“É necessário frear o avanço do fascismo global”

Resumen Latinoamericano

Entrevista com Carlos Luis Rivero (diretor do Instituto Simón Bolívar para a Paz e a Solidariedade – Venezuela)

Carlos Luis Rivero é uma figura histórica da esquerda revolucionária venezuelana cuja trajetória sintetiza as etapas da luta popular no país. Iniciou-se na militância durante a adolescência como dirigente estudantil do ensino médio e, posteriormente, universitário na Universidade Central da Venezuela. Diante do fechamento das vias democráticas durante a quarta república, optou pelo caminho da luta armada, integrando por vinte e três anos a organização Bandeira Vermelha, onde alcançou as máximas responsabilidades como membro de sua direção nacional.

Nas fileiras do movimento popular e revolucionário, participou ativamente dos processos insurrecionais que abalaram o país após o Caracazo de 1989, vinculando-se à estratégia que finalmente convergiu com a liderança de Hugo Chávez. Após a chegada da Revolução Bolivariana, desempenhou papéis-chave na arquitetura jurídica do novo Estado, coordenando as reformas das leis do poder popular: a lei dos conselhos comunitários e das comunas. Atualmente, exerce o cargo de diretor executivo do Instituto Simón Bolívar para a Paz e a Solidariedade, órgão vinculado ao Ministério das Relações Exteriores venezuelano presidido pela deputada Blanca Eekhout, responsável pela diplomacia dos povos e pela análise estratégica internacional.

Resumen: Como diretor executivo do Instituto Simón Bolívar, como você articula o chamado aos povos do mundo neste momento de cerco contra a Venezuela?

Rivero: Os povos do mundo temos um inimigo em comum, que é o imperialismo. Aqueles de nós que lutamos pela autodeterminação, pela pátria e pelo socialismo, devemos nos articular não apenas em solidariedade com a Venezuela, mas entendendo que hoje nosso país é um cenário de batalha global. A Venezuela tem sido o principal obstáculo para o avanço das correntes fascistas no mundo. Guardando as devidas proporções, o que ocorre hoje em 2025 se assemelha ao que aconteceu no século passado com a Guerra Civil Espanhola. Naquela época, brigadistas de todas as partes do mundo foram à Espanha para lutar, mesmo sabendo que poderiam perder, porque era necessário unir forças para impedir o avanço do fascismo. Hoje na Venezuela devemos fazer o mesmo: unificar todas as forças do mundo. Transformar a Venezuela no grande muro contra o avanço do fascismo. O presidente Trump nos vê como se fôssemos uma colônia ou uma propriedade privada, esquecendo que no século dezenove perdemos metade de nossa população lutando para nos tornarmos independentes. Essa soberania é inegociável. A Venezuela não se caracterizou por colonizar ninguém, nem por tomar posse de qualquer território, fomos lutar para libertar povos.

Resumen: Você menciona a proposta das brigadas internacionais. Como vê essa iniciativa no contexto da solidariedade militante e da luta contra a agressão imperialista?

Rivero: É uma tarefa inadiável. A libertação nacional de um país requer uma visão internacionalista ativa. É necessário que nos diferentes países se organizem brigadas de solidariedade que possam ser transferidas para os lugares onde se travam as batalhas mais duras e, posteriormente à vitória, se mantenham de forma permanente. José Martí, assim como Che, diziam que a solidariedade é a ternura dos povos. Após o genocídio na Palestina, o imperialismo dinamizou a relação entre legalidade e legitimidade. Eles baixaram a máscara e já não se importam com a aparência da democracia burguesa. Por isso, precisamos de uma transformação profunda da multilateralidade, uma que não dependa apenas dos governos, mas da ação de seus povos.

Resumen: Sua trajetória política é extensa. Você militou vinte e três anos na Bandeira Vermelha e conheceu de perto a guerrilha. Como analisa essa transição para o apoio ao chavismo e o papel das antigas organizações armadas?

Rivero: Não foi fácil passar de militante de uma organização revolucionária para apoiar uma rebelião militar ou cívico-militar, pois os militares eram nossos inimigos no campo de batalha. Mas a Venezuela tem uma história particular de suas forças armadas, os oficiais vêm de estratos populares, filhos de operários, camponeses e, na história recente, a primeira escola guerrilheira foi formada por oficiais de nossas forças armadas, perseguidos nas revoltas do “Carupanaso” e do “Porteñaso”. A existência de comandos progressistas e revolucionários nas forças armadas era possível. Por isso se toma a decisão de participar das insurreições do ano 92. Quanto pensamos sobre isso? Quanto nos custou tomar essa decisão histórica para uma organização armada?

