Entrevista de Edmilson para Opera Mundi – 3

PARTE 3 – CONJUNTURA INTERNACIONAL

 

Breno Altman: Vamos agora para um tema mais internacional. Desde o fim da União Soviética, muitos caracterizam o período atual como contrarrevolucionário. Nas últimas décadas, a China emergiu como uma experiência relevante. Na avaliação do PCB, a China é uma experiência socialista?

Edmilson Costa: Esse é um tema muito importante, porque muita gente opina sobre a China sem estudar o que ocorre lá. Alguns dizem que a China é capitalista ou até imperialista; outros afirmam que já é socialista. Na minha avaliação, a China não é nem plenamente capitalista nem plenamente socialista. O processo atual pode ser entendido como uma espécie de NEP de longo prazo — o que eles próprios chamam de etapa inicial do socialismo. Nesse modelo, coexistem diferentes formas de propriedade, mas com hegemonia do Partido Comunista e forte presença de empresas públicas na economia.

Esse processo tem apresentado resultados expressivos. A China deixou de ser um país agrário e atrasado a partir do final dos anos 1970, para se tornar uma das maiores potências econômicas do mundo. Dependendo do critério — seja o do FMI e do Banco Mundial, seja o da paridade de poder de compra —, pode ser considerada a primeira ou a segunda maior economia global. O avanço das forças produtivas é notável. Em menos de 40 anos, o país deu um salto significativo. Outro aspecto fundamental foi a erradicação da pobreza extrema, que afetava cerca de 700 milhões de pessoas. Trata-se de uma conquista importante do povo chinês e do Partido Comunista Chinês.

Atualmente, ainda coexistem diferentes classes sociais, incluindo setores burgueses e camadas médias. Pessoalmente, espero que esse processo avance para uma resolução política mais definida — como previsto pelos próprios chineses —, com metas de alcançar um nível intermediário de desenvolvimento socialista por volta de 2035 e um estágio mais avançado até 2045. Naturalmente, isso envolverá disputas políticas internas. De modo geral, avalio positivamente o processo chinês. Além disso, a China cumpre um papel relevante no cenário internacional como contraponto ao sistema imperialista. Isso é importante, pois limita a capacidade de ação unilateral que existia após o fim da União Soviética. Hoje há vários pólos em disputa, e a China é um deles — assim como a Rússia.

Breno Altman: Qual é a sua opinião sobre quem afirma que o conflito entre China e Estados Unidos é um conflito interimperialista?

Edmilson Costa: Eu considero essa interpretação equivocada. Por quê? Porque, quando analisamos o que é o imperialismo na prática — aquilo que vemos historicamente —, não é isso que caracteriza a China. A China invadiu quantos países desde a revolução de 1949? Quantas guerras promoveu nos moldes do imperialismo tradicional? Não é o caso. O que ocorre é que muitos tentam encaixar a China em categorias rígidas: “é capitalista”, “é imperialista”, “é socialista”. Mas esses rótulos não dão conta da complexidade do processo chinês.

A China é uma experiência singular, que precisa ser analisada com novos instrumentos. Se esse processo for bem-sucedido, poderemos ter um tipo de socialismo mais desenvolvido do que o experimentado na União Soviética, inclusive superando problemas históricos como a escassez de bens de consumo. Minha avaliação é que muitas análises ainda estão presas a esquemas antigos de interpretação da conjuntura internacional. Hoje vivemos transformações profundas — inteligência artificial, nanotecnologia, robótica, impressão 3D — que estão redefinindo as forças produtivas. Se não considerarmos isso, corremos o risco de interpretar a realidade com categorias que já não são suficientes.

Breno Altman: Agora sobre outro tema internacional importante — e bastante polêmico, inclusive entre partidos comunistas: a guerra na Ucrânia. Trata-se de uma guerra justa e defensiva por parte da Rússia? De um conflito interimperialista entre Rússia, OTAN e Estados Unidos? Ou de uma guerra justa por parte da Ucrânia?

Edmilson Costa: Na minha avaliação, a guerra na Ucrânia foi provocada pela OTAN e pelo imperialismo. Houve um processo de ruptura política em 2014, após o qual populações de língua russa se insurgiram, especialmente na Crimeia e na região do Donbass. A partir daí, houve um fortalecimento do aparato militar ucraniano com apoio externo, o que agravou o conflito. Do ponto de vista da Rússia, a expansão da OTAN na região foi interpretada como uma ameaça estratégica, o que levou à intervenção.

Há um paralelo histórico frequentemente lembrado: a crise dos mísseis em Cuba. A ideia de sistemas militares hostis próximos às fronteiras é vista como um risco existencial por grandes potências. Nesse contexto, o conflito atual envolve também a participação indireta de diversos países apoiando a Ucrânia. Na interpretação que apresento, a ação russa está vinculada à defesa de interesses estratégicos e à proteção de populações na região do Donbass, que vinham sendo afetadas pelo conflito. Também houve acordos anteriores, como os de Minsk, que não se consolidaram como solução duradoura.

