se em uma das principais arenas dessa estratégia porque concentra algumas das maiores reservas energéticas do planeta e ocupa uma posição geográfica fundamental para o comércio mundial.

Além disso, para consolidar sua hegemonia no Oriente Médio, os Estados Unidos procuraram fortalecer Israel como principal aliado regional do Ocidente. Com amplo apoio financeiro, militar e tecnológico, o Estado israelense construiu uma poderosa máquina de guerra e passou a desempenhar papel central na estratégia geopolítica estadunidense para a região. Durante décadas, a superioridade militar israelense alimentou a ideia de que nenhum adversário regional seria capaz de desafiar seriamente seu poderio militar. Consequentemente, o Irã, consciente da impossibilidade de competir diretamente com o gigantesco orçamento militar dos EUA, optou por desenvolver mecanismos de defesa baseados na guerra assimétrica. Em vez de reproduzir o modelo convencional das grandes potências, buscou construir instrumentos capazes de elevar significativamente os custos de qualquer agressão externa.

A estratégia do Irã consistiu em preparar, ao longo de várias décadas, uma estrutura militar que proporcionasse condições para se defender diante de inimigos mais poderosos militarmente. Dessa forma, aproveitando a geografia do país, construiu dezenas de instalações subterrâneas, verdadeiras cidades militares, onde conseguiu armazenar suas armas e operá-las fora do alcance do inimigo. Essa estratégia incluía investimentos em sistemas de mísseis, drones, equipamentos de defesa área, inteligência militar e formas alternativas de projeção de poder. O objetivo central não era alcançar superioridade militar absoluta, mas criar condições para dificultar que qualquer inimigo que atacasse o país pudesse obter uma vitória rápida contra suas forças armadas e, dessa forma, teria condições de desenvolver uma guerra prolongada que desgastasse seu adversário.

A recente ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel demonstrou a importância dessa estratégia: com forças militares superiores, os exércitos dos Estados Unidos e de Israel, mesmo bombardeando severamente o Irã, foram surpreendidos com a resistência iraniana e com sua capacidade de responder e golpear militarmente as bases militares dos Estados Unidos na região e ainda atingir o território Israelense. Essa estratégia de guerra assimétrica também adquiriu uma dimensão política e econômica, quando no meio da guerra o Irã decidiu fechar o Estreito de Ormuz e, assim, interromper o fluxo de um quinto do comércio internacional de petróleo e gás, levando a inflação para várias regiões do mundo, especialmente para os Estados Unidos.

Em outras palavras, unindo diversas táticas militares e políticas, o Irã demonstrou que uma guerra não pode ser ganha apenas porque um país que tem mais aviões, navios ou sistemas de bombardeios sofisticados. Essas forças encontram uma barreira quando uma nação e seu povo estão determinados a não dobrar os joelhos diante dos impérios. Em vez de uma demonstração incontestável de força, o mundo assistiu a uma disputa que evidenciou as contradições, limitações e custos crescentes das estratégias de dominação imperial estadunidense. Dessa forma, a resistência iraniana tornou-se um símbolo de uma tendência histórica mais ampla: o enfraquecimento gradual da capacidade do imperialismo em determinar os destinos dos povos e das nações.

Uma agressão onde deu tudo errado

Um aspecto importante para se dimensionar o resultado da agressão estadunidense-sionista não pode ser avaliada apenas pelo número de equipamentos destruídos ou pela intensidade dos bombardeios que atingiram o Irã (e não foram poucos), pois o mais importante é verificar se o agressor conseguiu atingir seus objetivos estratégicos inicialmente estabelecidos. Não se pode esquecer que o discurso das lideranças agressoras estava alicerçado na convicção de que seria um passeio, com resultados semelhantes ao que aconteceu com a Venezuela, dada a esmagadora máquina militar das duas nações agressoras, fato que iria produzir um colapso do regime, até porque também se apostava na perspectiva de que haveria um levante popular após os primeiros bombardeios.

A retórica inicial do presidente Trump era um ultimato típico dos velhos tempos em que o imperialismo era capaz de impor suas exigências sem encontrar resistência. Por isso é que o presidente dos Estados Unidos exigiu a rendição incondicional do Irã, sob pena de enfrentar consequências devastadoras, como a destruição da civilização persa e de sua indústria petroleira. Trump ainda se vangloriava de que tinha afundado toda a marinha iraniana, destruído a aviação persa e seus sistemas de defesa área. No entanto, os acontecimentos mostraram uma realidade no campo de batalha inteiramente diferente: o Irã não se intimidou com as fanfarronices de Trump e os elementos factuais da guerra revelaram que o país estava golpeando severamente as bases dos Estados Unidos na região, além do território de Israel.