Convertemos a política em nossa vida como prioridade desde a adolescência; não foi um hobby, nem um passatempo. Escolhemos o caminho da luta armada porque os canais da democracia liberal não nos permitiam, aos revolucionários, chegar ao poder. A experiência do Chile de Allende nos ensinou essa lição. Durante os anos setenta e oitenta, após a derrota militar da guerrilha, apenas três organizações mantiveram as bandeiras da luta armada: a OR, o PRV e a Bandeira Vermelha. Cada uma tinha estratégias diferentes. O PRV construiu o caminho insurrecional que deu caminho a Chávez. Na Bandeira Vermelha, onde eu era militante, mantínhamos a estratégia da guerra popular prolongada.

No entanto, em 1989, quando ocorreu o Caracazo, conseguimos fazer uma análise correta: vivíamos uma situação pré-revolucionária. A burguesia entrou em contradição interna e ela não permitia que governasse, e o povo não queria que nos governassem, e o povo saiu massivamente às ruas. Mas faltava o terceiro elemento que Lenin definiu, de uma situação evolutiva: faltava a direção e a estratégia para mudar o rumo. Chávez, em fevereiro de 1992, deu ao povo essa perspectiva em apenas alguns segundos com seu por enquanto. Entendemos que aquela blindagem que abriu as portas de Miraflores abriu um espaço para que o povo entrasse no poder e não saísse mais; aquele buraco que se abriu ainda não se fechou.

Resumen: Você mencionou que a Bandeira Vermelha terminou traindo o processo. Como se explica que uma organização com uma história heroica acabe aliada ao imperialismo?

Rivero: Foi consequência de um processo de desmoralização coletiva e perda de direcionamento estratégico. Alguns apontam que foi a infiltração, isso foi possível, o inimigo trabalha para infiltrar as organizações revolucionárias, mas isso não foi o elemento determinante; o elemento fundamental foi que a direção perdeu o rumo estratégico. Hoje reivindicamos a história dos heróis e heroínas da Bandeira Vermelha, mas rejeitamos a cúpula que traiu os ideais revolucionários. Infelizmente, existe um dogmatismo que acaba coincidindo com a extrema direita. Não entendem que os processos reais são aluviais e vão se radicalizando na marcha, quando a correlação de forças nos favorece; como quando Chávez se declarou socialista em 2005.

Resumen: Muitos revolucionários se perguntam por que não se forçou uma radicalização maior quando Chávez retornou em 2002. Foi uma falta de força ou uma decisão tática?

Rivero: Na política não basta ter razão; é preciso ter força. Quando Chávez voltou com a cruz naquele treze de abril, tínhamos todo o alto comando militar contra e traições civis internas. Não era o momento de radicalização extrema. A radicalização acontece quando se tem força para avançar. Tomamos o governo, mas o poder é um processo que se constrói na consciência do povo. Hoje temos muito mais poder do que em 2002, porque temos um povo mais coeso e consciente do que naquela época. Por isso falamos de poder, de poder popular.

Resumen: Nesse processo de construção de poder, você costuma citar a importância da hegemonia gramsciana. Como se aplica essa teoria quando a vanguarda deve mobilizar as grandes massas em momentos de crise extrema?

Rivero: A hegemonia não é apenas ganhar eleições, é conseguir que nossa visão de mundo se a compartilhada pela maioria. Gramsci nos ensinou que, em certos momentos históricos, a vanguarda deve ter a lucidez de ler o sentimento das massas para transformá-lo em ação política. Um exemplo claro foi o ano de 2017, durante as guarimbas. A direita tentou nos levar a uma guerra civil fratricida. Naquele momento de máxima violência, o presidente Nicolás Maduro teve a genialidade de convocar a Assembleia Nacional Constituinte (ANC). Não foi um chamado apenas para a militância de vanguarda, foi um chamado a toda a massa, a todo o povo, para resolver as diferenças através do diálogo original e não das balas. Essa decisão permitiu retomar a hegemonia da paz. Demonstrou que a vanguarda política sabia que o desejo mais profundo da massa era a estabilidade. A ANC desativou a violência e reafirmou que a soberania reside no povo, alcançando uma vitória política que deslocou completamente o fascismo. Atualmente vemos uma forte retórica sobre o empreendedorismo que parece influenciar as relações sociais.

Resumen: Não existe o risco de que esse modelo capitalista acabe colonizando a mente dos jovens e enfraquecendo a construção coletiva?

