Notas sobre a extrema direita em Portugal

Bernardino Soares

Jornal Avante! – Partido Comunista Português

O sig­ni­fi­ca­tivo e sis­te­má­tico cres­ci­mento da ex­trema-di­reita nos úl­timos cinco anos, in­se­pa­rável da ex­trema pro­moção de que a sua ação e con­cep­ções têm be­ne­fi­ciado, deve me­recer aná­lise e ca­rac­te­ri­zação, pelo que re­pre­senta de re­tro­cesso da cons­ci­ência so­cial e po­lí­tica e pelas exi­gên­cias que co­loca ao com­bate po­lí­tico que con­ti­nu­a­remos a travar no fu­turo pró­ximo.

A ex­trema-di­reita tem o apoio de im­por­tantes setores do poder eco­nômico

Na extrema-direita em Portugal po­demos in­cluir o par­tido Chega e em par­ti­cular o seu líder, mas também a Ini­ci­a­tiva Li­beral, que, di­fe­rindo no es­tilo e em al­gumas po­si­ções, cada vez se iden­ti­fica mais aber­ta­mente com este po­si­ci­o­na­mento po­lí­tico, para além de ou­tros mo­vi­mentos e ex­pres­sões di­versas. Este cres­ci­mento tem ali­cerces pro­fundos no avanço do pro­cesso contrarre­vo­lu­ci­o­nário, na con­cen­tração de poder do grande ca­pital e no des­cré­dito dos pro­ta­go­nistas e dos par­tidos da po­lí­tica da di­reita tradicional – PS, PSD e CDS.

Os fatores que po­ten­ciam este alar­ga­mento evi­den­te­mente não se es­go­taram e podem ainda con­ti­nuar a in­su­flar este fe­nômeno po­lí­tico, in­cluindo pela vi­si­bi­li­dade que terá no se­gundo turno das eleições presidenciais. Isso não se des­liga da re­con­fi­gu­ração dos po­si­ci­o­na­mentos dos par­tidos à di­reita, pela pre­pon­de­rância elei­toral cres­cente da ex­trema-di­reita e pelo des­li­za­mento con­tínuo da di­reita tra­di­ci­onal para po­si­ções mais ex­tre­madas. A po­sição de su­posta neu­tra­li­dade de PSD e CDS, ava­li­zando a opção de voto por André Ven­tura (Chega) como acei­tável, é disso um exemplo.

O cres­ci­mento da ex­trema-di­reita as­senta nos efeitos de dé­cadas de po­lí­ticas ne­o­li­be­rais na vida da mai­oria da po­pu­lação, na evo­lução ne­ga­tiva de fatores in­ter­na­ci­o­nais e no agra­va­mento do pro­cesso de do­mi­nação ide­o­ló­gica, com a pro­moção de con­cep­ções re­tró­gradas, de fal­si­fi­cação da his­tória e de an­ti­co­mu­nismo. Tem uma pe­ri­gosa pe­ne­tração na ju­ven­tude, so­bre­tudo pela via das redes so­ciais, em torno da fi­gura de Ven­tura e com uma ex­pressão na vo­tação de João Co­trim (Iniciativa Liberal) no pri­meiro turno das elei­ções, que im­porta ana­lisar. Não são des­pi­ci­endos os alertas re­centes da PJ para a dis­se­mi­nação entre os jo­vens, nas redes so­ciais e jogos on­line, de con­teúdos de ra­di­ca­li­zação e vi­o­lência.

