Um balanço da economia brasileira em 2025

Edmilson Costa*
A economia brasileira encerra o ano de 2025 com um desempenho bastante modesto, diante das necessidades dos trabalhadores e das trabalhadoras brasileiras. O Produto Interno Bruto (PIB), que mede o conjunto das atividades econômicas, cresceu pouco mais de 2% até novembro de 2025, contra 3,4% em 2024. Do ponto de vista setorial, a agropecuária liderou o avanço do desempenho econômico, seguido do setor de serviços e da indústria. Isto significa que a economia brasileira reforça um padrão regressivo: crescimento apoiado em commodities e setores industriais de baixa complexidade. Mesmo que esse percentual tenha sido superior às previsões dos analistas do mercado, essa performance indica uma sensível desaceleração da economia, fato que vem sendo registrado desde o terceiro trimestre de 2024 (Gráfico 1) e tudo indica que, em 2026, esse percentual será ainda menor, em função das taxas de juros do Banco Central mantidas em patamares elevados por um largo período e do nível de investimento que tem se mantido medíocre ao longo de toda a política neoliberal, registrando ano passado apenas 17,3%.

Com relação ao comércio externo, a balança comercial brasileira, a exemplo dos anos anteriores e apesar das sanções impostas pelo governo Trump, apresentou uma performance bastante positiva, com um saldo projetado de mais de U$ 63,0 bilhões, muito embora esse superávit tenha sido impulsionado por vendas ligadas aos setores agroexportadores (soja, minério e carne) e de menor complexidade industrial. De acordo com os últimos dados da terceira semana do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as exportações brasileiras cresceram 4% em 2025 e somaram U$ 339,43 bilhões, enquanto as importações totalizaram U$ 276,34 bilhões, resultando num superávit comercial de U$ 63,08 bilhões. A China consolidou-se como principal parceiro comercial, funcionando como uma espécie de âncora externa do saldo comercial, com um volume de comércio que representa mais que o dobro dos negócios com os Estados Unidos (Tabela 1). Os resultados da balança comercial brasileira mais uma vez confirmam o processo de reprimarização da economia brasileira, cuja performance, se não for corrigida a tempo, com um processo de reindustrialização, especialmente nos setores de ponta da economia, promoverá uma regressão social e econômica de consequências graves para o país.
| Tabela 1 – Os 10 principais parceiros comerciais do Brasil | ||||
| Junho de 2025 (U$ bilhões) | ||||
| Países | Total | % | ||
| China | 47,6 | 28,7 | ||
| EUA | 20,0 | 12,1 | ||
| Argentina | 9,1 | 5,5 | ||
| Países Baixos | 5,6 | 3,4 | ||
| Espanha | 4,7 | 2,8 | ||
| México | 3,4 | 2,1 | ||
| Canadá | 3,4 | 2,1 | ||
| Singapura | 3,1 | 1,9 | ||
| Chile | 3,1 | 1,9 | ||
| Alemanha | 2,9 | 1,8 | ||
| Fonte: Empiricus | ||||
Uma questão importante a ser avaliada é o fato de que as sanções impostas pelo governo Trump não afetaram, como a oposição esperava, as exportações brasileiras, que hoje não dependem dos EUA como no passado. Mesmo que num primeiro momento tenha produzido grande barulho, em função das articulações do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, a resistência do governo brasileiro, que não se dobrou às chantagens tarifárias, além do respaldo político e econômico dos BRICs, foram fatores que fizeram a diferença. Em função de problemas internos nos EUA, como inflação e pressão de empresários ligados aos setores sancionados, o governo Trump teve que recuar, desmontando a narrativa bolsonarista que espalhava o terror afirmando que o governo norte-americano iria punir o Brasil, se fosse levado adiante o processo contra Bolsonaro e os golpistas. O recuo de Trump expôs o caráter fracassado e antipatriótico da extrema-direita bolsonarista e não impediu que a justiça julgasse e prendesse os golpistas.