Rivero: O risco é real porque o capitalismo não ataca apenas a economia, ataca a subjetividade. O empreendedorismo, quando é vendido como o sucesso individual do mais apto, é a antiga receita liberal disfarçada de modernidade. Busca atomizar o trabalhador, transformá-lo em alguém que só pensa em seu bem-estar pessoal e compete com seu vizinho. Frente a essa lógica que tenta se impor mesmo sob o bloqueio, nós propomos a Comuna. O empreendedorismo tem sido uma tática de sobrevivência popular diante da crise, mas se não for politizado, reproduz a exploração. Por isso, através da reforma da lei do sistema econômico comunal, estamos impulsionando um modelo onde os meios de produção sejam de propriedade social, rompendo essa cadeia de individualismo.

Resumen: Quanto à situação econômica e à inflação, há um crítica recorrente sobre os baixos salários. Como o governo lida com essa contradição?

Rivero: O imperialismo estadunidense atacou primeiro a nossa moeda. Se o governo não tem dólares por causa do bloqueio, o mercado privado impõe o preço que quiser. Para um olhar externo ou dogmático, manter salários nominais baixos pode parecer uma política liberal, mas é uma condição imposta pela guerra. Eu mesmo tenho um salário real de apenas alguns dólares, mas consigo cobrir minhas necessidades porque os serviços são quase gratuitos, recebo o pacote CLAP e existem políticas que subsidiam a vida. É um salário social. Não é o ideal, mas é o que nos permitiu resistir sem sermos estrangulados. Através da reforma da lei do sistema econômico comunal, estamos promovendo um modelo onde os meios de produção são de propriedade social.

Resumen: Como essa propriedade social se traduz na prática cotidiana para evitar que seja apenas um rótulo jurídico e se torne uma verdadeira alternativa ao capitalismo?

Rivero: Isso se traduz em uma transformação radical da lógica do trabalho. Não se trata de uma mudança superficial; é uma reestruturação de como nos relacionamos com a produção. Essa visão não surge do nada, mas da observação direta. Recentemente, realizamos um estudo comparativo analisando o funcionamento de cooperativas tradicionais e três empresas sociais de propriedade direta em setores produtivos chaves. Todas essas novas formas não capitalistas correm o risco de serem metabolizadas e transformadas em capitalistas. No entanto, enquanto permanecerem formas de exercício democrático direto, com lucros distribuídos de acordo com o tempo de trabalho e excedentes distribuídos dentro da comunidade, demonstraremos, por meio de ações, e não de retórica, que essa economia é superior ao capitalismo, onde os excedentes são apropriados pelo capitalista.

Para entender esse modelo, precisamos observar como ele se baseia em princípios fundamentais que rompem com a estrutura antiga. Primeiro, buscamos superar a propriedade privada. Enquanto o empreendedorismo capitalista reforça a propriedade individual, a comuna promove empresas de propriedade social. Nesses casos, o excedente não é convertido em acumulação pessoal, mas sim em reinvestimento social para a escola do bairro, o posto de saúde local ou para a melhoria da habitação. Isso transforma a consciência do trabalhador; ele não vende mais sua força de trabalho a terceiros, mas produz para sua própria comunidade.

Outro princípio fundamental é priorizar o valor de uso em detrimento do valor de troca. O mercado capitalista nos força a produzir apenas o que gera dinheiro, mas a economia comunitária produz para satisfazer necessidades humanas reais. Se uma comuna produz milho ou tecidos, sua prioridade não é a especulação no mercado externo, mas sim garantir o acesso a esses bens para as famílias do território a um preço justo. É uma economia subordinada à vida. Por fim, defendemos a autogestão em detrimento da burocracia e do capital. Contrariando o mito de que o socialismo se resume à gestão estatal, propomos que o poder deve residir no povo. O controle social dos recursos é o melhor antídoto para a corrupção e a lógica da exploração. Quando o povo administra sua própria economia, a alienação do trabalho é rompida.

Não somos dogmáticos; sabemos que vivemos em uma economia monetizada sob ataque. Mas a comuna é o laboratório onde estamos desaprendendo o capitalismo. A transição é um processo de inundação: passamos de resolver emergências por meio do empreendedorismo individual para organizar essa força em um bloco histórico produtivo e coletivo. Não queremos que as pessoas apenas ganhem dinheiro; queremos que as pessoas construam a sociedade e fortaleçam o poder popular.

Para concluir, você mencionou o sacrifício da sua geração. Como heróis como os de Cantaura influenciam sua visão atual?

Lembrar de Cantaura é doloroso, mas necessário. Eu pertenço àquela geração, e fui ativista e trouxe para o movimento político camaradas como Mauricio Tejada e Nelson Pacín, ambos assassinados lá quando tínhamos apenas 23 anos. Nosso comandante, a quem chamávamos de “o velho” porque parecia um veterano, tinha apenas 32 anos quando caiu. Essa era a juventude que a Quarta República massacrou. Hoje, nossa luta é para garantir que a história não se repita.

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)