Po­lí­ticas contra o in­te­resse na­ci­onal, fo­men­tando de­si­gual­dades e re­du­zindo di­reitos, tor­nando a vida da po­pu­lação mais di­fícil, ge­raram um forte des­con­ten­ta­mento. No plano po­lí­tico, a su­cessão da­quilo a que o PCP chamou al­ter­nância no poder sem po­lí­tica al­ter­na­tiva, PS e PSD no go­verno, com ou sem CDS, le­gi­timou a ideia, com base real, de que a mu­dança de pro­ta­go­nistas, mesmo que com al­gumas di­fe­renças, não al­terou o rumo fun­da­mental das ori­en­ta­ções po­lí­ticas e pre­ju­dicou con­ti­nu­a­mente a vida dos tra­ba­lha­dores e das pes­soas em geral e o de­sen­vol­vi­mento do país.

A ex­trema-di­reita e o Chega em par­ti­cular, com o apoio do poder eco­nômico, pro­curam apro­priar-se desse des­con­ten­ta­mento e ca­na­lizar para a sua vo­tação elei­toral e apoio po­lí­tico a le­gí­tima re­volta de muitos dos que são ví­timas da po­lí­tica de di­reita. Re­ferem-se aos pro­blemas sen­tidos pelas pes­soas co­muns, em lin­guagem di­reta e sim­ples, ver­ba­li­zando muito do que cada um gos­taria de dizer aos go­ver­nantes. Dizem re­pre­sentar o povo contra as elites. Falam de cor­rupção sem nunca pôr em causa as suas ori­gens, como a su­bor­di­nação do poder po­lí­tico ao eco­nômico ou as pri­va­ti­za­ções, de que são agentes a­tivos. Para muitos, in­cluindo pa­ra­do­xal­mente largas faixas das ca­madas proletárias, é em Ven­tura que re­side a es­pe­rança numa mu­dança. Em muitos ou­tros, pro­fun­da­mente de­si­lu­didos com a vida po­lí­tica e mesmo sem grande ex­pec­ta­tiva, há a dis­po­ni­bi­li­dade para ver o que dali virá.

A ex­trema-di­reita e a di­reita em geral con­se­guiram con­vencer muitas pes­soas de que o es­tado do país e das suas vidas se deve ao “so­ci­a­lismo” e às “po­lí­ticas so­ci­a­listas”, re­fe­rindo-se a go­vernos do PS que, tal como os do PSD, sempre se in­se­riram no con­senso ne­o­li­beral. Com isso fun­da­mentam a ne­ces­si­dade de uma mu­dança para o campo oposto que na re­a­li­dade é o mesmo: a po­lí­tica de di­reita ne­o­li­beral. Já dizia o Prín­cipe Dom Fa­brizio em “O Le­o­pardo” de Lam­pe­dusa: «É pre­ciso que tudo mude para que tudo fique na mesma.»

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No mesmo sen­tido, a cen­tra­li­zação do de­bate po­lí­tico nas po­si­ções do Chega des­loca a dis­cussão da ne­ces­si­dade da rup­tura com a po­lí­tica de di­reita para a questão do ataque ao re­gime de­mo­crá­tico, iden­ti­fi­cado como “sis­tema”, es­ca­mo­te­ando o seu com­pro­misso com o ca­pi­ta­lismo, a sua na­tu­reza e con­sequên­cias, ou para a di­co­tomia sim­plista entre de­mo­cratas e ex­tre­mistas, isentando o PSD, PS e CDS das suas res­pon­sa­bi­li­dades pela si­tu­ação do país e pela cri­ação das con­di­ções para o as­censo da ex­trema-di­reita.

Com o apoio dos grandes meios que o sus­tentam, o Chega produz esse tipo de dis­curso con­se­guindo es­conder as suas ver­da­deiras po­si­ções sobre ques­tões fun­da­men­tais da or­ga­ni­zação so­cial e eco­nômica do país, que não se dis­tin­guem, antes acen­tuam, da­quilo que é pra­ti­cado pela res­tante di­reita e pelo PS. Quase todos os seus prin­ci­pais di­ri­gentes vi­eram, aliás, do PSD e do CDS.