A conjuntura real da guerra tornou cada vez mais difícil a sustentação de uma narrativa apontando vitória iminente da coligação imperialista porque os mísseis iranianos continuavam castigando os agressores, o que não só surpreendeu as lideranças imperialistas como também mudou a percepção internacional sobre o poder militar do Irã. Essa nova realidade criou um problema político crescente para os Estados Unidos porque os resultados objetivos do conflito, apesar da censura sobre os impactos das armas iranianas tanto nas bases estadunidenses na região quanto em Israel, não confirmavam as expectativas inicialmente anunciadas, levando a um desgaste das lideranças responsáveis pela condução da guerra.

Além disso, o Irã desenvolveu uma nova dimensão de sua estratégia de guerra assimétrica ao levar a disputa para o terreno geopolítico e econômico, anunciando o fechamento do Estreito de Ormuz, um espaço que, por sua localização geográfica, tem enorme importância estratégica porque por esse canal passam cerca de 20% de todo o petróleo e gás comercializado internacionalmente. E o mais importante: o Irã também demonstrou que é capaz de manter militarmente o fechamento dessa rota comercial. Essa medida imediatamente passou a influenciar o mercado mundial de energia, os preços do barril de petróleo, os custos do transporte e, consequentemente, o aumento dos preços internacionais, especialmente nos Estados Unidos.

A nova dimensão do conflito mudou a correlação de forças a favor do Irã porque a conjuntura econômica passou a envolver interesses de vários países e de setores estratégicos da economia mundial e impactar negativamente o governo Trump, cujo processo se refletiu na queda de popularidade do presidente dos Estados Unidos. Isso porque, quanto mais a guerra se prolongava, mais aumentavam os questionamentos internos, uma vez que uma das principais plataformas da campanha presidencial de Trump era acabar com as guerras no exterior. Além disso, não se pode esquecer que em novembro vai haver eleições parlamentares nos Estados Unidos e a continuidade da guerra seria fatal para os Republicanos e para a liderança de Trump. Ou seja, o problema deixou de ser apenas militar para se transformar numa questão política. Por isso mesmo, Trump foi obrigado a jogar a toalha (evidentemente com uma retórica diferente) e buscar um acordo a qualquer custo, mesmo que isso contrariasse o aliado sionista.

A propósito, um dos aspectos mais importantes desse conflito é o aumento do isolamento político de Netanyahu e a desmoralização de Israel enquanto potência militar invulnerável. Durante décadas o Estado sionista construiu uma narrativa de superioridade militar em relação aos seus vizinhos árabes, buscando se apresentar como uma potência praticamente invencível e tinha como exemplo as guerras e operações militares exitosas na região. No entanto, a simples capacidade militar não resolve os problemas políticos e estratégicos de um Estado e nenhuma força é capaz de se manter hegemônica para sempre, mesmo que tenha centenas de ogivas nucleares, muito embora não possa utilizá-las em função das condições políticas.

Outro fator importante que emergiu desse conflito foram as tensas relações entre Trump e Netanyahu em consequência da diferença de interesses entre Estados Unidos, desesperados por um acordo a qualquer custo em função da conjuntura interna estadunidense, e Netanyahu, que necessita da continuidade da guerra para continuar se mantendo no poder. Ou seja, objetivamente, embora Estados Unidos e Israel mantenham uma aliança histórica sólida, isso não significa que em situações dramáticas como a guerra atual seus interesses sejam sempre idênticos em todos os momentos.

Esse nível de tensão entre os dois líderes chegou a um ponto tal que Trump criticou publicamente Netanyahu porque este, ao continuar o bombardeio no Líbano, estava na prática boicotando o acordo. Irritado, o presidente dos Estados Unidos fez questão de lembrar ao dirigente sionista que ele só está em liberdade e no poder por interferência de Trump. Do contrário, estaria na cadeia em seu país, em consequência das denúncias de corrupção. Além disso, acrescentou que Israel só existe em função do apoio estadunidense e, numa crítica direta aos métodos do dirigente sionista, disse que não é necessário demolir um prédio toda vez que estiver procurando algum adversário.

Em consequência da guerra, das promessas não cumpridas e das denúncias de corrupção, Netanyahu é um dirigente cada vez mais impopular em seu país, bem como junto a governos, movimentos sociais e organizações internacionais em todo o mundo. Prova disso são as constantes manifestações que mobilizam milhares de pessoas contra seu governo. O exemplo desse isolamento é o fato de que Netanyahu sequer foi consultado ou teve acesso aos termos do acordo entre Estados Unidos e Irã. Isso explica por que Israel continua bombardeando o Líbano: seu líder político precisa da continuidade da guerra para a sobrevivência pessoal e fará tudo para sabotar o acordo.