De todo modo, trata-se de uma situação complexa, com múltiplos fatores históricos, políticos e geopolíticos envolvidos. Nessa situação concreta, eu acho que a derrota da Ucrânia representaria uma uma derrota muito grande do imperialismo naquela região.

Breno Altman: Deixa eu ir para outra situação. Os comunistas no Irã — o Tudeh, o Partido Comunista do Irã — participaram da Revolução de 1979, mas logo em seguida, no início dos anos 1980, na disputa pela hegemonia daquele processo revolucionário com os grupos islâmicos liderados por Khomeini, foram alijados e reprimidos. Neste momento, a República Islâmica do Irã é atacada pelos Estados Unidos e por Israel. Qual deve ser a postura dos comunistas? Devem acertar contas com a República Islâmica, que os reprimiu violentamente, ou defendê-la por estar sob ataque dos Estados Unidos e de Israel?

Edmilson Costa: O Tudeh publicou recentemente uma nota em que condena os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Nesse momento, o Irã cumpre um papel relevante no enfrentamento ao imperialismo no Oriente Médio, independentemente de ser um regime teocrático ou não. Na política, é necessário analisar as condições concretas e identificar a contradição principal. E, nesse caso, a contradição principal na região envolve o enfrentamento ao imperialismo e ao sionismo, que são vistos como forças centrais nesse conflito. A eventual vitória do Irã teria impacto nesse cenário, ao enfraquecer a atuação dessas forças na região.

Breno Altman: Como você caracteriza o chavismo na Venezuela?

Edmilson Costa: O chavismo promoveu um conjunto de reformas importantes na Venezuela. Entre elas, uma profunda reformulação das Forças Armadas, que passaram a ter maior identificação com a população. Também houve políticas voltadas ao atendimento de demandas sociais. Hugo Chávez não era socialista no sentido clássico, mas um militar progressista que implementou mudanças significativas. No entanto, o cenário atual é mais complexo. Há pressões externas intensas, e a situação do país é bastante delicada.

Minha impressão é que a Venezuela enfrenta fortes condicionantes internacionais, o que limita suas possibilidades de ação. Há medidas recentes que indicam contradições nesse processo, e não está claro qual será o desfecho — se haverá aprofundamento das mudanças ou maior dependência externa.

Breno Altman: Você acha que a Revolução Cubana será capaz de resistir à atual pressão dos Estados Unidos?

Edmilson Costa: Espero que sim. Cuba tem uma longa tradição de luta, com um povo politizado e organizado. No entanto, a situação é muito difícil diante da pressão externa. A resistência cubana não depende apenas de fatores internos, mas também da solidariedade internacional. A mobilização de forças sociais em todo o mundo pode desempenhar um papel importante na defesa de Cuba diante dessas pressões.

Breno Altman: Muito bem, temos aqui algumas perguntas do superchat que vou ler para você. A Luíza — que sempre assiste ao nosso canal e sempre contribui —, eu nunca sei falar o sobrenome dela: Luíza Copieter. Deixe-me anotar aqui. Suponho que seja isso. Ela contribuiu com o superchat e pergunta: o PCB chamaria o Breno para ministro das Relações Exteriores?

Edmilson Costa: Olha, o Breno seria um grande ministro das Comunicações [risos].

Breno Altman: Você sabe, como me conhece há meio século, que eu sou um “groucho marxista”. Eu nunca me inscrevo em clubes que me aceitem como sócio.

A Luíza volta a contribuir e pergunta: “Camarada, qual é a maior contradição que você vê na atualidade e como enfrentar o pensamento liberal que coloca como principal contradição democracia versus proto ou neofascismo?”

Edmilson Costa: A principal contradição, não apenas no Brasil, mas no mundo, é entre os povos e o imperialismo. Isso, no entanto, não elimina as contradições internas entre os povos e suas burguesias nacionais. Ou seja, para enfrentar essa realidade, é necessário lutar tanto contra o imperialismo quanto contra as burguesias nacionais e suas políticas, especialmente as políticas neoliberais que vêm sendo implementadas nas últimas décadas.

Breno Altman: Edmilson, estamos chegando ao fim da nossa conversa e eu queria te pedir indicações, como sempre faço antes das despedidas, de livro, filme e série.

Edmilson Costa: Bom, estou realizando um trabalho sobre inteligência artificial, lei do valor e impactos no capitalismo. Portanto, vou indicar dois livros importantes. O primeiro é Conhecimento e valor, de Guglielmo Carchedi. E o segundo é Trabalho produtivo em Marx, de Vera Cotrim.

Em relação a filmes, acho que os dois que estão mais em destaque no momento são O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui. Série eu quase não assisto.

Breno Altman: Muito bem, Edmilson. Quero agradecer muito pelo seu tempo, por ter vindo aqui aos nossos estúdios, e te desejar boa sorte nessa jornada eleitoral que se aproxima.

Edmilson Costa: Muito obrigado. Eu agradeço o espaço e espero fazer uma boa campanha nessa jornada. Estamos em um processo profundamente desigual, mas os comunistas são sempre otimistas. Dessa forma, vamos realizar uma campanha firme, alegre e combativa, colocando em debate questões que outras candidaturas não têm condições de apresentar.