A plas­ti­ci­dade das suas po­si­ções, sem que as sis­te­má­ticas con­tra­di­ções lhe sejam al­guma vez apon­tadas como in­co­e­rência, é uma cons­tante. Quanto ao pa­cote la­boral, co­meçou por ma­ni­festar a sua dis­po­ni­bi­li­dade para aprovar com o Go­verno a le­gis­lação, su­ge­rindo desde logo a cri­ação de um grupo de tra­balho con­junto, re­fe­rindo-se de forma crí­tica apenas em re­lação às al­te­ra­ções re­la­tivas ao di­reito à ama­men­tação (em que o Go­verno na­tu­ral­mente acei­taria re­cuar), tendo qua­li­fi­cado a greve geral como um erro de sin­di­catos desatualizados e que em muitos casos já não re­pre­sentam nin­guém. Mas o im­pacto da greve geral, vista como justa por amplos setores da po­pu­lação, in­cluindo do elei­to­rado do Chega, fê-lo mudar de dis­curso, aca­bando por pro­meter derrubar a pro­posta do Go­verno. É evi­dente que essa não é a sua po­sição.

Uma das li­nhas po­lí­ticas mais efi­cazes da ex­trema-di­reita é a cri­ação de bodes ex­pi­a­tó­rios, ex­plo­rando pro­blemas reais e sen­ti­mentos de in­jus­tiça e apon­tando para falsos cul­pados. Culpam imi­grantes pelo au­mento da cri­mi­na­li­dade, pelas di­fi­cul­dades de acesso à saúde ou às cre­ches e es­colas. Assim se ab­solve a po­lí­tica de di­reita de su­ces­sivos go­vernos. Es­tig­ma­tizam a co­mu­ni­dade ci­gana, ge­ne­ra­li­zando com­por­ta­mentos in­di­vi­duais. Falam de subsídio-de­pen­dência num país onde sem os auxílios so­ciais a po­breza an­daria perto dos 40% da po­pu­lação.

Se­guindo o roteiro da ex­trema-di­reita in­ter­na­ci­onal, agi­gantam a questão da cri­mi­na­li­dade e avançam com ideias ra­cistas e xe­nó­fobas, in­cluindo a “te­oria” da grande subs­ti­tuição po­pu­la­ci­onal que es­taria em curso, apesar de Por­tugal estar na 18.ª po­sição da União Eu­ro­peia na per­cen­tagem de po­pu­lação es­tran­geira. E isto num país cujo povo se formou a partir de di­versas ori­gens – celtas, iberos, ro­manos, su­evos, vi­si­godos, mu­çul­manos árabes e ber­beres, ju­deus e muitos ou­tros, acres­cida de toda a mis­ci­ge­nação com povos afri­canos, ame­ri­canos e asiá­ticos a partir da época dos des­co­bri­mentos.

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Nem todos os que votam na ex­trema-di­reita comparti­lham destas po­si­ções. Con­cordar com al­gumas de­nún­cias de pro­blemas reais basta para se­cun­da­rizar todo o resto. Todos já ou­vimos ex­pres­sões como eu não con­cordo com muito do que ele diz, mas al­gumas coisas são ver­dade. Esta mis­ti­fi­cação tem ser­vido para es­conder o seu real pro­grama de agra­va­mento da po­lí­tica de di­reita: a redução do IRC e a eli­mi­nação do imposto es­ta­dual; as pri­va­ti­za­ções; o fa­vo­re­ci­mento ao sistema financeiro; a es­pe­cu­lação imo­bi­liária; a en­trada dos capitais pri­vados nos setores da saúde e da edu­cação, ou, mais re­cen­te­mente, o voto contra a fi­xação do preço do bo­tijão de gás, são al­guns exem­plos. As suas pro­postas atacam os fun­da­mentos do re­gime de­mo­crá­tico, as li­ber­dades e ga­ran­tias, o que é evi­dente na pro­posta de re­visão cons­ti­tu­ci­onal do Chega, que in­clui até a pos­si­bi­li­dade de re­fe­rendar a pró­pria Cons­ti­tuição.