A falácia da ortodoxia monetária
Um dos aspectos mais decisivos e controversos da economia brasileira em 2025 foi a política monetária implementada pelo Banco Central. Baseada na ortodoxia típica da política neoliberal como instrumento exclusivo para enfrentar a inflação e as chamadas expectativas do mercado, o Bacen, a partir de 2023, incrementou a política de elevação dos juros, que se iniciou com Roberto Campos Neto, antigo presidente do BC nomeado por Bolsonaro, e se radicalizou com Gabriel Galípolo, nomeado por Lula, cuja taxa Selic atingiu 15% ao ano e se mantém nesse patamar até hoje (Tabela 2), mesmo diante de uma inflação dentro do escopo da meta. Muitos imaginavam que a elevação da taxa de juros era uma ação de Campos Neto para sabotar a política econômica do governo Lula e, com o novo presidente do BC, esse processo seria revertido. Pura ilusão: Galípolo não só manteve a política de juros altos como aumentou as taxas para patamares estratosféricos, sendo um dos principais responsáveis pela desaceleração da economia brasileira.
| Tabela 2 – Evolução da taxa Selic – 2013 – 2025 (%)* | ||||
| 2013 | 10,00 | |||
| 2014 | 11,75 | |||
| 2015 | 14,25 | |||
| 2016 | 13,75 | |||
| 2017 | 7,00 | |||
| 2018 | 6,50 | |||
| 2019 | 4,50 | |||
| 2020 | 2,00 | |||
| 2021 | 9,25 | |||
| 2022 | 13,75 | |||
| 2023 | 11,75 | |||
| 2024 | 12,25 | |||
| 2025 | 15,00 | |||
| * Taxas da última reunião do Copom a cada ano | ||||
| Fonte: Banco Central | ||||
Como afirmamos em vários artigos anteriores, a taxa de juros é um instrumento precário e irracional para o combate à inflação porque o Banco Central não controla o fluxo internacional das commodities, tampouco dos insumos importados, e não tem a menor influência em relação ao clima no país, o que significa que não controla as secas, enchentes e outros fenômenos naturais, e também não possui controle sobre os preços administrados da economia. Portanto, eleger a taxa de juros como instrumento exclusivo para deter a inflação é não só uma inadequação teórica como uma insanidade política, porque atinge desastrosamente o conjunto da economia: provoca encarecimento do crédito e restrição no consumo das famílias, desestimula o investimento produtivo e penaliza os setores industriais, além de provocar a desaceleração da economia, conforme podemos observar em 2025. Nessa perspectiva, torna-se incompreensível o fato de que o Banco Central continue aplicando essa política insana de juros altos, mesmo que a conjuntura econômica venha demonstrando, ao longo dos anos, que essa medida só favorece os rentistas.
Ao contrário do que afirmam os escribas neoliberais, a taxa de juros não é um instrumento técnico: conforme se pode observar ao longo dos anos, essa política funciona como um cavalar mecanismo de transferência de renda do fundo público para a oligarquia financeira e particularmente para os rentistas, que são premiados com uma remuneração elevada e sem risco. Para se ter uma ideia, os rentistas receberam cerca de um trilhão na forma de juros em 2025 (Tabela 3). Repetindo: cerca de um trilhão de juros, quantia que seria suficiente para resolver grande parte dos problemas sociais do país. Este é um mecanismo perverso para os trabalhadores e para o Brasil: numa conjuntura de juros elevados, torna-se mais rentável possuir ativos financeiros do que investir na produção, o que significa dizer que o Estado brasileiro, nesse ambiente de hegemonia neoliberal, opera como garantidor de ganhos milionários para os rentistas, em função do pagamento dos serviços da dívida interna, tendo como consequência a queda do PIB e a redução do investimento público para atender as necessidades da população.
