O paraíso

Gustavo Carneiro
ODIARIO.INFO
Este texto foi escrito antes de o gângster Trump ter lançado uma brutal agressão direta à Venezuela e raptado o seu Presidente e mulher. Agressão há muito prevista (basta lembrar o “claro e atual” risco para os EUA que já Obama declarava), que o enorme aparato militar instalado no Caribe anunciava para breve. Os “argumentos” para tal intervenção são conhecidos, e é deles que este texto trata. A razão central será a liquidação do processo bolivariano. O imperialismo EUA não tolera a emancipação nacional, muito menos no seu “quintal”. E cometerá todos os crimes para tentar evitá-la.
Segundo a narrativa em voga, redigida num qualquer gabinete em Washington e diligentemente amplificada pelas gigantescas cadeias midiáticas ocidentais, o “socialismo” de Maduro – como, antes, de Chávez – destruiu a outrora próspera economia venezuelana e empobreceu o seu povo. A “Venezuela saudita” em que o petróleo jorrava, o nível de vida e o poder de compra não tinham paralelo na América Latina e os hotéis eram luxuosos (como escrevia a BBC em 2024), terá dado lugar a uma “nova Cuba”, pobre e faminta, com a paisagem marcada por intermináveis favelas e o poder dominado por gangues criminosos…
Nesta versão há muitas falsidades e outras tantas omissões. Nessa tão falada “era dourada”, das poucas vezes que a Venezuela era notícia nunca se referia as dramáticas consequências das receitas neoliberais, da submissão ao imperialismo norte-americano e da imposição de um modelo rentista e parasitário assente apenas no petróleo, que nas décadas de 80 e 90 fizeram do país um dos mais desiguais do mundo: o luxo de uns poucos coexistia com a miséria da maioria. À data da primeira vitória eleitoral de Hugo Chávez, em dezembro de 1998, metade dos venezuelanos estava na pobreza (e 20% na extrema pobreza) e eram ainda mais os que se amontoavam nos bairros degradados das periferias das grandes cidades, sobretudo da capital, Caracas: as tais favelas não só não surgiram com o “chavismo” como a Revolução Bolivariana realojou milhões de pessoas, assumindo o desígnio da garantia do direito a uma habitação digna.
De fora das notícias (e tantas que foram, e são) ficaram também, ao longo dos últimos 25 anos, os extraordinários avanços alcançados pelas forças bolivarianas, que revelam tanto da “nova” Venezuela como da “antiga”: a universalização do ensino e da saúde, a erradicação do analfabetismo e a redução expressiva da desnutrição, da mortalidade infantil e materna – reconhecidas por agências internacionais. Até a implementação do programa “Bairro Adentro”, em 2003 – com participação destacada de médicos cubanos –, os mais pobres estavam excluídos do acesso à saúde pública, que na tal Venezuela “rica” e “próspera” era quase toda privada e não entrava, nem queria entrar, nos bairros populares. Mais midiáticos foram os problemas econômicos e sociais dos últimos anos, mas não as suas causas: das sanções unilaterais ilegais, dos constrangimentos impostos à economia, do roubo de ativos financeiros e de petróleo, pouco se disse – e nada se explicou.
Se o objetivo de liquidar o processo bolivariano é evidente, há outro não menos central: apagar o lastro de desigualdades e injustiças deixado pela oligarquia e o imperialismo, que é precisamente o programa dos que hoje se escondem por detrás de Edmundo González e Maria Corina Machado. Caso vencessem, a Venezuela desapareceria novamente das notícias. Voltaria o “paraíso”.
Fonte: https://www.avante.pt/pt/2718/opiniao/182169/O-para%C3%ADso.htm?tpl=179