A ex­trema-di­reita tem o apoio de im­por­tantes setores do poder econômico, no setor financeiro, na pre­sença sis­te­má­tica nos grandes meios de co­mu­ni­cação so­cial e no ali­nha­mento destes com a agenda sen­sa­ci­o­na­lista e po­pu­lista. Ven­tura foi en­tre­vis­tado na te­le­visão em 2025 em média uma vez por se­mana. Na se­mana pas­sada deu quatro en­tre­vistas em cinco dias úteis (duas na RTP, uma na CMTV e uma no Ex­presso). Esta onipresença tem ne­ces­sa­ri­a­mente efeitos con­cretos na po­pu­lação. Tem também fortes li­ga­ções e apoios em setores ra­di­cais ca­tó­licos e evan­gé­licos.

O Chega se be­ne­ficia de uma enorme im­pu­ni­dade em ma­té­rias que, com ou­tros par­tidos e em par­ti­cular com o PCP, te­riam um efeito brutal na sua cre­di­bi­li­dade. Em menos de sete anos de exis­tência, desde as saídas de di­ri­gentes e eleitos lo­cais por descumprimento das regras quanto às contas par­ti­dá­rias, à ile­ga­li­dade dos seus es­ta­tutos e normas de fun­ci­o­na­mento, con­se­cu­ti­va­mente reprovadas pelo Tri­bunal Cons­ti­tu­ci­onal, à no­me­ação de fa­mi­li­ares de di­ri­gentes e eleitos para ga­bi­netes e ou­tros cargos, à pro­fusão de processados e con­de­nados por furto, fraude, evasão fiscal, agressão, pe­do­filia, pros­ti­tuição de me­nores, entre ou­tros crimes, às evi­dentes li­ga­ções a grupos nazistas, como o 1143, e in­clusão de di­ri­gentes de an­tigas redes terroristas como o Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP) – são inú­meras as si­tu­a­ções cri­mi­nosas e ile­gais que pa­recem não resvalar no par­tido Chega.

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Num tempo de efetiva re­gressão na ca­pa­ci­dade de aná­lise po­lí­tica e de re­flexão, de afu­ni­la­mento dos con­teúdos de in­for­mação, de nor­ma­li­zação da ne­gação de di­reitos fun­da­men­tais, como ter um em­prego es­tável ou uma casa digna para viver, o com­bate à ex­trema-di­reita é mais di­fícil, mas in­dis­pen­sável. Também por isso é ne­ces­sário ga­rantir a mais ampla re­jeição de Ven­tura no se­gundo turno das elei­ções pre­si­den­ciais, der­ro­tando-o e li­mi­tando ao má­ximo o seu es­paço de cres­ci­mento.

Não há ine­vi­ta­bi­li­dade deste pro­gresso da ex­trema-di­reita nem ir­re­ver­si­bi­li­dade das op­ções po­lí­ticas e elei­to­rais de muitos elei­tores. A luta po­lí­tica e so­cial, o es­cla­re­ci­mento e o com­bate ide­o­ló­gico são fun­da­men­tais num tempo em que se in­cen­tiva o in­di­vi­du­a­lismo, o iso­la­mento, a cul­pa­bi­li­zação do outro e o ódio, em vez de se ques­ti­onar o sis­tema ca­pi­ta­lista ou as po­lí­ticas ne­o­li­be­rais. É um ca­minho que não se fará de forma sú­bita ou fácil, mas que te­remos de tri­lhar, con­tando com a vasta ex­pe­ri­ência do PCP no com­bate pela de­mo­cracia e pela li­ber­dade, contra o fas­cismo e as forças an­ti­de­mo­crá­ticas e também com o pa­tri­mônio da Re­vo­lução de Abril, que con­tinua a pro­jetar-se no pre­sente e fu­turo de Por­tugal.