| Tabela 3 – Juros nominais mensais e acumulado nos últimos 12 meses
(2025 – R$ bilhões) |
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| Juros mensais | Acum. últimos 12 meses | |||||
| Janeiro | 40,4 | 910,9 | ||||
| Fevereiro | 78,3 | 924,0 | ||||
| Março | 75,2 | 935,0 | ||||
| Abril | 69,7 | 928,4 | ||||
| Maio | 92,1 | 946,1 | ||||
| Junho | 61,0 | 912,3 | ||||
| Julho | 109,0 | 941,2 | ||||
| Agosto | 74,3 | 946,5 | ||||
| Setembro | 84,7 | 984,8 | ||||
| Outubro | 113,9 | 987,2 | ||||
| Novembro | 87,2 | 981,9 | ||||
| Fonte: Banco Central – Estatísticas Fiscais | ||||||
A minha impressão é que os paladinos do neoliberalismo brasileiro têm um enorme desprezo pelos fatos e se preocupam muito mais em alimentar os mitos do que encarar a realidade. A inflação encerrou o ano em 4,4% (dentro do intervalo da meta) e este resultado é celebrado como prova da eficácia da política monetária. Ledo engano: uma análise mais rigorosa do comportamento dos preços em 2025 revela que essa leitura é sumamente enganosa porque a desaceleração inflacionária não é resultado do aumento da taxa de juros, mas consequência de fatores reais pelo lado da oferta, tendo em vista a boa safra agrícola e a queda dos preços dos alimentos. Nenhuma taxa de juros, por mais que esteja sendo manejada pelo mais brilhante dos alquimistas neoliberais, é capaz de alterar o regime de chuvas ou secas, produzir safras recordes e aumentar a produtividade agrícola. Ou seja, a inflação caiu em função do prato de comida e não do Copom. É sempre assim: o discurso neoliberal procura atribuir à política monetária um mérito que ela não possui, ao mesmo tempo em que silencia sobre os seus custos. Em vez de atacar as causas estruturais da inflação, que residem nos gargalos produtivos, concentração de mercado, custos logísticos e vulnerabilidade dos preços administrados, o neoliberalismo opta por uma pajelança genérica que sacrifica a economia e amplia a desigualdade.
Em outras palavras, a política monetária operou em outra direção, com resultados profundamente negativos para o conjunto da economia. Desacelerou o crescimento, reduziu o investimento produtivo, restringiu o consumo das famílias e aumentou o montante da dívida interna e o pagamento de juros. E o mais perverso dessa política desastrosa é a redistribuição silenciosa e brutal da renda em favor da oligarquia financeira. Sob o discurso da austeridade fiscal, trata-se de uma transferência de renda coercitiva do orçamento para os setores mais parasitários da sociedade brasileira, com implicações severas na precarização dos serviços públicos demandados pela população, na redução de direitos, garantias e salários dos trabalhadores e nas políticas públicas para a maioria da população. Combater a inflação sacrificando a capacidade produtiva e o bem estar da imensa maioria dos brasileiros e das brasileiras é, na verdade, uma guerra das classes dominantes contra trabalhadores e trabalhadoras, para manter seus privilégios. Persistir nesse caminho significa um bloqueio a um novo projeto de desenvolvimento, com soberania nacional, baseada nos interesses populares e na justiça social.
A questão social não resolvida
2025 foi um ano em que se realizaram algumas medidas positivas para os/as trabalhadores/as e a população em geral, muito embora tenha se mantido a grave situação social da população brasileira. O governo anunciou que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome, que tinha retornado no governo de Jair Bolsonaro. Também continuou a política de aumento real do salário mínimo, mas esse patamar salarial ainda está muito distante do valor histórico estipulado pelo Dieese com vistas a sustentar o/a trabalhador/a e sua família e muito abaixo do valor observado nos países da América Latina, na grande maioria muito menos desenvolvidos que o Brasil, como Honduras, Bolívia, Guatemala, El Salvador, Paraguai, entre outros (Tabela 4). Isso significa que o Brasil é uma economia de baixos salários e, mesmo com o mecanismo positivo de reajuste do governo, os trabalhadores e as trabalhadoras levariam décadas para atingir o salário do Dieese. Mas a notícia mais importante para os/as trabalhadores/as foi a isenção do imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais, uma medida que vai beneficiar milhões de pessoas a partir deste ano de 2026.
| Tabela 4 -Salário mínimo na América Latina – US$ junho de 2025 | ||||
| Costa Rica | 726,0 | Honduras | 346,0 | |
| Uruguai | 586,0 | Panamá | 341,0 | |
| Chile | 565,0 | Peru | 316,0 | |
| Equador | 470,0 | Brasil | 273,0 | |
| Guatemala | 487,0 | El Salvador | 273,0 | |
| México | 417,0 | Argentina | 257,0 | |
| Bolívia | 398,0 | Nicarágua | ||