Acordo político ou capitulação disfarçada

Concretamente, Estados Unidos e Israel não atingiram nenhum dos objetivos a que se propuseram quando atacaram o Irã, dentre os quais: a) a queda do regime diante dos primeiros bombardeios, que levaria a uma sublevação popular. Pelo contrário, a guerra uniu o povo contra o imperialismo e fortaleceu o governo; b) os Estados Unidos não conseguiram destruir a estrutura nuclear nem sequestrar o urânio enriquecido do Irã, apesar do intensos bombardeios; c) os EUA não puderam se apoderar do petróleo persa, como ocorreu na Venezuela, com o qual poderiam dominar o comércio mundial de energia e chantagear a China; d) ao contrário de ampliar sua hegemonia no Oriente Médio, os Estados Unidos perderam o prestígio na região porque não conseguiram proteger sequer os aliados onde possuía bases militares.

Numa guerra, quando um país que ataca outro e não pode obter os objetivos a que se propôs e o adversário consegue resistir no campo de batalha e impor as condições objetivas para a realização de um acordo, não se pode dizer outra coisa senão o fracasso, uma derrota da nação agressora, apesar do imenso sacrifício da nação agredida. Essa é a lição da recente guerra EUA-Israel contra o Irã. Vale lembrar ainda que em vários momentos da história os resultados das guerras representaram acontecimentos que produziram consequências profundas que se projetaram no longo prazo sobre a geopolítica mundial. Sob essa perspectiva, a guerra contra o Irã vai ser lembrada com um desses momentos de inflexão histórica que pode se transformar numa mudança de correlação de forças internacional e no aumento do declínio imperialista.

Essa guerra também demonstrou que nenhum país pode manter sua hegemonia apenas pelo poder das armas. Uma longa hegemonia, quando entra em declínio, leva o agressor antes poderoso a cometer erros de cálculos, em função da arrogância e da confiança excessiva. A história registra que muitos impérios, em consequência do exercício prolongado da hegemonia, superestimaram suas capacidades e subestimaram a força dos adversários, terminando por ser surpreendidos pelo polo mais fraco. Isso é exatamente o que ocorreu em relação ao Irã: a longa preparação, a determinação de seus dirigentes e o poder de fogo de suas forças armadas surpreenderam o adversário mais poderoso e o levaram à derrota. Além disso, o prestígio dos EUA na região também saiu bastante arranhado, pois seus parceiros regionais, como não foram protegidos, tendem a buscar alternativas e ampliar suas margens de autonomia.

Se analisarmos objetivamente os principais pontos do acordo, poderemos observar as imensas vantagens obtidas pelo Irã. O regime permaneceu de pé, preservou sua soberania, ampliou sua influência no Oriente Médio e ainda conseguiu arrancar do imperialismo um conjunto de conquistas econômicas e políticas impensáveis por qualquer analista no início dos acontecimentos. Em outros termos, o acordo representa um desfecho muito diferente daqueles que os falcões dos Estados Unidos e de Israel imaginavam. Se realmente o acordo for posto plenamente em prática, se constituirá numa mudança profunda na estrutura da geopolítica internacional e num marco histórico de uma transição para uma outra ordem internacional. Vejamos mais detalhadamente cada um de seus principais pontos.

O primeiro ponto tem uma importância estratégica, uma vez que garante a integridade territorial do Irã, a preservação de sua soberania e o compromisso dos Estados Unidos de não ingerência nos assuntos internos iranianos, o que significa uma vitória política, uma vez que o imperialismo estadunidense vinha interferindo na vida iraniana há pelos menos quatro décadas. O segundo ponto complementa o primeiro, pois os Estados Unidos se comprometeram a reduzir sua presença militar nas proximidades do Irã. Essa questão tem enorme relevância porque Washington construiu um sistema de bases militares no Oriente Médio, justamente para exercer pressão sobre o Irã. Agora, com essa cláusula, os persas ampliam sua margem de segurança.

Outro dos principais pontos do acordo é o compromisso com um programa de reconstrução do Irã no valor de US$ 300 bilhões. Neste caso existe até uma questão muito original: geralmente é imposto aos países derrotados uma série de imposições econômicas como aconteceu com a Alemanha na primeira guerra. No caso do Irã ocorre exatamente o contrário: o País que resistiu ao agressor vai receber recursos para sua recuperação econômica e reconstrução de sua infraestrutura. Mas um dos aspectos mais relevantes é o fim das sanções econômicas contra o Irã, que vinha sendo impostas ao País há pelo menos 40 anos e significavam o principal instrumento de chantagem dos Estados Unidos contra a nação persa. Ou seja, o fim das sanções rompe com o isolamento, coloca novamente o Irã no mercado mundial e cria condições para um novo ciclo de desenvolvimento do país.

Essa medida se junta a outra também de importância extraordinária, que é a liberação das exportações de petróleo, gás e seus derivados. Como se sabe, o petróleo é um dos produtos mais importantes da economia iraniana e o país era obrigado a realizar mil peripécias para colocar seu produto no mercado. Agora o Irã está livre para recuperar plenamente sua capacidade de suprir o mercado mundial de energia. Além disso, impede que os Estados Unidos controlem o comércio mundial de petróleo, o que seria possível após os acontecimentos na Venezuela. Isso pode representar um novo patamar no desenvolvimento do país, com aumento das receitas, fortalecimento das reservas e ampliação dos investimentos do Estado.

Ainda com relação à questão econômica, outro ponto de grande relevância é a devolução dos ativos financeiros iranianos que estavam congelados há décadas em várias instituições financeiras internacionais. A devolução desses recursos representa não apenas uma gigantesca injeção de recursos na economia iraniana, como também significa uma vitória política e econômica do Irã e enfraquece juridicamente os argumentos imperiais para congelar recursos de outras nações. Simbolicamente, esse compromisso representa o reconhecimento dos direitos econômicos restringidos por decisões unilaterais do sistema imperial dos Estados como forma de asfixiar os países que considera seus adversários.

A questão do Estreito de Ormuz também significou uma vitória iraniana. Nos primeiros 60 dias haverá trânsito livre para todas as embarcações, mas a partir daí haverá uma negociação sobre o processo de administração e segurança do canal. Isso significa que há a possibilidade de Irã e Omã estabelecerem um protocolo de controle dessa região geográfica, com a cobrança de serviços marítimos de administração. Finalmente, há ainda a questão nuclear: o Irã se comprometeu a não desenvolver nem possuir armas nucleares, o que já era uma posição política do governo iraniano antes do conflito. Ou seja, as concessões iranianas eram posições que já estavam sendo praticadas antes do conflito.

Em outros termos, a derrota no Oriente Médio representa um fracasso estratégico do imperialismo estadunidense na região, fato que deverá ter consequência de longo prazo na geopolítica mundial, uma vez que agora ficou evidente que os Estados Unidos já não podem impor seus interesses pela força, nem são invencíveis. Essa agressão passará para a história como um dos maiores fracassos imperiais desde a guerra do Vietnã e representa mais um capítulo de uma longa transição de hegemonia em curso na conjuntura mundial, processo que poderá se consolidar caso a OTAN seja derrotada na Ucrânia.

Além disso, esperamos que o fracasso da agressão imperialista ao Irã contribua para o fortalecimento das lutas populares e para a construção de um caminho autônomo do povo iraniano em busca da conquista plena de seus direitos e das liberdades democráticas, que possa superar a política interna autoritária do regime. Como afirmou o Partido Comunista do Irã (Tudeh) em declaração emitida em fevereiro deste ano, “a agressão militar do imperialismo estadunidense e do governo israelense, que está sendo processado pelo Tribunal Internacional de Justiça em Haia por crimes contra a humanidade, … é uma tentativa de destruir o Irã como país regional capaz e substituir o governo vigente por um regime dependente e despótico, que já anunciou seu programa de repressão sangrenta contra seus opositores. O Partido Tudeh do Irã convoca todas as forças nacionais e defensoras da liberdade do Irã, bem como as forças pacifistas e progressistas do mundo todo, a unirem forças nestes momentos sensíveis e decisivos, com todas as suas forças, para estabelecer a paz e pôr fim à agressão de Israel e do imperialismo estadunidense contra nossa pátria. A destruição do Irã não é o caminho para salvar o país do jugo do atual governo despótico. Isto só será possível através da luta do povo e das forças nacionais e defensoras da liberdade do país.”

Estamos vivenciando uma conjuntura muito desafiadora, pois o animal ferido se torna muito mais perigoso. A principal hipótese é a de que, diante desses fracassos, o imperialismo dos EUA priorize sua atenção à América Latina, um espaço geográfico onde vai tentar impor seus interesses, conforme assinala em sua doutrina de segurança nacional, dada a fragilidade militar da grande maioria dos países da região. Nessas circunstâncias, somente o povo latino-americano, mediante a mobilização e a organização, será capaz de barrar uma provável ofensiva imperial na região.

Edmilson Costa é secretário geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB)